Evidências de validade da versão brasileira do Exercise Motivation Inventory-
2 em contexto de academia e personal training
INTRODUÇÃO
Apesar do conhecimento generalizado sobre os efeitos positivos na saúde que a
prática regular de atividade física pode potencializar (Lee et al., 2012), o
mais recente estudo realizado de monitorização da prática de atividade física
(122 países; 88,9% da população mundial) indicou que cerca de 30% da população
é inativa nos países industrializados ou em desenvolvimento (Hallal et al.,
2012). No caso específico do Brasil, os dados revelam que 49% dos adultos são
fisicamente inativos, sendo que na cidade de Pelotas/RS esse valor se situa nos
41% (Hallal, Victora, Wells, & Lima, 2003). Estes dados, tornam-se ainda
mais preocupantes se considerarmos que 40%-65% dos indivíduos, que estão
envolvidos em programas organizados de exercício físico, desistem nos primeiros
3-6 meses (Annesi, 2003). Se considerarmos apenas o contexto das academias,
estudos recentes mostram prevalências de prática estruturada de exercícios
físicos no Brasil que variam entre 1.9% e 7.8%, dependendo do período do ano
(Balbinotti, Barbosa, Balbinotti, & Saldanha, 2011; Liz, Crocetta, Viana,
Brandt, & Andrade, 2010).
Um dos aspetos que se pode assumir como importantes para a manutenção desta
prática de exercício é o da adequação dos programas de exercício aos diferentes
motivos referidos pelos praticantes. Numa recente revisão de literatura sobre
os principais motivos para a prática de exercício físico no Brasil, em contexto
de academias (Liz et al., 2010), foram identificados os motivos Saúde,
Estética, Socialização, Melhoria da condição física e Bem-estar como
sendo os mais importantes. Todavia, estes motivos foram obtidos com base na
análise de 13 estudos que utilizaram instrumentos de recolha de dados com
nenhuma evidência sobre as suas qualidade psicométrica, nomeadamente, sobre a
sua validade e fiabilidade, o que pode colocar sérias reservas à aceitação dos
dados obtidos. Para além disso, os poucos estudos realizados no Brasil com a
utilização de instrumentos de avaliação devidamente validados (Balbinotti &
Barbosa, 2008; Balbinotti & Capozzoli, 2008), não foram incluídos nesta
revisão. Assim, a existência de instrumentos de medida validados para a cultura
brasileira visando a avaliação dos motivos para prática de exercício físico
condiciona a realização de estudos confiáveis, fazendo desta uma questão
central na investigação.
Dos instrumentos desenvolvidos e validados para a avaliação dos motivos de
prática de exercício, destacamos o Exercise Motivation Inventory 2 (EMI-2)
(Markland & Ingledew, 1997), que representa uma versão melhorada do
Exercise Motivation Inventory(Markland & Hardy, 1993). Este questionário,
constituído por 51 itens, avalia 14 motivos (fatores), que segundo os autores,
podem ser organizados em cinco dimensões, sendo por isso o instrumento de
avaliação que identifica uma maior diversidade de motivos para prática de
exercício físico. Uma outra vantagem do EMI-2, prende-se com o facto de ser um
instrumento cuja validade e fiabilidade têm sido demonstradas em diferentes
culturas tão diferentes como a Inglesa (Markland & Ingledew, 1997), Polaca
(Zajac & Schier, 2011), Alemã (Ingledew & Sullivan, 2002) e Portuguesa
(Alves & Lourenço, 2003), permitindo dessa forma a comparação transcultural
dos resultados obtidos. Diferentes estudos realizados revelaram que o EMI-
2 permite diferenciar os indivíduos em função do seu estádio de mudança para o
exercício e prever a troca de estádio num período de três meses (Ingledew,
Markland, & Medley, 1998), o que tem permitido compreender a importância
que os diferentes motivos têm na prática continuada de exercício (Ingledew
& Markland, 2008).
