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Representação em texto

EuPTCVHe2182-51732015000500010

variedadeEu
ano2015
fonteScielo

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DSM-5: oportunidade perdida ou classificação possível? CARTA À DIRECTORA DSM-5: oportunidade perdida ou classificação possível? DSM-5: A missed opportunity or a possible classification? Pedro Morgado* *Escola de Ciências da Saúde, Universidade do Minho Endereço_para_correspondência | Dirección_para_correspondencia | Correspondence

Correspondendo ao convite do vosso último editorial,1 refletimos brevemente sobre a quinta revisão do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5): 1. As doenças psiquiátricas são doenças do cérebro. Se mais razões não houvesse para sustentar esta evidência, o contributo inequívoco do conhecimento científico das neurociências e da psicologia para o desenvolvimento da psiquiatria e para o estabelecimento de novas estratégias terapêuticas, a que assistimos ao longo das últimas décadas, seria suficientemente esclarecedor.

2. O reconhecimento da disfunção cerebral como condição sine qua non para o estabelecimento da doença psiquiátrica não representa nem a condenação da psiquiatria ao reducionismo de uma neurologia da alma nem diminui a importância dos fatores causais e contextuais para o desenvolvimento de determinada patologia, em determinado momento e em determinado sujeito.

3. A pressão biopsicossocial opera sobre um ser que é individual, genético, fisiológico e anatómico, reconfigurando o seu funcionamento individual, genético, fisiológico e anatómico. É por isso que não nos surpreendemos quando nos demonstram que o cérebro dos pobres é mais pequeno que o cérebro dos ricos2 ou que o cérebro dos idosos a quem o Estado Novo privou de uma escolaridade consistente tem uma menor reserva cognitiva do que aqueles que puderam estudar durante mais anos.3 Além do mais, a perspetiva biopsicossocial não é uma matéria da psiquiatria, mas uma obrigação de toda a medicina, a começar naturalmente pela medicina geral e familiar.

4. Ao dedicar-se às alterações mais subtis do mais complexo sistema do corpo humano, a psiquiatria tem sobrevivido pela rigorosa e detalhada descrição sintomática, organizando as doenças pelas suas características fenotípicas (ou fenomenológicas). É também por isso que o famoso DSM, acrónimo de língua inglesa para Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, tem estado sob o fogo cruzado das neurociências, que acusam esta organização - que tem sido a possível, note-se - de furtar-se à validação empírica proporcionada pelos conhecimentos da genética, da neuroimagem, da ciência cognitiva e da patofisiologia neural.

5. É por isso que a psiquiatria distingue de forma criteriosamente detalhada a perturbação de stress pós-traumático, a perturbação de pânico, a agorafobia, a fobia social e as fobias específicas, enquanto as neurociências as enquadram, conjuntamente, nas disfunções dos circuitos do medo induzidas pelo stress.4- 5 Do mesmo modo, o stress surge como agente causal de uma panóplia tão vasta de doenças que abrange praticamente toda a psiquiatria, o que nos convoca necessariamente para uma reflexão acerca da sua inespecificidade enquanto fator contextual e causal.6-7 6. Na verdade, os sucessivos DSMs, do I ao 5, falharam sempre a ansiada revolução da psiquiatria, porque outra coisa não seria possível senão afirmarem-se como atualizações e evoluções consensualizadas e contextualizadas dos síndromas clínicos psiquiátricos.

7. Hoje como ontem, com DSM ou sem ele, a psiquiatria na medicina geral e familiar assenta no reconhecimento dos síndromas clínicos, na identificação dos fatores contextuais que favorecem o desenvolvimento das doenças mentais, no aprofundamento da relação e da comunicação médico-doente e no conhecimento dos mecanismos cerebrais subjacentes às diferentes patologias por forma a proporcionar os tratamentos farmacológicos e psicoterapêuticos mais eficazes, melhorando a experiência subjetiva da doença psiquiátrica.

8. Ansiamos todos que a revolução chegue com o sistema classificativo seguinte.

Talvez estejamos mais perto do que nunca.2


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