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Representação em texto

EuPTCVHe2182-51732014000300001

variedadeEu
ano2014
fonteScielo

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Papel social do pensamento crítico EDITORIAL Papel social do pensamento crítico Paula Broeiro* *Directora da Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar Endereço_para_correspondência | Dirección_para_correspondencia | Correspondence

É num olhar atento sobre a realidade profissional que nos surgem questões cujas respostas conduzem à atualização e à produção de conhecimento. O pensamento crítico, decorrente desse olhar atento, é complexo e ultrapassa a mera capacidade de analisar - inclui a compreensão de interações; a deteção de inconsistências; a resolução sistemática de problemas; a reflexão e a justificação de crenças e valores.1 Pressupõe, ainda, a reintegração da informação num todo, de preferência harmonioso. O pensamento crítico pode ajudar a construir conhecimento e a melhorar ou fortalecer argumentos.

quem afirme que ele dificulta a criatividade, porque integra regras da lógica e da racionalidade enquanto a criatividade exige atitude de rutura.1 Acredito que o pensamento crítico é compatível com o pensamento fora da caixa, o desafio do consenso e a discordância. É, por isso, essencial à criatividade, pois permite analisar, ponderar e melhorar as ideias criativas.

Este pensamento pode, ainda, ser descrito como o método científico aplicado ao quotidiano: identificação da questão, formulação de hipótese(s), pesquisa e adequação do modelo de resposta.2 Ao delinear as semelhanças entre o pensamento crítico e o método científico verifica-se que ambos são um processo de pensamento: intencional, aberto, rigoroso e de autocorreção. Neste pensar analítico e reflexivo se tem construído, criativamente, conhecimento.2 A ênfase na criatividade e contextualização afastam o pensamento da frieza da análise das evidências e apoia a construção do conhecimento num contexto social e cultural. Além disso, sugere a possibilidade de haver várias respostas e que o raciocínio e os processos de decisão clínica devem ser objeto de revisão cíclica.3 Diferentes olhares sobre a realidade geram diversidade e clarificam limites de intervenção no processo de prestação de cuidados. É no confronto de ideias com os outros que criamos espelho e identidade enquanto pessoas, profissionais e especialistas. As diferenças inerentes a cada médico, como as características pessoais (e.g., idade, género), a formação, a experiência profissional, a especialidade médica e o contexto de exercício influenciam a forma como se integra o conhecimento e, em consequência, como se decide. O raciocínio probabilístico influencia a decisão e justifica muitas vezes a diferente leitura da mesma realidade quando observada em contextos de exercício diferentes (e.g., Cuidados primários vs Cuidados secundários).4 Esta amplitude de variabilidade cria dificuldades à modelação do pensamento clínico.

Por mais que os teóricos humanistas do pensamento crítico enfatizem a subjetividade e a criatividade individual no pensamento, ele também está ligado a uma epistemologia construtivista. O contexto no qual o indivíduo pensa e constrói as suas formas de saber é social. O resultado desse pensamento e construção de saber não pode ser desligado dessa teia social em que se insere.

Nesta compreensão do pensamento e do conhecimento não verdade absoluta, mas várias verdades socialmente produzidas e co-criadas.3 A produção de conhecimento implica a sua divulgação e pressupõe a necessidade de interação e feedback, ficando assim explícito o seu papel social.

Das características essenciais ao pensamento crítico destacam-se: a capacidade de aplicar evidência com imparcialidade, a organização e coerência do pensamento, a compreensão da diferença entre raciocínio e racionalização e a aplicação de modelos criativos de resolução de problemas. Em Medicina Geral e Familiar, a aplicação de evidência requer soluções não lineares e, porque nem sempre se dispõe de evidência robusta (proveniente de ensaios clínicos, controlados e aleatorizados) e/ou orientada para o paciente, tem o médico que utilizar a melhor evidência disponível.5 Além do viés de informação referido, muitas das decisões médicas têm subjacentes vieses de estimativa probabilística, como o da disponibilidade (e.g., sobreapreciação de casos frequentes ou graves e o inverso).

Na sequência do pensar criticamente sobre a Orientação Técnica n.º 011/2013,6 os autores do artigo Suplementação de iodo na pré-conceção, gravidez e amamentação: a recomendação e a Medicina baseada na inferência7 explicitaram a sua reflexão. Com esta publicação foi criada uma discordância salutar que motivou a publicação, nesta revista, de uma carta à diretora. Sendo um tema tangencial a, pelo menos, duas especialidades médicas, estamos certos de que, nesta discussão e confronto com outros (pares ou pessoas de quem cuidamos), tomamos consciência dos limites do conhecimento.

Como sabemos, o raciocínio clínico e a decisão são complexos e dependem do problema de saúde (e.g., prevalência e gravidade), da qualidade da informação de que dispomos, das características de quem cuidamos, da ponderação do custo/ benefício da intervenção e, por último, mas não menos importante, das escolhas da(s) pessoa(s) de quem cuidamos.8 Em Medicina Geral e Familiar, este pensar, crítico e construtivo, que potencia a qualidade das decisões clínicas e a capacitação das pessoas de quem cuidamos, com consequentes ganhos em eficiência e satisfação, se consegue com tempo e disponibilidade para a reflexão.


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