TEITOK@C-I   |   Corpora@C-I   |   CELGA-ILTEC   |   Contacto

EN | PT

Representação em texto

EuPTCVHe1646-21222014000300004

variedadeEu
ano2014
fonteScielo

O script do Java parece estar desligado, ou então houve um erro de comunicação. Ligue o script do Java para mais opções de representação.

Espondilolise e espondilolistese ístmica de grau I no adolescente: Análise retrospectiva de 30 casos

INTRODUÇÃO A lise ístmica ou espondilolise resulta do defeito uni ou bilateral da pars interarticularis. A espondilolistese ístmica ou tipo II segundo Wiltse1 corresponde a uma translação do corpo vertebral sobre o caudal na presença de defeito bilateral da pars, sendo esta translação de 0-25% no grau I de Meyerding. A etiologia é multifactorial: mecânica, hereditária e hormonal.

Ambas são as causas mais frequentes de lombalgia em crianças e adolescentes com idade superior a 10 anos2,3,4. Associam-se a fractura de fadiga da pars por movimentos repetidos de hiperextensão, como ocorre em algumas atividades desportivas.

A incidência da espondilolise na raça causasiana está avaliada de 3-6%5,6 sendo mais prevalente em jovens atletas7. Na esmagadora maioria (85-95%) o defeito é bilateral na vértebra L5, sendo L4 a segunda mais frequente5,6,8-10. Isto deve- se ao facto de a maior carga com movimentos de flexão/extensão se verificar no nível L5-S1 e, por isso, sofrer de elevado stress mecânico (Figura_1)11. São factores de risco a história familiar, etnia e outras anomalias na coluna vertebral como espinha bífida oculta5,6,10.

Na lise ístmica e espondilolistese grau I a progressão da listese é rara após a maturidade óssea e, na literatura, não está definido qual a progressão considerada significativa6,7. O estudo de Frennered et al.12 verifica progressão >=20% em apenas 4% com idade inferior a 16 e com 7 anos de seguimento. Não foi possível correlacionar a progressão da listese com outras variáveis como manutenção do desporto nem com achados radiológicos, excepto com a espinha bífida12,13. Existe consenso nos estudos publicados em que a progressão ocorre predominantemente no surto de crescimento da puberdade13.

Nos casos sintomáticos, a lombalgia é exacerbada com a hiperextensão, pode ser constatada uma postura hiperlordótica e contractura da fáscia toracolombar. As alterações neurológicas ou radiculopatia são raras nesta faixa etária e nos casos mais graves pode verificar-se retração dos isquiotibiais, deformidade (step-off) na junção lombossagrada e desenvolver-se escoliose.

O diagnóstico faz-se com radiografias convencionais (Figura_2), quando é visível o defeito da pars. O sinal patognomónico "scotty dog" é visível nas incidências oblíquas. A cintigrafia óssea e a TAC são frequentemente utilizados para completar o estudo diagnóstico sendo que a PET Scan é o exame mais sensível. Na fase aguda/subaguda, a RMN pode revelar precocemente sinais de lesão da pars, com presença de edema ósseo (Figura_3)7.

Na literatura não existe consenso quanto aos benefícios do tratamento cirúrgico nestes doentes que são muitas vezes atletas e não pretendem terminar a carreira ou diminuir a performance. A controvérsia prolonga-se sobre qual a melhor técnica cirúrgica.

De facto, nos poucos estudos publicados, verifica-se que a maioria defende o tratamento conservador que abrange o repouso com interrupção temporária do desporto e uso de ortótese até 6 meses, bem como reabilitação fisiátrica. A reparação óssea espontânea pode ocorrer na espondilolise em fase precoce e maioritariamente com defeito unilateral da pars8,14. No entanto, os resultados clínicos e retorno às atividades não se correlacionam com a consolidação óssea, verificando-se bons a excelentes resultados em 78-96% dos casos, com 25-37% de reparação óssea8,15. Pizzutillo et al.16 obtiveram alívio da dor em 70% dos casos.

