O que sabem os utentes sobre antibióticos: um estudo de investigação em duas
Unidades de Saúde Familiar
Introdução
O desenvolvimento de vacinas e fármacos que previnem e curam infeções
bacterianas foi uma das maiores contribuições do século XX para a longevidade e
qualidade de vida humanas.1
Os antibióticos encontram-se entre as medicações mais prescritas, sendo
utilizados para combater infeções bacterianas. No entanto, a utilização em
situações em que não estão indicados é um dos principais fatores para o
desenvolvimento de estirpes resistentes.2 Com a redução da sua eficácia aumenta
a necessidade de consultas médicas, exames complementares de diagnóstico,
prescrição de medicamentos adicionais e mesmo de internamento hospitalar.2
O uso racional de agentes antibióticos depende da compreensão dos seus
mecanismos de ação e características farmacológicas, dos mecanismos das
resistências bacterianas e das estratégias que podem ser usadas para limitar
essas resistências.1
A decisão da prescrição do antibiótico é da responsabilidade do médico, mas
pode ser influenciada por vários fatores, nomeadamente as expectativas dos
doentes e o conhecimento destes sobre a utilização dos antimicrobianos.3-5 A
automedicação com antibióticos é frequente e é considerada um dos fatores que
mais contribui para o seu uso inadequado.6 Uma revisão sistemática baseada em
35 estudos de base populacional, realizados em todos os continentes de 1970 a
2009, mostrou que a taxa de automedicação com antibióticos varia de 3 a 100%,7
sendo menor nos países onde existem políticas mais rigorosas de controlo de
venda destes fármacos sem receita médica.8 Em Portugal foram realizados dois
estudos que avaliaram a prevalência da automedicação com antibióticos: um no
concelho de Vizela, onde foi obtida uma prevalência de 4%;2 e outro no Algarve,
onde foi obtida uma prevalência de 18,9% (17-21%, IC 95%).9 No entanto,
desconhecem-se dados com representatividade nacional.
Para alertar a população para este tema foram implementadas campanhas de
sensibilização a nível nacional, a mais recente aplicada sazonalmente desde
2011 pela Direção-Geral da Saúde, denominada “Antibióticos a mais, saúde a
menos”. O presente estudo tem como objetivo caracterizar os conhecimentos dos
utentes de duas Unidades de Saúde Familiar (USF) acerca da utilização de
antibióticos.
Métodos
Tratou-se de um estudo observacional e transversal, com componente analítica.
A população do estudo consistiu nos utentes inscritos nas USF das Conchas e Ars
Médica com 18 ou mais anos de idade, num total de 20.776 utentes.
O questionário foi aplicado a uma amostra de conveniência de 380 utentes da
população em estudo, constituída por utilizadores das USF Ars Médica e Conchas,
com idade superior a 18 anos, que aceitaram responder ao questionário. Apesar
de se tratar de uma amostra de conveniência, foi determinada a dimensão que
seria necessária se a amostra fosse aleatória através do sistema OpenEpi® para
um nível de confiança de 95%, sendo o valor encontrado usado como referência.
Foram excluídos os utentes com incapacidade de compreensão da língua portuguesa
escrita ou iliteracia.
As variáveis medidas no estudo foram: idade, sexo, escolaridade, nacionalidade,
existência de filhos menores de 18 anos, conhecimentos sobre o uso de
antibióticos e a sua utilização sem prescrição médica.
Os dados foram obtidos através da aplicação de um questionário elaborado pelos
autores (Anexo_1), tendo por base estudos com objetivos semelhantes.2,10-12 O
questionário, de autopreenchimento anónimo e em formato papel, foi entregue
pelas secretárias clínicas aquando da receção dos utentes. Após o
preenchimento, os questionários foram colocados pelos próprios utentes em
caixas fechadas designadas para o efeito. A aplicação do questionário realizou-
se durante os meses de maio, junho e julho de 2014.
