TEITOK@C-I   |   Corpora@C-I   |   CELGA-ILTEC   |   Contacto

EN | PT

Representação em texto

EuPTCVHe2182-51732012000100009

variedadeEu
ano2012
fonteScielo

O script do Java parece estar desligado, ou então houve um erro de comunicação. Ligue o script do Java para mais opções de representação.

Fitiríase palpebral

Criança do sexo feminino, com 3 anos, sem antecedentes patológicos de relevo, pertencente a uma família nuclear, na fase III do ciclo de Duvall e da classe III de Graffar. O agregado é constituído por 4 elementos e apresenta um padrão adequado de procura de cuidados de saúde, comparecendo regularmente às consultas agendadas. A criança fica durante o dia num infantário. Apresentou-se na consulta com queixas de prurido e descamação palpebral («remelas») persistentes desde seis meses, inicialmente no olho direito e um mês depois bilateralmente. Ao exame a olho nu apresentava ligeiro edema e rubor palpebral e algumas crostas nas pestanas junto aos bordos palpebrais. Foi tratada inicialmente na nossa consulta para uma blefarite com oxitetraciclina tópica, sem sucesso. Posteriormente, numa consulta de Pediatria da irmã, foi-lhe diagnosticada fitiríase palpebral, causada pelo insecto Phthirus pubis. Foi tratada com mousse à base de óleo de coco e anis (que actua como agente físico) em duas aplicações únicas separadas por 10 dias. Não voltou a apresentar sinais ou sintomas após o tratamento.

Nenhum dos progenitores apresentava qualquer tipo de sinais ou sintomas de infestação pelo insecto. A suspeita da origem da transmissão do Phthirus pubis recaiu sobre a educadora, que apresentava sinais semelhantes de fítiríase palpebral e que foi tratada com sucesso pelo seu médico assistente.

O Phthirus pubis, também conhecido como piolho púbico ou «chato», é um insecto hematófago e hospedeiro específico do ser humano.1 É transmitido geralmente através de contacto sexual, embora ocasionalmente também por roupas de uso pessoal, lençóis de cama e mesmo toalhas. Habita preferencialmente a região púbica, contudo pode aparecer em todo o corpo humano.2 As crianças podem ser atingidas por esta patologia, apesar de tal ser geralmente descrito como raro e não tendo sido encontrados dados sobre a prevalência e incidência da infestação neste grupo etário. Em crianças as pestanas são o local mais comummente afectado, devido não às condições de humidade e temperatura, como também à ausência da maior parte dos pêlos terminais na pré-puberdade.3 Muitas vezes o contágio é feito por contacto com familiares ou cuidadores, sendo necessário despistar a possibilidade de abuso sexual.4 Os sintomas associados à fitiríase palpebral vão desde o prurido palpebral à blefarite com conjuntivite associada, podendo ocasionalmente haver linfadenopatias e infecção secundária.5 Podem existir ainda manchas azuis, designadas máculas cerúleas, devido à mordedura do Phthirus pubis nas margens da pálpebra.6 O diagnóstico é feito com base na história clínica e com a confirmação através da observação dos parasitas utilizando uma lupa ou microscópio (Figura_1 e 2).5

O tratamento pode ser difícil, prolongado e controverso, havendo diferentes terapêuticas defendidas, que vão desde a extracção mecânica à aplicação de meios físicos ou químicos.7 Alguns trabalhos referem a extracção mecânica directa como tratamento mais eficaz e com menor risco, o que se mostra difícil em crianças não colaborantes.8 Como agente físico pode ser utilizada, por exemplo, a vaselina em pomada, que age como agente sufocante e ajuda na extracção dos parasitas.7 Existem vários agentes químicos pediculicidas, como por exemplo a permetrina ou a fluoresceína, contudo, a sua toxicidade limita o uso nesta localização. Para além disso, muitos dos químicos existentes não podem ser usados em crianças.9,10 Existem ainda outros tratamentos como crioterapia e fototerapia com árgon laser mas que são difíceis de aplicar nesta faixa etária.10 Devem ser tratados todos os grupos afectados. As roupas e objectos pessoais devem ser lavados a 50oC durante 30 minutos.11 Em alternativa podem-se fechar os objectos e roupas pessoais num saco de plástico durante 2 semanas.11 Com a apresentação deste caso pretende-se sublinhar a sua dificuldade diagnóstica, por a fitiríase palpebral ser uma patologia rara em crianças e de difícil diagnóstico a olho nu. Alerta, assim, para a necessidade de, no exame físico subsequente a queixas e/ou sinais persistentes das pálpebras e pestanas, ser utilizada uma lupa (caso não esteja disponível uma lâmpada de fenda). De realçar, também, a importância de conhecer, quer localizações possíveis do parasita no corpo humano e formas de contágio, quer o contexto e os contactos da criança, de forma a compreender a origem da infestação, a detectar eventuais problemas associados (como as situações de abuso) e a agir de acordo com cada situação. Ilustra também a terapêutica mais adequada (agentes físicos) na idade em questão (3 anos), visto a extracção mecânica ser difícil, por não colaboração, e o uso de químicos pediculicidas ser contra-indicado pela sua toxicidade. O médico de família pode desempenhar um papel fundamental, tanto na avaliação diagnóstica, abordagem terapêutica inicial, referenciação aos cuidados de saúde secundários para optimização terapêutica, quando necessário, bem como avaliação dos contactos, incluindo a suspeição ou não de abusos, e interrupção do circuito de infestação.

Foram realizadas duas intervenções no infantário a partir do Centro de Saúde no sentido de informar sobre a problemática em questão e despistar outras fontes de contágio de forma a quebrar o ciclo de infestação. Foi também confirmada a suspeita da infestação da educadora e do seu tratamento adequado.


transferir texto