Decisão terapêutica na hipertensão: inquérito às atitudes dos médicos de
família na região de Lisboa e Vale do Tejo
Introdução
A hipertensão arterial (HTA) é um importante problema de saúde pela sua elevada
prevalência e por constituir um importante factor de risco para a morbilidade e
mortalidade cardiovasculares.1 A nível mundial estima-se que, em 2008, cerca de
um bilião de pessoas tivesse HTA, correspondendo a aproximadamente 40% da
população com 25 ou mais anos.2-3 Em Portugal, dados de 2012 revelaram uma
prevalência de HTA de 42,2% na população adulta, com 74,9% dos hipertensos sob
terapêutica e 55,7% com a pressão arterial (PA) tratada e controlada.4 Uma vez
que a relação entre PA e o risco de eventos cardiovasculares é consistente e
independente de outros factores de risco, o controlo da PA continua a ser uma
prioridade.3,5
No seguimento de um indivíduo hipertenso, o médico tem de decidir sobre várias
opções terapêuticas, de forma a atingir e manter o controlo tensional.6-7 Este
processo de decisão terapêutica depende de vários factores relacionados com a
experiência do médico e características dos doentes e da sua HTA e que podem
influenciar a recomendação de modificações do estilo de vida e a decisão de
iniciar ou mudar a medicação.8 A comunicação entre o médico e o doente é também
crucial neste processo, na medida em que os médicos são uma das principais
fontes de informação para o doente, mas também porque este possui informação
que o médico pode não conhecer, como os valores de PA medidos em casa e
problemas de adesão à terapêutica.9
O médico de medicina geral e familiar (MGF), pelas características da sua
prática clínica, tem um papel muito importante na prevenção, diagnóstico e
controlo da HTA. De facto, os motivos de consulta relacionados com doenças do
aparelho circulatório têm sido dos mais indicados em consultas nos cuidados de
saúde primários, onde o médico de MGF constitui o primeiro e mais acessível
contacto.10-11 Por outro lado, a maior frequência de contactos e o seguimento
ao longo das várias etapas da vida do doente torna possível uma relação de
maior confiança que pode facilitar a decisão terapêutica.12-13
Este estudo tem, como objectivos, 1) caracterizar as perspectivas dos médicos
de MGF quanto à decisão terapêutica na HTA, nomeadamente quanto aos alvos
terapêuticos e aspectos relacionados com a terapêutica farmacológica e não-
farmacológica, e 2) comparar as atitudes na prática clínica com as
recomendações clínicas.
Métodos
Este é um subestudo do projeto DIMATCH-HTA - Determinants and Impact of
Medication Adherence and Therapeutic Change in the Control of Arterial
Hypertension among Cohorts of Immigrants and Non-Immigrants at the Primary Care
Level (PTDC/SAU-ESA/103511/2008) -, que foi um estudo observacional de coorte
prospectiva com amostragem multi-etápica de hipertensos medicados seguidos nos
cuidados de saúde primários na região de saúde de Lisboa e Vale do Tejo.
Para este subestudo foi considerada a amostra de médicos que aceitaram
participar no estudo DIMATCH-HTA, incluindo no estudo piloto, e que foram
seleccionados da seguinte forma:
• No estudo piloto foram convidados a participar cinco médicos escolhidos de
forma aleatória, de duas Unidades de Saúde Familiar seleccionadas por
conveniência.
• No estudo principal, 16 Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados (USCP)
ou USF foram seleccionadas de forma aleatória e identificados os utentes
elegíveis a partir da informação do sistema de informação SINUS: hipertensos
medicados, de etnia branca e com naturalidade portuguesa (coorte nativa) ou de
etnia negra e de um dos países de língua oficial portuguesa (coorte imigrante),
com idade entre 40 e 80 anos e registo de consulta com o médico de família nos
últimos 12 meses. Em cada UCSP/USF foram seleccionados, de forma aleatória e
convidados para o estudo, cinco médicos de família com pelo menos 40
hipertensos medicados de cada coorte na sua lista de utentes (amostragem por
clusters). Nas situações em que a UCSP/USF não tinha cinco médicos com 40
utentes imigrantes elegíveis foram seleccionados os médicos com maior número
destes utentes. Caso um médico seleccionado recusasse participar no estudo
DIMATCH-HTA era substituído por outro médico seleccionado de igual forma.
