TEITOK@C-I   |   Corpora@C-I   |   CELGA-ILTEC   |   Contacto

EN | PT

Representação em texto

EuPTCVHe1646-21222012000300008

variedadeEu
ano2012
fonteScielo

O script do Java parece estar desligado, ou então houve um erro de comunicação. Ligue o script do Java para mais opções de representação.

Artrodese do joelho: Revisão teórica e resultados retrospetivos de 22 casos consecutivos

INTRODUÇÃO A artrodese do joelho tem sido utilizada desde o princípio do secúlo XX para tratamento de dor e instabilidade do joelho causadas por osteoartrose, artropatias, artrites infeciosas e para reconstruções após excisão tumoral.

Devido aos avanços dos programas de vacinação, da eficácia dos antibióticos e do sucesso das artroplastias, as indicações para artrodese do joelho tornaram- se mais restritas. Embora possa parecer uma cirurgia que vai causar um grande grau de incapacidade ao doente, a artrodese do joelho proporciona um membro indolor, estável e que permite a mobilidade [1,2, 3]. Com um menor número de cirurgias efetuadas anualmente, é mais difícil para um Serviço de Ortopedia ganhar experiência e perceber qual das diferentes técnicas de artrodese tem melhores resultados. Sendo assim pensamos que um estudo retrospetivo dos casos tratados no nosso Serviço pudesse ser útil para nos apercebermos dos resultados que podemos esperar de cada técnica e quais as patologias para as quais a artrodese ainda é o melhor tratamento.

INDICAÇÕES Atualmente a principal indicação da artrodese é o tratamento da falência de artroplastia do joelho[4,1, 3]. Pode ser difícil decidir quando é que a artrodese irá ser mais indicada do que uma cirurgia de revisão, não podemos esquecer que cada cirurgia de revisão acarreta perda óssea, dificultando uma futura artrodese[5]. Nos casos em que a causa da falência foi uma infeção periprotésica causada por micro- resistentes ou em que o doente encontra-se imunodeprimido é preferível optar pela artrodese[6, 1, 3]. Quando o doente com uma falência de artroplastia, independentemente da etiologia, apresenta uma grande instabilidade ligamentar, cobertura de pele e tecidos moles, mecanismo extensor deficiente ou perda óssea considerável a artrodese apresenta-se como a melhor alternativa[1, 2, 3]. Os doentes jovens e ativos com dor e instabilidade do  joelho por síndrome pós-poliomielite, artropatia de Charcot ou por falência de reconstrução do joelho após ressecção de tumor também têm indicação para artrodese[3]. Nos doentes jovens com gonartrose pós- traumática a artrodese tem vindo perder popularidade para a artroplastia total do joelho que apresenta bons resultados a médio prazo[7,  8, 9]. Em casos de tumores, em que não é possivel preservar a superfície articular, a artrodese tem vindo a perder terreno para as próteses de reconstrução, que, atualmente, apresentam taxas de sobrevida a longo prazo aceitáveis[10, 11].

Contraindicações As contraindicações para a artrodese do joelho são; amputação contralateral acima do joelho, artrose da anca ou tornozelo ipsilateral e artrodese da anca ou joelho contralateral[1, 3]. A marcha com artrodese do joelho tem um gasto adicional de 25%-30% de energia quando comparada à marcha normal, se a isto acrescentarmos que a energia necessária para deambular com uma amputação acima do joelho é 25% superior à da artrodese percebemos que a marcha com uma artrodese e amputação contralateral representa um gasto energético muito elevado e que pode não ser suportado pela função cardiovascular de muitos doentes[3].Os mecanismos compensatórios envolvidos na marcha com artrodese do joelho incluem um aumento do tilt pelvico, aumento da abdução da anca ipsilateral e aumento da dorsiflexão do tornozelo ipsilateral. A osteoartrose do tornozelo e anca impede esta compensação tornando a marcha muito difícil. Os doentes com patologia degenerativa da coluna lombar também são maus candidatos para a artrodese uma vez que o tilt pelvico aumenta as forças transmitidas à coluna lombar agravando as queixas algicas.

