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Representação em texto

EuPTCVHe2182-51732015000100005

variedadeEu
ano2015
fonteScielo

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Herpes zoster em crianças saudáveis: o rosto inocente da controvérsia

Introdução O herpes zoster (HZ), popularmente designado de zona, é causado pela reativação do vírus varicella-zoster (VVZ). O VVZ tem a capacidade de infetar o ser humano e causar duas patologias distintas: a varicela, que é a infeção primária e ocorre habitualmente na infância, benigna e altamente contagiosa, com taxas de transmissão aos contactos suscetíveis de 61 - 100%;1 e o HZ, que é o resultado da reativação do vírus latente nos gânglios sensoriais após a infeção primária.2 Este manifesta-se sob a forma de um exantema vesicular distribuído segundo o dermátomo sensorial atingido.2-3 Segundo dados do Inquérito Serológico Nacional (Portugal Continental), cerca de 95% dos portugueses possuem anticorpos contra o VVZ.4 Qualquer pessoa com história prévia de varicela está em risco de desenvolver HZ. A incidência aumenta com a idade, sendo rara a sua aquisição precoce na infância.2 Devido à raridade desta patologia em idade pediátrica, descrevemos o caso clínico de HZ numa criança de nove anos, previamente saudável, discutindo fatores de risco, diagnósticos diferenciais e as controvérsias quanto à conduta terapêutica adequada para a população infantil.

Descrição do caso G. é uma criança de nove anos do sexo masculino, caucasiana, natural e residente em Braga, a frequentar o ano com bom aproveitamento escolar, primeiro numa fratria de dois. Pertence a uma família nuclear na fase IV do ciclo de Duvall e encontra-se no terceiro nível da classificação de Graffar. É trazido pela mãe a uma consulta de doença aguda tendo sido observado pelo seu médico de família na Unidade de Saúde Familiar a que pertence. A mãe relata que a criança apresenta queixas álgicas no membro superior direito com sete dias de evolução e que notou o aparecimento quatro dias de várias crostas pruriginosas na zona de dor. A dor é descrita como sendo em queimadura.

A criança é fruto de uma gravidez de baixo risco, sem intercorrências, vigiada nos Cuidados de Saúde Primários, com parto eutócico às 39 semanas, em meio hospitalar. A criança é seguida em consulta de vigilância infantil com desenvolvimento estaturoponderal e psicomotor adequado para a sua idade. O calendário do Programa Nacional de Vacinação (PNV) encontra-se atualizado, sem registo de qualquer vacina extraplano. Como antecedentes pessoais destaca-se episódio de varicela aos nove meses de idade e surtos esporádicos de herpes labial. Os antecedentes familiares são irrelevantes para o caso que se apresenta.

Ao exame físico apresentava-se com bom estado geral, apirético e com lesões maculopapulares e vesiculares de base eritematosa bem definidas, pruriginosas, localizadas no ombro direito e distribuídas ao longo da axila e região antero- inferior do braço ipsilateral, correspondente ao dermátomo T1 (Figuras_1 e 2).

Pela elevada suspeição clínica, diagnosticou-se HZ afetando o dermátomo T1 à direita. Foi medicado com analgésico (paracetamol 10mg/kg/dia em SOS) e aciclovir (80mg/kg/dia) por via oral (suspensão oral de 80mg/ml) durante sete dias.

Seguimento do caso clínico Nas três semanas que se seguiram à consulta foram realizados contactos por via telefónica com a mãe para acompanhar a evolução clínica da criança. Esta relatou que apenas necessitou de administrar o analgésico durante cinco dias por resolução do quadro álgico. As lesões cutâneas despareceram gradualmente e três semanas após a consulta não eram visíveis. A mãe confessou que ao sétimo dia de tratamento antiviral dirigiu-se a um pediatra, em regime privado. Este confirmou o diagnóstico e a benignidade da doença, assegurou que as lesões se encontravam em fase de resolução e manteve o plano terapêutico definido inicialmente pelo médico de família.

A criança foi posteriormente observada na consulta de vigilância dos dez anos, cerca de cinco meses após o desaparecimento do exantema, apresentando apenas diminutas manchas hipopigmentadas cicatriciais.

Comentários O HZ é raro na infância. Vários estudos apontam para uma incidência que varia de 0,2 a 0,74 casos por 1.000 pessoas/ano em crianças com menos de dez anos, comparativamente a 4,5 casos por 1.000 pessoas/ano em adultos acima dos 75 anos.3,5 A incidência da doença, no entanto, poderá estar subestimada dado o curso benigno e autolimitado desta patologia em crianças saudáveis.

