Hipercalciúria e suplementação com vitamina D
CARTA À DIRECTORA
Hipercalciúria e suplementação com vitamina D
Hypercalciuria and vitamin D supplementation
Eduarda Resende*
*Médica Interna de Endocrinologia, Hospital Central do Funchal
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Excelentíssima Senhora Diretora da Revista Portuguesa de Medicina Geral e
Familiar:
O artigo “Cálcio a mais? Riscos da suplementação com cálcio e vitamina D na
pós-menopausa”, publicado no Clube de Leitura do volume 30, nº 4 (2014) da
Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, fala sobre os riscos da
suplementação com cálcio e vitamina D, nomeadamente no que diz respeito à
ocorrência de hipercalcemia e/ou hipercalciúria. Neste estudo, cujo objetivo
era avaliar a hipercalcemia e/ou hipercalciúria em doentes tratadas com
suplementação de cálcio e diferentes doses de vitamina D, concluiu-se que estes
parâmetros não parecem estar dependentes da dose de vitamina D ou dos seus
níveis séricos, mas com a suplementação isolada de cálcio ou associada à
vitamina D.
Neste âmbito, existe um estudo1 que sugere que a suplementação com cálcio sem
adição de vitamina D em mulheres saudáveis pós-menopáusicas não resultava num
aumento da excreção urinária de cálcio; no entanto, a suplementação conjunta de
cálcio e de vitamina D causava um aumento significativo dos níveis de cálcio
urinário, embora sem aumento do risco de nefrolitíase.
Para fomentar a discussão refere-se o caso de uma doente de 53 anos, sexo
feminino, que foi enviada a uma consulta de Endocrinologia por apresentar numa
ecografia cervical um nódulo sugestivo de ser um adenoma da paratiróide. Como
antecedentes relevantes tinha: menopausa há cerca de 3 anos e redução da
densidade mineral óssea a nível da coluna lombar (T score de -2,0). Estava
medicada com colecalciferol (8 gotas diárias - 5336UI/dia), sem suplementação
com cálcio. Desconhecia litíase renal e não tinha qualquer estudo pedido a
nível do metabolismo do cálcio e da vitamina D (apesar de estar medicada com
colecalciferol). Foi pedido estudo analítico que revelou uma função renal
normal, cálcio sérico de 9,30 mg/dl (8,9 - 10,30), fósforo sérico de 3,19 mg/dl
(2,40-4,70), PTH de 25,3 pg/ml (15-88), vitamina D de 47 ng/ml e calciúria das
24h aumentada: 429,60 mg/24h (<250).
Perante estas análises excluiu-se a hipótese de hiperparatiroidismo primário;
no entanto, verificou-se que esta doente, apesar de normocalcémica, tinha
hipercalciúria, o que a colocava em risco de vir a desenvolver nefrolitíase,
pelo que foi reduzida a administração de vitamina D (estava com doses
superiores à dose máxima recomendada diária) e foi instituída uma dieta
hipossalina e com restrição proteica. De realçar que esta doente tinha
hipercalciúria com suplementação isolada de vitamina D.
Existe discordância quanto à questão se a suplementação com vitamina D induz ou
exacerba a hipercalciúria.2 No estudo já citado1 sugere-se que uma dieta rica
em sal e proteínas em mulheres pós-menopáusicas poderá ser prejudicial no
metabolismo do cálcio em pessoas com um determinado genótipo de recetor de
vitamina D. Outro estudo3 apoia esta hipótese, evidenciando que o tratamento
com vitamina D, mesmo em altas doses, não desencadeia hipercalciúria a não ser
que estejam presentes outros fatores na dieta.
A hipercalciúria idiopática manifesta-se por um aumento global do turnover do
cálcio, com aumento da sua absorção intestinal, diminuição da sua reabsorção
renal e uma tendência para aumento da sua reabsorção óssea, com níveis de
cálcio sérico frequentemente normais; um aumento da resposta tecidular aos
efeitos da vitamina D poderá ser responsável por estas manifestações,4 pelo
menos em alguns doentes - o que nos leva a questionar se não será o caso desta
doente.
Por outro lado, é também importante referir que esta doente não tinha mais de
65 anos; no entanto, estava na pós-menopausa e na densitometria óssea
apresentava osteopenia da coluna lombar. É conhecido que uma das medidas mais
importantes na prevenção da osteoporose é o aporte adequado de cálcio e de
vitamina D (os níveis séricos de vitamina D são considerados suficientes quando
acima de 30 ng/ml). É importante realçar que nesta doente foi instituída
terapêutica com colecalciferol sem serem avaliados previamente os níveis
séricos de vitamina D.
Também os efeitos pleiotrópicos da vitamina D são cada vez mais enfatizados,
estando a deficiência de vitamina D implicada no desenvolvimento de doenças
cardiovasculares, hipertensão, neoplasias, diabetes, demência, esclerose
múltipla, entre outras patologias, o que demonstra o papel crucial desta
vitamina na manutenção da saúde. No entanto, o rastreio de deficiência de
vitamina D só se revelou custo-efetivo em algumas populações específicas -
mulheres na pós-menopausa, idosos, institucionalizados e grávidas.5
Assim, embora a suplementação generalizada com vitamina D possa parecer inócua,
é importante relembrar que também poderá ter os seus riscos e que deve ser
administrada criteriosamente a doentes com uma avaliação prévia do metabolismo
fosfocálcico, como está descrito no artigo comentado.