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Representação em texto

EuPTCVHe2182-51732014000100005

variedadeEu
ano2014
fonteScielo

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Estão os internos satisfeitos com o internato de Medicina Geral e Familiar?

Introdução A Medicina Geral e Familiar (MGF), em Portugal, tem sofrido uma notória evolução ao longo do tempo, não na sua vertente formativa, mas também ao nível do reconhecimento geral.

No seu início e até meados dos anos 90, esta especialidade sofreu repercussões decorrentes do desinteresse da classe médica por especialidades generalistas.1- 3 Na hora de decidir o futuro profissional, os médicos recém-licenciados faziam-no cada vez menos por especialidades como a MGF.4-14 Este fenómeno refletia-se na insuficiente ocupação de vagas nos concursos de ingresso da especialidade4,15 e dele advinham dúvidas acerca da sustentabilidade da MGF.16,17 Estudos nacionais recentemente publicados mostram uma perspetiva diferente, considerando assistir-se a uma evolução positiva no padrão de escolha por esta especialidade, demonstrada por uma maior percentagem de médicos que colocam a MGF como primeira opção.18,19 Estes estudos fazem referência ao aumento, nos últimos cinco anos, da classificação média na prova nacional de seriação dos médicos que têm em MGF a sua preferência.6,18 Contrariada fica, assim, a opinião geral de que os médicos que a escolhem o fazem por ausência de alternativas e não como prioridade para o seu futuro profissional.18,19 Legalmente, a Clínica Geral/Medicina da Família é consagrada em Diário da República em 1982 (Decreto-Lei 310/82, de 3 de Agosto). Desde então, o programa de formação foi alvo de sucessivas reformulações e atualizações até atingir os moldes atuais com a publicação do decreto-lei n.o 45/2009, de 13 de fevereiro, e da portaria n.o 300/2009, de 24 de março, que publicou o programa de formação específica de MGF.20 Assim, a especialização em MGF assenta em estágios clínicos que visam a prática médica do interno com a integração de conhecimentos, aptidões e atitudes que fundamentam as competências do especialista em MGF.

Atualmente, o programa nacional do internato de MGF tem em conta o perfil profissional definido internacionalmente,21 sendo orientado para o desenvolvimento das competências nucleares referidas na definição europeia de Medicina Geral e Familiar da EURACT 2005.22 Espera-se, portanto, que o internato em MGF, enquanto processo de formação médica especializada, garanta uma capacitação ao exercício tecnicamente diferenciado e clinicamente autónomo da especialidade.20 Uma revisão da bibliografia disponível mostrou uma falta de estudos de investigação dirigidos à avaliação da satisfação dos internos em relação ao programa de internato. Sendo o internato fundamental na formação do médico de família, e sabendo que sempre lugar a aperfeiçoamentos na formação dos médicos através de melhoramentos nos respetivos programas, as autoras consideraram pertinente a realização de um estudo exploratório nesta área.

Assim, foram objetivos deste estudo quantificar o grau de satisfação dos internos de MGF da Zona Norte com o internato de formação específica.

Métodos Estudo observacional, transversal com componente analítico, realizado entre setembro de 2011 e fevereiro de 2013.

A população do estudo compreendeu todos os internos de formação específica de MGF da Zona Norte que cumpriam o critério de inclusão (existência de endereço eletrónico disponível na coordenação de internato).

O questionário elaborado pelas autoras integrou o protocolo do estudo submetido e aprovado pela Comissão de Ética para a Saúde da Administração Regional de Saúde do Norte, sendo enviado através da Coordenação do Internato Médico de MGF da Zona Norte, por correio eletrónico a todos os internos incluídos no estudo (n = 532). Uma breve descrição do estudo e a solicitação para participação voluntária foram integrados no email enviado. A resposta ao questionário utilizou a plataforma web do Google Docs®, sendo o registo da informação inserido automática e anonimamente numa base de dados. A colheita de dados decorreu entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013, com envio de dois correios eletrónicos (um no início de cada mês da colheita).

Foram colhidos dados sociodemográficos e realizada a caracterização geral da população através das respostas às questões género, idade, estado civil, ano de internato, direção de internato, local de formação (Unidade de Saúde Familiar/ Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados USF/UCSP), se MGF foi a primeira opção de especialidade e intenção de repetir exame de acesso à especialidade.

O grau de satisfação foi avaliado através de uma escala tipo Likert com cinco categorias: 1. Muito insatisfeito; 2. Insatisfeito 3. Nem insatisfeito, nem satisfeito; 4. Satisfeito; 5. Muito satisfeito.

