Retenção da capacidade funcional em mulheres idosas após a cessação de um
programa de treino multicomponente: estudo longitudinal de 3 anos
INTRODUÇÃO
O processo de envelhecimento está relacionado com a atrofia muscular e com o
declínio da capacidade funcional, diminuindo a capacidade de realizar as
tarefas do dia-a-dia de mulheres idosas (Pereira et al., 2012). Poucos são os
estudos que focam o seu objeto de estudo no efeito de um programa
multicomponente na capacidade funcional em detrimento dos efeitos de programas
tradicionais de força em mulheres idosas, especialmente em estudos
longitudinais. A atividade física em idosos promove benefícios psicológicos e
fisiológicos tais como o aumento da força muscular, equilíbrio, flexibilidade e
consumo máximo de oxigénio (VO2máx) (Smith, Winegard, Hicks, & McCartney,
2003; Teixeira-Salmela et al., 2005), que levam a um aumento da independência e
da qualidade de vida de mulheres idosas. Embora estes benefícios ocorram, as
mulheres idosas estão sujeitas a períodos de interrupção durante a prática de
programas de treino (Ivey et al., 2000; Lemmer et al., 2000) que podem provocar
alterações fisiológicas, levando à redução dos benefícios obtidos com o
exercício físico. A magnitude destas alterações poderá depender da duração do
período de destreino (Izquierdo et al., 2007; Pereira et al., 2012) e da
amplitude dos benefícios obtidos pelo exercício (Williams & Thompson,
2006). Pouco se sabe acerca dos efeitos regressivos dos períodos de destreino,
como os que ocorrem no verão, após a prática de exercício físico continuada ao
longo de alguns anos (Henwood & Taaffe, 2008).
A importância desta investigação assenta no facto de ser fundamental
encontrarem-se novos resultados e novos conhecimentos acerca do efeito da
prática regular de exercício físico com períodos de interrupção ao longo de
três anos. A hipótese formulada neste estudo é que mulheres idosas podem
significativamente aumentar as suas capacidades funcionais ao nível da força
muscular, resistência, flexibilidade, equilíbrio e agilidade através da prática
consecutiva de um programa de treino multicomponente ao longo de três anos
(períodos de nove meses de treino seguidos de períodos de 3 meses de
destreino).
Assim, o nosso estudo pretende analisar de uma forma longitudinal o efeito de
um programa de treino multifuncional ao longo de três anos, com períodos de
treino de nove meses intercalados com períodos de destreino de 3 meses na
capacidade funcional de mulheres idosas.
MÉTODO
Amostra
O universo escolhido para seleção da amostra foi a população do concelho do
Fundão. Os critérios de elegibilidade para admissão na participação do estudo
incluíram idade igual ou superior a 55 anos, autonomia e independência
funcional, e capacidade e disponibilidade para se deslocar ao local para
frequentar o programa duas vezes por semana. Setenta e nove mulheres
voluntariaram-se para participar neste estudo. Uma vez cumprida esta etapa,
foram encaminhadas para uma avaliação médica para a realização de testes de
forma a poderem frequentar o programa de atividade física. Os critérios de
exclusão para participação no estudo incluíram: a) disfunção ósteo-mio-
articular que pudesse interferir na execução dos movimentos propostos; b) já
ter participado em programas de atividade física orientada; c) problemas
cardíacos em que a prescrição de exercício prejudique o estado de saúde do
individuo; e d) contraindicação médica.
Apenas cinquenta e uma mulheres (Tabela_1) completaram o programa, vinte e oito
foram excluídas, cinco devido a problemas de saúde e vinte e três devido a não
ter frequentado pelo menos 80% das sessões de treino do programa. Antes de
iniciarem o programa os participantes foram informados acerca dos objetivos e
dos procedimentos do estudo, assinando um termo de consentimento para
participação no estudo que foi aprovado por o comité de ética do Instituto
Politécnico de Santarém de acordo com a declaração de Helsínquia.
Instrumentos
Para a recolha de dados antropométricos (peso, altura e percentagem de massa
gorda) utilizou-se uma balança, OMRON BF 303 (OMRON Healthcare Europe BV,
Matsusaka, Japão), com estadiómetro (Seca, Hamburgo, Alemanha) e análise de
bioimpedância. Os parâmetros da capacidade funcional foram recolhidos através
da bateria de 7 testes de Rikli e Jones (1999), desenhada e validada para
mulheres idosas.