A cada médico seleccionado e que consentiu participar no estudo DIMATCH-HTA foi
entregue um questionário. O objectivo do estudo foi explicado em detalhe numa
sessão de esclarecimento realizada na UCSP/USF e foi obtido o consentimento
através do auto-preenchimento do questionário confidencial, sem elementos
identificadores.
A elaboração do questionário teve por base as recomendações clínicas para a HTA
à data de 2009,14-18 além de outros estudos semelhantes.1,19-20 O questionário
foi pré-testado por elementos da equipa e médicos de medicina geral e familiar.
A versão final recolheu informação sobre dados demográficos e de caracterização
da experiência clínica no seguimento de doentes hipertensos, quais as fontes de
informação consultadas e relacionadas com a HTA, qual a perspectiva face à
medição da PA, recomendação de medidas não farmacológicas e decisão de início
ou mudança da terapêutica farmacológica anti-hipertensora e quais as
estratégias usadas na avaliação da adesão à terapêutica.
Foi realizada análise estatística descritiva, com o cálculo de médias e
desvios-padrão (DP) para variáveis quantitativas e frequências relativas para
variáveis categóricas. Recorreu-se a análise bivariada (teste qui-quadrado)
para explorar a relação entre o nível de concordância com diversas afirmações
acerca da perspectiva do médico no tratamento da hipertensão e dados
demográficos e da prática clínica do médico.
O estudo DIMATCH-HTA foi autorizado pela Comissão de Ética da Faculdade de
Medicina de Lisboa, pela Comissão Nacional de Protecção de Dados e pela
Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo. Os Agrupamentos de
Centros de Saúde deram a sua autorização para a colaboração das Unidades de
Saúde no estudo.
Resultados
Caracterização da amostra
Foram seleccionadas 18 unidades de saúde de nove ACES, das quais cinco unidades
de saúde de três ACES recusaram participar por terem como população-alvo apenas
uma minoria de imigrantes ou por indisponibilidade logística. Em cada uma das
13 unidades de saúde participantes foram seleccionados e convidados a
participar cinco médicos, segundo o método anteriormente descrito. Verificaram-
se 20 recusas de participação no estudo DIMATCH-HTA, com a substituição por
outros médicos nas mesmas unidades de saúde. Assim, foi obtida uma amostra
final de 63 médicos (uma das unidades de saúde apenas tinha três médicos com
utentes pertencentes às duas coortes), dos quais três recusaram participar por
falta de tempo para preencher o questionário.
Os 60 médicos participantes (41 do sexo feminino) têm 52±8,6 anos (média±DP) de
idade, licenciaram-se em medicina há 27±8,2 anos e têm 22±8,2 anos de prática
clínica como especialistas em medicina geral e familiar. Em relação a outras
actividades, sete (11,7%) médicos orientavam ou já tinham orientado estágios,
três (5,0%) indicaram ter ou ter tido actividade académica, dois (3,3%) estavam
ou estiveram envolvidos em formação clínica e dois (3,3%) exerciam ou tinham
exercido actividades de coordenação/direcção de serviços de saúde.
Os médicos participantes indicaram seguir em média 1.782±176 doentes, realizar
113±41,1 consultas por semana, com uma duração média de 19±5,4 minutos e das
quais 23±22,2 tinham a HTA como motivo principal.
Perspectivas quanto ao seguimento de doentes hipertensos
O Quadro_I apresenta a distribuição de respostas quanto ao grau de concordância
com várias afirmações acerca da HTA e do seguimento clínico desta doença. Todos
os médicos concordaram que o controlo da HTA é um problema de saúde importante,
que as modificações de estilos de vida são úteis para controlar a PA elevada e
que é necessário o uso de fármacos para controlar a PA na maioria dos seus
doentes hipertensos.
