Prescrição de psicofármacos nos cuidados de saúde primários no Porto: estudo
transversal
Introdução
O padrão de prescrição de psicofármacos tem vindo a mudar. Questiona-se se o
seu uso quase exclusivo na doença mental moderada a grave progrediu para um uso
generalizado, quiçá imponderado, sobre qualquer manifestação de sofrimento
psíquico.1 Torna-se, pois, relevante estudar as condicionantes da prescrição
destes fármacos.
A variabilidade da prescrição médica na área da psicofarmacologia tem sido
estudada em vários países.2-6 A sua adequação tem sido repetidamente
questionada e em múltiplos locais foram identificados problemas com impacto
negativo na saúde pública, como: uso de benzodiazepinas como tratamento
crónico, prescrição variável de sedativos consoante o tipo de organização da
unidade de saúde, prescrição excessiva de benzodiazepinas, deficiente
diagnóstico e tratamento da depressão.2,7-11
Em 2010, Portugal foi reconhecido como o segundo país do mundo mais consumidor
de benzodiazepinas ansiolíticas.12 Nos últimos dez anos foram realizados
diferentes trabalhos de investigação sobre a utilização de medicamentos em
Portugal que permitiram identificar um aumento genérico do consumo de
medicamentos na área da patologia mental (benzodiazepinas, antidepressivos e
neurolépticos). Vários fatores parecem justificar esta tendência: maior
acessibilidade dos doentes às terapêuticas por maior comparticipação no custo
das mesmas, desvio da prescrição para alternativas mais recentes e dispendiosas
sem benefício clínico evidente e excessiva prescrição (nomeadamente em relação
às benzodiazepinas) com afastamento das metas estabelecidas no Plano Nacional
de Saúde 2004-2010.13
Os médicos de família são os principais prescritores de psicofármacos.2 Pelo
disposto, torna-se relevante a caracterização da prescrição de psicofármacos a
nível dos cuidados de saúde primários (CSP), nomeadamente utilizando as
ferramentas informáticas disponíveis. O sistema de prescrição eletrónica, em
uso crescente desde 2005 e atualmente generalizado, permite agora um acesso
facilitado à prescrição médica. O Sistema de Informação da Administração
Regional de Saúde (SIARS, Microstrategy 9) centraliza dados provenientes de
vários sistemas de informação, incluindo o Sistema de Apoio ao Médico (SAM) e o
Sistema de Informação para as Unidades de Saúde (SINUS). Dada a recente criação
dos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACeS) e do uso do SIARS a este nível, é
importante compreender como pode ser analisada e utilizada a informação que
disponibiliza para os profissionais e instituições envolvidas.
A maior parte dos psicofármacos prescritos pertence aos grupos do prontuário
terapêutico Antidepressivos (AD) e Ansiolíticos, Sedativos e Hipnóticos (ASH).2
Um estudo português identificou a fluoxetina e o alprazolam como os fármacos
mais prescritos de cada um destes grupos.14
A prescrição é influenciada não só por fatores clínicos, mas também por fatores
não clínicos (características intrínsecas do sistema de saúde e do médico e
características demográficas, sociais e económicas da população).2
Pretende-se analisar a prescrição de psicofármacos no ACeS Porto Ocidental,
durante o ano de 2009, destacando a de alprazolam e fluoxetina, utilizando o
SIARS, estudando as características disponíveis no sistema acerca da unidade,
do médico ou dos utentes que a possam influenciar.
Métodos
Realizou-se um estudo observacional, analítico, transversal, sobre a prescrição
de psicofármacos nas unidades de saúde (US) do ACeS Porto Ocidental, com foco
em dois grupos: antidepressivos e ansiolíticos, hipnóticos e sedativos. Da
população em estudo - todos os médicos de família do ACeS em atividade
profissional entre 1 de janeiro e 31 de dezembro de 2009 - foram excluídos os
que se aposentaram ou que não prescreviam eletronicamente (n=3).
A operacionalização de cada variável resultou de um compromisso entre os dados
passíveis de obter no SIARS e os indicadores descritos na literatura, que
permitem a comparação com outros estudos nacionais e internacionais.15-18
Caracterização da prescrição
As variáveis que caracterizam a prescrição envolvem medidas de volume (número
de embalagens, número de comprimidos/cápsulas, número de doses diárias
definidas - DDD), de custo e de qualidade (percentagem de embalagens de 60
comprimidos, percentagem do número de DDD de fluoxetina não genéricas). Por
simplificação, adiante utilizar-se-á a denominação “número de comprimidos”,
mesmo que aplicada a fármacos comercializados sob a forma de cápsulas.