Condições que diminuem a imunidade celular e humoral podem levar ao desenvolvimento de HZ como manifestação secundária.3 Nos lactentes e crianças imunocompetentes deve-se sobretudo a imaturidade imunológica e interferência do sistema imunitário do lactente com os anticorpos maternos, nos casos de varicela na grávida,3 condicionando o aparecimento de varicela subclínica em cerca de 2% dos lactentes.3 Este facto determina que, perante um exantema vesicular com alto grau de suspeição, a ausência de história prévia de varicela não é impeditivo de diagnóstico de HZ. A infeção por VVZ durante a gestação e no primeiro ano de vida é então o fator de risco mais frequente para o aparecimento de HZ em idade pediátrica, como ocorreu no caso clínico descrito.3 O HZ na criança é geralmente benigno, bem tolerado e autolimitado. Afeta menos os pares cranianos e raramente cursa com nevralgia pós herpética.3,6- 7 Clinicamente, quando ocorre reativação do VVZ no gânglio sensorial do dermátomo afetado disseminação do vírus ao longo do nervo sensitivo até à superfície cutânea, causando a dor prodrómica. Surgem posteriormente pequenas pápulas, que aumentam de tamanho formando vesículas. Estas tornam-se pustulares e ulceram, com o desenvolvimento de crostas após sete a dez dias. O exantema geralmente regride ao fim de três semanas.8 Pode ser acompanhado de febre, prurido, irritabilidade, mal-estar geral, hipersensibilidade local, sensação de queimadura e adenopatias regionais. Os dermátomos mais atingidos são os da região torácica, cervical, lombar e craniano, como aconteceu no caso descrito.3,6 O HZ oftálmico, com envolvimento do nervo trigémio, pode causar dor grave e complicar com lesão do nervo, inflamação crónica ou infeção viral direta (cerebelite ou encefalite), sendo critério para referenciação e tratamento a nível hospitalar.3,7 As complicações mais frequentes são a sobreinfeção bacteriana e a hipopigmentação cicatricial.3,9 O diagnóstico geralmente é clínico. Em casos duvidosos, com apresentação atípica (e.g., mielite), como doença disseminada, envolvimento de mais de dois dermátomos, sobreinfeção bacteriana significativa da face e com exantema moderado a severo, deve referenciar-se para os cuidados hospitalares para diagnóstico diferencial (impetigo bolhoso ou infeção por herpes simples) e terapêutica antiviral endovenosa.3,10 O diagnóstico laboratorial é facilitado pela presença do vírus nas vesículas, que também confere o único risco de transmissão interpessoal conhecido do vírus durante a infeção secundária, quando manipulados sem os cuidados de assepsia necessários.

Devido ao percurso benigno da doença, alguns autores defendem que a terapêutica antiviral, em crianças saudáveis, deve limitar-se a situações específicas,3,6 nomeadamente os casos que cursam com exantema moderado a grave, dor intensa ou envolvimento dos pares cranianos.3,7 Outros defendem que os antivirais reduzem a formação de novas vesículas, a duração da doença e o aparecimento de complicações, existindo benefício para todos os doentes, independentemente da fase em que é iniciado.10 Em idade pediátrica, o único antiviral utilizado é o aciclovir, que em ambulatório deve ser administrado na dose de 80mg/kg/dia (cinco tomas diárias com 4 horas de intervalo, sem a toma noturna) durante sete dias ou até dois dias após o aparecimento de novas lesões.3,6,9 Em relação ao caso descrito, a decisão pela terapêutica antiviral poderia ser questionada. O exantema moderado pode justificar a sua introdução. Contudo, a tomada de decisão conjunta, devidamente fundamentada, entre o médico, os pais e o doente foi decisiva para a sua administração. Foram alertados para os possíveis efeitos adversos e dos benefícios clínicos modestos nesta fase e forma de apresentação de HZ. Ainda que reforçado o curso autolimitado e benigno da doença, os pais optaram pela terapêutica antiviral. Pese embora alguma ansiedade por parte dos progenitores, a evolução clínica da criança ocorreu na sua forma previsível.

Embora neoplasias ou infeção por VIH estejam associadas a HZ, o seu aparecimento na infância não implica a existência de uma imunodeficiência. Não é necessário realizar estudos imunológicos em crianças previamente saudáveis que tenham tido o primeiro episódio de HZ. Apenas se justifica caso haja recorrência da doença.3


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