Quanto à terapêutica farmacológica, 58,3% dos médicos concordou que a maioria
dos seus doentes consegue manter a PA controlada com apenas um anti-
hipertensor, tendo sido observado que os médicos com mais de 20 anos de prática
clínica em MGF parecem concordar mais com esta afirmação (80% vs. 50%,
p=0,043). A maioria concordou que é frequente ter de mudar a medicação devido à
falta de efectividade do(s) anti-hipertensor(es) (94%) e que é frequente ter de
mudar a medicação devido à não-adesão do doente (58%), sendo que os médicos com
idade > 45 anos (75,8% vs. 27,3%, p=0,004) e com mais de 20 anos de prática
(75,8% vs. 20%, p<0,001) discordaram mais com esta última afirmação.
A totalidade dos médicos concordou que educar os hipertensos quanto à sua
doença e ao seu tratamento ajuda no controlo da sua HTA e 98% concordou que é
frequente ensinar os hipertensos a realizar a auto-vigilância dos seus níveis
tensionais. Observou-se uma associação entre a concordância com a afirmação ser
importante estabelecer consultas regulares com os seus doentes para vigilância
da HTA e ter mais de 20 anos desde a licenciatura (100% vs. 83,3%, p=0,018),
apesar de a associação com os anos de prática clínica em MGF não ter sido
observada (p=0,054).
Foi pedido aos médicos que referissem a importância atribuída (numa escala de 0
“nada importante” a 10 “muito importante”) a várias componentes da consulta a
um hipertenso e que indicassem a percentagem aproximada de consultas em que
teriam realizado as mesmas componentes - Quadro_II. As componentes da consulta
(média±DP da pontuação na escala) às quais foi atribuída uma maior importância
pelos médicos foram “Medir a PA e outros exames necessários” (9,9±1,4), “Dar
instruções completas sobre a posologia” (9,9±0,9) e “Aconselhar a modificação
de estilos de vida” (9,9±0,5). As componentes mais frequentemente indicadas
como sendo realizadas na consulta foram “Medir a PA e outros exames
necessários” (90,7%), “Aconselhar a modificação de estilos de vida” (88,9%) e
“Conhecer os estilos de vida do doente (dieta, tabagismo, …)” (87,5%).
Perspectivas quanto à medição da PA, em consulta e em auto-monitorização
Conforme indicado no Quadro_I, a maioria dos médicos (88,2%) concordou que é
praticamente impossível incluir a monitorização ambulatória da PA de 24 horas
(MAPA) na avaliação de rotina de um hipertenso, apesar de 94,1% ter concordado
que a MAPA é útil para uma melhor decisão terapêutica. Em média, o valor máximo
considerado pelos médicos como aceitável para a média de uma PA diurna, medida
por MAPA, foi 136±8,6/83±4,1mmHg (máximo indicado de 160/90 e mínimo de 120/
80mmHg).
Cerca de metade (54,6%) dos médicos concordou que confia mais nos valores de PA
que regista na consulta do que naqueles que o doente obtém em auto-
monitorização, verificando-se uma maior proporção de médicos com 20 ou menos
anos de prática em MGF a concordar com esta afirmação (64,0% vs. 14,3%,
p=0,020). A totalidade dos médicos concordou que a auto-monitorização da PA
ajuda o doente a conhecer melhor a sua HTA e 94% concordou que a escolha do
dispositivo para medição da PA é muito importante para a validade da auto-
monitorização. Para medição da PA na consulta, os médicos indicaram utilizar um
esfigmomanómetro aneróide (n=21, 63,6%), um dispositivo electrónico (n=8,
24,2%) ou estes dois dispositivos (n=2, 6,2%), sendo menos frequentes o uso do
esfigmomanómento de mercúrio, apenas (n=1, 3,0%) ou em conjunto com os
dispositivos anteriores (n=1, 3,0%).
Decisão terapêutica e valores tensionais
O Quadro_III apresenta os valores de pressão arterial considerados na decisão
terapêutica quanto ao início de medidas farmacológicas e não farmacológicas e
na avaliação do controlo da HTA para diferentes subgrupos de hipertensos.