A variável dependente foi a «Satisfação Global com o internato» e as variáveis independentes foram a satisfação com os seguintes parâmetros: 1. Conciliação entre o internato e a vida pessoal; 2. Relação com o orientador de formação (OF); 3. Desempenho do OF; 4. Organização global do internato; 5. Duração (anos) do internato; 6. Seleção dos estágios hospitalares obrigatórios; 7. Duração dos estágios hospitalares obrigatórios; 8. Número de estágios opcionais possíveis; 9. Duração dos estágios opcionais; 10. Número de estágios de MGF; 11. Duração dos estágios de MGF; 12. Cursos obrigatórios; 13. Reuniões da direção de internato; 14. Tempo despendido em atividades não clínicas para efeitos curriculares.

Para a análise estatística foi utilizado o Statistical Package for the Social Sciences® (SPSS) v.20.0. As variáveis categóricas são descritas através de frequências absolutas e relativas, as variáveis contínuas através da média e do desvio padrão ou da mediana e percentis. Foi realizada uma análise independente bivariada entre a variável dependente e cada uma das 14 variáveis independentes. Foram testadas hipóteses sobre a distribuição de variáveis contínuas com distribuição não normal, através da utilização do teste não paramétrico de Mann-Whitney. Em todos os testes de hipótese foi considerado um nível de significância a=5%.

Resultados Foram obtidas 189 respostas ao questionário, ao que corresponde uma taxa de resposta de 36%. No Quadro_I estão descritas as variáveis que caracterizam a amostra.

Dos respondedores, 75% (n = 141) eram do género feminino e 85% (n = 160) tinham entre 26 e 30 anos de idade. Dos 189 internos, 78% (n = 148) estavam integrados em Unidades de Saúde Familiar (USF) e a maioria frequentava o segundo ano de formação (34%, n = 64). Em 76% dos casos (n = 143), a escolha por MGF foi primeira opção, sendo que 97% (n = 183) não tem intenção de repetir o exame de acesso à especialidade.

Considerando que a proporção de respondedores por direção de internato (DI) não foi uniforme, uma vez que na direção Elísio de Moura apenas houve uma resposta (Figura_1), esta variável foi excluída da análise.

A grande maioria dos internos de formação específica em MGF da Zona Norte estão satisfeitos ou muito satisfeitos com o internato (91%, n = 170), estando apenas 4% dos internos insatisfeitos ou muito insatisfeitos (n = 7) (Quadro_II).

Para a análise comparativa entre a satisfação global e as variáveis independentes, a escala de Likert foi convertida em variável dicotómica, sendo os valores das categorias «1.», «2.» e «3.» englobados na categoria Insatisfeito e os restantes na categoria Satisfeito/Muito satisfeito.

Os internos que escolheram MGF como primeira opção de especialidade estão mais satisfeitos com o internato do que os que não viam esta especialidade como preferencial (p = 0,001). Da mesma forma, os internos que não tencionam repetir o exame de acesso à especialidade são internos mais satisfeitos com o internato de MGF (p = 0,014) (Quadro_III).

Em relação ao orientador de formação, verificou-se que, quanto mais satisfeitos estão os internos com a relação com este bem como com o seu desempenho, maior é a sua satisfação global com o internato (p = 0,003 e p = 0,010, respetivamente). O mesmo se verificou para as variáveis «Organização global do internato», «Duração do internato», «Duração dos estágios hospitalares obrigatórios», «Número de estágios de MGF», e «Duração dos estágios de MGF» (p =0,008, p < 0,001, p = 0,024, p = 0,015 e p = 0,045, respetivamente) (Quadro IV).

Em relação à variável «Tempo despendido em atividades não clínicas para efeitos curriculares», apesar de 47% (n=90) dos internos estarem insatisfeitos (Quadro II), a relação com a satisfação global é menos clara uma vez que, para esta pergunta, a satisfação localiza-se na categoria intermédia (p = 0,016) (Quadro IV).

Discussão O internato de MGF é jovem e tem vindo a ser reformulado ao longo do tempo.

Considerando que a satisfação com o trabalho é um fator importante na realização pessoal para todas as profissões, e não havendo estudos de satisfação em relação ao internato de MGF, as autoras consideraram pertinente fazer um estudo exploratório para avaliar a satisfação dos seus colegas em relação à sua formação. Também foi intenção deste estudo levantar questões que permitam a melhoria contínua do programa de formação específica na perspetiva dos internos.

