Qualidade do sono e prevalência das perturbações do sono em crianças saudáveis
em Gaia: um estudo transversal
Introdução
O sono apresenta um papel vital no crescimento e desenvolvimento das crianças
sendo, no entanto, as suas perturbações frequentemente subdiagnosticadas.1 É um
processo fisiológico complexo, influenciado por propriedades biológicas
intrínsecas, temperamento, expectativas, normas culturais e condições
ambientais.2
Estudos demonstram que tanto os médicos como os pais não estão, em muitos
casos, preparados para identificar e abordar este tipo de problema nas
consultas.3-4 Estima-se que cerca de 25% das crianças tenham, nalguma fase da
sua infância, uma perturbação do sono.5 Em Portugal, os dados disponíveis sobre
prevalência das perturbações do sono são consideravelmente menores quando
comparados com a literatura internacional, variando de 5,6 a 32%.6-8 Apesar de
frequentes, as alterações do sono são culturalmente aceites por uma grande
parte dos pais e, dessa forma, subvalorizados.6
Sabe-se que as perturbações do sono podem causar morbilidade substancial na
criança, nomeadamente consequências a nível do comportamento, da aprendizagem e
mesmo perturbações de desenvolvimento como hiperatividade, défice de atenção,
défice cognitivo, depressão, risco de quedas acidentais e obesidade.2,9-10 Além
das complicações mencionadas nas crianças, estas perturbações podem também
ocasionar nos pais privação de sono, fadiga, alterações do humor, frustração,
afetando o desempenho parental e constituindo até fator de risco para violência
familiar e divórcio.2,5
A abordagem dos hábitos de sono, quer pela família quer pelo médico, nem sempre
é feita nas consultas de vigilância de saúde infantil e juvenil, ficando a
deteção de possíveis perturbações para uma fase mais tardia em que as
manifestações e suas repercussões já se fazem sentir.5 Por este motivo, torna-
se fulcral a abordagem sistemática deste tema nas consultas de saúde infantil
como forma de prevenção,2 dado que a instituição de regras para uma boa higiene
de sono pode ser suficiente para corrigir algumas destas perturbações.5
Embora seja cada vez mais reconhecida a importância do sono na saúde infantil e
juvenil, existem ainda poucos estudos sobre esta questão em Portugal baseados
em inquéritos padronizados. Recentemente elaborado, traduzido e devidamente
validado para a população portuguesa, o Portuguese Children’s Sleep Habits
Questionnaire - CSHQ-PT tem por objetivo avaliar os hábitos de sono e detetar
eventuais problemas associados.11 Em Portugal foi aplicado por Silva e
colaboradores a uma população escolar da região metropolitana de Lisboa.6 Deste
modo, o objetivo principal do presente estudo foi avaliar a qualidade do sono e
estimar a prevalência das perturbações do sono em crianças dos dois aos 10 anos
de idade num centro de saúde da área metropolitana do Porto através da
aplicação do CSHQ-PT. Como objetivos complementares comparam-se estes achados
com o estudo referido6 e estudaram-se fatores individuais, sociais e
familiares, com influência na qualidade do sono.
Material e Métodos
Elaborou-se um estudo observacional descritivo e transversal. A amostra foi
constituída por crianças com idades entre os dois e os 10 anos, observadas em
consulta de saúde infantil e juvenil, num centro de saúde da área urbana do
ACeS Grande Porto VII - Gaia, no período de abril a junho de 2014. A amostra
foi dividida em dois grupos consoante a idade: pré-escolar (dois aos cinco anos
de idade) e escolar (seis aos 10 anos de idade).
Previamente estimou-se como universo amostral representativo necessário um
total de cerca de 90 questionários, considerando um erro amostral de 5%, com
intervalo de confiança 95% e numa população de 18.985 crianças em idade pré-
escolar e escolar (números do Ministério da Educação), com uma prevalência
mínima esperada de 5,6%.
Os critérios de inclusão foram a idade elegível da criança e a vontade dos pais
em participar com consentimento informado e escrito. A cada caso elegível foi
aplicado, e respondido presencialmente na consulta, o CSHQ-PT ao acompanhante
da criança à CSIJ. Este questionário foi complementado com um inquérito
padronizado sobre fatores sociofamiliares e individuais elaborado pelos autores
e testado previamente num período experimental.
A versão portuguesa do CSHQ-PT foi validada para crianças dos dois aos 10 anos
de idade e encontra-se disponível online.11 O questionário permite avaliar as
horas de acordar e de deitar (à semana e ao fim-de-semana), bem como a duração
habitual do sono e a frequência de diversos comportamentos relacionados com o
sono.
