José Guilherme Jordão: Uma vida e uma obra para o futuro
EDITORIAL
José Guilherme Jordão - Uma vida e uma obra para o futuro
Manuel Valente Alves*
*Médico de família na USF Sofia Abecassis, ACES Lisboa Central e investigador
universitário. Foi regente da disciplina de História da Medicina na Faculdade
de Medicina da Universidade de Lisboa. Fundou e dirigiu o Museu de Medicina da
Universidade de Lisboa. É membro da Academia Nacional de Medicina de Portugal.
Endereço_para_correspondência | Dirección_para_correspondencia | Correspondence
José Guilherme Jordão (1951-2003) foi um dos grandes protagonistas da história
da Medicina Geral e Familiar (MGF) em Portugal. Ele insere-se numa genealogia
de médicos que souberam promover os aspectos preventivos e curativos e da
doença, o ensino e a investigação médica, numa perspectiva integrada,
perfilhando alguns dos principais valores que impregnam a matriz da MGF. Entre
estes médicos, podemos referir, a título de exemplo, Tomás de Sousa Martins
(1843-1897)1:253 e Carlos Bello Moraes (1868-1933), duas figuras maiores da
medicina que se destacaram entre a segunda metade do século XIX e o começo do
século XX. De referir igualmente Fernando Fonseca (1895-1974), figura cimeira
da medicina em Portugal na primeira metade do século XX, considerado por
Reynaldo dos Santos como uma das figuras mais prestigiadas do clínico geral da
época,1:285 cujo perfil se coaduna perfeitamente com a moderna MGF. Todos eles
foram líderes discretos, mas eficazes, que introduziram precocemente mudanças
no ensino e na prática da medicina que se reflectiram positivamente na evolução
da saúde em Portugal. A sua vasta cultura científica e humanista, que lhes
permitiu renovarem a tradição hipocrática da medicina entre nós, tornaram-nos
precursores da MGF.
Tive o privilégio de trabalhar pessoalmente com Guilherme Jordão em 1999,
quando dirigi o livro-catálogo 1911-1999 - O ensino médico em Lisboa no início
do século: sete artistas contemporâneos evocam a geração médica de 1911, no
contexto da exposição com o mesmo nome, de que fui comissário, na Fundação
Calouste Gulbenkian, em Lisboa, no âmbito do IX Congresso de Educação Médica.
Convidei-o para colaborar no livro com um ensaio sobre a vida e a obra de Bello
Moraes, um dos professores retratados nas quatro magníficas telas que Columbano
Bordalo Pinheiro pintou em 1906 para o edifício da Escola Médico-Cirúrgica de
Lisboa e que actualmente fazem parte da colecção do Museu de Medicina da
Universidade de Lisboa. Aceitou o convite de braços abertos. Guilherme Jordão
confessa que, “no avançar progressivo da descoberta” da vida e da obra de Bello
Moraes, ele próprio “foi precocemente condicionado pela perspectiva determinada
pelos seus próprios valores pessoais e profissionais, relacionados com o
exercício da Medicina Geral e Familiar”.2:178 Em Bello Moraes, esclarece
Guilherme Jordão, “ressalta a clínica tendo como referência os aspectos
biológicos, psicológicos e sociais; é evidente a globalização na abordagem dos
problemas de saúde; há claramente uma valorização da componente familiar nessa
intervenção; existe uma valorização das actividades de ensino e de investigação
como estratégias de desenvolvimento; existe um saber transversal e
multidisciplinar facilitador da resolução de problemas; está permanentemente
patente a preocupação com os aspectos éticos e deontológicos do exercício
médico; revela-se a cultura do respeito e da amizade como valores essenciais
para a dignificação dos médicos como corpo profissional com particular
responsabilidade social.”2 Conclui: “Em suma, Bello Moraes reuniu atributos que
hoje são importantes referências para projectos de intervenção global, como
acontece no âmbito da Medicina Geral e Familiar.”2
Em 2003, no contexto do projecto ‘Cadernos de Viagem’, comemorativo dos 20 anos
da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral (APMCG), eu e Vítor Ramos,
na qualidade de responsáveis pela concepção e execução do projecto, convidámo-
lo a escrever para o livro Da Vontade. Guilherme Jordão aceitou com gosto
escrever sobre dois temas que lhe eram muito gratos: a história dos Institutos
de Clínica Geral e o trajecto percorrido pela MGF académica em Portugal no
curto período que decorre desde o seu nascimento, no começo da década de 1980,
até 2003. Conclui este último texto realçando o muito que foi feito em tão
pouco tempo e as boas perspectivas de futuro: “atendendo aos factos apontados
ocorridos em tempo relativamente curto e considerando a dimensão do projecto e
da obra levada a cabo, pode-se afirmar que muito foi realizado no domínio do
ensino pré-graduado da MGF em Portugal e que estão criados os espaços de debate
e de reflexão determinantes para a sua evolução como disciplina académica,
especialidade e área organizada de prestação de cuidados de saúde.”3:77
Guilherme Jordão contribuiu, através da sua ampla cultura científica e
humanista, para a afirmação da MGF quer como especialidade quer como disciplina
académica. Fê-lo com uma visão estratégica e um sentido de missão assinaláveis.