De uma forma geral, os médicos indicaram recomendar medidas não farmacológicas
a um indivíduo sem outros factores de risco cardiovascular, a partir de valores
de PA sistólica/diastólica de 138±5,7/87±4mmHg, em média, com 39 (73,1%) a
recomendar para valores de PA sistólica ≥ 140mmHg e 32 (60,4%) para PA
diastólica ≥ 90mmHg. As medidas não farmacológicas mais indicadas como
preferidas numa primeira abordagem foram: exercício físico regular (n=54,
90,0%); redução do peso (n=52, 86,7%); e cessação tabágica (n=52, 86,7%).
Relativamente à redução do peso, os médicos mencionaram recomendar esta medida
a partir de um Índice de Massa Corporal superior a 26±4,4kg/m2 (média±DP).
Outras medidas não farmacológicas também indicadas foram o controlo da
dislipidémia por dieta (n=46, 76,7%), a restrição de sal (n=45, 75,0%) e a
redução do consumo de álcool (n=33, 55,0%).
Quanto à decisão de iniciar a terapêutica farmacológica (Quadro_III) em
indivíduos sem outros factores de risco cardiovascular, a PA sistólica/
diastólica indicada pelos médicos foi de 145±7,3/91±4,3mmHg (média±DP), com 10
(29,4%) médicos a indicarem iniciar tratamento quando PA sistólica ≥ 150mmHg e
8 (23,5%) quando PA diastólica ≥ 95mmHg. Na presença de outros factores de
risco (Diabetes mellitus, insuficiência cardíaca, insuficiência renal, etc.)
foram indicados valores tensionais mais baixos.
Quando questionados sobre quais os valores considerados para uma HTA
controlada, a PA sistólica/diastólica foi, em média, de 136/84mmHg em doentes
com risco cardiovascular ligeiro a moderado e de 128/79mmHg em doentes com
risco elevado. Na análise por níveis de PA, 29 (53,7%) médicos indicaram
valores de PA sistólica entre 140 e 145mmHg, inclusive, e 19 (34,5%) indicaram
valores de PA diastólica entre 90 e 95mmHg para os indivíduos com risco ligeiro
a moderado. Nos doentes com risco elevado, estas proporções diminuíram: três
(5,5%) indicaram valores de PA sistólica entre 140 e 145mmHg, inclusive, e
quatro (7,3%) valores de PA diastólica de 90mmHg.
Decisão terapêutica no início da medicação anti-hipertensora
Perante um indivíduo hipertenso, sem outros factores de risco cardiovascular ou
na presença de outras características ou co-morbilidades, todos os 34 médicos
que responderam a esta questão indicaram preferir iniciar a medicação anti-
hipertensora com opções em monoterapia. O Quadro_IV apresenta os grupos
farmacológicos e associações preferenciais no início da medicação nos
diferentes subgrupos. Num indivíduo sem outros factores de risco, a opção mais
indicada foi a monoterapia com IECAs (30,9% em 55 respostas).
No início da medicação anti-hipertensora, a maioria dos médicos (98%) indicou
recomendar a medição da PA em auto-monitorização com diferentes frequências:
todos os dias (n=3, 6,5%), a cada 2-3 dias (n=24, 52,2%), a cada 1-2 semanas
(n=12, 26,1%), uma vez por mês (n=2, 4,3%) ou com outras frequências (n=4,
8,7%), enquanto um (2,2%) médico indicou não recomendar. Adicionalmente, os
médicos indicaram recomendar uma nova consulta médica com diferente
periodicidade: até 2 semanas (n=7, 17,5%); uma vez por mês (n=13, 32,5%); a
cada 2-3 meses (n=12, 30,0%); ou outra periodicidade (n=8, 13,3%).
Perspectivas quanto à decisão terapêutica na HTA
Em média, os médicos consideraram que, tendo em conta o último ano, 7% dos seus
doentes hipertensos se encontravam controlados apenas com medidas não
farmacológicas, 27% controlados em monoterapia, 55% controlados com mais que um
anti-hipertensor e 10% não controlados com mais que três anti-hipertensores
(HTA resistente).