Alguns comportamentos-problema, que correspondem ao mesmo tipo de distúrbio do
sono, podem ser agrupados em subescalas (Quadro_I).
Realizou-se a soma da cotação total das questões para obtenção do Índice de
Perturbação do Sono (IPS) e a soma parcelar nas diferentes subescalas (Quadro
I).
O questionário anexado ao CSHQ-PT, elaborado pelos autores, incluiu questões
sobre antecedentes patológicos e medicação diária da criança, rendimento
escolar, prática de exercício físico, bem como hábitos e rituais antes de
adormecer, entre outras. Incluiu ainda questões sobre o tipo de agregado
familiar, escolaridade e profissão dos pais (incluindo trabalho por turnos e
trabalho noturno), antecedentes de insónia, depressão, necessidade de medicação
e hábitos parentais para adormecer.
Na análise estatística utilizou-se a versão 21.0 do programa SPSS® (IBM®, SPSS®
Statistics Inc., Chicago). O teste de Shapiro-Wilk (p>0,05) foi usado para
testar a normalidade das variáveis quantitativas. A comparação de frequências
relativas, de distribuições e de valores médios foi avaliado através de testes
de qui-quadrado (variáveis categóricas), Mann-Whitney e Kruskal Wallis
(variáveis numéricas de distribuição não normal) e testes t de student e ANOVA
(variáveis numéricas paramétricas). Considerou-se uma probabilidade de erro
tipo I (α) de 0,05.
O estudo foi aprovado pela Comissão de Ética da Administração Regional de Saúde
(ARS) do Norte e foi concedida autorização dos autores da versão portuguesa do
CSHQ-PT para aplicação do mesmo neste estudo.
Resultados
Foram respondidos um total de 141 inquéritos, dos quais 10 (7,1%) foram
excluídos por preenchimento inválido (n=1, idade superior a 10 anos) ou muito
incompleto (n=9, mais de 20% das respostas omissas). Deste modo, foram
incluídos no estudo dados referentes a 131 crianças.
Destas 131 crianças, a idade mediana correspondeu aos cinco (Amplitude
Interquartil - AIQ: 3-7) anos, com predomínio do sexo masculino (n=70, 53,5%).
Cinquenta e cinco por cento (n=72) correspondiam a crianças em idade pré-
escolar (dois aos cinco anos de idade), das quais apenas nove ainda não
frequentavam infantário e/ou pré-escola. A mediana da idade de entrada no
infantário foi 24 (AIQ: 12-36) meses.
A restante caracterização sociodemográfica da amostra é resumida no Quadro_II.
Relativamente à constituição do agregado familiar, na maioria dos domicílios
reside uma mediana de quatro pessoas (min=2; máx=8), sendo a maioria dos
agregados do tipo nuclear (77,7%). No que diz respeito ao número de irmãos, a
mediana é um (min=0; máx=4). A maioria das habitações tem dois (min=1; máx=4)
quartos (49,6%) e, na maioria dos casos, a criança partilha-o com um irmão
(42,6%) ou não o partilha com ninguém (41,9%). A idade mediana de saída do
quarto dos pais é o ano de idade (min=0; máx=6); contudo, 13,2% da amostra
ainda partilhava quarto com os pais (Md da idade três anos; AIQ: 2-7).
Hábitos e rituais para adormecer
A mãe é quem deita a criança na maioria dos casos (50,8%, n=66).
Em apenas 17,6% (n=23) os pais negam algum hábito ou ritual para a criança
adormecer. Vinte e seis por cento necessitam de luz de presença, 22,1%
necessitam de um familiar na cama para adormecer e 15,1% necessita de um
familiar presente no quarto. O uso de chupeta foi reportado em 21,5% (n=28),
sendo significativamente mais frequente na idade pré-escolar (p=0,001).
Quanto aos rituais antes de adormecer, 47,3% das crianças bebem leite, sendo
significativamente mais frequente na idade pré-escolar (p=0,008); 36,6% leem e/
ou ouvem uma história e 35,9% veem televisão. O uso de videojogos foi referido
em apenas dois casos (1,5%).
A realização de sesta diária é mais frequente na idade pré-escolar (48,6% vs.
5,1%, p<0,001) e a proporção de crianças que dorme sesta nos diferentes grupos
etários decresce com o aumento da idade.