ESTUDO PRÉ-OPERATÓRIO Muitos dos doentes candidatos à artrodese apresentam comorbilidades que devem ser otimizadas para obter os melhores resultados. O tabagismo, a obesidade e a diabetes mellitus aumentam o risco de não união, de infeção e de deiscência da sutura, a patologia pulmonar e cardiovascular interfere com acapacidade de marcha do doente, devido ao consumo de oxigénio aumentado[3]. Todas as incisões prévias devem ser avaliadas e caso se prevejam dificuldades com o encerramento considerar a utilização de expansores de tecido ou de retalhos de cobertura.

Uma vez que a vascularização da pele da região anterior do joelho provem de vasos da região interna, devem-se evitar incisões internas á linha média[1].

Todos os doentes submetidos a uma artrodese do joelho vão ficar com dismetria do membro que pode ser prevista com uma radiografia extralonga (120cm) dos membros inferiores, em carga, a radiografia permite ainda avaliar o alinhamento do membro. Quando a dismetria prevista for superior a 5 cm é aconselhável realizar um alongamento simultâneo, este procedimento não leva a que o fixador tenha que ficar mais tempo que o necessário para a consolidação da artrodese [3]. Não existe um consenso quanto á posição em que o joelho deve ser colocado.

No plano frontal o ideal é entre 5 a 7o de valgo[12], a fusão com o joelho em 10º -15º de flexão facilita a marcha, embora aumente a dismetria[1, 2, 3]. Para que ha ja a consolidação superfícies ósseas devem ser colocadas em compressão, ter a maior área de contacto possível de osso trabecular com a vascularização intacta[13, 14, 15]. A erradicação da infeção antes da artrodese resulta numa maior taxa de fusão e possibilita mais opções de fixação. Nos casos de infeções periprotésicas o ideal é num primeiro tempo retirar os componentes, proceder ao desbridamento e aplicação de um espaçador de cimento impregnado em antibiótico.

Em seguida o doente realiza um ciclo de 6 a 8 semanas de antibioterapia dirigida aos micro-organismos isolados, quando os marcadores inflamatórios normalizam o doente faz uma pausa de duas semanas na antibioterapia e nova reavaliação analítica. O segundo tempo da artrodese é então completado utilizando o método preferido pelo cirurgião[1, 2, 3]. Nos casos de infeções recorrentes, polimicrobianas ou a gram negativos, os fixadores externos apresentam-se como a técnica de eleição[16, 4]. A artrodese considera-se conseguida quando as trabéculas ósseas atravessam o espaço entre a tíbia e o fémur em dois planos radiográficos. 

TÉCNICAS Fixador externo O uso do fixador externo como modo de obter artrodese do joelho foi divulgado por Charnley e Baker[17]. A técnica consistia em dois pinosfemorais unidos a dois pinos tibiais e uma tala de Thomas para manter compressão no foco de artrodese. As principais vantagens dos fixadores externos são a capacidade de compressão no foco de artrodese, a possibilidade de realizar um alongamento concomitante e facilitarem o tratamento de infeções da ferida operatória (Figura_1). Os fios ou pinos devem evitar estruturas neurovasculares e ser colocados em osso saudável, atravessando duas corticais. A utilização de pinos revestidos a hidroxiapatite promove a sua osteointegração diminuindo o risco de infeção e descelamento[18]. Os fixadores biplanares apresentam uma maior estabilidade sagital e maiores taxas de fusão que os monoplanares[19]. Devem ser colocados anteriormente e externamente, e a fixação deve ir desde o pequeno trocânter até à metáfise distal da tíbia[3]. Os fixadores externos circulares têm como vantagens a possibiliade de usar uma fixação com fios, de modo a obter a máxima rigidez em osso de  qualidade, permite que o doente faça carga total imediatamente após a cirurgia, pode variar a rigidez da fixação e o alinhamento do membro durante o tratamento e a artrodese pode ser realizada com a infeção ativa, uma vez que a antibioterapia e a compressão axial mantida erradicam a infeção[20, 21, 22]. No entanto é um método tecnicamente exigente, pode não ser tolerado por doentes obesos e o anel proximal do fémur obriga aos doentes a andar com os membros afastados. As desvantagens comuns a todos os fixadores externos são a possibilidade de infeção do trajeto dos pinos, as taxas de fusão são menores do que com as cavilhas e é difícil avaliar aqualidade da fusão de modo a decidir quando retirar o fixador[3]. 