Volume
As medidas de volume utilizadas (número de embalagens, número de comprimidos,
número de DDD) estão descritas nas Guidelines for ATC Classification and DDD
Assignment do WHO Collaborating Centre for Drug Statistics Methodology.18 O
SIARS disponibiliza informação relativa ao número de embalagens prescrito.
Através da informação sobre a composição de cada embalagem, é possível
determinar manualmente o número de comprimidos prescrito. No entanto, a
variedade existente de doses e tamanhos de embalagens para cada substância
ativa limita o uso destas medidas na comparação da prescrição. Só ao nível das
substâncias ativas mais prescritas (alprazolam e fluoxetina) é que foi obtida a
medida recomendada pela Organização Mundial de Saúde, o número de DDD
prescrito.18 A DDD representa a dose de manutenção diária média de adultos para
a principal indicação da substância ativa, por via de administração. A DDD
descrita, para a via oral, para as substâncias ativas estudadas é de 20mg para
a fluoxetina e de 1mg para o alprazolam. Através do número de comprimidos e da
dose de cada embalagem foi possível calcular o número de DDD prescrito. Este
parâmetro permite comparações entre populações, independentemente das
diferenças de preço, moeda, tamanhos de embalagem e dosagens, que variam de
país para país.
A medida “número de DDD/1.000utentes/dia” (DUD) resulta de uma adaptação da
medida preconizada “número de DDD/1.000habitantes/dia” (DID).17 É obtida a
partir do número de DDD prescritas e do número de utentes de cada médico,
segundo a fórmula:
DUD = número de DDD/número de utentes x 1.000/365
Por exemplo, um médico que prescreva 12.410 DDD de alprazolam por ano (que
podem corresponder a 12.410 comprimidos de 1mg de alprazolam ou a 24.820
comprimidos de 0,5mg de alprazolam, etc.), a uma lista de 1.700 utentes,
prescreve 20 DUD. Este número significa, em estimativa, que 20 em cada 1.000
utentes do médico estiveram em tratamento com alprazolam durante o ano. A DUD
que prescreveu é então comparável à DUD prescrita por outros médicos de
Portugal e outros países.
Custo
As variáveis de custo foram definidas de acordo com as recomendações do projeto
EUROMEDSTAT (Statistics on Medicines in Europe).17 O SIARS disponibiliza dados
sobre o Preço de Venda ao Público (PVP) e sobre o custo para o SNS (Serviço
Nacional de Saúde) de cada embalagem prescrita. Estes dados foram trabalhados
de acordo com o número de DDD a que correspondem.
Possíveis determinantes
Sabendo-se que a prescrição médica é influenciada por fatores não clínicos,
neste estudo pretende-se analisar a relação entre as características da unidade
de saúde, médico e população e a prescrição.
Espera-se que a prescrição seja influenciada pelo número de utentes inscritos e
pela estrutura etária da população, sendo que esta aumenta com o aumento da
idade, tendo em conta os utentes que efetivamente utilizaram os serviços em
2009 (através da taxa de utilização de consultas de cada unidade).7,23 O número
de Unidades Ponderadas (UP) da lista de um médico pode ter implicações na sua
carga assistencial, qualidade de cuidados e prescrição. As patologias inerentes
à prescrição dos dois subgrupos de psicofármacos em estudo revelam-se mais na
população feminina, o que justificará uma eventual relação entre o número de
utentes do sexo feminino de uma unidade e o número de prescrições.21 Sabe-se
também que a depressão é mais frequente em populações com comorbilidades, tendo
sido analisados o número de diabéticos e o número de pessoas isentas de taxas
moderadoras por declaração médica definitiva.7 É ainda reconhecido que a
prevalência de doenças psiquiátricas é superior em populações com carências
económicas, motivo pelo qual foi avaliado o número de doentes isentos de taxa
moderadora por motivos económicos.7 Uma unidade de saúde que tenha muitos
utentes sem médico de família atribuído poderá prestar cuidados menos
personalizados e contínuos, o que poderá influenciar a prescrição.2 A idade e o
género dos prescritores têm sido implicados nos comportamentos de prescrição.23
Recolha dos dados
Utilizaram-se dados secundários anonimizados retirados do SIARS, sob
autorização da direção do ACeS. O programa permite que cada prescritor seja
apresentado primariamente por um código, sem o seu nome associado. A idade e o
género de cada médico foram fornecidos pelo ACeS, a partir da lista de códigos
de cada prescritor. Os dados foram selecionados, compilados e trabalhados no
programa Microsoft Office Excel 2007©.