A força muscular dos membros inferiores foi avaliada através do teste de sentar
e levantar da cadeira durante 30 segundos (r=0.92), onde os participantes,
sentados numa cadeira com os braços cruzados ao nível dos pulsos e contra o
peito, realizaram ao longo de 30 segundos o maior número de repetições de
levantar e sentar na cadeira. A pontuação final foi o número de repetições
corretamente executadas durante 30 segundos.
A força dos membros superiores foi avaliada através do teste de flexão do
antebraço durante 30 segundos (r=0.80). Foi solicitado aos participantes que ao
longo de 30 segundos realizassem o maior número de repetições de flexão do
braço, utilizando um haltere de 2kg. A pontuação final foi o número de
repetições executadas corretamente ao longo de 30 segundos.
A flexibilidade foi avaliada através do teste sentar e alcançar (r=0.96) para
os membros inferiores e através do teste alcançar atrás das costas (r=0.92)
para os membros superiores. No primeiro teste a pontuação final foi obtida
através da distância entre a ponta dos dedos da mão estendidos até à ponta dos
dedos do pé (resultado mínimo), ou a distância que o participante conseguiu
alcançar para além dos dedos do pé (resultado máximo). No segundo teste a
pontuação final foi obtida através da distância de sobreposição, ou da
distância entre os dedos médios das mãos.
A agilidade e equilíbrio foram avaliados através do teste sentado, percorrer
2.44 metros e voltar a sentar (r=0.90). O resultado final do teste consistiu no
tempo que o participante demorou a levantar de uma cadeira, percorrer uma
distância de 2.44 metros, regressar e voltar a sentar na mesma cadeira no menor
tempo possível.
A capacidade cardiorrespiratória foi avaliada através do teste de caminhar
durante seis minutos (r=0.91). Os participantes foram solicitados para
caminharem o mais depressa possível ao longo de seis minutos, tendo recebido
incentivos verbais por parte do avaliador a cada trinta segundos. O resultado
final consistiu na distância percorrida por cada participante ao longo dos seis
minutos de teste, num percurso retangular de 50 metros marcado em cada 5 metros
por sinalizadores.
Todos os testes foram aplicados no mesmo dia da avaliação, com exceção do teste
de seis minutos a caminhar que foi efetuado sempre no dia seguinte. Informações
detalhadas acerca de cada um dos testes e sua aplicação podem ser encontrados
em Rikli e Jones (1999).
Procedimentos
Programa de Treino Multicomponente
Os participantes seguiram um programa de treino multicomponente durante três
anos, onde em cada decorreu um período de nove meses de treino (Outubro a
Junho) seguido de três meses de destreino (Julho a Setembro). Cada período de
treino teve a frequência de duas vezes por semana, com quarenta e cinco minutos
por sessão, prescrito e conduzido por um especialista em exercício físico para
mulheres idosas. A prescrição do programa foi feita de acordo com as guidelines
do American College of Sports Medicine (ACSM) para a prescrição de exercícios
para idosos, com o foco principal do programa a aptidão cardio-respiratória,
força muscular, flexibilidade e equilíbrio (McDermott & Mernitz, 2006;
Whaley, Brubaker, Otto, & Armstrong, 2006). Todos os períodos de treino
foram constituídos por sessões em grupo de exercícios aeróbios e de força
muscular, com música apropriada à atividade, idade e interesse dos
participantes. Todas as sessões de quarenta e cinco minutos foram estruturadas
da seguinte forma:
(1) 5-8 Minutos de aquecimento geral, com caminhadas lentas e exercícios
calisténicos e de flexibilidade.
(2) 15-25 Minutos de treino aeróbio (coreografia de aeróbica com intensidade
moderada), com intensidade mantida a 2-3 no primeiro mês, e aumentada
gradualmente até 4-5 de acordo com a tabela adaptada de perceção do esforço de
Borg (Carvalho, Marques, & Mota, 2009).
(3) 15-20 Minutos de treino de força em circuito, com exercícios para os
membros inferiores e superiores juntamente com exercícios para a agilidade,
mobilidade, coordenação e interação social, com intervalos de repouso entre
séries de 20-30 segundos. Os participantes realizaram o treino de força
utilizando o peso corporal (exercícios de cadeia cinética aberta e fechada) e
bandas elásticas. A intensidade de treino foi progressiva, especialmente no
primeiro mês de forma a permitir uma familiarização com os exercícios e com a
técnica correta e segura de execução de cada exercício. As series e repetições
aumentaram de mês para mês de 2 para 4 series e de 16 para 30 repetições.