Placas A utilização de uma[23, 24] ou duas placas[25,26] (Figura_2), possibilita a aplicação de compressão na artrodese, o desbridamento, preparação das superfícies ósseas e aplicação dos implantes pela mesma incisão. Quando são utilizadas duas placas, uma é colocada no lado interno e a outra anteriormente ou externamente. As principais desvantagens são a dificuldade no encerramento da ferida operatória[26] e ser necessário utilizar uma tala gessada como meio de suplementar a fixação.

Cavilha As cavilhas podem ser longas, estendendo-se do grande trocânter até 2 cm proximais ao tornozelo ou curtas que vão do istmo do fémur ao istmo da tíbia.

Na literatura as vantagens descritas das cavilhas são a fixação rígida, mobilização precoce e tempos de fusão mais curtos[27]. Os opositores das cavilhas apontam como desvantagem o risco de disseminação da infeção para o canal medular e consequente osteomielite do fémur e tíbia[1]. As cavilhas longas tem como vantagem proporcional uma estabilidade excelente devido ao grande braço de alavanca, no entanto são de aplicação tecnicamente exigente, necessitam de uma abordagem cirúrgica extensa, apresentam um tempo cirúrgico prolongado, perdas de sangue aumentadas em comparação com outros métodos e permitem pouco controlo na orientação do membro em termos varo-valgo e extensão-flexão[12]. As cavilhas curtas modulares permitem aplicar implantes de diferentes diâmetros no fémur e tíbia e uma vez que os implantes entram através do joelho e ficam 5-6cm após o istmo e são bloqueados com parafusos, o que é compatível com uma artroplastia da anca ipsilateral[28] (Figura_3). A principal desvantagem destas cavilhas é a quantidade significativa de osso que é necessário remover para colocar peça que une o componente tibial e femoral, outro problema é a dificuldade de remover a cavilha após a sua inserção.

MATERIAL E MÉTODOS Foram revistos os processos de todos os doentes submetidos a artrodese do joelho, na nossa instituição, entre os anos de 2000 e 2008, num total de 22 doentes. Consideramos o tempo de fusão como o tempo em meses que decorreu desde a cirurgia até o doente apresentar sinais radiológicos de fusão, ou seja obliteração da linha articular e continuidade entre as trabéculas ósseas dos dois topos, nas radiografias anteroposteriores e de perfil.

Consideramos como complicação todas as intercorrências que atrasaram o tratamento, obrigaram a reintervenção cirúrgica, motivaram internamento hospitalar ou início de nova terapêutica medicamentosa, ou causaram morbilidade significativa ao doente. Nos casos em que a artrodese não foi conseguida com a cirurgia inicial, e que o doente foi reoperado utilizando outra técnica, considera-se que o tempo de fusão foi o decorrido entre a última cirurgia e o doente cumprir os critérios de fusão.

Fixadores externos Este grupo divide-se em três subgrupos, o dos fixadores externos circulares (Ilizarov, Memphis, EUA), o dos fixadores externos monolaterais (Orthofix, Verona, Itália e Synthes,Solothurn, Suíça), e o do fixador externo de Charnley.

A razão para esta divisão é a diferente funcionamento biomecânico[29], que do ponto de vista dos autores faz com que não seja lícito agrupar os diferentes tipos de fixador externo. Todos os fixadores externos foram colocados de modo a aplicar compressão a nível da articulação a artrodesar. Os resultados obtidos com os fixadores circulares encontram-se na Quadro_I e o resultado dos fixadores monolaterais na Quadro_II. O fixador externo de Charnley foi utilizado num único caso, de um doente com 74 anos, de falência séptica de artroplastia de revisão, não foi possível obter fusão da articulação e o doente acabou por falecer aos 10 meses pós-operatórios.

Quadro_I

Quadro_II

Placas Em todos os doentes deste grupo foi tentada a artrodese com duas placas retas D.C.P. , de 4,5mm (Synthes, Solothurn, Suíça) colocadas longitudinalmente, uma na faceanterior do joelho e a outra na face interna, de modo a fazerem um ângulo de 90o entre si. O tamanho da placa a aplicar e o número  de parafusos dependeram da decisão do cirurgião. A via de abordagem utilizada foi em todos os casos a via mediana anterior. Os resultados obtidos encontram-se na Quadro III. 