A frequência dos diferentes hábitos e rituais assinalados no inquérito
encontram-se ilustrados no Quadro_III, bem como a comparação entre grupos
(escolar vs. pré-escolar).
Qualidade do sono e problemas associados (CSHQ-PT)
A mediana da hora de deitar nos dias de semana foi 21h30min (AIQ: 21h07 -
22h00) e ao fim-de-semana às 22h00, não havendo diferenças estatisticamente
significativas entre os grupos. A mediana da hora de acordar durante a semana
foi 8h00 (AIQ: 7h30-8h15) e ao fim-de-semana 9h00 (AIQ: 8h00-10h00), ocorrendo
mais cedo nas crianças em idade escolar (p=0,051).
A mediana do tempo total de sono foi 10h00 (AIQ: 9h30-11h00), sendo superior na
idade pré-escolar (p=0,002) e decrescendo com o aumento da idade (figura_1).
Quanto ao número mínimo de horas de sono, 56,3% e 41,1% das crianças no grupo
pré-escolar e escolar, respetivamente, não dorme o número mínimo de horas
recomendado (recomendações da Centers for Disease Control and Prevention -
disponível em www.cdc.gov/sleep/about_sleep/how_much_sleep.htm).
O índice de perturbação do sono (IPS, cotação total do CSHQ-PT) na amostra tem
uma mediana de 47 (AIQ: 42-51), que não difere significativamente do valor IPS
encontrado por Silva e colaboradores6 na população da área metropolitana de
Lisboa (p=0,81). Considerando o cut off de 41, 80,2% (n=105) apresenta um IPS
elevado, decrescendo para 49,6% (n=65) quando considerado o cut off ajustado
para a população portuguesa (IPS>48), sugerido por Silva e colaboradores.6
O IPS associou-se ao grupo etário, sendo mais elevado nas crianças em idade
pré-escolar (p=0,032). Na análise de subescalas do questionário, as crianças em
idade pré-escolar apresentam cotações mais elevadas nas subescalas Resistência
em ir para a cama (p=0,001) e Parassónias (p=0,024), não havendo diferenças
estatisticamente significativas nas restantes subescalas (conforme descriminado
no Quadro_IV).
O IPS não teve relação estatística com o género, antecedentes de prematuridade,
presença de antecedente patológico reportado pelos pais ou com o uso diário de
medicação.
Um IPS significativamente mais elevado associou-se à necessidade da presença de
um familiar no quarto (p=0,005) ou na cama (p<0,001) para adormecer, bem como à
visualização de televisão (p=0,006) e uso de videojogos (p=0,047), estando
estes dois últimos associados a um menor tempo total de sono (p<0,02). Não se
verificou associação estatística com o uso de chupeta ou objeto de transição,
nem com a necessidade de luz de presença. As rotinas de higiene (lavar os
dentes, tomar banho) ou o hábito de leitura antes de dormir também não
mostraram relação com o IPS.
As crianças que partilhavam quarto com irmã(o) ou que dormiam sozinhas
apresentaram um IPS significativamente menor que aquelas crianças que
partilhavam quarto com os pais (p=0,028). Um IPS inferior verificou-se também
naquelas crianças que se deitavam sozinhas, ou que eram deitadas por ambos os
pais, contrariamente aquelas que eram deitadas pela mãe ou pelo pai (p=0,005).
No que concerne aos fatores sociais e familiares, não se obteve associação do
IPS com o tipo de agregado familiar, número de pessoas a residir no domicílio,
escolaridade dos pais ou a sua situação profissional, nomeadamente com o
trabalho por turnos ou com turnos noturnos. Houve apenas relação entre o IPS e
antecedentes de insónia reportado pelos pais (p=0,033).
Um IPS inferior esteve estatisticamente associado a um rendimento escolar
superior (p=0,029). Não se obteve associação entre o IPS e a frequência de
birras, queixas de distração ou impulsividade reportadas pelos pais. A prática
de exercício físico não mostrou associação com IPS; contudo, associou-se a uma
cotação inferior na subescala “despertares noturnos” (p=0,032).