(4) 5-10 Minutos de técnicas de relaxamento e alongamento para os membros
superiores e inferiores. Exercícios estáticos e dinâmicos de alongamento foram
incluídos no treino de flexibilidade.
Período de Destreino
O destreino teve a duração de três meses em cada ano, correspondente ao período
de ferias de verão. Todos os participantes foram informados para evitarem a
prática de exercício físico sistemático e não alterarem os seus hábitos
alimentares e do dia-a-dia. Para analisar os efeitos do programa (Figura_1), a
amostra foi sujeita em cada ano a dois momentos de avaliação, o primeiro
durante a primeira semana de Outubro (antes do inicio do período de treino) e o
segundo durante a primeira semana de Julho (depois do período de treino). Cada
avaliação teve a duração de dois dias, realizando-se no primeiro dia as
avaliações antropométricas e os testes da capacidade funcional, com exceção do
teste de seis minutos a caminhar que decorreu no segundo dia. As avaliações
decorreram sempre nas mesmas condições ambiente (mesmo local, mesma hora do
dia, mesma ordem de aplicação do protocolo, mesma temperatura - de 22º a 24º e
humidade 55-65%) e pelo mesmo examinador.
Análise estatística
A análise estatística foi efetuada através do programa estatístico SPSS 19.0
para Windows (SPSS Inc., Chicago, IL). Procedimentos estatísticos foram
utilizados para caracterizar os valores das diferentes variáveis em termos de
tendência central e dispersão, verificando a normalidade das variáveis através
do teste de Shapiro-Wilk.
Para análise inferencial dos dados foi utilizado o T de pares para comparar os
valores das médias de cada variável em cada período de treino e destreino, e a
ANOVA de medidas repetidas para comparar entre cada um dos momentos de
avaliação dos três anos de estudo, sempre que se verificaram diferenças as
mesmas foram identificadas através do teste post-hoc de Bonferroni.
A percentagem de delta (%Δ, taxa de variação) foi calculada de acordo com a
fórmula:
A significância dos resultados foi estimada através do effect size (ES, Cohen´s
d): 0.20 ou menos é um pequeno efeito, 0.50 é um médio efeito e 0.80 ou mais é
um grande efeito. Para todos os procedimentos estatísticos o nível mínimo de
significância admitido foi de p≤0.05.
RESULTADOS
Todos os participantes completaram o programa de treino multicomponente de três
anos com 88% de assiduidade, realizando o trabalho aeróbio de cada período de
treino de acordo com a intensidade prescrita (media ± DP, 4.12 ± 0.59) com base
na tabela adaptada de perceção subjetiva de esforço de Borg (Carvalho et al.,
2009). Após os três anos do programa todos os valores da capacidade funcional
melhoram significativamente (p< 0.001) comparativamente com os seus valores
iniciais (Tabela_2).
No primeiro ano de estudo o período de treino multicomponente provocou aumentos
significativos em todas as variáveis, sendo neste período de treino onde se
observaram os maiores aumentos na flexibilidade dos membros superiores (AC:
40.16%, p< 0.001, ES=0.75) e na agilidade (S2.44: -15.37%, p< 0.001, ES=1.51)
em comparação com os outros períodos de treino (Tabela_3). O período de
destreino que se iniciou logo após este período de treino atenuou
significativamente os benefícios obtidos em todas as variáveis, verificando-se
maioritariamente uma diminuição na força muscular dos membros superiores (FA: -
12.29%, p< 0.001, ES= 1.29) e inferiores (LS: -16.01%, p< 0.001, ES= 1.25), na
agilidade (S2.44: 7.81%, p< 0.001, ES= 0.60) e na flexibilidade dos membros
inferiores (SA: -85.31%, p< 0.001, ES=0.87), comparativamente com os restantes
períodos de destreino (Tabela_3). Apesar da redução da capacidade funcional
durante o período de destreino os benefícios obtidos com o treino foram
suficientes para provocar melhorias significativas em todas as variáveis no
final do primeiro ano de estudo (p< 0.03) (Tabela_4).
