Conhecimento e competência
EDITORIAL
Conhecimento e competência
Paula Broeiro*
*Directora da Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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O conhecimento é um “activo”, um “capital” ou um “bem”. Constitui actualmente
um recurso valioso e insubstituível enquanto força motriz organizacional.1 Em
contextos, cada vez mais, incertos e imprevisíveis e onde mercados, produtos,
tecnologia e sociedade se transformam a um ritmo acelerado, o conhecimento tem
assumido uma vantagem competitiva sustentável.1-2 É neste ambiente que emerge a
relevância do conceito de gestão do conhecimento.1-2 O conhecimento e a sua
estruturação, tal como as aptidões, têm variabilidade individual, isto é,
pessoas diferentes incorporam a informação de forma diferente e constroem os
seus conhecimentos de acordo com as suas experiências e quadros de
referências.3
Em medicina, o conhecimento, por si só, não assegura a competência clínica,
como se demonstra pelo número de médicos certificados e recertificados pelo
American Board of Family Practice que mantêm resultados clínicos fracos.4
Competência significa um conjunto de conhecimentos, aptidões, atitudes e
qualidades pessoais essenciais à prática de uma profissão específica.5 Com a
actualização da informação, a par da experiência adquirida, o conhecimento
evolui e torna-se complexo. Isto é, deixa de ser apenas saber (conhecimento),
incorporando outras dimensões como saber fazer, saber ser,6 saber pensar e
saber integrar. Evolui-se de um pensamento linear para um pensamento complexo e
do conhecimento para a competência, num processo cíclico e gradual em espiral,
de regresso aos mesmos temas com maturidade e/ou profundidade diferentes. O
desenvolvimento de conhecimentos e competências, desde a competência cognitiva,
funcional, social, ética à metacompetência, fica alinhado com as fases de
progressão profissional.5
Em todas as profissões, incluindo as da saúde, deve ser definido o perfil de
competências profissionais essenciais ou nucleares7 e críticas, as estratégicas
que todos devem cumprir. Todas as competências, nucleares e críticas, são
adquiridas por modelagem e avaliação. A modelagem identifica as competências e
a avaliação determina em que medida os indivíduos adquiriram essas
competências6 e se, integradas num processo de feedback construtivo, permitem
melhorar a prática.8 A competência em medicina é definida como o uso regular e
criterioso: da comunicação, conhecimento, aptidões técnicas, raciocínio
clínico, emoções, valores e reflexão sobre prática para benefício dos
indivíduos e comunidades.5
Em Portugal, a formação pós-graduada foi, desde o seu início, desenvolvida em
contexto de exercício real. Com a definição, aprovação e publicação dos
programas de formação das diferentes especialidades foi tornada obrigatória a
explicitação dos objectivos de conhecimento e dos objectivos de desempenho
(competências). Em simultâneo, o processo de avaliação de desempenho em
internato, independentemente da área de especialização, passou a reflectir os
domínios de competência: cognitivo, funcional, ético, pessoal e relacional
(capacidade de execução técnica, interesse pela valorização profissional,
responsabilidade profissional e relações humanas no trabalho).9
A aprendizagem ao longo da vida e a avaliação desempenham um papel integrante
do processo de identificação e resposta dos próprios médicos às necessidades
educacionais.8 É, pois, contextual a competência e reflecte a relação entre
capacidades individuais e tarefas/necessidades reais do lugar de prática.8 Por
isso, as características da prática,7 da carga local de doença e
sociodemográficas condicionam o processo de aquisição de competências, sendo
indispensável a selecção criteriosa das situações a que devem ser expostos
alunos ou médicos em formação. Existem aspectos de competência, como anamnese e
raciocínio clínico, cujos conteúdos específicos nem sempre são generalizáveis.8
Por exemplo, quanto ao raciocínio clínico, um médico pode ser competente em
áreas em que tem uma base sólida de conhecimento (organizado e acessível) e
menos competente em áreas de menor conhecimento, enquanto o domínio da relação
médico-doente está menos dependente do conteúdo da situação de treino, mas
altamente dependente da sua frequência (variabilidade) e das competências
pessoais.8 Competência depende do desenvolvimento do pensamento,
comportamentos, atitudes e da reflexão sobre a experiência real, dela extraindo
regras práticas8 (e.g., passos da consulta ou princípios do método clínico
centrado no paciente).
O Canadá, tal como Portugal, não formou um número suficiente de médicos10-11
para responder às necessidades do seu crescimento, do envelhecimento e da
dispersão populacional.11 Desde Junho de 2009, o Colégio de Médicos de Família
do Canadá (CFPC) propôs uma formação pós-graduada que continuasse credível, com
visão de futuro e que atendesse às necessidades das comunidades, adaptável a
novas exigências de saúde, da sociedade e dos sistemas.11 O currículo baseia-se
em três competências críticas, que designaram Triple C (figura_1), dando ênfase
à abrangência (comprehensive), continuidade e centrado nos pacientes e
famílias.11 O objectivo primordial é preparar novos médicos de família para o
desempenho clínico efectivo ao longo das próximas décadas.11
O que significa desempenho clínico efectivo? Significa mais do que a revisão
simplista de registo do paciente4 ou do cumprimento de indicadores de gestão.12
O desempenho clínico efectivo deverá ser suportado por competências que
produzam melhorias sustentáveis nos cuidados ao paciente.4 Deverá, pois, estar
integrado num sentido de coerência individual e organizacional,13 em que os
vários domínios de competência sejam avaliados de forma integrada, coerente e
longitudinal, usando métodos de feedback construtivo.8
Uma tipologia holística de competências é útil à compreensão da associação
entre conhecimentos, aptidões e atitudes, indispensáveis à integração das
competências aplicadas: conceptual (cognitiva, conhecimento e compreensão) e
operacional (funcional, psico-motor e de qualificação). As competências,
associadas à auto-eficácia, são de natureza conceptual (meta-competência,
incluindo aprender a aprender) e operacional (competência social, incluindo
comportamentos e atitudes).6
A academia, para se adaptar aos contextos de mudança, tem, ela própria, o
desafio de desenvolver competências investigacionais, educacionais e de cuidado
aos pacientes. Deverá promover o desenvolvimento de um quadro coerente de
competências que permita a sua organização e que possa ser aplicado em todos os
estadios formativos, desde o pré-graduado até à formação ao longo da vida,
clarificando o que se pretende atingir em cada uma dessas fases.5
O sucesso organizacional, bem como a eficiência dos sistemas de saúde, só se
conseguirá se existir uma clara definição do perfil de competências de cada
profissão, numa complementaridade de funções centradas nas necessidades dos
indivíduos, doentes ou não. É no espelhar da vida e obra do Prof. José
Guilherme Jordão, na sua coerência, no seu sentido de visão estratégica,
espirito de missão, cultura e humanismo14 que se apela ao sentido crítico
individual e colectivo da Medicina Geral e Familiar Portuguesa.15
*Figura publicada com autorização.