A opção pelo tratamento cirúrgico verifica-se, geralmente, nos casos sintomáticos resistentes às atitudes conservadoras, progressão da espondilolistese, ou alterações neurológicas. As técnicas cirúrgicas utilizadas são díspares, desde a artrodese até à reparação direta do defeito por técnicas diversas. Estão descritas na literatura variadas técnicas cirúrgicas para esta patologia, com bons resultados clínicos globais, continuando problemática a indicação cirúrgica.

Os autores descrevem a técnica cirúrgica que sistematicamente utilizam e analisam os resultados obtidos.

MATERIAL E MÉTODOS O estudo retrospectivo entre 2004 e 2013, engloba 30 adolescentes: 12 com lise ístmica e 18 com espondilolistese ístmica grau I. O defeito da pars ocorreu bilateralmente em 29 casos (96.7%) e na esmagadora maioria em L5 (86.7%).

Todos os doentes operados foram submetidos a tratamento conservador prévio, que não foi eficaz. O tempo de evolução dos sintomas variou entre 6 e 12 meses, desde o início até à intervenção cirúrgica.

A reconstituição ístmica foi feita com autoenxerto de ilíaco, após preparação do defeito da pars, e fixação pedicular posterior temporária a um nível (vértebra atingida e nível caudal) ou, em 2 casos, a 2 níveis uma vez que o defeito ocorreu em L4 e L5. Todos os doentes foram operados pelo mesmo cirurgião.

Foram avaliados os seguintes parâmetros: consolidação, complicações, dor (VAS), função (ODI) e grau de satisfação.

A fusão óssea foi assumida imagiologicamente quando pontes ósseas ou calo ósseo evidentes nas radiografias de controlo em todos os doentes. Em alguns casos associou-se a realização de TAC como confirmação sendo concordante em todos os doentes com a análise radiológica.

Os resultados foram analisados com o IBM SPSS Statistics 20.0 (Teste t).

RESULTADOS A Tabela_1 apresenta os resultados obtidos. A distribuição por género foi simétrica, em média com idade de 16.3 anos (13-18) e seguimento de 23.5 meses (14-48).

Atingiu-se a correção do defeito com consolidação em 100% dos casos (Figura_4).

Figura_4

Verifica-se redução significativa da dor com VAS médio de 7.48 para 0.38 (p<0.0001). Também funcionalmente o ODI melhorou muito significativamente de 38.55% para 1.59% (p<0.0001), de disfunção moderada para mínima.

No total, 63.3% dos doentes eram desportistas de competição (ciclismo, natação, futebol, basquetebol, voleibol, ginástica e Ballet). Todos retomaram o nível prévio após a intervenção cirúrgica.

A todos os doentes foi retirado o material após completar 1 ano da reconstituição ístmica (Figura_5), tendo sido em média aos 13 meses (12-16).

Figura_5

Não se verificou progressão da listese em nenhum caso e não se registaram complicações major como infecção, pseudartrose ou fractura/desmontagem da instrumentação. Ocorreu, no entanto, uma complicação minor (0.03%) em doente com deiscência parcial da ferida operatória resolvida aquando da segunda intervenção para extração do material, com correção da cicatriz.

Os doentes encontram-se satisfeitos e 100% repetiriam o tratamento.

DISCUSSÃO Existem poucos estudos publicados e com elevada heterogeneidade. Sendo a maioria atletas, o tratamento conservador exclusivo, implica a interrupção prolongada da atividade desportiva, frequentemente em fase de crescimento exponencial correspondente à puberdade e, por isso, com possível comprometimento da carreira e sucesso desportivos.

Os estudos publicados raramente relatam o retorno desportivo e, quando o reportam, este ocorre a níveis variáveis, sem especificar se ao nível prévio.

As técnicas de artrodese obtêm bons resultados clínicos mas implicam perda de mobilidade no segmento, sobrecarga e doença do nível adjacente que se estimou ocorrer em 36.1%17. No estudo de Audat et al.17 após artrodese circunferencial (PLIF), com ou sem redução, a consolidação ocorreu em 50% após 1 ano e aumentou até aos 3 anos de seguimento, sendo que em nenhum caso se verificou antes dos 6 meses. Funcionalmente, o ODI melhorou gradualmente até aos 3 anos passando de 52% para 15% no grupo sem redução e de 50% para 4% quando redução associada17.

