TEITOK@C-I   |   Corpora@C-I   |   CELGA-ILTEC   |   Contacto

EN | PT

Representação em texto

EuPTCVHe1646-21222012000100009

variedadeEu
ano2012
fonteScielo

O script do Java parece estar desligado, ou então houve um erro de comunicação. Ligue o script do Java para mais opções de representação.

Fraturas periprotésicas em artroplastias da anca: Estratégias cirúrgicas

INTRODUÇÃO As fraturas periprotésicas, como complicações de artroplastias da anca, têm sido cada vez mais frequentes devido a vários fatores: aumento do número de artroplastias da anca, o aumento da longevidade dos doentes que originam um incremento dos casos com descolamento asséptico das próteses e a osteólise progressiva com perda óssea periprotésica, que podem levar a fraturas no próprio leito ou próximo do leito dos componentes protésicos.

A frequência das fraturas periprotésicas em artroplastias da anca oscilam entre 0.6 % e 2.5%, podendo ocorrer durante (peri-operatória) ou após a cirurgia (pós-operatória), sendo precoces (quando ocorrem 3-4 semanas após a cirurgia) ou tardias (se surgem meses ou anos após a cirurgia)[1, 8, 10]. Nalguns centros, aproximadamente cerca de 5% das revisões de próteses da anca são causadas por fraturas periprotésicas[7].

A classificação de Vancouver tem sido considerada como válida e credível em fraturas femorais periprotésicas, pelo que tem sido referenciada em muitos trabalhos[3]. Contudo, esta classificação não contempla casos clínicos em que um tipo de fratura pode envolver 2 ou mais níveis femorais. Por isso, propomos uma classificação modificada (Classificação Hospitais da Universidade de Coimbra - HUC) que considera como sendo do tipo D esses casos de fraturas que englobam 2 ou mais níveis femorais (Figura_1).

Figura_1

Considerando o tratamento cirúrgico das fraturas periprotésicas da anca como um dos maiores desafios da cirurgia ortopédica atual, devido às múltiplas e complexas intervenções cirúrgicas exigidas, internamento hospitalar mais prolongado, maiores custos de tratamento hospitalar, maior morbilidade e incapacidade futura do doente, realizámos este nosso estudo, com o objetivo de avaliar os resultados das nossas estratégias cirúrgicas, realizadas pela mesma orientação cirúrgica, em diferentes tipos de fraturas periprotésicas da anca, no Serviço de Ortopedia dos Hospitais da Universidade de Coimbra.

MATERIAL E MÉTODOS De outubro de 1990 a dezembro de 2010, foram tratados pela mesma equipa e orientação cirurgica, no Serviço de Ortopedia dos HUC 112 doentes com fraturas periprotésicas em artroplastias da anca. Na maioria dos casos, foram fraturas periprotésicas femorais (105 casos-94%) e em apenas 7 casos (6%) fraturas periprotésicas acetabulares. A relação masculino/feminino foi 67:45 com idade média de 66,4 anos (39-89 anos).

Na grande maioria dos casos foram tratadas fraturas em artroplastias totais da anca (108 casos-96%) relativamente a artroplastias parciais da anca (4 casos- 4%). Em 66 casos (59%) as fraturas periprotésicas foram observadas em próteses não cimentadas e em 46 casos (41%) em próteses cimentadas da anca. Por outro lado, constatou-se que as fraturas em artroplastias cimentadas ocorreram em média 7,6 anos após implantação e 15,3 anos em artroplastias não cimentadas.

Contudo, foram registados 5 casos clínicos de fraturas peri-operatórias (1 caso em aplicação de haste femoral cimentada e 4 casos na utilização de hastes femorais não cimentadas).

De acordo com a nossa Classificação HUC (a qual constitui uma classificação de Vancouver modificada, Figura_1), observámos 7 casos (7%) de fraturas envolvendo apenas o pequeno e o grande trocânter (Tipo A), 10 casos (10%) de fraturas no leito de hastes femorais bem fixadas e sem sinais de descolamento (Tipo B1), 17 fraturas (16%) no leito de hastes femorais com sinais de descolamento (Tipo B2), 46 casos (44%) com fraturas no leito de hastes femorais com sinais de descolamento e marcada perda óssea femoral periprotésica (Tipo B3) e 13 casos (12%) de fraturas femorais distais à ponta da haste femoral. Finalmente, classificámos como Tipo D 12 casos clínicos (11%) que apresentavam fraturas que envolviam 2 ou mais níveis femorais (Quadro_I).

