Estão os internos satisfeitos com o internato de Medicina Geral e Familiar?
Introdução
A Medicina Geral e Familiar (MGF), em Portugal, tem sofrido uma notória
evolução ao longo do tempo, não só na sua vertente formativa, mas também ao
nível do reconhecimento geral.
No seu início e até meados dos anos 90, esta especialidade sofreu repercussões
decorrentes do desinteresse da classe médica por especialidades generalistas.1-
3 Na hora de decidir o futuro profissional, os médicos recém-licenciados
faziam-no cada vez menos por especialidades como a MGF.4-14 Este fenómeno
refletia-se na insuficiente ocupação de vagas nos concursos de ingresso da
especialidade4,15 e dele advinham dúvidas acerca da sustentabilidade da
MGF.16,17
Estudos nacionais recentemente publicados mostram uma perspetiva diferente,
considerando assistir-se a uma evolução positiva no padrão de escolha por esta
especialidade, demonstrada por uma maior percentagem de médicos que colocam a
MGF como primeira opção.18,19 Estes estudos fazem referência ao aumento, nos
últimos cinco anos, da classificação média na prova nacional de seriação dos
médicos que têm em MGF a sua preferência.6,18 Contrariada fica, assim, a
opinião geral de que os médicos que a escolhem o fazem por ausência de
alternativas e não como prioridade para o seu futuro profissional.18,19
Legalmente, a Clínica Geral/Medicina da Família é consagrada em Diário da
República em 1982 (Decreto-Lei 310/82, de 3 de Agosto). Desde então, o programa
de formação foi alvo de sucessivas reformulações e atualizações até atingir os
moldes atuais com a publicação do decreto-lei n.o 45/2009, de 13 de fevereiro,
e da portaria n.o 300/2009, de 24 de março, que publicou o programa de formação
específica de MGF.20 Assim, a especialização em MGF assenta em estágios
clínicos que visam a prática médica do interno com a integração de
conhecimentos, aptidões e atitudes que fundamentam as competências do
especialista em MGF.
Atualmente, o programa nacional do internato de MGF tem em conta o perfil
profissional definido internacionalmente,21 sendo orientado para o
desenvolvimento das competências nucleares referidas na definição europeia de
Medicina Geral e Familiar da EURACT 2005.22 Espera-se, portanto, que o
internato em MGF, enquanto processo de formação médica especializada, garanta
uma capacitação ao exercício tecnicamente diferenciado e clinicamente autónomo
da especialidade.20
Uma revisão da bibliografia disponível mostrou uma falta de estudos de
investigação dirigidos à avaliação da satisfação dos internos em relação ao
programa de internato. Sendo o internato fundamental na formação do médico de
família, e sabendo que há sempre lugar a aperfeiçoamentos na formação dos
médicos através de melhoramentos nos respetivos programas, as autoras
consideraram pertinente a realização de um estudo exploratório nesta área.
Assim, foram objetivos deste estudo quantificar o grau de satisfação dos
internos de MGF da Zona Norte com o internato de formação específica.
Métodos
Estudo observacional, transversal com componente analítico, realizado entre
setembro de 2011 e fevereiro de 2013.
A população do estudo compreendeu todos os internos de formação específica de
MGF da Zona Norte que cumpriam o critério de inclusão (existência de endereço
eletrónico disponível na coordenação de internato).
O questionário elaborado pelas autoras integrou o protocolo do estudo submetido
e aprovado pela Comissão de Ética para a Saúde da Administração Regional de
Saúde do Norte, sendo enviado através da Coordenação do Internato Médico de MGF
da Zona Norte, por correio eletrónico a todos os internos incluídos no estudo
(n = 532). Uma breve descrição do estudo e a solicitação para participação
voluntária foram integrados no email enviado. A resposta ao questionário
utilizou a plataforma web do Google Docs®, sendo o registo da informação
inserido automática e anonimamente numa base de dados. A colheita de dados
decorreu entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013, com envio de dois correios
eletrónicos (um no início de cada mês da colheita).
Foram colhidos dados sociodemográficos e realizada a caracterização geral da
população através das respostas às questões género, idade, estado civil, ano de
internato, direção de internato, local de formação (Unidade de Saúde Familiar/
Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados – USF/UCSP), se MGF foi a primeira
opção de especialidade e intenção de repetir exame de acesso à especialidade.
O grau de satisfação foi avaliado através de uma escala tipo Likert com cinco
categorias: 1. Muito insatisfeito; 2. Insatisfeito 3. Nem insatisfeito, nem
satisfeito; 4. Satisfeito; 5. Muito satisfeito.
