30 anos de RPMGF como organização aprendente
EDITORIAL
30 anos de RPMGF como organização aprendente
Paula Broeiro*
*Directora da Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
Endereço_para_correspondência | Dirección_para_correspondencia | Correspondence
O processo de mudança do corpo editorial da Revista Portuguesa de Medicina
Geral e Familiar (RPMGF) em curso decorre como esperado numa organização
inteligente, em que a equipa que inicia aprende com as virtudes e os insucessos
do passado, numa espiral evolutiva. Este processo de transição fez-nos refletir
no quanto tem sido um exemplo de sucesso a organização RPMGF, acompanhando a
evolução do conhecimento médico e adaptando-se ao progresso tecnológico.
A RPMGF tem sido um instrumento técnico, transversal às sucessivas Direções da
APMGF, sensíveis à sua importância e a sua história fará justiça à da Medicina
Geral e Familiar (MGF) em Portugal. A RPMGF,1 designada Revista Portuguesa de
Clínica Geral (RPCG) até 2011, nem sempre foi como a conhecemos, com um Diretor
e um corpo editorial. Lembrar-se-ão, os mentores da revista nos seus
primórdios, das edições manuais de corte e cola e dos arcaicos computadores,
bem diferente do que é hoje o nosso presente, em que dispomos de um fórum e de
um gestor de artigos e prestes a ter um processo de submissão em linha, através
da plataforma Open Journal System! Este progresso teve sempre equipas de
obreiros anónimos que, voluntariamente, aceitaram essa missão. Aproveitando a
mudança da equipa editorial, coincidente com os seus 30 anos de existência,
faremos um balanço histórico.
A primeira diretora foi a Dr.ª Madalena Mourão, em 1984, seguindo-se o Dr.
Mário Moura, que exerceu esta função até 1999, beneficiando de ilustres
diretores adjuntos, como o Dr. Vítor Ramos e o Prof. Doutor Armando Brito de Sá
e de editores, como os Drs. Eduardo Mendes e José António Miranda.
A partir de 2000, a organização da então RPCG passou a ter uma estrutura
semelhante à atual, tendo sido o Prof. Doutor Vasco Maria o primeiro diretor
desta segunda fase. De seguida, os diretores Prof. Doutor Armando Brito de Sá,
o Prof. Doutor Jaime Correia de Sousa, o Dr. António Faria Vaz e, por último, a
Dr.ª Raquel Braga. Cada um trouxe uma energia muito pessoal que, com uma equipa
dinâmica, impulsionou visivelmente a revista. Lendo o primeiro e último
editoriais de cada um dos diretores, percebe-se o entusiasmo inicial, o sentido
de missão, o reconhecimento do dever cumprido e a consciência grata de se ter
enriquecido nesse trabalho coletivo. Mas quem verdadeiramente ganhou foi a
Medicina Geral e Familiar. Obrigada!
Num exercício reflexivo de pensar o futuro sobre o sucesso do passado, lemos o
papel de cada equipa editorial como o de atletas olímpicos que, transportando a
tocha à medida que o tempo passa, avançam e chegam mais longe e mais alto, por
terem ganho o caminho já percorrido pelos antecessores! Como todos os
percursos, nem sempre fáceis, as sucessivas "resilientes equipas"
ultrapassaram as tortuosidades do caminho traçado, encontrando-se a RPMGF
prestes a chegar ao destino almejado: a consolidação de indexação à MEDLINE.
Percurso iniciado pela equipa liderada pelo Prof. Doutor Jaime Correia de Sousa
e reiniciado pela equipa da Dr.ª Raquel Braga. Entre as duas submissões de
indexação à MEDLINE, a equipa do Dr. Faria Vaz, em 2009, conseguiu o primeiro
passo para a expansão internacional, com a indexação à plataforma latino-
americana SciELO.2
O que tem caracterizado o sucesso da revista, talvez seja o seu perfil de
organização aprendente. À luz dos conceitos subjacentes a uma organização
aprendente, refletimos o passado da RPMGF, alicerçado no qual se tem construído
o futuro.
Organizações aprendentes são aquelas onde as pessoas desenvolvem continuamente
a sua criatividade, novas ideias são alimentadas, a aspiração coletiva é
libertada e as pessoas aprendem continuamente umas com as outras.3 A ideia não
é inovadora, encontra-se presente na ideia de coletividade-como-indivíduo-
imortal, de Almada Negreiros: "A colectividade é também um indivíduo, um
indivíduo como qualquer outro, mas é o indivíduo colectivo, na verdade
colectivo e indivíduo. Com a vantagem sobre qualquer outro de não estar
sujeito, como nós, às vacilações de um organismo mortal."
À medida que o mundo se torna mais globalizado, as organizações tornam-se mais
complexas e dinâmicas, devendo o trabalho ser mais aprendente. As organizações
com futuro são as que descobrem como desenvolver a capacidade de aprender das
pessoas. As organizações que aprendem são constituídas por pessoas, em que os
objetivos comuns se sobrepõem aos individuais. Funcionam em conjunto, com
confiança mútua, complementando-se nos pontos fortes e compensando-se nas
limitações.3
A RPMGF, enquanto organização aprendente, terá beneficiado de: lideranças com
inteligência emocional capazes de construir equipas comprometidas com o sucesso
da organização e com a aprendizagem ao longo da vida?; uma estrutura e
pensamento sistémico vinculados pelo tecido invisível das interações pessoais,
em que cada um potencia o todo?; de equipas reflexivas capazes de expor o seu
pensamento e abertas à influência de outros?; de grandeza de ideias e
criatividade compartilhadas, criando uma identidade e sentido de destino
comum?; de "diálogo", como a capacidade de cada um suspender
suposições pessoais e aderir a um verdadeiro pensar em conjunto?
Sim. Seguramente que sim. Ser uma organização aprendente contribuiu para o
sucesso da RPMGF. Terão ainda contribuído a personalidade dos seus líderes, a
diversidade das equipas, a sua renovação cíclica e, com certeza, cada equipa
invisível, teve estrutura e pensamento sistémicos, com pessoas capazes de
interagir, potenciando-se e um verdadeiro pensar conjunto.
A RPMGF, 30 anos depois, consegue uma interação única com os seus leitores em
que o conhecimento expressado tem reflexo na prática e é a prática que gera o
conhecimento publicado, numa espiral reflexiva de conhecimento.4-5 Como foi
desejo expresso no primeiro editorial, a RPMGF não envelheceu precocemente e
foi adquirindo maturidade, sendo o eco do trabalho e da colaboração de todos os
médicos de família.6
Conseguiu, pois, transpor as características de organização aprendente para a
comunidade alargada dos seus revisores, autores e leitores, refletindo a
excelência do ser Médico de Família.