Erradicação de Helicobacter pylori e probióticos...: Mito ou realidade?
CLUBE DE LEITURA
Erradicação de Helicobacter pylori e probióticos... Mito ou realidade?
Helicobacter pylori erradication and probiotics... Myth or reality?
Margarida Trovisqueira, Susana Moreira
Médicas Internas de Medicina Geral e Familiar, USF Arco do Prado, Gaia
Zheng X, Lyu L, Mei Z. Lactobacillus-containing probiotic supplementation
increases Helocobacter pylori eradication rate: Evidence from a meta-analysis.
Rev Esp Enferm Dig. 2013;105(8):445-53.
Introdução
A infecção por Helicobcter pylori (H. Pylori) está fortemente associada ao
desenvolvimento de gastrite crónica, podendo levar, também, a um aumento de
risco para adenocarcinoma gástrico e linfoma gástrico tipo MALT (mucosa-
associated lymphoid tissue). O seu rastreio está recomendado em indivíduos com
queixas gastrointestinais moderadas a severas, devendo ser implementado
tratamento nos casos confirmados de infecção. No entanto, o esquema terapêutico
convencional tem vindo a demonstrar taxas de erradicação insatisfatórias.
Actualmente, vários estudos têm vindo a sugerir que as espécies lactobacillus
possam ter uma acção inibitória da H.pylori.
Objectivo
Avaliar a eficácia dos esquemas terapêuticos suplementados com probióticos
contendo lactobacillus, a nível da taxa de erradicação da H. pylori e efeitos
laterais.
Métodos
Foi realizada uma pesquisa nas bases de dados bibliográficas (Pubmed, Embase,
Web of Science, The Cochrane Central Register of Controlled Trials, Google
Scholar e Chinese Biomedical Database) em Outubro de 2012. Foram incluídos
ensaios clínicos aleatorizados e controlados (ECAC) de elevada qualidade, tendo
em conta o método de avaliação dos doentes, o esquema terapêutico utilizado e o
sucesso da intervenção e efeitos laterais. Os dados foram extraídos por dois
avaliadores independentes.
Resultados
Cumpriram os critérios de elegibilidade nove ECAC de elevada qualidade. Segundo
estes, os probióticos contendo lactobacillus aumentaram significativamente a
taxa de erradicação comparativamente com o grupo controlo [Risco Relativo (RR)
1,14; Intervalo de Confiança (IC) 95% 1,06-1,22; Number Needed to Treat (NNT)
10], sem redução significativa dos efeitos laterais (RR 0,88; IC 95% 0,73-
1,06). Na análise por sub-grupos, constatou-se que as taxas de erradicação
aumentaram significativamente com o uso de formulações probióticas contendo
apenas lactobacillus (RR 1,25; IC 95% 1,13-1,37; NNT 6), em comparação com
esquemas terapêuticos com probióticos mistos (RR 1,04; IC 95% 0,94-1,14) ou com
o uso de esquemas terapêuticos de erradicação sequenciais (RR 1,01; IC 95%
0,92-1,14). Por fim, o uso de probióticos contendo lactobacillus foi eficaz
tanto em crianças como em indivíduos em idade adulta.
Conclusão
A evidência sugere que esquemas de erradicação da H. Pylori suplementados com
probióticos contendo lactobacillus estão associados a um aumento da taxa de
erradicação da bactéria, sem, no entanto, diminuírem a incidência de efeitos
laterais destes esquemas. Para além disso, existe ainda evidência clínica que
probióticos contendo apenas lactobacillus são uma escolha segura e eficaz.
COMENTÁRIO
A H.pylori infecta, aproximadamente, 60% da populaçã̃o mundial, sendo a
infecçã̃o gastrointestinal mais comum em todo o mundo. É substancialmente mais
frequente nos países em desenvolvimento do que nos desenvolvidos, facto
provavelmente relacionado com as diferentes condições higieno-sanitá́rias
existentes. Em Portugal, estima-se que cerca de 70% da populaçã̃o adulta se
encontre infectada, sendo, na grande maioria dos casos, a infecção adquirida na
infâ̂ncia.1 Embora nenhum consenso preconize o tratamento de forma
indiscriminada a todos os portadores da H.pylori, visto que a maioria dos
indivíduos são assintomáticos e com baixo risco de apresentar problemas
decorrentes da infecção, a erradicação é mandatória em determinadas situações
clínicas.
Pelo facto de se tratar de um agente de difícil erradicação, os esquemas
terapêuticos preconizados envolvem a associação de múltiplos fármacos. O
tratamento de primeira linha, recomendado pelo consenso de Maastricht, assenta
na associação de inibidor da bomba de protões (omeprazol 20 mg), amoxicilina (1
g) e claritromicina (500 mg) durante 7 a 14 dias.2 Ainda assim, as taxas de
erradicação rondam apenas os 70%, valor muito aquém do desejável.3 Têm sido
apontadas várias causas para a ineficácia do tratamento da H.pylori,
destacando-se o papel importante da resistência aos antibióticos. Com o
objectivo de aumentar o sucesso do tratamento de erradicação da H.pylori,
muitos estudos têm surgido com o intuito de demonstrar a eficácia da
suplementação com probióticos, nomeadamente aqueles que contêm lactobacillus. A
Organização Mundial de Saúde define probióticos como organismos vivos que,
quando administrados em quantidades adequadas, conferem benefício à saúde do
hospedeiro.4 Tendo em conta as suas características bactericidas, anti-
oxidantes e anti-inflamatórias, considera-se que o seu uso na Medicina Geral e
Familiar seja uma questão muito pertinente.
Nesse sentido, este artigo mostra-se muito interessante, uma vez que tenta
reunir estudos que recorreram ao uso desta suplementação para avaliar o efeito
a nível da melhoria da taxa de erradicação e diminuição de efeitos laterais que
possam surgir com o tratamento. Contudo, apesar da elevada qualidade dos
estudos utilizados, é necessário sublinhar que a metodologia adoptada pelos
mesmos foi distinta, recorrendo a probióticos, esquemas posológicos e doses
diferentes entre si e associadas a esquemas de erradicação não sobreponíveis.
Por outro lado, um estudo desenvolvido em 2013 comparou a eficácia da
terapêutica quádrupla com bismuto, associada a probiótico contendo
lactobacillus versus placebo, não tendo revelado aumento da eficácia da
erradicação da H.pylori ou diminuição dos efeitos adversos.5 Tendo em conta a
prevalência desta infecção e a importância que assume o sucesso do seu
tratamento, os últimos anos têm sido prolíficos no que respeita à pesquisa e
desenvolvimento de estudos nesta área. De facto, os probióticos que se têm
revelado mais benéficos são os lactobacillus, tendo a grande maioria dos
estudos incidido a sua atenção nos mesmos.6 No entanto, os resultados têm-se
mostrado muitas vezes divergentes e, assim, torna-se importante a realização de
mais estudos nesta área, com vista a aprofundar os conhecimentos no que diz
respeito à erradicação desta infecção tão prevalente, procurando estabelecer um
esquema terapêutico mais eficaz, recorrendo, eventualmente à suplementação com
probióticos.