Por essa razão, o EMI-2 tem atraído considerável atenção de investigadores
também no Brasil, o que levou a que recentemente as suas propriedades
psicométricas fossem avaliadas com recurso a uma amostra de estudantes
universitários (Guedes, Legnani, & Legnani, 2012). Neste estudo, contudo, a
versão brasileira apresentada do EMI-2 é constituída por apenas 44 itens
agrupados em 10 motivos (fatores), constituindo-se como um instrumento de
medida diferente do original EMI-2, que avalia menos motivos e impossibilita a
comparação dos resultados obtidos com o EMI-2 noutras culturas. Acresce ainda,
o facto de as alterações introduzidas no EMI-2 por Guedes, Legnani e Legnani
(2012) terem sido introduzidas com base numa análise fatorial exploratória
(AFE). Esta opção, tal como refere (Marôco, 2010), irá conduzir necessariamente
a uma estrutura fatorial diferente da original, pois o uso da regra do
eigenvalue superior a 1 (critério de kaiser) na AFE, apesar de correta, leva a
que sejam retidos menos fatores que os necessários para explicar a variância
das variáveis manifestas. Esta questão é particularmente importante quando
estamos perante um instrumento de medida com muitos fatores, como é o caso do
EMI-2.
Dessa forma, sendo conhecida a estrutura fatorial do EMI-2, a sua validação de
constructo passa pela confirmação desta mesma estrutura e não a exploração de
uma estrutura diferente, sendo a análise fatorial confirmatória (AFC) a
abordagem mais adequada. Por outro lado, o facto de a AFE ter sido realizada
com recurso a uma amostra de estudantes universitários coloca reservas sobre a
validade desta versão em estudos realizados em praticantes de exercício de
academia e personal training, os quais apresentam caraterísticas
sociodemográficas e culturais distintas. Note-se que num outro estudo prévio de
validação do EMI-2, realizado por Moreira, Schneider, Stadnik, Perin, e Zych
(2010), com recurso a uma amostra diferente de alunos Brasileiros do ensino
médio profissionalizante, a estrutura fatorial para o EMI-2 resultante da AFE
realizada foi também diferente da encontrada Guedes, Legnani e Legnani (2012).
Considerando as limitações referidas anteriormente, foram definidos como
objetivos do presente estudo: i) verificar a fiabilidade e validade fatorial da
versão brasileira do Exercise Motivation Inventory-2; ii) comparar os
principais motivos para prática de exercício tendo em conta os contextos de
academia e personal training.
MÉTODO
Participantes
Participaram deste estudo um total de 588 sujeitos: 405 praticantes de
exercício em contexto de academia, do sexo feminino (n = 240; 59 %) e masculino
(n = 165; 41 %), com idades entre 18 e 81 anos (M = 35; DP = 17); 183
praticantes de exercício em contexto de personal training do sexo feminino (n =
142; 78 %) e 41 masculino (n = 41; 22 %), com idades entre 18 e 88 anos (M =
43; DP = 16). Todos os praticantes eram da cidade de Pelotas/RS/Brasil e
cumpriram os seguintes critérios de inclusão: estarem frequentando regularmente
as aulas (i.e., no mínimo duas sessões de treino por semana) dos programas de
academia ou personal training e concordarem em assinar o termo de
consentimento. Esta investigação carateriza-se como sendo de campo, com corte
transversal e maioritariamente do tipo quantitativa, com recurso a uma amostra
intencional e não probabilística.