Apesar de não validado, o questionário foi submetido a um teste piloto
realizado a 38 utentes (10% da amostra). Os questionários foram entregues e no
final foram inquiridos os respondentes acerca de dúvidas ou dificuldades no
preenchimento, o que permitiu identificar possíveis fontes de vieses ao nível
da interpretação do mesmo. Desta forma, foram efetuadas alterações de caráter
gramatical ao questionário para melhorar a sua compreensão, tendo sido
descartados os questionários aplicados no teste piloto.
De modo a arquivar e tratar os dados recolhidos foi criada uma base de dados
informática para o efeito. Foi realizada uma análise descritiva para
caracterização da amostra e das respostas corretas. Foram consideradas corretas
as seguintes respostas: pergunta 6 (“Não”); pergunta 7 (“Para tratamento de
infeções provocadas por bactérias”); pergunta 8 (“Não”); pergunta 9 (“Sim”). As
respostas às perguntas 6, 8 e 9 com mais de uma alínea assinalada foram
consideradas nulas. Na questão 7 foram incluídas todas as opções assinaladas na
caracterização das respostas, mesmo perante respostas múltiplas, mas apenas
foram incluídas na análise do número de respostas corretas as que assinalavam
isoladamente a resposta “infeções causadas por bactérias”.
Aplicou-se o coeficiente de correlação de Spearman para correlacionar a
variável número de respostas corretas com as variáveis idade e escolaridade,
uma vez que estas não mostraram uma distribuição normal no teste de Kolmogorov-
Smirnov.
Foi utilizado o teste de Mann-Whitney para avaliar a relação entre a variável
automedicação e as variáveis escolaridade, existência de filhos menores de 18
anos e número de respostas corretas, tendo em consideração que as mesmas não
tinham uma distribuição normal segundo o teste de Kolmogorov-Smirnov. Pelo
mesmo motivo foi também usado o teste de Mann-Whitney para avaliar a relação
entre a variável número de respostas corretas e as variáveis existência de
filhos menores de 18 anos e sexo.
O protocolo do presente estudo foi submetido à apreciação da Comissão de Ética
para a Saúde da ARS LVT, que deu parecer favorável à sua realização. Ao
preencher o questionário, os utentes deram consentimento informado de uma forma
tácita. O trabalho não foi submetido à Comissão Nacional de Proteção de Dados,
visto os questionários terem um caráter anónimo.
Resultados
A colheita dos questionários manteve-se até obter a dimensão de amostra
calculada inicialmente de 380 utentes, metade de cada unidade. Destes, 262
(68,95%) eram do sexo feminino. A média de idades foi de 46 anos (IC 95% 44,39
- 47,61), com um mínimo de 18 e um máximo de 89 anos. Cerca de 37,89% tinha
curso universitário, seguido de 26,84% com o 12.o ano (Quadro_I). Cerca de
92,89% era de nacionalidade portuguesa e 57,63% não tinha filhos menores de 18
anos.
O número médio de respostas corretas nas quatro perguntas que pretendiam
avaliar os conhecimentos dos utentes foi 2,36.
Relativamente aos sintomas, 65,26% respondeu que os antibióticos não servem
para tratar tosse, dores no corpo, dor de garganta e «nariz a pingar» com a
duração de cinco dias (Figura_1).
Cerca de 63,42% respondeu que se usa o antibiótico para tratar as infeções
causadas por bactérias (Figura_2).
Relativamente à utilidade dos antibióticos na recuperação de uma gripe ou
constipação, as opiniões dividem-se: 48,98% refere que os antibióticos não
ajudam a recuperar mais rápido de uma gripe ou constipação, enquanto 40,79%
considera que “sim” ou “às vezes” (Figura_3).
Em relação à questão das resistências, 67,89% respondeu corretamente que a
utilização de antibióticos é origem possível de infeções resistentes (Figura
4).