Quadro_I

Em 4 casos clínicos apenas realizámos revisão cirúrgica femoral e revisão acetabular apenas num único caso. Contudo, na maioria dos casos (85 casos - 76%) efetuámos revisão cirúrgica de ambos os componentes.

Nas 86 revisões cirúrgicas acetabulares, usámos anéis de reforço acetabular de Muller em 61 casos (71%), cúpulas acetabulares de polietileno cimentadas em 13 casos (15%), anéis de reconstrução acetabular de Burch-Schneider em 12 casos (14%), um dos quais com utilização simultânea de placa e parafusos para estabilização de fratura acetabular periprotésica.

Nos 105 casos com fixações de fraturas ou reconstruções femorais, 22 casos (21%) apresentavam componentes protésicos bem fixados e com próteses estáveis pelo que apenas realizámos a fixação das fraturas com placas e/ou cabos metálicos. Na maioria dos casos (75 casos - 71%) utilizámos hastes femorais não cimentadas de ligas à base de titânio com cabos metálicos para estabilização das fraturas femorais. Em 3 casos houve necessidade de aplicar hastes femorais não cimentadas longas fixadas distalmente com 2 parafusos para evitar o seu afundamento. Em 8 casos (8%) usámos hastes femorais não cimentadas e placas-gancho trocantéricas, nomeadamente em doentes osteoporóticos com fraturas do tipo A (região trocantérica) ou do tipo D (fraturas envolvendo 2 ou mais níveis femorais).

Na maioria dos casos (67 casos - 60%) aplicámos enxerto ósseo alógeno esponjoso, quer a nível femoral quer acetabular. Apenas num único caso (0,9%) utilizámos enxerto maciço a nível do fémur proximal. Todos os doentes foram submetidos a profilaxia antibiótica (cefalosporinas).

Todos os doentes foram operados e avaliados no controlo pós-operatório (clínico e radiológico) pela mesma equipa cirúrgica e de acordo com protocolo previamente estabelecido. Os doentes foram avaliados com um mínimo de 3 meses e um máximo de 18 anos (média = 10,6 anos).

RESULTADOS Nos 112 doentes inseridos neste estudo, 103 (92%) não foi registada qualquer tipo de complicação clínica ou radiológica, observando-se uma consolidação das fraturas num tempo médio de 8,2 meses. É de salientar que 38 doentes (34%) revelaram um alívio da dor e melhoria da sua qualidade de vida relativamente à sua situação clínica antes de sofrer a fratura periprotésica.

Como complicações observámos: 3 casos de infeções (2,7%), 3 casos de luxação precoce da prótese da anca tratadas por redução fechada sob anestesia, 2 casos (1,8%) com pseudartroses trocantéricas assintomáticas e 1 caso clínico (0,9%) de refractura periprotésica que exigiu revisão da osteossíntese femoral. Em suma, tivemos necessidade de reoperar 4 doentes (3,6%).

Nos 3 casos de infeção foram identificados o Staphylococcus aureus (2 casos) e o Staphylococcus epidermidis (1 caso), 2 casos submetidos a revisão cirúrgica em 2 tempos, com remoção dos implantes, limpeza cirúrgica, colheita de peças operatórias para exames bacteriológicos, aplicação de espaçadores articulares durante 3 meses (1 caso) e 8 meses (1 caso), ambos submetidos a terapêutica antibiótica de acordo com os resultados do antibiograma, posterior reposição de componentes artroplásticos da anca e fixação da fratura do fémur (Figura_8).

No caso de infeção com haste femoral não cimentada longa osteointegrada e com pseudartrose do fémur proximal, removemos os implantes acetabulares, cortamos a extremidade proximal da haste femoral com serra de diamante e efetuamos uma limpeza cirúrgica ampla. Em nenhum destes 3 doentes foram observados, até ao momento, sinais clínicos ou laboratoriais de recidiva da infeção.

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES A classificação de Vancouver tem sido habitualmente usada quando se abordam as fraturas periprotésicas do fémur em próteses da anca[3]. Contudo, a constatação de 12 casos clínicos na nossa experiência, em que a fratura envolvia 2 ou mais níveis, (situação esta não prevista na citada classificação) levou-nos a acrescentar o Tipo D para englobar estes casos.