Instrumento
Exercise Motivation Inventory (EMI-2) ' este instrumento desenvolvido por
Markland e Ingledew (1997), é constituído por 51 itens, agrupados em 14 motivos
(fatores) para prática de exercício físico organizados em 5 dimensões:
psicológicos (Estresse, Revitalização, Prazer, Desafio), interpessoais
(Reconhecimento social, Socialização, Competição), de saúde (Saúde,
Doença, Manter-se saudável), corporais (Peso e Aparência) e de condição
física (Força e resistência e Agilidade). As respostas são dadas em uma
escala do tipo Likert de 6 pontos, em que 0 significa nada pra mim e 5 é
completamente verdadeiro pra mim. A importância de cada motivo é avaliada
pela média obtida nos itens pertencentes a cada dimensão. Este questionário foi
traduzido e validado para a língua portuguesa (Alves & Lourenço, 2003),
tendo-se obtido valores de consistência interna considerados recomendáveis (α ≥
0.70) em todos os 14 motivos (fatores). Dadas as diferenças culturais
existentes entre Portugal e Brasil a versão portuguesa (Alves & Lourenço,
2003) foi submetida a uma análise prévia de validade facial e de conteúdo
através de um processo de revisão independente com recurso a dois painéis de
especialistas: um painel composto por três especialistas em psicologia do
desporto (i.e. três docentes do ensino superior com o doutoramento realizado
nesta área de investigação) e um segundo painel constituído por três
professores de educação física com mais de 10 anos de experiência em academia.
Com base nas sugestões dadas pelos especialistas foram realizados alguns
ajustamentos semânticos em algumas das expressões e palavras utilizadas (e.g.
item 46 "Para libertar a tensão", foi adaptado para a redação Para
liberar a tensão"). Esta versão brasileira do Exercise Motivation
Inventory-2 (EMI-2b) foi ainda aplicada a um grupo de 20 praticantes de
academia e personal training, os quais não levantaram nenhuma dúvida ou
dificuldade no preenchimento e compreensão do significado dos itens, assumindo-
se a adequação cultural da mesma.
Recolha de dados
Primeiramente foram contatados os proprietários e/ou administradores das
academias e/ou centros de treinamento personalizado mais populares da cidade,
realizado convite formal e apresentação do pré-projeto da pesquisa, buscando
aprovação para realização da investigação nos locais. Após definição das
instituições interessadas, foi realizado um contato inicial com os alunos
praticantes, onde a pesquisadora se identificou e explicou o tema da pesquisa
buscando recrutar os sujeitos interessados em participar da coleta.
Seguidamente, a pesquisadora aplicou os questionários e ficou à disposição para
orientar e esclarecer possíveis dúvidas a respeito do preenchimento dos mesmos.
A escolha das academias foi por conveniência. Os questionários não foram
aplicados a todos os praticantes de cada academia, pois a participação na
pesquisa foi voluntária e não obrigatória.
Os procedimentos metodológicos aplicados foram aprovados pelo Comitê de Ética
em Pesquisa com seres humanos da Escola Superior de Educação Física da
Universidade Federal de Pelotas, sob o número 016/2012 e seguiram as normas de
ética em pesquisas com humanos conforme a resolução nº 251, de 07/08/1997 do
Conselho Nacional de Saúde e da resolução nº. 196, de 10/10/1996 que dispões
sobre as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres
humanos, em concordância com os princípios éticos contidos na Declaração de
Helsinki. Os dados foram coletados após os participantes terem assinado o termo
de consentimento livre e esclarecido, autorizando sua participação e
concordando com a divulgação dos resultados, sendo guardadas as identidades
pessoais.
Análise estatística
A validade de constructo do EMI-2 foi testada através da realização de análises
fatoriais confirmatórias (AFC). Seguindo os mesmos procedimentos adotados por
Markland e Ingledew (1997), a estrutura fatorial do EMI-2 foi analisada tendo
em conta os valores de ajustamento de cada um dos 14 submodelos de medida que
compõem o EMI-2 (i.e. referente a cada um dos fatores), bem como para o modelo
global com os 14 fatores e 51 itens em simultâneo. Para tal, foi utilizado o
método de estimação da máxima verossimilhança (ML: Maximum Likelihood) que
avalia o modelo através do teste estatístico do qui-quadrado (c2Chi-Square).