No segundo ano de programa verificaram-se alterações significativas em todas as
variáveis, tanto no período de treino como no período de destreino. O período
de treino provocou melhorias significativas em todas as variáveis, sendo neste
período onde existiram os maiores aumentos na capacidade cardiorrespiratória
(T6M: 12.31%, p< 0.001, ES=1.01), na flexibilidade dos membros inferiores (SA:
576.60%, p< 0.001, ES=1.22) e na força muscular dos membros superiores (FA:
24.78%, p< 0.001, ES=2.23) e inferiores (LS: 30.69%, p< 0.001, ES=2.09). Tal
como ocorreu no ano anterior, os benefícios obtidos no período de treino foram
superiores aos declínios significativos provocados em todas as variáveis pelo
respetivo período de destreino, com exceção da %MG que aumentou 7.28% (p<
0.001, ES=0.79). Após estes dois primeiros anos de estudo observaram-se
melhorias de 12.66% no teste de seis minutos a caminhar (T6M, p< 0.001,
ES=1.11), 165.80% no teste de sentar e alcançar (SA, p< 0.001, ES=3.03), 51.21%
no teste de alcançar atrás das costas (AC, p< 0.001, ES=1.00), 23.76% no teste
de flexão do antebraço (FA, p< 0.001, ES=1.99), 16.46% no teste de levantar e
sentar (LS, p< 0.001, ES=1.19), -9.75% no teste de sentado, percorrer 2.44m e
voltar a sentar (S2.44, p< 0.001, ES=0.96), e -7.97% na %MG (p < 0.001,
ES=0.74).
No terceiro e último ano do programa de treino observámos melhorias
significativas em todas as variáveis, ao contrário do período de destreino que
provocou diminuições significativas em todas elas, verificando-se neste período
os maiores declínios na capacidade cardiorrespiratória (T6M: -5.79%, p< 0.001,
ES= 0.59) e na flexibilidade dos membros superiores (AC: -40.00%, p< 0.001, ES=
0.21) em comparação com os períodos de destreino dos anos anteriores. Apesar do
impacto negativo que este período de destreino provocou os benefícios obtidos
no período de treino foram suficientes para melhorar todas as variáveis no fim
do ano, com exceção do aumento de 1.48% (p< 0.001, ES=0.18) da %MG.
DISCUSSÃO
O objetivo do estudo foi analisar as alterações provocadas pelo programa de
treino multicomponente e pelos períodos de destreino na capacidade funcional de
mulheres idosas ao longo de três anos. O resultado mais importante do nosso
estudo foi que a prática sistemática de um programa multicomponente de
exercício físico com períodos de treino de nove meses seguidos de períodos de
três meses de destreino ao longo de três anos consecutivos provoca efeitos
muito benéficos na capacidade funcional de mulheres idosas, principalmente nas
capacidades físicas de força e flexibilidade. Além disso, períodos sucessivos
de três meses de destreino demonstraram que a duração destas interrupções deve
ser reduzida de forma a manter os benefícios produzidos pelos períodos de
treino em mulheres idosas, melhorar esses benefícios ao longo do tempo e para
evitar os decréscimos produzidos principalmente na força muscular e na
flexibilidade. Em cada ano do programa de treino multicomponente foram
encontradas melhorias na força, na flexibilidade, na capacidade respiratória e
na agilidade de mulheres idosas, sendo que a flexibilidade dos membros
superiores juntamente com a agilidade e equilíbrio parecem ser mais sensíveis a
melhorias no primeiro ano do programa do que em qualquer outro, enquanto a
flexibilidade dos membros inferiores, a força muscular e a capacidade
cardiorrespiratória parecem ser mais sensíveis a melhorias após dois períodos
de treino.
Os aumentos na força muscular em todos os períodos de treino, que ocorreram
devido a modificações neuromusculares, levaram a adaptações morfológicas e
metabólicas específicas no tecido muscular esquelético (aumento do número de
unidades motoras recrutadas; diminuição da ativação dos músculos antagonistas;
alterações na arquitetura muscular, nomeadamente no ângulo de penação; maior
rigidez do tendão; e hipertrofia seletiva das fibras tipo II) (Chodzko-Zajko et
al., 2009), e comparando com outros estudos, verificamos que Carvalho, Marques,
e Mota (2009) apresentaram resultados similares com melhorias de 13.9 para 17.7
repetições no teste de levantar e sentar e melhorias de 15.5 para 18.2
repetições no teste de flexão do antebraço, utilizando a mesma metodologia de
treino multicomponente. Toraman, Erman, e Agyar (2004) com apenas nove semanas
de treino multicomponente obtiveram aumentos superiores na força muscular, 89%
no teste de levantar e sentar e 32% no teste de flexão do antebraço. Estes
resultados podem ser justificados pelos níveis de performance das mulheres
idosas mais baixos no início do estudo comparativamente com o nosso estudo.