A variável dependente foi a «Satisfação Global com o internato» e as variáveis
independentes foram a satisfação com os seguintes parâmetros:
1. Conciliação entre o internato e a vida pessoal;
2. Relação com o orientador de formação (OF);
3. Desempenho do OF;
4. Organização global do internato;
5. Duração (anos) do internato;
6. Seleção dos estágios hospitalares obrigatórios;
7. Duração dos estágios hospitalares obrigatórios;
8. Número de estágios opcionais possíveis;
9. Duração dos estágios opcionais;
10. Número de estágios de MGF;
11. Duração dos estágios de MGF;
12. Cursos obrigatórios;
13. Reuniões da direção de internato;
14. Tempo despendido em atividades não clínicas para efeitos curriculares.
Para a análise estatística foi utilizado o Statistical Package for the Social
Sciences® (SPSS) v.20.0. As variáveis categóricas são descritas através de
frequências absolutas e relativas, as variáveis contínuas através da média e do
desvio padrão ou da mediana e percentis. Foi realizada uma análise independente
bivariada entre a variável dependente e cada uma das 14 variáveis
independentes. Foram testadas hipóteses sobre a distribuição de variáveis
contínuas com distribuição não normal, através da utilização do teste não
paramétrico de Mann-Whitney. Em todos os testes de hipótese foi considerado um
nível de significância a=5%.
Resultados
Foram obtidas 189 respostas ao questionário, ao que corresponde uma taxa de
resposta de 36%. No Quadro_I estão descritas as variáveis que caracterizam a
amostra.
Dos respondedores, 75% (n = 141) eram do género feminino e 85% (n = 160) tinham
entre 26 e 30 anos de idade. Dos 189 internos, 78% (n = 148) estavam integrados
em Unidades de Saúde Familiar (USF) e a maioria frequentava o segundo ano de
formação (34%, n = 64). Em 76% dos casos (n = 143), a escolha por MGF foi
primeira opção, sendo que 97% (n = 183) não tem intenção de repetir o exame de
acesso à especialidade.
Considerando que a proporção de respondedores por direção de internato (DI) não
foi uniforme, uma vez que na direção Elísio de Moura apenas houve uma resposta
(Figura_1), esta variável foi excluída da análise.
A grande maioria dos internos de formação específica em MGF da Zona Norte estão
satisfeitos ou muito satisfeitos com o internato (91%, n = 170), estando apenas
4% dos internos insatisfeitos ou muito insatisfeitos (n = 7) (Quadro_II).
Para a análise comparativa entre a satisfação global e as variáveis
independentes, a escala de Likert foi convertida em variável dicotómica, sendo
os valores das categorias «1.», «2.» e «3.» englobados na categoria
Insatisfeito e os restantes na categoria Satisfeito/Muito satisfeito.
Os internos que escolheram MGF como primeira opção de especialidade estão mais
satisfeitos com o internato do que os que não viam esta especialidade como
preferencial (p = 0,001). Da mesma forma, os internos que não tencionam repetir
o exame de acesso à especialidade são internos mais satisfeitos com o internato
de MGF (p = 0,014) (Quadro_III).
Em relação ao orientador de formação, verificou-se que, quanto mais satisfeitos
estão os internos com a relação com este bem como com o seu desempenho, maior é
a sua satisfação global com o internato (p = 0,003 e p = 0,010,
respetivamente). O mesmo se verificou para as variáveis «Organização global do
internato», «Duração do internato», «Duração dos estágios hospitalares
obrigatórios», «Número de estágios de MGF», e «Duração dos estágios de MGF» (p
=0,008, p < 0,001, p = 0,024, p = 0,015 e p = 0,045, respetivamente) (Quadro
IV).
Em relação à variável «Tempo despendido em atividades não clínicas para efeitos
curriculares», apesar de 47% (n=90) dos internos estarem insatisfeitos (Quadro
II), a relação com a satisfação global é menos clara uma vez que, para esta
pergunta, a satisfação localiza-se na categoria intermédia (p = 0,016) (Quadro
IV).
Discussão
O internato de MGF é jovem e tem vindo a ser reformulado ao longo do tempo.
Considerando que a satisfação com o trabalho é um fator importante na
realização pessoal para todas as profissões, e não havendo estudos de
satisfação em relação ao internato de MGF, as autoras consideraram pertinente
fazer um estudo exploratório para avaliar a satisfação dos seus colegas em
relação à sua formação. Também foi intenção deste estudo levantar questões que
permitam a melhoria contínua do programa de formação específica na perspetiva
dos internos.
Dado não se terem encontrado trabalhos prévios nesta área, nomeadamente
questionários dirigidos a esta população que avaliassem a satisfação, as
autoras optaram por elaborar um questionário de caráter generalista com base na
sua própria experiência enquanto internas da especialidade. No entanto, não foi
realizado qualquer teste piloto que permitisse o seu melhoramento previamente à
sua aplicação para que não se excluíssem participantes considerando a taxa de
resposta esperada para este tipo de trabalhos (cerca de 25%24) para uma
população limitada (máximo de 532 participantes).