Considerando que a teoria subjacente ao método de estimação ML assume a
multinormalidade dos itens (Kahn, 2006) será necessário recorrer ao teste de
Mardia (1970) para se avaliar este pressuposto. Derivado ao facto de na nossa
amostra o valor de Mardia normalizado ser superior a 5 (Byrne, 2009) na maioria
dos modelos analisados, foi utilizado o método robusto que corrige os valores
do c2 para a não normalidade da distribuição dos dados (Chou & Bentler,
1995), apresentando-se assim o valor de Satorra-Bentler c2(S-B χ2: ver Satorra
& Bentler, 1994). Para além do teste S-B χ², os respetivos graus de
liberdade (df) e o nível de significância (p), serão ainda apresentadas as
estimativas robustas dos seguintes índices de ajustamento mais consensuais na
literatura (L Cid, Rosado, Alves, & Leitão, 2012; Hair, Black, & Babin,
2009), designadamente: Standardized Root Mean Square Residual (SRMR),
Comparative Fit Index (CFI), Non-normed Fit Index (NNFI) e o Root Mean Square
Error of Approximation(RMSEA) e respetivo intervalo de confiança (IC) a 90%.
Para os índices referidos, foram adotados os valores de corte sugeridos por Hu
e Bentler (1999): SRMR ≤ 0.080, CFI e NNFI ≥ 0.950 e RMSEA ≤ 0.060. Para a
realização destes cálculos foi utilizado o programa estatístico EQSWIN (versão
6.1).
Para a análise da validade interna foram calculados os valores de consistência
interna (alfa de Cronbach) para cada um dos 14 fatores que compõem o EMI-2,
tendo sido utilizado o valor de corte de 0.70 proposto por Nunnally (1978) para
uma consistência interna razoável de cada fator. De acordo com Hill & Hill
(2000), podemos classificar os valores de alfa de acordo com os seguintes
intervalos de valores: inaceitável α < 0.60; fraca α = 0.60-0.69; razoável α =
0.70-0.79; boa α = 0.80-0.89; excelente α > 0.89.
No que se refere às análises estatísticas univariadas subsequentes, foram
realizadas com recurso a técnicas de estatística descritiva (Média; Desvio-
padrão) e de análise da normalidade de distribuição (Assimetria; Curtose). Para
a análise do efeito do contexto de prática (i.e. academia vs personal training)
sobre os motivos foi utilizada a técnica estatística multivariada MANOVA. O
tamanho do efeito atribuído à variável independente foi estimado através do
cálculo do Eta quadrado (η²), interpretados de acordo com os valores de corte
propostos por Ellis (2010), ou seja: efeitos pequenos para η2 ≥ 0.01, efeitos
médios para η2 ≥ 0.06 e efeitos grandes para η2 ≥ 0.14. Estes cálculos foram
realizados com recurso ao SPSS (versão 20.0), tendo sido adotado o nível de
significância de p< 0.05.
RESULTADOS
Análise fatorial confirmatória
Na Tabela_1 são apresentados os resultados das AFC realizadas, onde se inclui
os valores de ajustamento global de cada modelo testado e os respetivos pesos
fatoriais de cada item.
É possível verificar que todos os modelos de medida atingiram os valores de
corte tidos como adequados para os índices de ajustamento medidos.
Ao nível do ajustamento local, referente aos valores dos parâmetros individuais
dos modelos, verifica-se que a grande maioria dos motivos apresenta itens com
pesos fatoriais acima de 0.05. No caso dos motivos Socialização, Manter-se
Saudável, Aparência e Força e Resistência o valor mínimo dos pesos
fatoriais foi ligeiramente abaixo deste valor mas ainda assim superiores a
0.30, tido como mínimo aceitável para que possam ser interpretados (L Cid et
al., 2012; Hair et al., 2009). O único item cujo peso fatorial ficou abaixo
deste valor (PF = 0.25) foi o item 1 (Para me manter elegante) razão pela
qual foi eliminado do modelo de medida do motivo Peso, do qual faz parte, o
que fez também com que aumentasse a sua consistência interna (passou de 0.78
para 0.88).