A flexibilidade decresce com o processo de envelhecimento, em parte, devido à
redução da atividade física (Spirduso, 1995) e às limitações dos tecidos moles,
como as alterações no colagénio, stress mecânico e doenças degenerativas
(Nelson et al., 2007). No nosso estudo a flexibilidade foi uma das capacidades
que mais aumentou em cada período de treino com aumentos significativos nos
membros superiores e inferiores (p< 0.001). Uma vez mais, os nossos resultados
foram superiores em relação a outros estudos (Carvalho et al., 2009; Morini,
Bassi, Cerulli, Marinozzi, & Ripani, 2004; Smith et al., 2003), no estudo
de oito meses de treino multicomponente de Carvalho et al. (2009), a
flexibilidade em mulheres idosas melhorou no teste de sentar e alcançar de -
5.4cm para -0.6cm, e no teste de alcançar atrás das costas de -10cm para -
6.1cm. Um dos motivos para estes resultados poderá ter sido a prática regular
de exercícios de flexibilidade e alongamento muscular em cada sessão de treino
(Carvalho et al., 2009), e o aumento da atividade muscular durante o treino
(Cavani, Mier, Musto, & Tummers, 2002; King et al., 2000).
A capacidade cardiorrespiratória avaliada através do T6M apresentou resultados
similares com outros estudos, como o de Toraman et al. (2004) com aumentos no
T6M de 14% (p< 0.05), como o estudo de Marques, Carvalho, Soares, Marques, e
Mota (2009) que aumentou 5% (p< 0.05) no T6M, e como o estudo de Toraman e
Ayceman (2005) que aumentou de 10% (p< 0.05) no T6M, sendo que estas alterações
ocorreram principalmente devido ao aumento do consumo máximo de oxigénio, por
via do aumento da diferença arteriovenosa de oxigénio e do aumento do débito
cardíaco (Chodzko-Zajko et al., 2009), provocado pelo treino multicomponente.
Como se sabe, a capacidade aeróbia é associada a diferentes atividades do dia-
a-dia, assim aumentos significativos desta capacidade poderão atenuar os
efeitos negativos do envelhecimento, especialmente se for atenuada com aumentos
na força muscular (Hruda, Hicks, & McCartney, 2003; Kalapotharakos,
Diamantopoulos, & Tokmakidis, 2010) produzidos por programas de treino
multicomponente (King et al., 2000; Nelson et al., 2004).
Analisando os resultados de agilidade e equilíbrio alguns estudos referem que o
treino multicomponente aumenta esta capacidade em 4-15% (Carvalho et al., 2009;
Cavani et al., 2002; Hruda et al., 2003; Toraman et al., 2004). Toraman et al.
(2004) reportou no seu estudo que a agilidade/equilíbrio no teste de sentado,
percorrer 2.44m e voltar a sentar melhorou 26%, de 6.7s para 4.87s, um valor
mais alto que o obtido no nosso estudo em todos os períodos de treino. Pelo
contrário, Carvalho et al. (2009) apresentou resultados similares com os
obtidos no primeiro período de treino do nosso estudo. Todos estes aumentos
poderão estar associados com o aumento da força muscular no processo de treino
(Carvalho et al., 2009; Ryushi et al., 2000), requisito principal para uma
excelente mobilidade (Frank & Patla, 2003) e um componente crítico para a
realização da maioria das atividades do dia-a-dia.