Num curto período de tempo percebeu que, para vencer os inúmeros escolhos que
dificultavam o avanço da MGF, era preciso uma liderança forte que definisse uma
ideia, um rumo e que, para manter esse rumo, era preciso criar instituições
robustas, como a APMCG, que defendessem não apenas a qualidade científica do
exercício profissional, mas também a formação pré e pós-graduada e valorizassem
os aspectos socioprofissionais ligados à especialidade. Por isso, Guilherme
Jordão trabalhou simultaneamente em várias frentes, com um vigor e uma
tenacidade excepcionais. Apesar da sua curta vida, morreu com 52 anos, o seu
currículo, centrado na MGF, é vasto e rico. Participou na organização do 1.o
Internato Complementar de Clínica Geral, tendo sido eleito representante do
Grupo de Internos de Clínica Geral da Zona Sul. Foi assessor do secretário de
Estado da Saúde, Paulo Mendo, entre 1981 e 1983. Ainda interno, contribuiu na
elaboração do primeiro regulamento dos Centros de Saúde. Entre 1983 e 1984
tornou-se especialista de Clínica Geral pela Ordem dos Médicos. Desde a sua
fundação, colaborou estreitamente com a APMCG, mais tarde Associação Portuguesa
de Medicina Geral e Familiar. A sua actividade clínica e de ensino, pré e pós-
graduado, foi intensa. Trabalhou na reestruturação do ensino médico, exerceu as
funções de coordenador de Internato de Clínica Geral da Zona Sul, de director
do Instituto de Clínica Geral da Zona Sul e foi membro da Comissão
Internacional de Revisão do Ensino Médico, defendendo o sexto ano pré-graduado
profissionalizante. Em 1993 doutorou-se em medicina com a tese A Medicina Geral
e Familiar - Caracterização da sua prática e influência no ensino pré-graduado,
tornando-se uma presença regular nos círculos académicos associados à formação
pré e pós-graduada. Em 1996 ingressou no Departamento de Educação Médica da
Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, sendo professor auxiliar
convidado e regente de Clínica Geral e Medicina Comunitária. Foi mestre em
Educação Médica, diplomado em Educação Médica pelo College of Medicine da
Universidade de Wales e membro da direcção da Sociedade de Ciências Médicas de
Lisboa e da Sociedade Portuguesa de Educação Médica, onde pertenceu à sua
direcção em três mandatos consecutivos, 1997 até 2003. Aquando do seu
falecimento estava integrado num projecto europeu inovador e, em colaboração
com a sua amiga Madalena Patrício, mestre em Pedagogia, escreveu o livro Manual
de boas práticas pedagógicas em saúde.4 Colaborou com a Revista Portuguesa de
Clínica Geral e foi presidente da Associação de Docentes e Orientadores de
Clínica Geral.
Há um traço na sua personalidade que me tocou particularmente: o amor pela
cultura. A este propósito, recordo um almoço no restaurante do Museu do Traje,
em Lisboa, comigo e com a minha mulher, a designer e fotógrafa Nina Szielasko,
seguido de um passeio nos jardins do Parque do Monteiro-Mor para uma sessão de
fotografias destinada a acompanhar os seus artigos para o livro Da Vontade. Nas
três horas em que estivemos juntos falámos exclusivamente de arte: da pintura e
da fotografia à música, ao património, à filosofia e à literatura. Guilherme
Jordão possuía um gosto simples e requintado. Preferia a simplicidade e a
depuração ao excesso maneirista e barroco. Quando, a propósito, recordei uma
expressão atribuída a Goethe em que este pede desculpa a um amigo pela extensa
carta que acabara de lhe enviar, porque não tinha tido tempo para lhe escrever
uma mais curta, riu abertamente. Foi para mim uma tarde que jamais esquecerei.
Junto um dos retratos de José Guilherme Jordão tirado na altura, de que gosto
muito.