Vacinação contra Influenza em profissionais de saúde: uma revisão sistemática
CLUBE DE LEITURA
Vacinação contra Influenza em profissionais de saúde - uma revisão sistemática
Influenza vaccination in healthcare personnel - a systematic review
Nuno Basílio*, Sofia Figueira**
*Médico Interno de Medicina Geral e Familiar UCSP Barcarena
**Médica Interna de Medicina Geral e Familiar USF São Julião
Pitts SI, Maruthur NM, Millar KR, Perl TM, Segal J. A systematic review of
mandatory influenza vaccination in healthcare personnel. Am J Prev Med. 2014;47
(3):330-40.
A vacinação obrigatória dos profissionais de saúde contra o vírus Influenza é
uma realidade cada vez mais frequente; no entanto, o real impacto clínico desta
medida permanece por esclarecer. Neste estudo procedeu-se a uma revisão
sistemática da literatura publicada sobre este tema com o objetivo de
esclarecer sobre os benefícios e riscos da vacinação neste grupo.
A recolha bibliográfica resultou da pesquisa em seis bases de dados
internacionais (MEDLINE, Embase, The Cochrane Library, Cumulative Index to
Nursing and Allied Health Literature, Science Citation Index Expanded, and
Conference Proceedings Citations Index) de artigos que avaliassem o efeito da
vacinação mandatória dos profissionais de saúde contra o vírus Influenza, sem
restrição de outcome, desenho do estudo ou língua; também não foi considerada,
como critério de exclusão, a ausência de grupo comparador. Foram selecionados
12 estudos observacionais (oito relatos de caso, três estudos transversais e um
estudo de coorte) em que apenas três eram multicêntricos. Quando avaliada a
qualidade da definição da amostra, dos grupos pré e pós intervenção e a
presença de co-intervenções, a maioria dos estudos demonstrou um elevado risco
de viés.
Do total de estudos incluídos, oito reportaram outcomes relativos à taxa de
vacinação dos profissionais de saúde (após implementação da obrigatoriedade
dessa medida), tendo-se verificado um aumento das taxas de vacinação que
ultrapassava os 94%. Em três desses estudos foram demonstradas taxas de
vacinação significativamente superiores em hospitais, em que a vacinação foi de
implementação obrigatória, quando comparados com instituições em que a mesma
medida não foi aplicada (p < 0,001). Em dois dos estudos foi analisada a taxa
de absentismo dos profissionais com resultados inconclusivos. Outros dois
estudos avaliaram a presença de efeitos adversos da intervenção, tendo obtido
dados limitados e heterogéneos. Um dos estudos avaliou a opinião dos
profissionais de saúde relativamente à obrigatoriedade da vacinação, tendo-se
verificado que 96% dos participantes consideraram a medida importante para a
proteção de pacientes e profissionais e 72% consideraram que a forma de
aplicação mandatória era coerciva. Não foram estudados outcomes clínicos
relativos aos pacientes nem os custos associados à intervenção.
Verifica-se, assim, que a implementação da vacinação obrigatória dos
profissionais de saúde contra o vírus Influenza conduz a um aumento da taxa de
vacinação neste grupo mas não foram estudados os benefícios clínicos associados
a esta medida. São necessários estudos prospetivos e multicêntricos que avaliem
outcomes eminentemente clínicos para que se possam tomar decisões informadas
relativamente às vantagens desta intervenção.
COMENTÁRIO
A primeira vacina contra o vírus Influenza começou a ser produzida em 1938, mas
aplicada em larga escala à população americana apenas em 1979, para prevenção
da gripe Suína.1 Na procura de evidência sobre a eficácia e efetividade da
vacinação, uma revisão sistemática de 2012 identificou e analisou 17 ensaios
clínicos randomizados e aleatorizados e 14 estudos observacionais que
englobavam estes outcomes em casos de gripe comprovados laboratorialmente.
Nestes casos, que raramente fazem parte da prática clínica, a eficácia da
vacinação apenas provou ser moderada, sendo drasticamente reduzida ou mesmo
ausente em algumas estações do ano. Os mesmos autores identificaram que em
adultos acima dos 65 anos a evidência escasseia.2
Quando se analisa o racional de vacinar profissionais de saúde surgem
argumentos como prevenção da doença e consequente diminuição do absentismo
laboral, mas também prevenção do contágio a doentes. Como fica claro no resumo
da revisão sistemática, os dados relativos a este grupo de risco foram
inconclusivos.
Contudo, a ausência de estudos e a incerteza quanto à eficácia da vacinação
destoam do atual panorama normativo internacional e nacional que insiste em
recomendar a vacina a grupos de risco, nomeadamente a profissionais de saúde.3-
4 De forma ainda mais incompreensível, assiste-se já em alguns países a uma
crescente pressão no intuito de aumentar a taxa de cobertura vacinal5-8 através
da vacinação laboral mandatória ou fortemente recomendada.
Devemos, por isso, investir na procura e na divulgação de conhecimento
científico robusto e de qualidade e alertar para a fragilidade de fundamentação
de algumas normas de orientação e guidelines.