Análise Estatística
A análise estatística foi realizada com recurso ao software EpiInfoTM, versão
3.5.1. A análise univariável foi utilizada para medidas descritivas (frequência
absoluta, frequência relativa, média, desvio-padrão (DP), mínimo (Mín) e máximo
(Máx)).
A análise bivariável foi efetuada para testar as associações entre variáveis de
diferentes tipos. Entre variáveis qualitativas nominais, como o género e o tipo
de unidade, foi utilizado o teste do qui-quadrado. Entre variáveis
quantitativas contínuas e qualitativas, como o número de DDD e o tipo de
unidade, foi utilizado o teste não paramétrico de Kruskal-Wallis, uma vez que o
pressuposto da normalidade não estava cumprido para todas as variáveis
quantitativas. A relação entre variáveis quantitativas foi testada através da
correlação de Spearman. O nível de significância foi estabelecido em 0,05.
O protocolo do estudo foi aprovado pela Comissão de Ética para a Saúde da
Administração Regional de Saúde do Norte.
Resultados
A população de prescritores em estudo é composta por 95 médicos de família, com
idade mediana de 55 anos, sendo 72% do género feminino. Cerca de 70% trabalham
em oito Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) e os restantes em
quatro Unidades de Saúde Familiar (USF), sendo responsáveis por 193.795
utentes. O número médio de utentes por médico é de 1.684 e varia entre 1.102 e
2.167.
As unidades de saúde são distintas na dimensão (dois a 13 médicos por unidade),
na percentagem de utentes sem médico (0 a 36%), na taxa de utilização (37% a
66%) e na percentagem de consultas pelo próprio médico (67% a 92%). Cada
unidade tem também diferente percentagem de utentes com diabetes e com isenção,
indicadores de morbilidade populacional.
Em 2009, os psicofármacos corresponderam a 14,3% das embalagens e a 8,4% dos
custos totais de fármacos prescritos no ACeS.
No grupo dos antidepressivos (21% das embalagens e 51% dos custos), os
inibidores seletivos da recaptação da serotonina representam 59% da prescrição
e a fluoxetina é o fármaco mais prescrito (cerca de 20% de todos os AD).
No grupo dos ansiolíticos, sedativos e hipnóticos (74% das embalagens e 33% dos
custos), as benzodiazepinas compõem 90% da prescrição, sendo o alprazolam o
fármaco mais prescrito (cerca de 24% de todos os ASH).
A DUD média de alprazolam prescrita foi de 19,74 DDD/1.000utentes/dia. O grupo
dos mais prescritores (acima do percentil 95) prescreve cerca de 4,6 vezes mais
do que os menos prescritores (abaixo do percentil 5). A razão entre o maior e o
menor prescritor é de 12. Todos os médicos prescrevem predominantemente
embalagens de 60 comprimidos de alprazolam (Mín 57%, Média 83%, DP 10%) e
alguns não prescrevem embalagens nem de 20 nem de 40 comprimidos.
Ao agrupar a prescrição de alprazolam por US na qual trabalha cada prescritor
verifica-se uma variabilidade intra-unidade de saúde, demonstrada pelo efeito
gráfico em escada (Figura_1). A razão entre a unidade de saúde mais prescritora
e a menos prescritora é de 2,3.
A prescrição média de fluoxetina foi de 9,18 DUD. Os mais prescritores
prescrevem cerca de 4,7 vezes mais do que os menos prescritores. Alguns médicos
só prescrevem genéricos, mas em média 27% do número de DDD de fluoxetina provêm
de medicamentos não genéricos, o que faz variar o preço diário do tratamento de
0,28€ até 0,42€ consoante a escolha do médico/pedido do utente (Quadro_III).
Verifica-se o mesmo efeito em escada na prescrição de fluoxetina, dentro de
cada unidade (Figura_2). A razão entre a unidade mais prescritora e a menos
prescritora é de 2,2.
A correlação de Spearman foi aplicada para determinar as relações entre a
prescrição de psicofármacos e o tamanho da lista, a sua ponderação, a
percentagem de mulheres.