Relativamente à %MG sabemos que o envelhecimento provoca o seu aumento,
principalmente devido à diminuição dos níveis de atividade física (que leva a
uma redução do gasto calórico diário), à adoção de um estilo de vida sedentário
e à perca de massa muscular (sarcopenia) (Chodzko-Zajko et al., 2009). Apesar
destes efeitos negativos, o programa de treino multicomponente procovou
diminuições de -16.42% (p< 0.001, ES= 2.26) no primeiro período de treino,
sendo que no segundo e terceiro ano apenas se verificaram diminuições de -0.91%
(p< 0.001, ES= 0.12) e -1.08% (p< 0.001, ES= 0.13) respetivamente. Estes
últimos resultados vão ao encontro dos resultados de Toraman et al. (2004),
podendo dever-se ao efeito que a prática do exercício físico (sem restrição
calórica) tem na perca de massa gorda (Bouchard, Deprés, & Tremblay, 1993;
Stefanick, 1993). O forte impacto ocorrido no primeiro período de treino poderá
dever-se a um estilo de vida mais ativo e ao aumento do gasto calórico diário
provocado pelo programa de treino multicomponente, visto que segundo Ballor
(1996), a %MG é afetada pelo gasto calórico despendido semanalmente através da
atividade aeróbia e que é necessário a realização de atividade adicional, como
o exercício físico, para reduzir os efeitos do envelhecimento (Ballor, 1996).
Comparativamente ao destreino, poucos estudos analisaram os efeitos da cessação
do exercício físico (3 meses) após períodos de nove meses de treino ao longo de
três anos tendo como objeto de estudo o treino multicomponente em mulheres
idosas. No nosso estudo os períodos de três meses de destreino provocaram
grandes reduções ao nível da força muscular, flexibilidade, capacidade
cardiorrespiratória e agilidade/equilíbrio, para além de um aumento da %MG.
Estas reduções poderão resultar, segundo Weineck (1999), de sintomas
psicossomáticos na falta de sincronização entre a readaptação do sistema
cardiovascular e do sistema nervoso à diminuição do exercício físico. O
primeiro período de destreino foi o período que mais afetou a maioria das
variáveis de estudo (força, agilidade/equilíbrio e flexibilidade dos membros
inferiores), levando a grandes quebras nos ganhos obtidos com os períodos de
treino, enquanto o segundo período de destreino pareceu ser o período que menos
afetou menos os benefícios dos períodos de treino. Estes decréscimos poderão
ser justificados com o aumento da regularidade da prática de exercício físico
que atenua os efeitos do destreino. Comparativamente com outros estudos, os
nossos resultados são similares em relação ao valores de força muscular
(Carvalho et al., 2009; Häkkinen, Alen, Kallinen, Newton, & Kraemer, 2000;
Kalapotharakos, Smilios, Parlavatzas, & Tokmakidis, 2007; Toraman, 2005) e
similares em relação aos valores de flexibilidade dos membros superiores e
inferiores (Carvalho et al., 2009; Michelin, Coelho, & Burini, 2008;
Toraman, 2005).
Os decréscimos observados na força muscular poderão resultar em parte, pelos
fatores neurais que com a sua não ativação levam a alterações na velocidade e
frequência de ativação e na sincronização das unidades motoras (Fleck &
Kraemer, 2004). Comparando os resultados obtidos ao nível da força muscular
verificamos que estes estão em linha com os de Carvalho et al. (2009) no teste
de levantar e sentar (decréscimos de 9%) e são inferiores no teste de flexão do
antebraço (19%), com a mesma duração de três meses de destreino, e inferiores
aos de Toraman (2005), que observou após seis semanas de destreino decréscimos
de 24% no teste de levantar e sentar e 15% no teste de flexão do antebraço, e
após cinquenta e duas semanas de destreino decréscimos de 74% no teste levantar
e sentar e 44% no teste de flexão de antebraço.
A diminuição da força muscular poderá ser um dos motivos para a quebra de 3%-8%
na performance do teste de agilidade\equilíbrio, e para a quebra de 4%-6% na
capacidade cardiorrespiratória observados no nosso estudo. Yázigi e Armada-da-
Silva (2007) e Carvalho et al. (2009) com a mesma duração no período de
destreino não obtiveram quaisquer diferenças significativas no teste T6M, ao
contrário de Toraman (2005) que após cinquenta e duas semanas obteve um
decréscimo de 31% no T6M. Um dos principais motivos para os decréscimos
observados na capacidade cardiorrespiratória em todos os períodos de destreino
poderá ter sido a diminuição do consumo máximo de oxigénio, que ocorre em
função da readaptação da frequência cardíaca e do volume sistólico às
alterações dos estímulos fisiológicos induzidos pelo destreino (Mujika &
Padilla, 2000).
