«Faça exercício!» - Seguirão os doentes com patologia osteoarticular esta
recomendação?
CLUBE DE LEITURA
«Faça exercício!» - Seguirão os doentes com patologia osteoarticular esta
recomendação?
Do our patients with arthritis follow our advice to exercise?
André F. Correia
Interno em formação específica de Medicina Geral e Familiar, UCSP Águeda V,
ACES Baixo Vouga
Austin S, Qu H, Shewchuk RM. Health care providers’ recommendations for
physical activity and adherence to physical activity guidelines among adults
with arthritis. Prev Chronic Dis 2013 Nov 7; 10: E182. Doi: 10.5888/
pcd.10.1300771
Introdução
A prática de actividade física tem demonstrado benefícios na redução da dor e
na melhoria da qualidade de vida em pessoas com patologia osteoarticular.
Nestas, está recomendada pelo Colégio Americano de Reumatologia (ACR) a prática
de actividade física de intensidade baixa a moderada durante 30 minutos, cinco
dias por semana. Contudo, nestas pessoas a inactividade física é prevalente. As
recomendações dos prestadores de cuidados de saúde são importantes na promoção
de alterações no estilo de vida, havendo vários estudos que o comprovam ao
nível de diabetes, perda de peso, cessação tabágica, entre outros. Porém, há
pouca informação disponível sobre a eficácia dessas recomendações no contexto
desta patologia.
Objectivos
Estudar a associação entre as recomendações feitas pelos profissionais de saúde
para a promoção da prática de actividade física e a adesão pelos doentes com
artrite a essas mesmas orientações. Objectivo secundário: estudar a influência
da idade nesta associação.
Métodos
Estudo retrospectivo, transversal, envolvendo uma amostra de 10 892 doentes com
diagnóstico de artrite, com 45 ou mais anos de idade, não institucionalizados,
contactados telefonicamente. Foram controladas as seguintes variáveis: idade,
género, etnia, grau de ensino, emprego, rendimentos anuais, obesidade,
limitações da actividade, número de comorbilidades, estado civil (casado ou
não), cobertura de cuidados de saúde, médico pessoal, região de residência –
categorizadas em variáveis dicotómicas, excepto idade e comorbilidades,
definidas como variáveis contínuas.
Foi usado um modelo de regressão logística múltipla para estudar a associação
entre as recomendações dos profissionais de saúde (variável dicotómica – sim/
não) e a adesão à prática de actividade física segundo as recomendações do ACR
(variável dicotómica – sim/não).
Resultados
Entre os indivíduos de toda a amostra, cuja média de idades era de 64,6 anos (±
10,7), 49% aderiram às guidelines de actividade física. Foi recomendada a
prática de actividade física a apenas 60% da amostra.
Após controlo das covariáveis, verificou-se que os adultos com artrite a quem
foi recomendada actividade física tiveram uma tendência maior em aderir a essas
orientações [Odds Ratio (OR) 1,22; Intervalo de confiança (IC) 95% 1,12-1,32),
comparativamente com os que não receberam essa recomendação. Desempregados
tendiam a ter significativamente maior adesão, enquanto indivíduos obesos,
menos saudáveis, com limitações funcionais ou com comorbilidades tendiam a
aderir menos. As restantes covariáveis não se revelaram preditoras
significativas desta associação.
Não se verificou a influência da idade na associação entre recomendações e
adesão à actividade física (OR 1,00; IC 95% 0,99-1,00).
Conclusões
As recomendações expressas dos prestadores de cuidados de saúde relativas à
realização de exercício físico estão associadas a uma melhor adesão ao mesmo,
entre os adultos com artrite, pelo que esta deve ser recomendada a esses
doentes.
COMENTÁRIO
Há décadas que se procura compreender melhor a relação entre o exercício físico
e a patologia osteoarticular. Apesar das crenças e teorias anteriormente
vigentes de que o exercício poderia ser causa ou factor agravante dessas
doenças, estas foram sendo postas em causa. Inclusive, num passado mais
distante, algumas publicações preteriram a imobilização e reconsideraram o
exercício como uma modalidade terapêutica para pacientes com artrite.2,3
Este estudo faz questão de reforçar os benefícios do exercício físico e a
existência de orientações para a sua prática nos indivíduos com patologia
articular (o termo inglês «arthritis» tende a englobar não só as doenças
inflamatórias como também as degenerativas, cujo termo mais correctamente usado
é «osteoarthritis»). Demonstra ainda a importância dos profissionais de saúde
na motivação e aconselhamento para a prática de exercício. É também a primeira
publicação a estudar a associação entre o aconselhamento e a prática de
exercício neste contexto patológico.