Na análise de Spearman verificou-se uma associação fraca mas significativa
entre o número de DDD de fluoxetina prescritas e o número de unidades
ponderadas (rs=0,218, p=0,034) e o número de utentes mulheres (rs=0,232,
p=0,018) da lista. No entanto, o número diário de DDD/1.000 utentes não manteve
esta associação significativa com o número de utentes de cada lista.
O número de DDD e o número diário de DDD/1.000 utentes de alprazolam prescritas
não demonstrou associações significativas.
A relação entre a prescrição de alprazolam e a prescrição de fluoxetina também
foi testada com a correlação de Spearman. Verificou-se uma relação positiva
entre as duas variáveis que foi estatisticamente significativa (rs=0,500,
p=0,01).
Discussão
Este estudo de prescrição de psicofármacos nos cuidados de saúde primários,
realizado numa área urbana de Portugal, revela grande variabilidade na
prescrição de alprazolam e fluoxetina entre médicos de família e entre unidades
de saúde. A análise das características dos médicos prescritores, utentes e US
não permitiu compreender o que condiciona estas diferenças.
O estudo revela ainda que os psicofármacos mais prescritos são a fluoxetina e o
alprazolam, resultados que coincidem com os descritos na literatura nacional.13
Na literatura internacional analisada verifica-se que os AD mais prescritos
também pertencem ao grupo dos inibidores seletivos da recaptação da serotonina
e são a sertralina (Austrália, Lituânia), paroxetina (Canadá, Espanha) e a
fluoxetina (Chile).3,5-6,24 Noutros países, as benzodiazepinas mais prescritas
são o diazepam (Sérvia e Montenegro, Austrália) e o lorazepam (Canadá).25-26
Pouco se pode inferir acerca da qualidade da prescrição a nível populacional
sem informações sobre o motivo da prescrição e a prevalência da(s) doença(s)
associada(s).15 A codificação de diagnósticos no SAM não ocorre ainda de modo
uniforme, pelo que não se pode relacionar a prescrição de fármacos com a
prevalência de patologias baseada na codificação.
A DUD média de alprazolam prescrita no ACeS em 2009 (19,74) aproxima-se da DID
dispensada a nível nacional em 2001 (20,52), apesar dos diferentes
denominadores populacionais.10 Isto parece indicar que a metodologia de
utilização do SIARS definida neste estudo para a obtenção das DUD é apropriada.
Apesar de semelhante à DID nacional, esta DUD média é de questionável adequação
clínica. Por um lado, porque Portugal foi alertado, já em 2004, pelo
International Narcotics Control Board para a necessidade de rever o sistema de
controlo de distribuição bem como as práticas de prescrição de benzodiazepinas
ansiolíticas, dado que mundialmente era já um dos maiores consumidores destas
(93,66 DID).9,12 Desde então, a tendência identificada agravou-se e os dados
mais recentes, do relatório de 2013, demonstram uma utilização de 117,98 DID de
benzodiazepinas ansiolíticas. Por outro, porque este estudo demonstra que a
prescrição de embalagens de 60 comprimidos é predominante, o que pode indicar
uma prescrição destes fármacos tendencialmente para períodos de tempo mais
longos do que o máximo agora recomendado pela Norma.19-22
No SIARS estão também disponíveis dados acerca das embalagens dispensadas nas
farmácias, prescritas pelos médicos do ACeS em 2009, que demonstram ainda maior
percentagem de embalagens de 60 comprimidos adquiridas. A prescrição de
embalagens de 40 comprimidos, muitas com Autorização de Introdução no Mercado
mas ainda não disponíveis neste, induz ao fornecimento de embalagens de 60
comprimidos, de acordo com as regras de substituição de fármacos.
Não foram encontrados estudos portugueses publicados relativamente ao número de
DDD de fluoxetina prescrito/dispensado. Dos dados internacionais disponíveis,
um estudo australiano de 2005 reporta 6,08 DID de fluoxetina dispensadas, de um
total de 51,50 DID de antidepressivos prescritos.3 Num estudo espanhol de 2004
foram dispensadas 6,88 DID de fluoxetina e 43,5 DID de antidepressivos.24
Uma DUD média de fluoxetina prescrita de 9,18 DDD/1.000utentes/dia pode
exprimir, com algumas reservas, que quase 1% dos utentes de cada médico tomam 1
cápsula de fluoxetina de 20mg por dia ao longo do ano.10,16 Assumindo a
prevalência de depressão descrita para a Europa de 5%, em conjunto com o facto
de a fluoxetina corresponder a cerca de 1/5 das embalagens de todos os AD
prescritos, é possível que esta DUD média seja adequada, não indiciando sub nem
sobre tratamento da depressão.