Da mesma forma, outras limitações a ponderar neste estudo relacionam-se com a
aplicação de um questionário não validado para a população em questão e a
possibilidade de um viés de informação, inerente a este método.
O método de recolha de dados pode ter contribuído para a baixa taxa de
respostas obtida (35%). Algumas das possibilidades a considerar para este
fenómeno podem ser: desatualização dos endereços de correio eletrónico dos
internos à data de realização do estudo, a «caixa» de correio eletrónico sem
espaço disponível, o esquecimento de resposta ao questionário enviado e a opção
de não querer participar no estudo.
Outra limitação do estudo é a possibilidade de viés de seleção, uma vez que não
foi realizada a comparação entre o grupo de internos respondedores e os não
respondedores, por implicar a perda do anonimato dos participantes, apesar de
não serem expectáveis diferenças entre ambos. Igualmente, a possibilidade de
terem ocorrido duplicações de resposta é uma realidade, uma vez que, para
garantir o anonimato dos internos, não foi feita uma rechamada seletiva dos não
respondedores. Contudo, a análise das respostas não mostrou questionários com a
mesma combinação de variáveis de caracterização do respondente, apesar de este
parâmetro também não conseguir excluir por completo a duplicação de respostas.
Aquando do desenho do estudo, as autoras tentaram minimizar a possibilidade de
duplicação através do envio num curto intervalo de tempo dos dois correios
eletrónicos (apenas um mês de intervalo entre eles), e também através da
solicitação no segundo e-mail para que os internos que já tivessem participado
no estudo em causa não o voltassem a fazer.
A opção por uma análise bivariada independente relaciona-se com a intenção de
realizar um primeiro estudo exploratório na área. Após avaliação dos
resultados, torna-se evidente a necessidade de mais estudos e com recurso a
análises multivariadas que permitam excluir potenciais confundidores que
surgiram com este trabalho – como por exemplo a idade, o género ou o ano de
internato.
Apesar de serem testadas várias hipóteses, as autoras não consideram que a
significância em massa seja um problema neste estudo, uma vez que as variáveis
analisadas não foram desdobradas em categorias.
A questão «MGF foi a sua primeira opção?», pode representar um viés se for
considerada a possibilidade de alguns internos estarem na sua segunda
especialidade médica. No entanto, considerando as respostas obtidas, tal
fenómeno parece pouco provável.
O fato de ter abrangido todo o norte do país é um ponto forte do trabalho, não
se podendo contudo extrapolar os resultados para o resto do território nacional
em virtude da baixa taxa de respostas e pelas diferenças que existem entre os
programas das diferentes coordenações de internato de MGF em Portugal.
Em relação aos resultados, é importante saber que a maioria dos internos está
realmente satisfeita com o seu programa de internato. A análise dos dados
revelou a contribuição mais significativa de algumas variáveis para a
satisfação global. Tal como esperado pelas autoras, a relação do interno com o
OF e com o seu desempenho, pela provável proximidade entre ambos, mostrou ser
um pilar fundamental para a satisfação com a MGF. A satisfação da maioria dos
médicos internos (75%) com a duração do internato não faz prever a necessidade
de alterar os 4 anos atualmente necessários para se ser especialista em
Medicina Geral e Familiar. O mesmo acontece com a duração dos estágios
hospitalares obrigatórios, e com as características dos estágios de MGF, que
parecem satisfazer as necessidades sentidas pelos internos.
A elevada satisfação com a organização do internato (78%) poderá constituir um
estímulo para a Coordenação do Internato de MGF da Zona Norte continuar a
desenvolver a sua ação na mesma linha de conduta.
Os internos não têm ainda uma opinião bem estabelecida em relação ao tempo
despendido em atividades não clínicas para efeitos curriculares. Para este
resultado não se podem excluir dificuldades na interpretação da pergunta do
questionário, não sendo possível perceber qual a perceção dos internos em
relação ao tempo consumido para o cumprimento das exigências curriculares,
nomeadamente em detrimento de horas dedicadas à prática clínica.
Este trabalho de investigação inovador poderá ser uma mais-valia nas
orientações e decisões futuras sobre o internato em MGF. Apesar de ser um
trabalho exploratório e, como tal, generalista, abre caminho a novos estudos
para se tentar perceber quais as melhorias a fazer no programa de formação,
nomeadamente em relação às variáveis que não demonstraram ter diferenças
estatisticamente significativas como os cursos obrigatórios ou as reuniões de
internato.