No que diz respeito à automedicação, 17,11% dos utentes referiu já ter tomado
antibiótico sem prescrição médica. Os motivos mais frequentemente apontados
foram “Amigdalite/dor de garganta” e “Dor de dentes” (Quadro_II).
Não se verificou relação entre a idade e o número de respostas corretas
(coeficiente de correlação de Spearman rs=0,094). Verificou-se uma correlação
fraca positiva entre a escolaridade e o número de respostas certas (coeficiente
de correlação de Spearman rs=0,328).
Não foi verificada relação entre as variáveis automedicação e escolaridade
(teste de Mann-Whitney p=0,374), nem entre a automedicação e a existência de
filhos menores de 18 anos (teste de Mann-Whitney p=0,147).
Houve maior número de respostas corretas no grupo de utentes que não se
automedicou, com uma média de 2,46 respostas certas, em relação ao grupo que se
automedicou que obteve uma média de 1,93 respostas corretas (teste de Mann-
Whitney p=0,002).
Não foi encontrada relação entre o número de respostas corretas e a existência
de filhos menores de 18 anos (teste de Mann-Whitney p=0,359), nem diferenças
entre os sexos no que concerne ao número de respostas corretas (teste de Mann--
Whitney p=0,156).
Discussão
Este estudo permitiu-nos avaliar alguns conhecimentos dos utentes destas USF
acerca do uso de antibióticos.
A proporção de licenciados na população é inferior à dos respondentes. A média
de idades da população, aproximadamente 50 anos, é superior à da amostra. Desta
forma, o perfil dos respondentes corresponde a um grupo de utentes jovens, com
elevada escolaridade, que poderá não ser representativo da população das
unidades em estudo.
Na questão relativa ao tratamento de sintomas gripais, a percentagem de
respostas erradas (20,79%) foi consideravelmente inferior à encontrada num
estudo realizado nos Estados Unidos da América, em que 61% respondeu que os
antibióticos servem para tratar a tosse, odinofagia e rinorreia incolor com a
duração de cinco dias.10
Já a proporção de utentes que respondeu corretamente, que os antibióticos
tratam infeções bacterianas (63,42%), foi muito superior à verificada num
estudo português realizado em Vizela, em que apenas 7,9% respondeu
corretamente.2 No entanto, um estudo realizado na Malásia obteve uma
percentagem superior de respostas corretas (76,7%).11 Esta discrepância poderá
dever-se ao facto dos inquiridos no estudo realizado em Vizela terem uma
escolaridade inferior, além de refletirem uma realidade local de um meio
predominantemente rural.
Relativamente à utilidade dos antibióticos na recuperação de uma gripe ou
constipação, a percentagem de respostas erradas (40,79%) foi inferior à
encontrada num estudo português realizado em Matosinhos em 2003 (59,3%).13 No
entanto, foi semelhante à encontrada em dois estudos internacionais, um
realizado na Malásia (38%)11 e outro no Reino Unido (38%).12 A diferença
encontrada entre o presente estudo e o realizado em Matosinhos pode dever-se
também à menor escolaridade dos inquiridos neste último, em que 53,89% tinha o
ensino primário ou inferior.
A fração de utentes que identificou corretamente a utilização de antibióticos
como origem possível de infeções resistentes (67,89%) foi superior à encontrada
no estudo de Vizela (45,2%)2 e também à encontrada no estudo realizado na
Malásia (59,1%).11 Apesar disso, foi inferior à de um estudo realizado no Reino
Unido,12 em que praticamente toda a amostra identificou os antibióticos como
fonte de possíveis resistências bacterianas. Esta disparidade pode dever-se à
existência de campanhas mais intensivas para o uso racional dos antibióticos
junto da população do Reino Unido.14
De uma forma geral, é possível afirmar que os doentes inquiridos no presente
estudo responderam mais acertadamente às questões do que seria expectável,
tendo em conta os estudos portugueses já existentes, diferença que pode ser
justificada pelo facto de se tratar de uma amostra com um elevado nível de
escolaridade. No entanto, as disparidades nos resultados obtidos nas diferentes
perguntas sugerem que a maioria dos utentes não identifica as gripes e
constipações como infeções de etiologia viral.