Quadro_III

Cavilhas Em todos os doentes deste grupo foram colocadas cavilhas intramedulares curtas Wichita (Stryker, Kalamazoo, EUA), sendo que as dimensões da cavilha dependeram do caso específico. Todas as cavilhas foram aplicadas de acordo com a técnica operatória recomendada pelo fabricante de modo a efetuar compressão a nível da articulação a artrodesar.Os resultados obtidos encontram-se na Quadro_IV.

Quadro_IV

COMPLICAÇÕES Na literatura as taxas de complicações descritas variam entre os 20% e os 85% [3]. Na nossa série a complicação mais frequente foi a deiscência da ferida operatória, tendo ocorrido em 3 casos tratados com fixador externo, 2 casos tratados com placas e 2 casos tratados com cavilha. Atribuímos as complicações com a ferida operatória a fatores relacionados com o doente, ou seja antecedentes de artroplastia infetada, de tabagismo, de insuficiência arterial periférica, e a fatores relacionados com a técnica, ou seja cirurgia com tempo de garrote prolongado e dissecção extensa ou aplicação de material volumoso. A outra complicação observada, e descrita na literatura[30, 31], foi a fratura da diáfise do fémur a nível de um dos pinos do fixador externo (Figura_4), que pode ser atribuída a ter sido aplicada uma força compressiva excessiva a nível do fixador monolateral. A ausência de fusão em casos com extensa perda óssea e infeção latente  também se encontra descrita na literatura[32, 33] e nesta série, em nenhum dos casos de infeção de artroplastia de revisão do joelho foi conseguida a artrodese (Figuras_5 e 6). A dificuldade em conseguir duas superfícies extensas de osso esponjoso vascularizado, associado a uma supressão parcial da infeção foram os fatores que contribuíram para a ausência de fusão.

Outras complicações descritas na literatura, e que não foram observadas em nenhum dos casos desta série incluem lesão do nervo peroneal, tromboflebite, fratura da cavilha endomedular, perfuração da  diáfise da tíbia pela cavilha e fratura de stress da diáfise, proximal ou distal à cavilha[1, 2, 3].

ALTERNATIVAS Nos casos de infeção de artroplastia do joelho as alternativas à artrodese são a supressão da infeção com tratamento antibiótico crónico, a artrodese artificial, a artroplastia de ressecção e a amputação acima do joelho[1, 3] A supressão crónica com antibiótico não é muito eficaz[1] e tem como inconvenientes o aparecimento de resistências ao antibiótico, os efeitos adversos da medicação e sua interação com outras medicações e o problema da "compliance"do doente. A artrodese artificial foi descrita inicialmente por Campanacci and Costa[34] para o tratamento de tumores e adaptada por Voss[35] para os casos de falência de artroplastia. Consiste em colocar um espaçador de cimento no joelho de modo a ocupar o espaço entre a tíbia e o fémur e fixar a articulação com uma cavilha longa. Deste modo o doente pode deambular no pós operatório imediato. A artroplastia de ressecção deve ser reservada para doentes com comorbilidades que impedem uma cirurgia extensa, uma vez que os resultados funcionais são maus[36,37].A amputação acima do joelho encontra-se reservada para casos de infeção persistente e que tem o potencial de evoluir para sépsis e colocar a vida do doente em perigo ou então em membros com alterações vasculares marcadas. A probabilidade destes doentes voltarem a deambular autonomamente, mesmo com ortóteses ou próteses de membro é baixa[1, 2, 3].

CONCLUSÃO Atualmente a indicação mais frequente para a artrodese é a infeção de artroplastia que não é passível de ser tratada com uma artroplastia de revisão.

Mantêm-se uma opção terapêutica válida para doentes com alterações degenerativas graves do joelho, independentemente da etiologia, e que não têm indicação para artroplastia do joelho. O stock ósseo do doente e a erradicação da infeção são os fatores chave que influenciam o sucesso da artroplastia. Seja qual for da técnica utilizada é fundamental ter em contacto duas superfícies de osso esponjoso bem vascularizado e controlar a infeção com antibioterapia agressiva. Na nossa série a utilização de duas placas colocadas a 90o foi a técnica que apresentou a taxa de fusão mais elevada, independentemente do  diagnóstico de base. As placas permitem um maior controlo sobre o alinhamento da artrodese e não têm os inconvenientes dos fixadores externos. Os autores deste trabalho recomendam assim a utilização de duas placas colocadas a 90º , em todos os casos em que os defeitos cutâneos não impeçam o seu uso.


transferir texto