Larva migrans cutânea: um caso de apresentação típica no viajante
Introdução
A patologia dermatológica é a terceira causa mais comum de morbilidade nos
turistas (a seguir à diarreia e aos sintomas respiratórios), com uma incidência
estimada de até 8%.1 A larva migrans cutânea é a dermatopatia mais comum em
turistas originários de regiões tropicais.1
Embora pouco frequente nos cuidados de saúde primários de países com climas
temperados como Portugal, poderá ocasionalmente aparecer no consultório dada a
facilidade e procura crescente de viagens internacionais.
Segue-se a descrição do caso clínico de uma utente regressada da Jamaica com
uma história clínica e alterações cutâneas típicas, que permitiram o
diagnóstico e tratamento dirigidos, com resolução eficaz do quadro.
Descrição do caso
Uma mulher de 31 anos recorreu à consulta da médica de família em Abril de
2011, referindo o aparecimento de lesão eritematosa e pruriginosa no quinto
dedo do pé esquerdo três meses antes, coincidente com viagem que fez à Jamaica.
Por suspeita de tinea pedis, aplicou por sua iniciativa antifúngicos tópicos,
mas sem melhoria. Pelo contrário, houve uma alteração da lesão inicial, com
formação de cordão eritematoso e pruriginoso no dorso do pé.
Ao exame objectivo, observou-se uma lesão eritematosa de formato linear com
trajecto tortuoso na face dorsal externa do pé esquerdo (figura_1).
Com base na clínica e no contexto epidemiológico, fez-se o diagnóstico de larva
migrans cutânea, medicando-se com albendazol 400 mg em toma única, durante três
dias, com regressão completa da lesão.
Comentário
A larva migrans cutânea é causada por nemátodos do género Ancylostoma, mais
frequentemente o Ancylostoma braziliense e o Ancylostoma caninum.1,2 As regiões
endémicas englobam as zonas balneares tropicais e subtropicais do sudeste
asiático, África, América do Sul, sul dos Estados Unidos e Caraíbas.1
Os humanos são hospedeiros acidentais e de final de vida destes parasitas,
adquiridos através do contacto com ambiente contaminado por fezes de cães ou
gatos infestados.2 A infecção pode ser contraída nas regiões endémicas sempre
que as condições de calor e humidade do solo forem propícias ao desenvolvimento
da larva. Esta penetra através da pele intacta pelos folículos pilosos e
glândulas sudoríparas ou através de fissuras cutâneas, ficando habitualmente
confinada à epiderme e derme superficial.1,3 A incubação é curta: horas a dias
e raramente mais do que um mês. O prurido inicia-se horas após a penetração da
larva. Desenvolve-se uma erupção eritematosa, serpiginosa ou linear,
pruriginosa, correspondente ao trajecto de migração da larva.1 As lesões
distribuem-se por locais expostos da pele, mais comummente os pés, pernas,
nádegas e mãos.2
Na maioria dos casos há resolução espontânea das lesões em duas a oito semanas
(raramente até dois anos).1,2 As complicações mais comuns incluem impétigo,
foliculite, edema e reacções vesículo-bolhosas.3 Há, contudo, casos descritos
de disseminação hematogénea, com envolvimento pulmonar e desencadeamento da
síndrome de Loeffler (eosinofilia pulmonar).2-4
O diagnóstico é clínico, baseado na história que inclui referência a viagem
para uma zona endémica e na observação de lesões cutâneas típicas. Não está
recomendado biopsar a lesão, uma vez que a larva se encontra distanciada alguns
centímetros do trajecto visível.1,3
Não obstante a possibilidade de resolução espontânea, o tratamento torna-se
necessário de forma a diminuir a duração da doença, evitar o prurido intenso e
obviar potenciais complicações.3 O fármaco de escolha disponível em Portugal é
o albendazol nas doses de 400 a 800 mg/dia no adulto e de 10 a 15 mg/Kg/dia na
criança, durante 3 a 5 dias consecutivos. O albendazol oral não está
recomendado na grávida por risco de teratogenicidade, não havendo evidência da
segurança de outros tratamentos farmacológicos.1-3
O médico de família deve alertar os utentes que viajam para praias e climas
tropicais sobre o risco de infestação por esta larva e as respectivas medidas
preventivas. Estas passam por evitar andar descalço ou ter a pele em contacto
directo com solos quentes e húmidos dessas regiões ou de terrenos fertilizados
com excrementos de animais.5
Em conclusão, a infecção por larva migrans cutânea é de fácil diagnóstico e
tratamento. No entanto, não é ainda correctamente identificada em mais de
metade dos casos, pelo que esta hipótese diagnóstica deve ser considerada
aquando de lesões cutâneas que surjam de novo em turistas, sobretudo nos
oriundos de regiões tropicais.1