Criação de lugar para o outro numa medicina de deslugar
EDITORIAL
Criação de lugar para o outro numa medicina de deslugar
Pe. José Nuno Ferreira da Silva*
*Capelão do Centro Hospitalar São João.
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Lembro-me, em menino, dos médicos da Caixa. Vieram, depois, os clínicos gerais.
Já de há anos para cá chegaram os Médicos de Família. Na designação dos
primeiros, a percepção do povo – não sei se diga antes: dos pobres… – era a da
vinculação dos médicos ao sistema a que pertenciam, a Caixa de Previdência, e
não sei como se percebiam estes a si mesmos. Os segundos, os de Clínica Geral,
eram percebidos e percebiam-se na sua vinculação a uma especialidade nova e
surpreendente, nesse passado Portugal da década de 1980, uma especialidade em
processo de criação e afirmação. Agora, criada e afirmada, a Clínica Geral veio
encontrar e aprofundar a consciência da sua identidade nos Médicos de Família
que, por este vínculo, são percebidos e se percebem, ou não, e o povo –
principalmente os pobres, que sempre voltamos aos pobres! – às vezes queixa-se.
Hoje já não nos surpreendemos com a existência da rede de cuidados de saúde
primários e a proclamação do direito de cada cidadão ao seu médico de família.
Surpreendemo-nos, isso sim, com o facto de haver muitos que não têm médico de
família e com a estranheza de algumas soluções propostas para resolver o
problema, nomeadamente as que agridem a possibilidade real de o médico de
família o ser.
Esta breve evocação da saga instituinte desta especialidade vem a propósito do
título que me deram para este artigo da Revista Portuguesa de Medicina Geral e
Familiar. Efectivamente, as coordenadas estruturantes desta especialidade são
as da criação de lugar para o outro, no contexto de uma medicina muitas vezes
deslugar.
Sendo-o ainda, o sistema de saúde português já foi mais hospitalocêntrico e a
medicina hospitalar tende, pelos seus próprios dinamismos e pelos mecanismos
institucionais, a ser uma medicina de deslugar. Dou já o exemplo para, depois,
me fazer à explicação. Quando me encontro entre médicos, geralmente distingo os
da rede de cuidados de saúde primários dos da rede hospitalar antes de uns e
outros se declararem. É que os segundos falam de episódios, os primeiros contam
histórias, biografias mesmo. E é aqui que se define a medicina como criação de
lugar para o outro: a abertura à história do outro enquanto história de um
outro. É certo que no hospital se colhem histórias clínicas para fazer
diagnósticos. Mas na medicina familiar acompanham-se histórias de vida no seu
acontecer e enquanto acontecem para nela desempenhar um papel definido como
acompanhamento: as pessoas dizem “o meu médico” ou “o médico que me acompanha”.
A medicina geral e familiar é, por excelência, o campo onde a Medicina
Narrativa1 mais deverá ser praticada.
Há alguns anos atrevi-me a propor o neologismo que agora me propuseram no
título que me foi dado para esta reflexão: deslugar.2 Defini-o como instituição
ou espaço destituído das características antropológicas e sociológicas do lugar
para onde são transferidas experiências vitais que implicam sofrimento e
insegurança identitária para a sociedade e para o indivíduo. Para chegar a esta
definição socorri-me do contributo de reconhecidos autores dos âmbitos da
antropologia e da sociologia. A Michel Foucault pedi o conceito de
heterotopia,3 espaços à parte mas em relação com a sociedade, para onde se
desviam experiências críticas. Em Marc Augé4 encontrei o não-lugar, espaços que
não gozam das características do lugar antropológico, concretamente, não são
nem identitários, nem relacionais, nem históricos, normalizando e anonimizando
quem os frequenta. Foi Anthony Giddens quem ofereceu uma categoria
particularmente relevante, a arena de sequestro,5 espaços marginais mas
comunicantes para onde são segregadas as experiências existenciais
perturbadoras e que muitas vezes são sistemas periciais apenas internamente
referenciais.