O Quadro_V apresenta o nível de concordância dos médicos com afirmações
relativas à decisão terapêutica na HTA. A maioria dos médicos discordou que o
tratamento da HTA provoca mais problemas do que resolve (94%) e que a decisão
por uma intervenção farmacológica ou não farmacológica varia com o sexo do
doente ou (…) com a etnia do doente (60% e 51%, respectivamente). Quanto ao
idoso hipertenso, 85% dos médicos concordou que a mudança de estilos de vida é
mais difícil nos idosose 77% concordou que, em termos de controlo da HTA,
aceita valores de PA mais elevados.
A maioria dos médicos considerou mudar frequentemente a terapêutica anti-
hipertensora (54%). Quando questionados sobre os motivos mais importantes para
não mudar ou intensificar a terapêutica se a PA não estiver controlada numa
dada consulta (Quadro_VI), os mais escolhidos pelos médicos foram (o doente)
“não tem tomado a medicação como indicado, omite tomas ou deixou terminar a
medicação” (23%), “precisa de ser avaliado numa segunda consulta: esta foi a
primeira em que a PA está aumentada” (23%) e “tem os valores de PA em auto-
monitorização normais” (20%).
O Quadro_VII apresenta os factores considerados pelos médicos como associados à
não adesão do doente à terapêutica. Os mais indicados foram “custos da
medicação” (33%), “desinteresse sobre a sua HTA” (22%) e “polimedicação
associada a co-morbilidades” (18%). Em média, os médicos consideraram que
68±17% dos seus doentes eram aderentes à terapêutica farmacológica, que 78±17%
cumpriam a data das consultas para seguimento da HTA, 40±22% faziam uma dieta
com restrição de sal, 51±24% consumiam bebidas alcoólicas sem ser de forma
excessiva e que 19±11% tinham actividade física regular.
Discussão
Neste estudo, as atitudes reportadas pelos médicos estavam alinhadas com as
recomendações europeias e nacionais existentes à data, quanto à utilidade das
modificações do estilo de vida e os valores considerados para iniciar
medicação. Contudo, observou-se alguma heterogeneidade de atitudes face aos
valores alvo no tratamento do idoso hipertenso, bem como em relação aos valores
de MAPA a considerar como critérios de diagnóstico.
A consulta médica, como momento de interacção entre o médico de família e o
indivíduo hipertenso, é um momento fundamental para alcançar um melhor controlo
da PA.16 No presente estudo, os médicos indicaram realizar mais frequentemente
as componentes da consulta que também consideraram mais importantes,
nomeadamente medir a PA, pedir outros exames necessários e aconselhar a
modificação de estilos de vida.
A totalidade dos médicos concordou que educar os hipertensos quanto à sua
doença e ao seu tratamento ajuda no controlo da sua HTA. Contudo, à semelhança
de resultados obtidos em estudos anteriores,9 verificou-se que várias
componentes da consulta relacionadas com a educação do utente foram
consideradas menos importantes e parecem ser menos realizadas, como avaliar o
conhecimento do doente sobre a sua HTA, explicar os benefícios e os efeitos
adversos da medicação, aferir a capacidade do doente em cumprir/aderir à
terapêutica actual ou mesmo envolver o doente no processo de decisão
terapêutica. Para aumentar as competências do doente é importante haver uma
maior discussão sobre a terapêutica e sobre os critérios considerados para a
decisão clínica.9,13,16
A comunicação com o médico é também importante para aumentar o benefício da
auto-monitorização da PA. Uma meta-análise recente demonstrou que esta prática
permite uma redução de 3,9mmHg na PA sistólica e, em combinação com cuidados de
saúde adicionais, uma diminuição entre 3,4 e 8,9mmHg.21 Por outro lado, um
estudo qualitativo no Reino Unido, com a participação de indivíduos com
dispositivos de medição da PA, revelou que um maior envolvimento dos médicos
ajudaria a ultrapassar dificuldades na obtenção e interpretação dos valores
tensionais.22 No presente estudo, a auto-monitorização da PA foi considerada
importante na medida em que ajuda o doente a compreender a sua doença e a
