A RPMGF e os seus leitores colaterais
CARTA À DIRECTORA
A RPMGF e os seus leitores colaterais
RPMGF and its collateral readers
José Agostinho Santos*
*Assistente de Medicina Geral e Familiar, USF Dunas, ULS - Matosinhos
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Como membro da equipa editorial, poderá parecer suspeito o realce que darei ao
elevado impacto que as publicações da RPMGF têm na qualidade de cuidados ao
paciente. Porém, salientarei este aspecto como mero leitor e como médico de
família.
O conteúdo dos artigos espelha as competências da Medicina Geral e Familiar
(MGF). Os trabalhos de revisão abordam temas da prática clínica diária
relacionados com a gestão dos cuidados de saúde primários, os trabalhos de
investigação produzem sobretudo patient-oriented-outcomes, enquanto que os
relatos de caso projectam uma modelação holística, fazendo-se emergir da
simplicidade do gabinete onde somente existem o médico de família, o paciente e
a relação que os une.
O lado mais poderoso destes artigos é descortinado quando estes se transformam
em ferramentas ou plataformas fornecedoras de conhecimento, promotoras da
reflexão clínica e indutoras de segurança. Estes artigos são lidos, relidos,
rasurados, consultados, acedidos e partilhados. Este é, de facto, o seu mais
conhecido modo de uso: o acesso para actualização científica e discussão
interpares. Porém, existe outro modo de utilização destas ferramentas que é
menos executado, retendo uma gigante potencialidade na consulta: a sua partilha
de médico para paciente.
Ao longo dos anos, a RPMGF tem publicado artigos de linguagem clara, com
respostas directas para perguntas dos nossos pacientes (no alinhamento de uma
evidence that matters), que poderá ter vindo a coleccionar leitores não-ligados
à área clínica, mas profundamente interessados nesta temática ou nas suas
questões de saúde.
Escrevo com alguma experiência prática quer na recepção de e-mails de leitores
não-profissionais de saúde sobre artigos em que fui autor, quer na partilha de
textos com alguns dos meus pacientes, de acordo com seus padrões
socioculturais. Por exemplo, o artigo «Atestados para carta de condução - visão
crítica do Decreto-Lei n.o 138/2012» tem tido um destaque notório.1 A redacção
dos ditos atestados tem edificado um conjunto de questões entre médico de
família e paciente desde a saída do Decreto-Lei 138/2012. No remate da consulta
em que ambos (eu e paciente) elencámos as nossas próprias inquietações, tenho
vindo a partilhar este artigo para que o paciente mais curioso conheça as
restantes inquietações que se estendem a outros médicos e a outras relações
médico-paciente.
Partindo de uma angústia mais intrusiva, também tenho vindo a partilhar o
editorial «Listas de 1900 utentes: a quantidade questiona a qualidade», um
texto que retém todas as dúvidas que assaltam o médico de família actual e que
o paciente deverá igualmente conhecer, porque interfere directamente com os
seus cuidados de saúde.2
Destacaria ainda artigos que vão completando, com todo detalhe, os
aconselhamentos feitos no gabinete e que, para alguns pacientes, serão mais
úteis que um panfleto. São artigos como «Desparasitação intestinal sistemática
em idade pediátrica» e «Suplementação de iodo na pré-concepção, gravidez e
amamentação: a recomendação e a Medicina baseada na inferência».3,4 Ambos
envolvem temas polémicos, sobre os quais os pacientes mais atentos vão captando
diferentes respostas entre clínicos e contradições no seio dos media. Para
esses pacientes que nos questionam com entusiasmo sobre que há de mais concreto
no seio dessas temáticas, a partilha destes artigos poderá consolidar a relação
médico-doente. Tal não quererá dizer que os artigos seguem uma via de validação
dos aconselhamentos médicos. Somente validam o interesse e a atitude de busca
do paciente, algo que, em última instância, poderá ser favorecedor de um maior
empowerment. Daí a relação terapêutica sair reforçada.
Finalmente, como na medicina tantas vezes não há preto nem branco, fará sentido
guiar o paciente pelas diferentes tonalidades cinzentas do conhecimento médico.
Em vez de se pensar que tal irá induzir insegurança, a abertura aos pacientes
destes recintos de incertezas que dominam as nossas práticas poderá,
paradoxalmente, apagar parte das incertezas desses mesmos.
Creio que a RPMGF re(abre), assim, mais um ciclo de procura pelas melhores
respostas às questões relacionadas com o paciente (mais do que com a doença).
Desse ciclo resultaram, portanto, publicações com leitores colaterais
(colaterais no bom sentido): os próprios pacientes. Existe esta potencialidade
a ser reconhecida pelos editores da revista e pelos médicos de família. É que
os artigos poderão ter um impacto directo, para alguns pacientes, na busca de
um melhor bem-estar biopsicossocial, pelo que a sua partilha, mesmo numa
linguagem médica, poderá acrescentar-se a uma abordagem holística. Trata-se de
algo que, mais do que curioso, será uma via de actuação da MGF sobre a
comunidade, aqui representada pela sua revista.