Discussão
A infância é caracterizada por mudanças consideráveis na organização, duração e
estrutura do sono, com elevada incidência de problemas de sono transitórios
como resistência em ir para a cama e ansiedade relacionada com o sono.10 O que
é com frequência menos reconhecido são os problemas de sono crónicos que afetam
até cerca de 30% das crianças. Além dos efeitos nefastos no neuro
desenvolvimento da criança, os problemas de sono causam efeitos negativos a
nível familiar.5
A maioria dos estudos sobre o sono nas crianças portuguesas aponta para uma
elevada frequência de problemas do sono e comportamentos deletérios na nossa
população, utilizando, contudo, inquéritos não padronizados, dificultando a
comparação.2,5,7,12 O CSHQ é um dos inquéritos padronizados mais usados
mundialmente e foi recentemente validade e traduzido para a população
portuguesa.11 Foi aplicado por Silva e colaboradores6 numa amostra
significativa de crianças na área metropolitana de Lisboa e, à semelhança de
outros estudos, aponta para uma elevada prevalência de perturbações do sono,
sublinhando a necessidade de rastrear as mesmas. O valor médio do Índice de
Perturbação do Sono (IPS) encontrado neste estudo (46,51±6,80) não difere
significativamente do encontrado no nosso.
Na presente amostra, tendo em conta o cut off original de 41 para o Índice de
Perturbação do Sono (IPS), 80,2% apresentavam um IPS elevado. Silva e
colaboradores6 sugerem o ajuste do cut off do IPS de 41 para 48, considerando
este valor mais adequado à população portuguesa. Mesmo considerando este cut
off, 49,6% apresenta um IPS elevado, demonstrando a elevada prevalência de
comportamentos problema no que concerne ao sono na população estudada. Contudo,
não se sabe se é apenas uma questão cultural ou se, de facto, as crianças
portuguesas têm uma prevalência superior de problemas de sono e desconhece-se
qual a repercussão das mesmas.
O grupo pré-escolar apresentou um IPS significativamente superior, o que traduz
uma maior frequência de comportamentos problema na criança mais jovem,
particularmente neste caso nas subescalas resistência em ir para a cama e
parassónias. Este achado traduz a já conhecida maior prevalência das
perturbações do início e manutenção do sono mais frequentes na criança pequena,
bem como pesadelos, terrores noturnos e sonambulismo igualmente mais frequentes
nesta idade.12 Deste modo, a inclusão de crianças em idade pré-escolar neste
estudo pode ser responsável pela elevada proporção de crianças com IPS elevado.
Na presente análise detetaram-se alguns fatores estatisticamente associados a
um IPS superior, nomeadamente a visualização de televisão e uso de videojogos,
partilha de quarto com os pais, a necessidade de adormecer com um familiar
presente no quarto ou na cama e história parental de insónia.
O efeito nefasto do tempo de ecrã foi já demonstrado,13-14 considerando-se que
se deve a um atraso no início do sono.
Relativamente a estudos prévios, verifica-se que uma menor proporção de
crianças via televisão antes de dormir (35,9% vs. 71-77%).5,7 Contudo, não foi
questionado o uso de outros dispositivos eletrónicos, como tablets, telemóveis,
etc., cuja utilização pode ter aumentado nos últimos anos.
A associação entre um IPS mais elevado e a necessidade de um familiar no quarto
ou na cama para adormecer, contrapondo-se ao IPS inferior nas crianças que se
deitam sozinhas e que partilham quarto com irmão, é consistente com o conceito
de que o adormecimento independente, em cama própria, é favorecedor de uma
melhor qualidade de sono, conferindo à criança a capacidade de readormecer
sozinha perante um despertar noturno.
O co-sleeping, isto é, a partilha da cama dos pais, é um comportamento
desaprovado pela maioria das sociedades ocidentais por considerarem que não
promove o adormecimento autónomo e, por outro lado, porque diminui a qualidade
do sono, estando associado a maior sonolência diurna.15 Todavia, convém
salientar que o sono é fortemente moldado por valores culturais, crenças e
expectativas dos pais.16 As normas culturais determinam os limites entre os
comportamentos de sono “normais” e “problemáticos”. Várias culturas não só
promovem o co-sleeping como consideram que o quarto próprio para a criança é
prejudicial.16 É por isso fundamental compreender o que constituiu de facto um
problema de sono, quando, a quem e a melhor forma de abordar. Muitas vezes a
abordagem envolve a modificação ou introdução de novos hábitos por forma a
equilibrar as necessidades da criança e dos pais.
Os objetos de transição, normalmente objetos como a chupeta, a fralda, o
peluche, facilitam o adormecimento ao providenciar uma sensação de conforto e
segurança à criança, podendo ser usados com o objetivo de promover o
adormecimento independente,16 não tendo demonstrado um efeito negativo no IPS.