Tendo em conta os valores de ajustamento aceitáveis de cada um dos 14
submodelos de medida foi testado em seguida o valor de ajustamento do modelo de
medida global com os 14 fatores e 51 itens em simultâneo. O coeficiente de
Mardia normalizado foi de 109.07, razão pela qual se optou mais uma vez pela
utilização do valor de c2com correção de Satorra-Bentler. Analisando a validade
de constructo do EMI-2b, com todos os fatores e itens em simultâneo, verifica-
se que o mesmo só se ajusta aos dados após a eliminação dos itens 1 (fator
Peso), 4 (fator Aparência), 22 (fator Força e Resistência) e 24 (fator
Socialização), os quais apresentavam valores residuais muito elevados, bem
como, pesos fatoriais abaixo de 0.50 (Tabela_2).
O único item que apresenta um peso fatorial abaixo de 0.50 é o item 7 (0.40),
todos os outros itens apresentam pesos fatoriais entre 0.55 e 0.88. Não optámos
pela eliminação do item 7 porque deixaria o respetivo fator a que pertence
(i.e., o fator Manter-se Saudável) com apenas 2 itens, o que não deve
acontecer (dado que por questões de identificação dos modelos, cada fator deve
no mínimo ser constituído por 3 itens). As correlações entre os diversos
fatores situaram-se entre -0.03 e 0.86.
Consistência interna
Relativamente à consistência interna verificamos que a maioria dos fatores
apresentou valores de alfa de Cronbach acima do nível de corte definido (i.e.
0.70). Nos casos dos motivos Manter-se Saudável e Revitalização esses
valores de alfa ficaram ligeiramente abaixo.
Motivos para a prática de exercício
Na Tabela_3 são apresentados os valores de estatística descritiva e de medidas
de dispersão dos motivos para prática de exercício, tendo em conta a
globalidade dos participantes neste estudo. Como podemos verificar, na
generalidade dos motivos, a distribuição é assimétrica negativa (i.e. enviesada
à direita), para um nível de significância de 0.05, mostrando que há uma
predominância da valorização desses motivos por parte dos sujeitos (com exceção
da Socialização, Problemas saúde, Competição e Reconhecimento social,
que apresentam uma distribuição assimétrica positiva - enviesada à esquerda).
Por outro lado, no que diz respeito ao achatamento, a distribuição é normal
(i.e. mesocúrtica) apenas nos motivos Força e resistência, Aparência e
Competição, sendo mais achatada do que o normal (i.e. platocúrtica) nos
motivos cujo valor z é inferior a -1.96, e menos achatada do que o normal (i.e.
leptocúrtica) nos motivos cujo valor z é superior a 1.96, sendo o caso mais
severo o motivo Manter-se saudável. Por último verificamos que a maioria dos
motivos não tem uma distribuição multivariada normal, uma vez que o valor de
coeficiente de Mardia normalizado é superior ao valor de corte de 5, sugerido
por Byrne (2009).
É possível verificar ainda que as médias das respostas dos itens situaram-se
entre o valor de 4.61 (DP = 0.67), para o motivo Manter-se saudável, e o
valor de 0.92 (DP = 1.20) para o motivo de Reconhecimento social.
De acordo com a metodologia definida, foi analisado o efeito do contexto de
prática (i.e. academia vs personal training) sobre os motivos através de uma
MANOVA. Os resultados revelaram a existência de um efeito multivariado
significativo do contexto sobre os motivos de prática Wilks' λ = 0.912, F(14,
573.000) = 3.9, p < 0.001. O tamanho do efeito verificado foi considerado de
médio (η² = 0.088). Tendo em conta este efeito, é seguidamente apresentado na
Tabela_4 os valores médios obtidos em cada um dos motivos de prática tendo em
conta os contextos, juntamente com os respetivos valores da análise de
variância (F), nível de significância (p) e tamanho de efeito (η²).
É possível verificar que os motivos de Prazer, Força e resistência,
Desafio, Socialização, Competição e Reconhecimento social são
significativamente superiores nos praticantes em contexto de academia, tendo os
praticantes em contexto de personal trainer obtido valores significativamente
superiores nos motivos de Agilidade e Prevenção de doenças.
