Papel social do pensamento crítico
EDITORIAL
Papel social do pensamento crítico
Paula Broeiro*
*Directora da Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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É num olhar atento sobre a realidade profissional que nos surgem questões cujas
respostas conduzem à atualização e à produção de conhecimento. O pensamento
crítico, decorrente desse olhar atento, é complexo e ultrapassa a mera
capacidade de analisar - inclui a compreensão de interações; a deteção de
inconsistências; a resolução sistemática de problemas; a reflexão e a
justificação de crenças e valores.1 Pressupõe, ainda, a reintegração da
informação num todo, de preferência harmonioso. O pensamento crítico pode
ajudar a construir conhecimento e a melhorar ou fortalecer argumentos.
Há quem afirme que ele dificulta a criatividade, porque integra regras da
lógica e da racionalidade enquanto a criatividade exige atitude de rutura.1
Acredito que o pensamento crítico é compatível com o pensamento “fora da
caixa”, o desafio do consenso e a discordância. É, por isso, essencial à
criatividade, pois permite analisar, ponderar e melhorar as ideias criativas.
Este pensamento pode, ainda, ser descrito como o método científico aplicado ao
quotidiano: identificação da questão, formulação de hipótese(s), pesquisa e
adequação do modelo de resposta.2
Ao delinear as semelhanças entre o pensamento crítico e o método científico
verifica-se que ambos são um processo de pensamento: intencional, aberto,
rigoroso e de autocorreção. Neste pensar analítico e reflexivo se tem
construído, criativamente, conhecimento.2 A ênfase na criatividade e
contextualização afastam o pensamento da frieza da análise das evidências e
apoia a construção do conhecimento num contexto social e cultural. Além disso,
sugere a possibilidade de haver várias respostas e que o raciocínio e os
processos de decisão clínica devem ser objeto de revisão cíclica.3
Diferentes olhares sobre a realidade geram diversidade e clarificam limites de
intervenção no processo de prestação de cuidados. É no confronto de ideias com
os outros que criamos espelho e identidade enquanto pessoas, profissionais e
especialistas. As diferenças inerentes a cada médico, como as características
pessoais (e.g., idade, género), a formação, a experiência profissional, a
especialidade médica e o contexto de exercício influenciam a forma como se
integra o conhecimento e, em consequência, como se decide. O raciocínio
probabilístico influencia a decisão e justifica muitas vezes a diferente
leitura da mesma realidade quando observada em contextos de exercício
diferentes (e.g., Cuidados primários vs Cuidados secundários).4 Esta amplitude
de variabilidade cria dificuldades à modelação do pensamento clínico.
Por mais que os teóricos humanistas do pensamento crítico enfatizem a
subjetividade e a criatividade individual no pensamento, ele também está ligado
a uma epistemologia construtivista. O contexto no qual o indivíduo pensa e
constrói as suas formas de saber é social. O resultado desse pensamento e
construção de saber não pode ser desligado dessa teia social em que se insere.
Nesta compreensão do pensamento e do conhecimento não há verdade absoluta, mas
várias verdades socialmente produzidas e co-criadas.3 A produção de
conhecimento implica a sua divulgação e pressupõe a necessidade de interação e
feedback, ficando assim explícito o seu papel social.
Das características essenciais ao pensamento crítico destacam-se: a capacidade
de aplicar evidência com imparcialidade, a organização e coerência do
pensamento, a compreensão da diferença entre raciocínio e racionalização e a
aplicação de modelos criativos de resolução de problemas. Em Medicina Geral e
Familiar, a aplicação de evidência requer soluções não lineares e, porque nem
sempre se dispõe de evidência robusta (proveniente de ensaios clínicos,
controlados e aleatorizados) e/ou orientada para o paciente, tem o médico que
utilizar a melhor evidência disponível.5 Além do viés de informação referido,
muitas das decisões médicas têm subjacentes vieses de estimativa
probabilística, como o da disponibilidade (e.g., sobreapreciação de casos
frequentes ou graves e o inverso).
Na sequência do pensar criticamente sobre a Orientação Técnica n.º 011/2013,6
os autores do artigo Suplementação de iodo na pré-conceção, gravidez e
amamentação: a recomendação e a Medicina baseada na inferência7 explicitaram a
sua reflexão. Com esta publicação foi criada uma discordância salutar que
motivou a publicação, nesta revista, de uma carta à diretora. Sendo um tema
tangencial a, pelo menos, duas especialidades médicas, estamos certos de que,
nesta discussão e confronto com outros (pares ou pessoas de quem cuidamos),
tomamos consciência dos limites do conhecimento.
Como sabemos, o raciocínio clínico e a decisão são complexos e dependem do
problema de saúde (e.g., prevalência e gravidade), da qualidade da informação
de que dispomos, das características de quem cuidamos, da ponderação do custo/
benefício da intervenção e, por último, mas não menos importante, das escolhas
da(s) pessoa(s) de quem cuidamos.8
Em Medicina Geral e Familiar, este pensar, crítico e construtivo, que potencia
a qualidade das decisões clínicas e a capacitação das pessoas de quem cuidamos,
com consequentes ganhos em eficiência e satisfação, só se consegue com tempo e
disponibilidade para a reflexão.