A associação entre um IPS superior e a história familiar de insónia denota a
influência genética na estrutura do sono, embora menor que os fatores
ambientais.17-18
A duração adequada do sono é um aspeto com frequência negligenciado. A redução
do número de horas de sono pode ter os mesmos efeitos negativos que as
restantes perturbações do sono. A este respeito verifica-se na presente amostra
que a duração total do sono (DTS), à semelhança de outros estudos,19-21
decresce ao longo da idade (figura_1), de uma mediana de 12h00 (AIQ: 2h45) aos
dois anos, para 9h37 (AIQ: 1h) aos 10 anos. A depressão na DTS aos oito anos de
idade (Md = 9h15; AIQ 1h) não apresenta explicação aparente, podendo ser
consequência do reduzido número do grupo (n=8), com dispersão de valores
elevada. O decréscimo na DTS ocorreu de forma paralela a uma diminuição da
proporção de crianças que faz sesta, sendo que apenas três crianças no grupo
escolar (5,1%) realizam sesta diariamente. Obteve-se uma mediana de DTS que foi
superior à média em Espanha,22 mas inferior a outros países europeus,
nomeadamente Inglaterra, Irlanda, Suíça.20-21,23 O tempo total de sono diário
correlaciona-se inversamente com a idade, bem como com a hora de deitar mais
tardia,13-14,19 uma tendência que se tem vindo a agravar nos últimos anos,
conforme demonstrado por Iglowstein e colaboradores.21
Na presente amostra, uma percentagem significativa de crianças (41,1-56,3%) não
dorme o número mínimo de horas recomendado. Esta percentagem pode ainda ser
mais importante, uma vez que o tempo de sono reportado pelos pais é
habitualmente ligeiramente superior ao tempo de sono real, traduzindo mais o
“tempo na cama” do que propriamente o tempo a dormir. Sendo a DTS fortemente
determinada por fatores ambientais (~60%), há uma importante janela de
oportunidade de intervenção.14,16
É fundamental salientar que os problemas de sono são com frequência
subvalorizados e subdiagnosticados. Este facto deve-se, por um lado, ao facto
de os profissionais de saúde com frequência não questionarem sobre o tema nas
CSIJ, pressupondo que os pais espontaneamente levantarão essa questão.3,24
Contudo, o conhecimento dos pais acerca dos normais padrões de sono ao longo da
infância, eventuais problemas e duração adequada do sono é claramente
insuficiente.4 Este facto, aliado ao desconhecimento populacional dos efeitos
negativos que estes exercem, leva a que estes sejam subreportados pelos pais
nas CSIJ.10 De facto, nos estudos realizados em Portugal, apesar de uma
percentagem significativa considerar que o seu filho tinha um problema de sono
(74-84%), o tema só tinha sido abordado como queixa na CSIJ em 7-13%.2,7
Como limitações deste trabalho, refiram-se as inerentes ao facto de se tratar
de um estudo observacional, ao processo e dimensão amostral. Por ter sido
realizado num único centro de saúde de Vila Nova de Gaia, o que limitou a
heterogeneidade geográfica e populacional, não possibilita, obviamente, a
generalização à população de Vila Nova de Gaia. Contudo, o presente estudo
permite salientar, ao identificar uma elevada prevalência de comportamentos
problema nesta população, a necessidade de realização de estudos futuros nesta
área, nomeadamente estudos que avaliem as repercussões destes comportamentos a
nível familiar e na criança (comportamento, rendimento escolar, etc.).
Uma vez que não foi questionado ao acompanhante da criança a sua perceção da
qualidade do sono da mesma ou se este considerava que a criança tinha algum
problema de sono, não foi possível estimar o grau de concordância entre esta
avaliação subjetiva e o IPS obtido - um dado que poderia ser interessante.
Também não foi questionado se o tema já tinha sido abordado com o médico
assistente/pediatra que acompanha normalmente a criança.
O preenchimento presencial do inquérito pode ter causado algum viés de resposta
em algumas questões (nomeadamente quanto aos rituais antes de dormir), o que
poderia explicar, por exemplo, a redução significativa da percentagem de
crianças que via televisão antes de deitar face a estudos anteriores.
Uma vez que os antecedentes patológicos e medicação foram assinalados pelo
acompanhante, uma percentagem destes poderá não ter sido referida e, portanto,
ser superior ao estimado. Pelo facto de algumas patologias e medicação crónicas
poderem influenciar negativamente a qualidade do sono, as mesmas poderiam
explicar a elevada prevalência de perturbações do sono encontrada.