DISCUSSÃO
Este estudo objetivou validar a estrutura fatorial original do EMI-2, em
praticantes de exercício no Brasil, bem como analisar e comparar os motivos
para prática de exercício físico tendo em conta os contextos de academia e
personal training. Um instrumento desta natureza validado para a cultura
brasileira irá permitir a comparação dos resultados obtidos com os de outros
estudos internacionais que tenham aplicado a versão original do EMI-2. Para
além disso o EMI-2b pode servir como instrumento de trabalho, permitindo a
avaliação dos motivos de prática de exercício e ajudando os profissionais na
adequação dos programas de exercício.
Respetivamente à validade de constructo do EMI-2b, foram realizadas um conjunto
de AFCs a cada um dos 14 fatores que constituem este instrumento de medida,
seguindo a mesma metodologia da validação realizada pelo autor original. Esta
sub-divisão permitiu um diagnóstico preciso para possíveis desajustamentos em
cada fator, conforme a estratégia seguida na validação da versão original do
EMI-2 (Markland & Ingledew, 1997). Os resultados obtidos vão ao encontro
dos apresentados por Markland e Ingledew (1997) já que todos os modelos de
medida atingiram os valores de corte tidos como adequados. Ainda assim, foi
possível a identificação de alguns itens mais frágeis com pesos fatoriais
abaixo de 0.50, os quais foram mantidos nesta fase por se poderem aceitar pesos
fatoriais até o limite mínimo de 0.30 (L Cid et al., 2012; Kahn, 2006;
Worthington & Whittaker, 2006). O único item cujo peso fatorial ficou
abaixo deste valor (0.25) foi o item 1 (Para me manter elegante) razão pela
qual foi eliminado do modelo de medida do motivo Peso, do qual faz parte, o
que fez também com que aumentasse a consistência interna deste fator (de 0.78
para 0.88).
Todavia, analisando a validade de constructo do EMI-2b, com todos os fatores e
itens em simultâneo, é possível concluir que o modelo global ajusta-se aos
dados apenas após a eliminação dos itens com pesos fatoriais mais baixos (PF <
0.50). Assim, considerando que um dos objetivos da AFC é também o de fornecer
informações adicionais com vista à resolução de problemas e melhoria futura do
modelo (Hair et al., 2009) recomendamos que os itens 1, 4, 22 e 24, bem como, o
item 7, sejam alvo de revisão semântica no futuro com vista à melhoria do
modelo de medida global do EMI-2.
No que diz respeito à consistência interna dos restantes fatores, verificamos
que em geral os fatores estão acima do nível de corte 0.70, com exceção dos
motivos Revitalização (α = 0.60), Saúde (α = 0.63) e Manter-se Saudável
(α = 0.64). Apesar de estes valores serem inferiores a 0.70, optou-se por
mantê-los no modelo uma vez que ainda dentro do intervalo considerado por Hill
e Hill (2000) como aceitáveis, ainda de fracos. Esta opção pode-se considerar
plausível tomando também em consideração que se trata de fatores com poucos
itens (L Cid et al., 2012). Todavia, estes fatores deverão ser alvo de uma
futura atenção com vista à melhoria deste instrumento de avaliação, já que a
fiabilidade interna, avaliada através do alfa de Cronbach analisa a extensão
pela qual os itens contribuem em simultâneo para a medir o mesmo fator (i.e. o
atributo psicológico).