Dado não se terem encontrado trabalhos prévios nesta área, nomeadamente questionários dirigidos a esta população que avaliassem a satisfação, as autoras optaram por elaborar um questionário de caráter generalista com base na sua própria experiência enquanto internas da especialidade. No entanto, não foi realizado qualquer teste piloto que permitisse o seu melhoramento previamente à sua aplicação para que não se excluíssem participantes considerando a taxa de resposta esperada para este tipo de trabalhos (cerca de 25%24) para uma população limitada (máximo de 532 participantes).

Da mesma forma, outras limitações a ponderar neste estudo relacionam-se com a aplicação de um questionário não validado para a população em questão e a possibilidade de um viés de informação, inerente a este método.

O método de recolha de dados pode ter contribuído para a baixa taxa de respostas obtida (35%). Algumas das possibilidades a considerar para este fenómeno podem ser: desatualização dos endereços de correio eletrónico dos internos à data de realização do estudo, a «caixa» de correio eletrónico sem espaço disponível, o esquecimento de resposta ao questionário enviado e a opção de não querer participar no estudo.

Outra limitação do estudo é a possibilidade de viés de seleção, uma vez que não foi realizada a comparação entre o grupo de internos respondedores e os não respondedores, por implicar a perda do anonimato dos participantes, apesar de não serem expectáveis diferenças entre ambos. Igualmente, a possibilidade de terem ocorrido duplicações de resposta é uma realidade, uma vez que, para garantir o anonimato dos internos, não foi feita uma rechamada seletiva dos não respondedores. Contudo, a análise das respostas não mostrou questionários com a mesma combinação de variáveis de caracterização do respondente, apesar de este parâmetro também não conseguir excluir por completo a duplicação de respostas.

Aquando do desenho do estudo, as autoras tentaram minimizar a possibilidade de duplicação através do envio num curto intervalo de tempo dos dois correios eletrónicos (apenas um mês de intervalo entre eles), e também através da solicitação no segundo e-mail para que os internos que tivessem participado no estudo em causa não o voltassem a fazer.

A opção por uma análise bivariada independente relaciona-se com a intenção de realizar um primeiro estudo exploratório na área. Após avaliação dos resultados, torna-se evidente a necessidade de mais estudos e com recurso a análises multivariadas que permitam excluir potenciais confundidores que surgiram com este trabalho como por exemplo a idade, o género ou o ano de internato.

Apesar de serem testadas várias hipóteses, as autoras não consideram que a significância em massa seja um problema neste estudo, uma vez que as variáveis analisadas não foram desdobradas em categorias.

A questão «MGF foi a sua primeira opção?», pode representar um viés se for considerada a possibilidade de alguns internos estarem na sua segunda especialidade médica. No entanto, considerando as respostas obtidas, tal fenómeno parece pouco provável.

O fato de ter abrangido todo o norte do país é um ponto forte do trabalho, não se podendo contudo extrapolar os resultados para o resto do território nacional em virtude da baixa taxa de respostas e pelas diferenças que existem entre os programas das diferentes coordenações de internato de MGF em Portugal.

Em relação aos resultados, é importante saber que a maioria dos internos está realmente satisfeita com o seu programa de internato. A análise dos dados revelou a contribuição mais significativa de algumas variáveis para a satisfação global. Tal como esperado pelas autoras, a relação do interno com o OF e com o seu desempenho, pela provável proximidade entre ambos, mostrou ser um pilar fundamental para a satisfação com a MGF. A satisfação da maioria dos médicos internos (75%) com a duração do internato não faz prever a necessidade de alterar os 4 anos atualmente necessários para se ser especialista em Medicina Geral e Familiar. O mesmo acontece com a duração dos estágios hospitalares obrigatórios, e com as características dos estágios de MGF, que parecem satisfazer as necessidades sentidas pelos internos.

A elevada satisfação com a organização do internato (78%) poderá constituir um estímulo para a Coordenação do Internato de MGF da Zona Norte continuar a desenvolver a sua ação na mesma linha de conduta.

Os internos não têm ainda uma opinião bem estabelecida em relação ao tempo despendido em atividades não clínicas para efeitos curriculares. Para este resultado não se podem excluir dificuldades na interpretação da pergunta do questionário, não sendo possível perceber qual a perceção dos internos em relação ao tempo consumido para o cumprimento das exigências curriculares, nomeadamente em detrimento de horas dedicadas à prática clínica.

Este trabalho de investigação inovador poderá ser uma mais-valia nas orientações e decisões futuras sobre o internato em MGF. Apesar de ser um trabalho exploratório e, como tal, generalista, abre caminho a novos estudos para se tentar perceber quais as melhorias a fazer no programa de formação, nomeadamente em relação às variáveis que não demonstraram ter diferenças estatisticamente significativas como os cursos obrigatórios ou as reuniões de internato.


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