Analisado na perspectiva do morrer como realidade para aí transposta, o
hospital, e não apenas no que concerne à questão da morte, vive sobre a linha
de risco que desenha o deslugar como, à luz das propostas dos autores
referidos, se pode perceber. Não tem necessariamente que ser assim, nem sequer
é necessariamente assim. Mas pode ser assim e, tendencialmente, é assim.
A medicina familiar, se fiel a si mesma, é intrinsecamente reactiva ao
deslugar. A um olhar leigo, a história da medicina geral e familiar parece ser
a da emancipação da medicina em relação ao hospital (tendencialmente deslugar)
e o seu percurso ao encontro das pessoas no seu lugar, entendendo este não
apenas em sentido geográfico ou administrativo, mas sobretudo em sentido
antropológico e sociológico, o lugar a que pertencem com aquele sentido de
pertença que plasma o ser e configura a existência.
A contínua referência ao hospital, ao longo destas linhas, se se deve à
experiência que deste vive quem escreve, a verdade é que se deve muito mais à
necessidade sentida de apelar a um paradigma para melhor compreender outro
diferente, assim como para definir saúde termos que definir doença.
Concretamente, para melhor compreendermos a medicina geral e familiar na sua
característica especificante dentro da perspectiva desta reflexão, a
proximidade, é útil olhar a medicina hospitalar, que é uma medicina
institucionalizada exercida na distanciação à origem do paciente. Não o escrevo
como quem deprecia, mas como quem procura analisar e tenta perceber realidades
diferenciadas que na sua diferenciação mutuamente ajudam a entender cada uma a
outra.
A medicina geral e familiar é – deveria ser! – a medicina de ao pé da porta, de
dentro da porta, até, quando necessário, mais doméstica do que tão somente
domiciliar. Só esta capta a pessoa no seu ser pessoa e a pessoa que é, porque
só no seu lugar é que a pessoa é o que é e vive como tal. A vocação da medicina
geral e familiar é percorrer a aproximação até que o médico de família seja
realmente o médico da família e, enquanto tal, elemento integrante do lugar da
pessoa porque a família é o primeiro da série de círculos sociais, concêntricos
e inter-actuantes, alargando-se progressivamente, em que pessoa se realiza; a
família é o primeiro e aquele em que a pessoa é quem é. O grau de aproximação a
este núcleo central é que define a qualidade da medicina geral e familiar como
medicina de proximidade. O médico de família, não fazendo parte dela, toma no
entanto parte na família, corre-lhe entre as mãos o fio (des)contínuo da vida
da família. E afirmo-o livre do romantismo tão rústico quanto belo do velho
João Semana.
Ao médico de família é dada a possibilidade de viver do modo mais inteiro a
experiência em que radica a medicina: o encontro entre o médico e o doente como
acontecimento simbólico, história partilhada, caminho percorrido a dois, em que
cada um se oferece ao outro como lugar; o médico, lugar em que o doente mora
pela confiança e pela entrega; o doente, lugar em que mora o médico pela
consciência e pela competência. Sendo reciprocamente lugar, justifica-se
sublinhar que o médico se recebe do doente que é quem o institui médico,
confiando-se-lhe e, porque médico de família, confiando-se-lhe como membro de
uma família.
Mais que um saber, a medicina é uma sabedoria e a medicina geral e familiar é
porventura aquela que melhor o pode experimentar, porque mais próxima da fonte
dela, o povo, o povo e as suas pertenças, o povo nos seus lugares. Aí mergulha
a medicina geral e familiar e, quanto mais beber desta fonte, tanto mais será
criação de lugar para o outro num tempo em que obediências de gestão e quimeras
de poder ligadas a hipotecas tecno obrigam ou seduzem os médicos para a
medicina de deslugar. A ser assim, então a medicina geral e familiar – a par da
medicina paliativa, que aliás requer e a que oferece a rede de proximidade
necessária à prestação de cuidados paliativos – é lugar de regeneração
humanista e humanizadora da própria medicina.
É desafiante ser médico de família. Exige tanto de resistência como de
projecto. E não valerá a pena resistir e projectar quando o que está em causa é
a criação de lugar para o outro?