participar de forma activa no controlo da PA. Contudo, a maioria dos médicos
parece confiar mais nos valores de PA obtidos na consulta, um resultado também
descrito noutro estudo.23 A falta de confiança em alguns dispositivos
utilizados (e.g., de pulso) e na medição adequada são alguns dos factores que
podem justificar a preferência pelos valores registados na consulta.23-25
O diagnóstico da HTA requer a medição da PA, que pode ser realizada no contexto
da consulta como, em algumas situações, com recurso à monitorização em
ambulatório (MAPA).6,26 Neste estudo, a média dos valores considerados
aceitáveis na medição da PA por MAPA são ligeiramente discordantes daqueles que
definem hipertensão no período diurno (≥ 135/85 mmHg).6 Apesar da reconhecida
importância da MAPA no diagnóstico e prognóstico de complicações
cardiovasculares (principalmente a MAPA no período nocturno),6,27 não estão
ainda definidos os valores alvo para a definição de HTA tratada e controlada,
sendo que a inclusão da MAPA na avaliação de rotina de um hipertenso tem custos
para o sistema e para o doente.28-29
A adopção de estilos de vida saudáveis é outro determinante da redução do risco
cardiovascular e controlo tensional.6 Todos os médicos consideraram as
modificações do estilo de vida úteis para o controlo da PA elevada,
recomendando-as, apesar de reconhecerem que a sua implementação é difícil,
principalmente nos idosos com mais de 75 anos. As medidas não farmacológicas
escolhidas pelos médicos estão de acordo com as normas de orientação
clínica,6,30 sendo recomendadas a partir de valores de PA sistólica/diastólica
de 140/90mmHg num indivíduo sem outros factores de risco. Contudo, os médicos
consideram que apenas 7% dos seus doentes se encontram controlados apenas com
medidas não farmacológicas, o que pode estar relacionado com a falta de adesão
a longo prazo e a grande variabilidade de resposta dos valores de PA a estas
medidas.6 Conhecer os estilos de vida do doente e aconselhar a modificação
destes parecem ser componentes frequentemente realizadas pelos médicos
participantes. Outros estudos reportam que as actividades preventivas e de
promoção da saúde são realizadas de uma forma genérica (não adaptada à
realidade de cada utente) e com menor frequência comparativamente a outras
actividades, devido ao volume de trabalho, falta de tempo e de incentivos.31-32
Os valores de PA considerados para a decisão de iniciar a terapêutica
farmacológica e como alvo a atingir têm sido revistos na última década em
diferentes recomendações. Em 2007, as recomendações da Sociedade Europeia de
Hipertensão indicavam como alvo manter a PA < 140/90mmHg em hipertensos sem
outros factores de risco (incluindo idosos) e < 130/80mmHg em indivíduos com
diabetes mellitus ou risco cardiovascular elevado associado à existência de
doença cardiovascular ou renal.14 Contudo, estas recomendações foram revistas
em 2009, reconhecendo a necessidade de mais evidência no suporte aos valores a
considerar para os hipertensos idosos e diabéticos/doentes renais.15 Em 2013,
com a divulgação de outros estudos, as recomendações passaram a indicar como
alvo manter a PA < 140/90mmHg em hipertensos com ou sem factores de risco (nos
diabéticos < 140/85mmHg) e, nos indivíduos com mais de 80 anos, manter a PA
entre 140-150 / < 90mmHg (Quadro_VIII).6 Outras recomendações, como as do JNC
8, NICE e recomendações Canadianas, também indicam valores mais elevados no
idoso, apesar de existirem algumas inconsistências na definição da faixa
etária.7,26,33
No nosso estudo verificou-se que a maioria dos médicos decide iniciar medicação
anti-hipertensora acima do valor recomendado à data do estudo.15 De notar que,
em hipertensos com diabetes mellitus ou insuficiência renal, a maioria dos
médicos decide iniciar terapêutica a partir de valores mais baixos - PA
sistólica/diastólica de 130/80mmHg, o que está de acordo com essas mesmas
recomendações.15 Contudo, para hipertensos com insuficiência cardíaca, a