As associações significativas verificadas entre o número de DDD de fluoxetina e
o número de utentes, de unidades ponderadas e de mulheres eram expectáveis: os
médicos com maiores listas terão mais utentes em tratamento. Já o número diário
de DDD/1.000 utentes de fluoxetina prescritas não manteve esta associação
significativa, o que indicaria uma maior tendência de prescrição dos médicos
com mais utentes.
Uma limitação deste estudo consiste na não avaliação de outros motivos que
possam alterar a prescrição por ausência programada do médico, podendo a DUD de
alprazolam e fluoxetina de alguns prescritores estar subestimada ou
sobrestimada. Isto poderá ser resolvido pela realização de uma análise da
assiduidade concomitante, capaz de identificar prescritores sujeitos a
circunstâncias excecionais.
A avaliação da prescrição e não da faturação dos fármacos pode sobrestimar a
real utilização dos mesmos pelos utentes, não sendo possível contabilizar com o
SIARS, por exemplo, receitas duplicadas ou não adesão ao tratamento. No
entanto, a avaliação da prescrição é um melhor indicador das decisões dos
prescritores. Poderá ter interesse caracterizar tanto a prescrição como a
faturação em estudos subsequentes.
As características das listas estudadas foram insuficientes para justificar a
diversidade de prescrição de alprazolam e fluoxetina entre médicos da mesma
unidade de saúde, o que salienta a importância da caracterização de variáveis
intrínsecas aos valores, crenças, atitudes, experiência e conhecimento dos
médicos. Estudos posteriores deverão também ter em conta esta dimensão.2
Os estudos farmacoepidemiológicos estão a adquirir cada vez maior dimensão e
importância em vários países, consequência da evolução e integração de bases de
dados.27 O potencial do SIARS para caracterizar, compreender e fundamentar
intervenções sobre a prescrição médica deve continuar a ser explorado e
melhorado. A necessidade de introdução manual do número de DDD correspondente a
cada dose e nome comercial da substância ativa, já que Portugal é um dos países
da Europa com elevada razão número de nomes comerciais/número de substâncias
ativas (11,67; mínimo europeu de 2,68), não permitiu o estudo de mais fármacos
neste estudo. Seria ideal reestruturar o SIARS de forma a possibilitar o acesso
às prescrições em número de DDD e não só ao número de embalagens.
É pertinente continuar a trabalhar os dados existentes para expandir esta
análise às restantes substâncias ativas das classes mais prescritas, o que
poderá fortalecer a discussão da adequação da prescrição e permitir uma
intervenção junto dos prescritores. Por exemplo, é considerado sinal de
prescrição inadequada o uso de muitas benzodiazepinas diferentes para
justificar 90% do número de DDD prescritas, doravante designada por DU 90%.16
Neste estudo, esta medida adaptada de modo grosseiro (baseada no número de
comprimidos prescritos e não no número de DDD) permite concluir que são
necessárias oito benzodiazepinas diferentes para justificar a prescrição de 90%
dos comprimidos. Esta diversidade de prescrição de benzodiazepinas para atingir
a DU 90% é sobreponível à do Canadá, onde também oito foram necessárias. Já na
Austrália, a DU 90% é atingida com quatro benzodiazepinas, talvez devido ao
reembolso de somente cinco tipos de benzodiazepinas.25 Noutros países, como a
Inglaterra, onde se utilizam formulários de prescrição, este parâmetro é também
mais baixo.
Concluindo, este estudo utiliza uma metodologia que explora o potencial do
SIARS como ferramenta de reflexão acerca da prescrição médica, agora acessível
à maioria dos médicos de família. A variabilidade encontrada intra e inter-
unidades de saúde de uma mesma área geográfica reforça a necessidade de adaptar
o SIARS à unidade padronizada internacionalmente, o número de DDD, de forma a
permitir comparações consequentes e identificar eventuais necessidades de
formação.
O consumo de benzodiazepinas em Portugal tem aumentado e mantém-se dos mais
elevados a nível mundial, sendo provavelmente a sua prescrição excessiva e
inapropriada.