Verifica-se também que após artrodese os adolescentes retomam o desporto numa decisão caso a caso e na dependência do cirurgião, frequentemente após 1 ano da fusão. No caso de desporto de colisão ou contacto, 30% dos cirurgiões defendem a não retoma18,19.

As técnicas de reconstituição têm a vantagem de preservar a mobilidade segmentar e, por isso, sem doença do nível adjacente associada.

Na literatura estão descritas técnicas diversas de reparação direta do defeito, com recurso a sistemas estabilizadores para promover a consolidação do defeito ósseo no istmo como o método do parafuso de compressão de Buck20, cerclage entre apófise espinhosa e transversas, técnica de Scott21-23, uso combinado de parafusos pediculares e fios ou cabos aço24, parafusos pediculares e ganchos25,26, ou parafusos pediculares e sistema dinâmico de barra em V27-29. O sucesso destas técnicas é variável e nem todos especificam qual o enxerto ósseo utilizado. O parafuso de compressão de Buck20 atravessa o istmo e limita a quantidade de enxerto comprometendo assim a sua reconstituição. No estudo de Johnson e Thompson23, a técnica de Scott obteve resultados satisfatórios em 90.9% dos casos, a reconstituição eficaz ocorreu em 77.2% com registo de complicações em 10 dos 22 casos. A dificuldade desta técnica reside em conferir compressão adequada no istmo sem conduzir à fractura da lâmina22,23. A combinação de parafusos pediculares e ganchos ou barra em V atingem maior estabilidade26,29. O sistema com barra em V foi primariamente descrito por Gillet et al27 que, tal como posteriormente Koptan et al.30 contraindicam esta técnica na presença de discopatia degenerativa. Nos estudos publicados verifica-se que alívio da dor e preserva a altura do disco, previne a progressão de translação anterior e mantém a elasticidade dinâmica sem alterar a amplitude de movimento flexão/extensão27,29. No estudo de Chen et al.29 a redução da dor no pós-operatório foi significativa com VAS médio de 3.04 aos 35 meses em média de seguimento, e a amplitude de flexão/extensão não variou. No entanto, a consolidação ocorreu em apenas 66.67% dos casos e em média aos 6 meses, um caso apresentou reabsorção óssea no nível L5-S1, e não avaliaram especificamente atletas nem o retorno à atividade desportiva.

Sairyo et al.31 demonstraram que o sucesso da reconstituição ístmica tem vantagens mecânicas com proteção da doença do disco adjacente, um facto importante nesta população jovem.

Neste contexto, a técnica de reconstituição ístmica utilizada pelos autores com fixação pedicular posterior temporária apresenta excelentes resultados clínicos e funcionais, sem complicações significativas e com retorno ao nível desportivo prévio quando atletas. Implica, no entanto, uma segunda intervenção cirúrgica para extração do material. Este estudo tem limitações inerentes a ser retrospectivo e a avaliação da consolidação não recorreu à tomografia computorizada em todos os doentes, baseando-se nas pontes ósseas radiologicamente evidentes no rx convencional. O recurso a TAC foi reservado para os casos em que o rx convencional não era conclusivo quanto à consolidação indiscutível da pars. A concordância inter-observador em análise cega foi, no entanto, total.

Comparativamente com as técnicas dinâmicas descritas na literatura, a técnica preconizada pelos autores permite não a reconstituição ístmica eficaz, com 100% de consolidação, como revela resultados clínicos superiores a médio prazo, o que supera em grande escala a necessidade de segunda intervenção para extração do material.

Na espondilolistese de grau superior a I, os autores defendem a artrodese circunferencial devido à discopatia, instabilidade e desequilíbrio sagital associados.

CONCLUSÃO O tratamento cirúrgico da espondilólise e espondilolistesis ístmica está indicado nos adolescentes sintomáticos, após falência do tratamento conservador.

A técnica de reconstituição ístmica com autoenxerto e fixação pedicular posterior temporária na espondilolise ou espondilolistese ístmica grau I alia excelentes resultados clínicos a elevada taxa de consolidação.

Esta técnica é defendida pelos autores mesmo em adolescentes que são atletas, em que se verificou ser possível retomar a atividade desportiva a nível de alta competição.


transferir texto