O ser humano reage perante a dor e as condicionantes das suas actividades do
dia-a-dia procurando soluções, nomeadamente recorrendo aos cuidados de saúde.
Quanto maior for essa interferência (como no caso das doenças articulares),
maior será essa tendência, logo, maior propensão a aderir às medidas que lhe
forem sugeridas. Por outro lado, barreiras intrínsecas ao doente (dispêndios de
tempo e de dinheiro; estado débil de saúde; reduzida auto-confiança e receio de
passar por embaraços) e/ou ao profissional de saúde (falta de formação ou
qualificações nesta área; discordância das orientações sobre o exercício; falta
de tempo e de recursos; menor expectativa relativamente ao prognóstico destes
doentes, nomeadamente se idosos e/ou com múltiplas comorbilidades) levam a que
as recomendações sobre o exercício nem sempre sejam feitas ou cumpridas por
ambas as partes.4
Analisando os resultados deste estudo, verifica-se que o (des)emprego foi um
factor preditivo significativo da associação entre as recomendações para o
exercício e o cumprimento das mesmas. O corte nos rendimentos motiva a procura
de soluções mais económicas, neste caso o exercício em casa ou ao ar livre, em
detrimento da terapêutica medicamentosa ou da frequência de instalações
desportivas pagas, como os ginásios.
Pouco mais de metade da amostra total do estudo (assim como do grupo não
praticante de exercício físico) recebeu recomendações dos profissionais de
saúde. Ao contrário do que acontece noutras condições (como os distúrbios
alimentares ou o tabagismo), a nem todos os indivíduos é solicitado pelos
profissionais mudar de comportamentos com vista à prática de actividade física.
Um estudo demonstrou que, entre indivíduos com artrite, aqueles com 65 ou mais
anos de idade tendiam a ser menos incitados à prática de exercício que aqueles
entre os 45 e os 64 anos.5 As barreiras anteriormente referidas podem explicar
estes resultados. Por outro lado, o estudo aqui comentado concluiu não haver
influência da idade na associação entre recomendação e prática de exercício.
Inclusive, a média etária dos doentes que receberam instruções para praticar
exercício físico e o faziam era de 64,6 anos.1 Aparentemente estes resultados
contrariam as barreiras e os conceitos predefinidos que inibem a recomendação
do exercício em indivíduos de maior idade.
Os médicos de família, pelo seguimento longitudinal dos seus utentes e
conhecimento do meio biopsicossocial dos mesmos, encontram-se numa posição
privilegiada para tentar mudar atitudes e comportamentos. Há dados que
demonstram que estes acreditam no exercício físico como determinante importante
na prevenção em geral. Infelizmente, a maioria destes profissionais e as
estruturas de cuidados de saúde primários não se encontram suficientemente
habilitadas para prescrever, definir projectos e acompanhar programas de
exercícios sistemáticos e individualizados (incluindo como itens: tipo,
frequência, duração, intensidade, regularidade), ao contrário do que acontece
noutros países.6 Apesar das parcerias com entidades convencionadas de
fisioterapia ou da integração de fisioterapeutas em algumas unidades de saúde,7
é urgente rever o aconselhamento de exercício físico nos cuidados de saúde
primários em Portugal, quer na perspectiva da população em geral, quer na
perspectiva dos doentes com patologia reumatológica.
Apesar destas condicionantes, são relativamente simples as recomendações a dar
aos doentes com patologia osteoarticular. Além das orientações do ACR acima
citadas,8 estão recomendados nestes doentes exercícios aeróbios (para melhor
condicionamento físico), de fortalecimento muscular (para melhor equilíbrio,
suporte articular e absorção de impacto), de flexibilidade (para melhor
comodidade de movimentos e melhor nutrição e lubrificação articular) e de
resistência.9
Em conclusão, e apesar das limitações do estudo (retrospectivo; com vieses de
conveniência e de memória pelo facto de serem dados reportados pelos inquiridos
sem confirmação diagnóstica no respectivo processo clínico; a não inclusão de
outros factores potencialmente relevantes como a motivação, a prática prévia de
exercício, a disponibilidade de tempo e de espaços recreativos para a prática e
a segurança), os profissionais de saúde devem estar conscientes do efeito das
suas recomendações na adesão à prática de exercício físico pelos seus
pacientes. A promoção de estilos de vida saudáveis, incluindo o incentivo ao
exercício, é uma das armas preventivas e terapêuticas mais importantes ao
alcance dos cuidados de saúde primários.