Ainda assim, não obstante estas necessidades de melhoria, consideramos que os
dados obtidos corroboram a validade de constructo da estrutura fatorial
original de 14 fatores do EMI-2 em praticantes de exercício no Brasil. A
estrutura da versão original (Markland & Ingledew, 1997) tem sido
corroborada também nas versões Alemã (Ingledew & Sullivan, 2002), Polaca
(Zajac & Schier, 2011) e Portuguesa (Alves & Lourenço, 2003) do EMI-2,
a qual tem servido de base para a realização de estudos em praticantes de
exercício de diferentes nacionalidades (ver: Luís Cid, Silva, & Alves,
2007; Ingledew & Markland, 2008; Ingledew et al., 1998; Ingledew &
Sullivan, 2002; Silva et al., 2009). Reforçamos por isso que as modificações
aos modelos originais devem ser evitadas só com base nas evidências empíricas
fornecidas pela análise fatorial, sem que exista uma preocupação de respeitar e
manter a integridade teórica do modelo (Hair et al., 2009; Henson &
Roberts, 2006). Nos estudos em que os autores não seguiram esse princípio, o
modelo de medida original do EMI-2 foi modificado, tanto ao nível do número de
fatores como do seu próprio conteúdo (ver: Capdevila, Niñerola, & Pintanel,
2004; Guedes et al., 2012). Como tal, é fundamental que os investigadores
dediquem uma atenção considerável aos modelos e que escolham com muito cuidado
as estratégias para os testar (Biddle, Markland, Gilbourne, Chatzisarantis,
& Sparkes, 2001). Por essa razão, devemos ter sempre bem presente na nossa
consciência que o maior benefício de tomar as decisões corretas está na
hipótese de aumentar as probabilidades de obter um conjunto de resultados mais
claros e consistentes.
Quanto aos motivos para a prática de exercício, referidos pelos participantes
deste estudo, foi possível verificar que nos grupos analisados (i.e. academia e
personal training) os motivos Manter-se saudável e Revitalização são os
mais importantes, e os motivos Competição e Reconhecimento social os menos
importantes. Estes motivos estão em coerência com o propósito de ambas as
modalidades, ou seja, a melhoria da saúde e do bem-estar. Resultados
semelhantes foram obtidos também por Cid, Silva, e Alves (2007) numa amostra de
praticantes de um programa comunitário de exercício na cidade de Rio Maior/
Portugal.
No que diz respeito ao contexto de prática, verifica-se que o EMI-2 permitiu
identificar diferenças nos motivos de cada um dos grupos de praticantes
analisados, corroborando a sua utilidade e sensibilidade para diferenciar entre
grupos. No caso dos praticantes de academia os motivos de Prazer, Força e
resistência, Desafio, Socialização, Competição e Reconhecimento social
são significativamente superiores (p< 0.05) aos dos praticantes com personal
training, os quais atribuíram, por sua vez, uma importância significativamente
superior (p< 0.05) aos motivos de Agilidade e Prevenção de doenças. Uma das
razões que pode estar na origem deste perfil diferenciado prende-se com a média
de idades mais elevada dos praticantes com personal training, já que, como
verificaram Ribeiro, Alves, e Meira, (2009), com o avançar da idade a
incidência de doenças é maior e a agilidade menor.
CONCLUSÕES
Tendo como referência os objetivos definidos podemos concluir que os resultados
obtidos dão suporte inicial à validade de constructo do modelo original de 14
fatores da versão brasileira do EMI-2 em praticantes de exercício. Todavia,
este estudo também evidenciou a necessidade futura de aprimorar esse mesmo
modelo. Considerando que a adaptação e validação de um instrumento de medida é
um processo dinâmico e contínuo (Messick, 1995), será igualmente pertinente
proceder no futuro a uma revisão ao conteúdo de alguns itens identificados como
mais problemáticos (i.e. com peso fatorial mais baixo) e replicando as
análises aqui realizadas com outras amostras. Dos resultados obtidos foi ainda
possível concluir sobre a existência de perfis de motivos diferenciados entre
os dois grupos de praticantes analisados, aos quais os educadores físicos
responsáveis pelas modalidades em academia e personal training devem estar
alerta de modo a aumentar a adesão nestes tipos de atividades.
Em suma, pensamos que a versão aplicada do EMI-2b se poderá constituir como uma
ferramenta útil de trabalho para os profissionais de educação física e poderá
continuar a ser aplicada em estudos futuros que clarifiquem os motivos para a
prática de exercício em função de diferentes subgrupos e variáveis
sociodemográficas (e.g. sexo; idade). A utilização de instrumentos validados
possibilita o estabelecimento de uma linguagem comum entre os profissionais das
diferentes áreas, promove bases científicas para a compreensão e estudo dos
problemas observados, propicia a comparação de dados ao longo do tempo e
permite o confronto de técnicas e modelos de intervenção.