Apesar dos decréscimos observados nos testes de flexibilidade, os nossos
resultados são superiores aos de Carvalho et al. (2009), que observou no seu
estudo quebras de 0.6cm para 3.4cm (9%) e 6.1cm para 9.8cm (12%) nos testes de
sentar e alcançar atrás das costas respetivamente, após três meses de
destreino. Estes resultados estão linha com os observados por Toraman (2005)
após seis semanas (SA: 3.9cm para -4.7cm; AC: -5.8cm para -9.6cm) e cinquenta e
duas semanas de destreino (SA: 3.9cm para -8cm; AC: -5.8cm para -14,3cm). Estes
decréscimos poderão estar associados ao desenvolvimento de deficiências
músculo-esqueléticas e aumento de incapacidades em mulheres idosas (Holland,
Tanaka, Shigematsu, & Nakagaichi, 2002). A discrepância dos nossos
resultados comparando com outros estudos poderá dever-se a um maior nível
inicial de atividade física da nossa amostra de estudo comparativamente com a
de outros estudos.
Ao nível da %MG verificamos que os períodos de destreino afetaram negativamente
os efeitos positivos dos períodos de treino, principalmente o segundo período
de destreino, que provocou um aumento de 8.26% da %MG, devido principalmente ao
estilo de vida menos ativo e a um menor gasto calórico diário provocado pelo
destreino (Ballor, 1996).
Com os resultados obtidos no nosso estudo, podemos verificar que após três anos
de treino multicomponente, com períodos sucessivos de destreino de três meses,
a capacidade funcional das mulheres idosas melhorou apesar dos efeitos
negativos do destreino, com a exceção da %MG que após o primeiro ano de estudo
os efeitos produzidos pelos períodos de treino não foram suficientemente
significativos para compensar o efeitos negativos do destreino, levando a um
aumento da %MG nas mulheres idosas (Ballor, 1996; Bortz, 2001). O segundo ano
foi o ano onde ocorreram a maioria dos maiores benefícios em cada uma das
variáveis (LS: 12.5%, p < 0.001, ES=0.91; FA: 13.05, p < 0.001, ES=1.26; AC:
40.33, p < 0.001, ES= 0.63; SA: 383.33%, p < 0.001, ES= 0.82; T6M: 7.43, p <
0.001, ES= 0.61), devido em parte a uma maior efetividade do segundo período de
treino, onde se verificaram os maiores aumentos em quase todas as variáveis
comparativamente com os restantes períodos, e ao atenuar do efeito negativo do
segundo período de destreino, que foi muito inferior ao do período de destreino
anterior em todas as variáveis da capacidade funcional.
Este estudo tem algumas limitações importantes, como a) o fato de não ter tido
um grupo de controlo ao longo do estudo; b) o número reduzido de avaliações
durante os três anos de estudo, principalmente durante os períodos de treino, e
c) o nível de atividade física durante os períodos de destreino não ter sido
controlado com acelerometria ou outro instrumento válido para o efeito.
A falta de estudos longitudinais dificultou a comparação com outros estudos,
ano após ano, o que nos permite afirmar que mais investigação é necessária para
se poder analisar os efeitos a longo prazo em outras capacidades e outros
perfis de saúde (parâmetros lipídicos e hemodinâmicos), com períodos de
destreino mais curtos e mais longos de forma a ser possível analisar de uma
forma mais pormenorizada os efeitos do exercício físico em mulheres idosas.
CONCLUSÕES
Os resultados do presente estudo permitem concluir que a capacidade funcional
de mulheres idosas pode melhorar através da prática sistemática de exercício
físico ao longo de três anos, apesar dos efeitos negativos provocados pelos
períodos de destreino de três meses que ocorrem após cada período de nove meses
de treino em cada ano.
As interrupções de três meses devem ser evitadas quando se prescreve exercício
físico para mulheres idosas com o objetivo de manter e/ou reduzir os efeitos
negativos do destreino. Além disso, o segundo ano parece ser o melhor período
de treino para se obter os benefícios mais significativos na maioria dos
parâmetros da capacidade funcional. A flexibilidade e a força muscular são as
capacidades mais afetadas pelos períodos de treino e destreino, positivamente e
negativamente, respetivamente. Melhorias na capacidade motora e funcional são
fundamentais para mulheres idosas manterem as suas atividades diárias, saúde e
qualidade de vida, podendo tudo isto ser obtido através da prática sistemática
do exercício físico.