Quando comparadas com estudos internacionais, as diferenças socioculturais e
políticas entre as populações estudadas são também um importante fator a
considerar, já que os diferentes países têm diferentes sistemas de saúde bem
como diferentes políticas de educação para a saúde e de restrição de acesso aos
antibióticos.
Relativamente à automedicação, a percentagem de utentes que admitiu já ter
tomado antibiótico sem prescrição médica (17,11%) foi superior à encontrada no
estudo realizado no Reino Unido (5%).6 No entanto, esta percentagem está de
acordo com o resultado obtido no estudo realizado no Algarve (18,9%, IC 95% 17-
21%)9 e com um estudo pan-europeu que demonstrou que a automedicação com
antibióticos varia entre 0,1% e 21% e é superior nas regiões sul e leste da
Europa.15 Ainda que a automedicação com antibióticos pareça ter vários fatores
de influência,12 é de referir que a discrepância encontrada relativamente ao
Reino Unido pode ser explicada pela proibição absoluta da venda de antibióticos
sem receita médica nas farmácias deste país, o mesmo acontecendo noutros países
do norte da Europa. Em Portugal, a aquisição destes fármacos nas farmácias é,
por vezes, facilitada sem receita médica.
No estudo realizado em Vizela,2 também as amigdalites, dores de garganta,
gripes, dores de dentes e infeções urinárias constituíram os principais motivos
reportados de toma de antibióticos sem prescrição médica.
Tal como no presente estudo, dois estudos internacionais referem a existência
de uma relação entre a escolaridade e os conhecimentos demonstrados pelos
utentes.11-12 Já a ausência de relação entre a variável número de respostas
corretas e as variáveis idade e sexo também se constatou no estudo português
realizado em Vizela.2
Apesar dos pais de crianças e adolescentes menores terem, à partida, um
contacto mais frequente com os cuidados de saúde, tratando-se de uma faixa
etária em que as infeções são particularmente frequentes, não foi identificada
uma relação entre a existência de filhos menores de 18 anos e o nível de
conhecimentos ou a automedicação. Esta situação pode espelhar uma possível
falha na eficácia da educação para a saúde destas famílias.
A relação inversa encontrada entre o número de respostas corretas e a
automedicação sugere que um maior grau de conhecimentos acerca da utilização
dos antibióticos poderá constituir um fator protetor no que concerne à sua
utilização autónoma por parte dos utentes. No entanto, não foram encontrados
dados publicados relativos a esta relação comparáveis com os do presente
estudo.
Em comparação com a população estudada no Reino Unido,12 o conhecimento acerca
das resistências bacterianas é ainda limitado.
Como limites do estudo, salienta-se o facto de ter sido usada uma amostra de
conveniência, em que a maioria dos utentes que aceitou responder ao
questionário tem pelo menos o 12.o ano, não se tratando portanto de uma amostra
representativa da população das unidades de saúde estudadas. Por outro lado, o
questionário utilizado não foi validado, apesar de ter sido realizado um teste
piloto que permitiu a sua aferição para utilização no estudo.
Seria interessante aprofundar o estudo da relação entre os conhecimentos dos
utentes e as suas atitudes no que diz respeito ao uso dos antibióticos, bem
como a influência direta das campanhas de informação na realidade da população
portuguesa.
Apesar das limitações, este estudo permitiu melhorar a perceção sobre os
conhecimentos dos utentes em relação ao uso de antibióticos de forma a
eventualmente poderem aplicar-se estratégias de educação para a saúde nas USF,
bem como alertar para o risco da automedicação com estes medicamentos.