maioria dos médicos considerou os mesmos valores da população sem outros
factores de risco cardiovascular, sendo recomendados na altura valores mais
baixos (130/80mmHg) para hipertensos com doença cardiovascular.15 No contexto
de um episódio agudo de insuficiência cardíaca, se o doente apresentar PA
baixa, normal ou elevada reflecte diferentes mecanismos fisiopatológicos e
consequentes respostas ao tratamento, tendo sido observado que valores de PA
mais elevados na admissão hospitalar são preditores de maior sobrevivência dos
doentes com insuficiência cardíaca.34 Como não existe evidência de benefício
acrescido em iniciar e manter terapêutica anti-hipertensora com valores de PA
inferiores, as recomendações mais actuais indicam os valores 140/90mmHg em
geral como objectivo a atingir também neste grupo de hipertensos, como para os
diabéticos e hipertensos com insuficiência renal.6,26,30
As normas clínicas de 2013 também trouxeram a revisão dos valores-alvo de PA no
idoso, sendo agora recomendado que a PA sistólica se mantenha entre 140 a
150mmHg em indivíduos com menos de 80 anos e que, em hipertensos com mais de 80
anos, a redução para estes valores deve considerar o estado físico e cognitivo
do doente.6-7 No presente estudo, a maioria dos médicos concordava serem
aceitáveis valores de PA mais elevados nos idosos. Apesar das recomendações
anteriores preconizarem o início da medicação em função do risco cardiovascular
global e independentemente da idade,14-15 os médicos participantes indicaram
iniciar terapêutica para PA sistólica/diastólica a partir de 150/90 mmHg, à
semelhança de outros estudos.19 As questões de tolerabilidade à redução da PA e
à medicação são importantes na definição sobre qual o valor ideal de PA
sistólica a atingir, sendo que a maioria dos médicos concordava que haveria
mais idosos do que indivíduos mais jovens a terem de descontinuar a terapêutica
devido aos efeitos secundários.6
Neste estudo, os valores considerados para uma HTA controlada foram inferiores
aos propostos pelas recomendações clínicas de 2007 e 2009.14-15,17 Contudo, os
valores reportados para doentes com menor risco cardiovascular são próximos dos
observados num estudo europeu, onde os valores médios com os quais os médicos
participantes indicaram sentir-se satisfeitos eram de 131,6 / 81,9mmHg,
passando a ficar mais atentos quando os valores passavam a 148,9 / 91,6mmHg.35
Quanto à decisão sobre a medicação anti-hipertensora, os médicos parecem
preferir iniciar terapêutica em monoterapia, independentemente das
características do hipertenso. No entanto, consideraram que, no ano anterior ao
estudo, apenas 27% dos seus doentes se encontravam controlados em monoterapia.
Esta proporção vai ao encontro dos resultados de outros estudos que têm
demonstrado que a monoterapia com qualquer classe de anti-hipertensores só
possibilita o adequado controlo tensional em menos de 20-30% da população
hipertensa, exceptuando-se os doentes com HTA grau 1.36 Desta forma, as
recomendações clínicas mais recentes sugerem, nos doentes com risco
cardiovascular elevado, o início da terapêutica anti-hipertensora com dois
fármacos em dose baixa.6-7,30
Num indivíduo sem outros factores de risco, a maioria dos médicos indicou
preferir iniciar medicação anti-hipertensora com, por ordem decrescente, IECAs,
ARAs, tiazidas, BB, diuréticos não tiazídicos e ACCs. Estes resultados são
diferentes dos encontrados por Cortez-Dias e colaboradores - diuréticos (47%),
ARAs (43%), IECAs (39%), ACCs (19%) e BB (16%) - mas semelhantes aos descritos
num estudo com a rede Médicos-Sentinela.36-37 As recomendações mais recentes
são no sentido de que pode ser usado qualquer fármaco de 1ª linha em
monoterapia, uma vez que as principais classes não diferem significativamente
na sua capacidade de reduzir a PA. Contudo, em situações de lesão de órgão-alvo
e de protecção da função renal pode haver vantagem no bloqueio do eixo renina-
angiotensina-aldosterona.26,30
O termo “inércia clínica” tem sido utilizado para descrever a ausência de