O tratamento de fraturas periprotésicas da anca depende de vários fatores, tais como: localização e tipo de fratura, boa ou fixação dos implantes, estabilidade ou instabilidade articular, tipo de fratura óssea periprotésica, ausência ou presença de infeção, estado geral e esperança de vida do doente.

De acordo com a nossa experiência, seguimos a seguinte estratégia: fraturas do tipo A - fixação com cabos metálicos (Figura_2) ou com placas-gancho trocantéricas nos casos com afastamento do grande trocânter em doentes osteoporóticos; fraturas do tipo B1 - fixação da fratura com cabos metálicos ou placasgancho trocantéricas (Figura_3); fraturas do tipo B2 - habitualmente requerem revisão cirúrgica femoral utilizando hastes femorais não cimentadas longas com impactação femoral distal com fixação da fratura femoral através de cabos metálicos e/ou placas, com ou sem aplicação de enxerto ósseo alógeno (Figura_4); fraturas do tipo B3 - revisão cirúrgica femoral usando hastes femorais não cimentadas longas, fixação das fraturas femorais através de placas e/ou cabos metálicos e preenchimento das perdas ósseas femorais com enxerto ósseo alógeno (Figura_5); fraturas do tipo C - fixação apenas da fratura com placas retas e parafusos e/ou cabos metálicos inseridos na placa (Figura_6); fraturas do tipo D - revisão cirúrgica femoral usando hastes femorais não cimentadas, fixação das fraturas femorais apenas com cabos metálicos ou com placas-gancho trocantéricas quando as fraturas envolvem o grande trocânter em doentes osteoporóticos (neste tipo de doentes o uso de cabos metálicos ou fios de cerclage "rasga" e fragiliza o grande trocânter, enfraquecendo o aparelho abdutor da anca, podendo originar luxação da prótese da anca) (Figura_7).

Nos casos clínicos de fraturas dos tipos B3 e D em que utilizámos hastes femorais não cimentadas longas com impactação na diáfise femoral distal inferior a 8-10 cm (contacto este considerado como o necessário para garantir uma estabilidade primária do implante), aplicámos 2 parafusos distais na haste femoral para evitar o seu afundamento e provável luxação da prótese (Figuras_5 e 7). Têm sido relatados bons resultados clínicos na utilização de hastes femorais não cimentadas em casos de fraturas periprotésicas do fémur dos tipos B2 e B3 [2, 6, 10]. No nosso estudo, a melhoria clínica significativa referida por 38 doentes (34%) relativamente ao seu estado  clínico antes de sofrerem fratura periprotésica, pode ser atribuída aos descolamentos dos componentes protésicos e osteólises periprotésicas existentes e que implicavam uma grande limitação funcional, situação clínica esta que se alterou profundamente após revisão cirúrgica e reconstrução femoral e/ou acetabular.

Em caso de suspeita de infeção é muito importante identificar o gérmen responsável através do aspirado ou peças de biopsia e avaliar a sua sensibilidade aos diferentes antibióticos. Nestes casos, qual será a melhor estratégia? Revisão cirúrgica num ou em 2 tempos? A revisão cirúrgica num tempo pode estar indicada quando o gérmen está identificado e quando não é possível implantar um espaçador articular devido à grande lise óssea acetabular e a operação de Girdlestone não é conveniente [11]. A revisão cirúrgica em 2 tempos tem sido a mais utilizada no tratamento de próteses da anca infetadas [4] (Figura_8). As desvantagens potenciais na utilização de espaçadores articulares são a sua possível fratura e as reabsorções ósseas acetabulares/ femorais que podem originar [5].

Como conclusões, pensamos que é importante fazer um diagnóstico precoce e tratamento cirúrgico atempado das lises ósseas femorais e/ou acetabulares, no sentido de evitar as consequentes fraturas periprotésicas. Nas fraturas dos Tipos A, B1 e C com implantes bem fixados e estabilidade articular pode ser suficiente apenas a fixação das fraturas com placas e/ ou cabos metálicos. Nas fraturas dos Tipos B2, B3, D e algumas do tipo C com descolamento do implante e perda óssea femoral é necessário realizar uma revisão cirúrgica femoral, com utilização de hastes longas femorais não cimentadas, fixação das fraturas com placas e/ou cabos metálicos e aplicação de enxerto ósseo alógeno para preenchimento das perdas ósseas periprotésicas. Finalmente, pensamos ser fundamental ter uma filosofia e uma estratégia de tratamento perante as diferentes situações clínicas, podendo disponibilizar do material cirúrgico adequado.


transferir texto