intensificação terapêutica num doente que não tenha ainda atingido os
objectivos, isto é, que apresente ainda valores de PA superiores aos
recomendados.1,35 Contudo, é importante distinguir entre potencial inércia
clínica e ausência de intensificação da terapêutica como decisão adequada ao
indivíduo em particular.20,38 Neste estudo, os motivos mais indicados para não
mudar ou intensificar a terapêutica se a PA não estiver controlada numa dada
consulta foram a não-adesão do doente à terapêutica (também um dos motivos mais
indicados para a mudança terapêutica), a necessidade de uma segunda avaliação
que confirme os valores tensionais elevados e o verificar que os valores em
auto-monitorização se encontram normais. Estes motivos parecem enquadrar-se
numa inércia adequada e não no conceito de inércia clínica, tendo sido
descritos também noutros estudos.20,39
A não adesão é um problema frequente na terapêutica anti-hipertensora como em
outras terapêuticas crónicas.40 Neste estudo, os médicos consideraram que cerca
de um terço dos seus doentes seriam não-aderentes. Os custos da medicação, o
desinteresse do doente quanto à sua HTA e a polimedicação foram apontados como
os principais factores associados a este problema. Chin e colaboradores
reportaram uma proporção mais elevada de não-adesão (79%), dos quais 51%
indicaram razões financeiras que, ao não serem abordadas com o médico de
família, impossibilitam a mudança terapêutica e o controlo da HTA.41
Estudos sobre a prática médica são susceptíveis a várias limitações.35 Uma das
limitações deste estudo consiste no ser baseado em informação fornecida pelo
médico e não na observação directa. Nesse sentido, não é possível excluir a
possibilidade de viés no sentido de adaptar as respostas ao que se julga ser a
prática clínica óptima. A selecção da amostra poderá também influenciar os
resultados observados, na medida em que participaram médicos que já tinham
aceitado participar no estudo DIMATCH-HTA, um estudo observacional sobre HTA, e
que poderiam estar mais informados e interessados sobre a doença e
recomendações. Além disso, o próprio desenho do estudo DIMATCH-HTA limitou a
selecção de unidades de saúde à região de Lisboa e Vale do Tejo, limitando a
generalização dos resultados para outras regiões. Por último, apesar de a
dimensão da amostra ser superior à participação portuguesa em estudos
semelhantes,35 é ainda inferior à necessária para uma potência estatística
adequada na identificação de associações com características dos médicos menos
frequentes, não permitindo a realização de uma análise multivariada. Um estudo
nacional sobre este tema poderia trazer mais informação, como o grau de acordo
com e implementação das recomendações europeias e nacionais mais recentes sobre
risco cardiovascular.
Conclusão
Em relação à atitude dos médicos no controlo da HTA, face às recomendações e
normas clínicas à altura do estudo, verificou-se:
• o reconhecimento da utilidade da modificação de estilos de vida;
• alguma heterogeneidade relativamente aos critérios de diagnóstico da MAPA;
• a preferência pelos valores de pressão arterial registados na consulta;
• alguma divergência quanto aos alvos terapêuticos nos idosos;
• a preferência pelo início da terapêutica em monoterapia.
A divulgação de nova evidência leva à necessidade de actualizar regularmente as
recomendações para o controlo da HTA. Este processo requer, da parte do médico
de família, um investimento na sua formação contínua de forma a incorporar na
sua prática clínica as melhores opções para o diagnóstico e seguimento dos seus
hipertensos. No entanto, a promoção da saúde ao nível dos cuidados de saúde
primários depende do desenvolvimento de um modelo de participação mútua, onde o
doente é chamado a ter um papel activo na decisão terapêutica. Assim, o médico
de família está numa posição privilegiada para promover a comunicação com o
doente e, com isso, capacitá-lo para a gestão da doença e promover uma melhor
adesão à terapêutica.