Desenvolvimento motor global de crianças do 1º ciclo do ensino básico com e sem
prática prévia de natação em contexto escolar
ARTIGO ORIGINAL
Desenvolvimento motor global de crianças do 1º ciclo do ensino básico com e sem
prática prévia de natação em contexto escolar
Global motor development of elementary school-aged children with and without
previous swimming practice in schools
Vera Martins1, António J. Silva2,3, Daniel A. Marinho2,3, Aldo M. Costa
2,3,4*
1Departamento de Ciências do Desporto, Universidade da Beira Interior, Covilhã,
Portugal
2Departamento de Ciências do Desporto, Exercício e Saúde, Universidade de Trás-
os-Montes, Vila Real, Portugal
3Centro de Investigação em Desporto, Saúde e desenvolvimento Humano (CIDESD),
Portugal
4Centro de Investigação em Ciências da Saúde (CICS), Portugal
INTRODUÇÃO
O primeiro ciclo do ensino básico, enquanto etapa de iniciação na vida escolar,
permite a progressão do desenvolvimento global e harmonioso da personalidade da
criança (na dimensão individual e social), das aquisições básicas intelectuais
fundamentais em domínios diversificados e do fomento de uma atitude socio-
afetiva positiva com os outros e para a cidadania. É também durante esta etapa,
entre os 6 e os 10 anos de idade, que se criam oportunidades para adquirir e
desenvolver as mais diversas habilidades motoras básicas. Numa etapa de enorme
vigor do desenvolvimento global da criança, o desporto e em particular a
Expressão e Educação Física e Motora no contexto escolar, constitui-se como um
meio de valorização da formação corporal pelo acesso a um leque muito variado
de experiências motoras, sobretudo quando integradas numa perspetiva
desenvolvimentista da aprendizagem (Langendorfer & Bruya, 1995).
Ao longo das fases previstas de desenvolvimento (Gallahue & Ozmun, 2005)
distinguem-se nestas idades o que os especialistas chamam de períodos críticos
de aprendizagem, nos quais existe uma maior disposição físico-cognitiva para
assimilar a influência externa, facilitando a aquisição e a melhoria das
habilidades motoras (Peres, Serrano, & Cunha, 2009, pp. 28–29). Este
período parece ser ótimo para o contacto com novas modalidades desportivas e
diferentes contextos de prática, entre os quais destacamos a Natação. De facto,
segundo alguns autores (Blanksby, Parker, Bradley, & Ong, 1995; Pelayo,
Wille, Sidney, Berthoin, & Lavoie, 1997), o período ideal para a adaptação
ao meio aquático parece estar entre os 5 e os 6 anos de idade. Pretende-se
nesta fase de ensino da natação a aquisição de novos padrões motores,
comportamentos e atitudes no meio aquático, que possam conduzir a criança a um
estado pleno de competência aquática (Costa et al., 2012). Esta estimulação
motora num novo meio parece induzir um novo leque de sensações e experiências
corporais, ligações afetivas e sociais (Langerdorfer, 1987; Martins, Silva,
Marinho, Barbosa, & Sarmento, 2010) mas também o desenvolvimento de novas
habilidades, que embora se concretizem num meio específico (aquático), poderão
oferecer à criança uma acrescida estimulação psico-motora. Apesar dos estudos
neste domínio serem efetivamente escassos, a prática da natação parece induzir
um efeito positivo em várias componentes da motricidade global e fina em
crianças dos 7 aos 9 anos (Paula & Belo, 2009). Todavia, do nosso
conhecimento, não existem estudos que reportem os efeitos da prática da natação
no desenvolvimento motor global quando esta é enquadrada no contexto escolar.
As insuficiências que parecem existir no enquadramento da natação na Expressão
e Educação Física e Motora em Portugal, provavelmente condicionantes da
eficiência do processo de ensino-aprendizagem sobretudo ao nível da aquisição
de habilidades aquáticas mais complexas (Rocha, Marinho, Ferreira, & Costa,
2014), reforçam a necessidade de melhor conhecer esta relação entre experiência
aquática e desenvolvimento motor.
Partimos do pressuposto inicial de que o contacto com novas e relevantes
experiências motoras no contexto escolar, confere um efeito positivo e
significativo no desenvolvimento motor global da criança. O processo de ensino-
aprendizagem para a adaptação ao meio aquático, enquanto experiência motora
estruturada, conduz a constantes oportunidades de crescimento, as quais são
obtidas pela vontade de aprender da criança e pelo esforço para dominar as
dificuldades (Escribano & Flores, 2003). Esta oportunidade trará à criança
uma preparação motora que a ajudará a alcançar as metas da Expressão e Educação
Físico-Motora no 1º ciclo do ensino básico.
É objetivo deste trabalho descrever o nível de desenvolvimento motor global de
crianças portuguesas em idade e contexto escolar (do 1º ano ao 4º ano do ensino
básico), identificando as diferenças no desempenho em habilidades motoras
globais entre crianças com ou sem experiência prévia em programas de ensino da
Natação no âmbito do projeto educativo previsto para a Expressão e Educação
Físico-Motora.
MÉTODO
O presente estudo insere-se no domínio da pesquisa descritiva. A amostra foi
recrutada por conveniência do investigador, o que permitiu o acesso
privilegiado ao histórico das crianças, de acordo com critérios de admissão
pré-definidos (alunos saudáveis do 1º ao 4º ano do ensino básico, com ou sem
experiência prévia em programas de ensino da Natação no contexto escolar), e a
sua consequente avaliação. A representatividade da amostra está, portanto,
circunscrita aos agrupamentos escolares participantes.
Amostra
A amostra do estudo foi constituída por 140 crianças portuguesas do 1º ciclo do
ensino básico (1º ano, n=34 crianças; 2º ano, n=28; 3º ano, n=41; 4º ano,
n=37), pertencentes a dois agrupamentos escolares que promovem aulas de
Expressão e Educação Física e Motora no contexto das atividades
extracurriculares previstas no seu projeto educativo anual. As escolas de onde
provém a amostra são geograficamente próximas (interior centro de Portugal) e
classificadas como integrantes em zona urbana, de acordo com os atuais
critérios definidos pelo Instituto Nacional de Estatística. As crianças foram
divididas consoante a sua prévia experiência em programas de ensino da natação:
(i) 53 crianças (31 meninos e 22 meninas) formam o grupo sem qualquer
experiência prévia em aulas de natação no contexto escolar e inclusive
utilitário; e (ii) 87 crianças (53 meninos e 34 meninas) formam o grupo com
experiência prévia em programas de ensino da natação no âmbito das Expressão e
Educação Físico-Motora. Deve entender-se que a experiência em natação neste
segundo grupo de alunos é cumulativa - os alunos do 1º ao 4 º ano reúnem um a
quatro anos de experiência aquática no contexto escolar, respetivamente.
Excluíram-se da amostra todos alunos com participação em programas de ensino e
treino da natação e/ou de outras modalidades desportivas fora do contexto
escolar.
Os encarregados de educação das crianças estudadas facultaram o seu
consentimento livre e esclarecido, após a informação sobre os propósitos do
estudo, do seu significado e do possível uso dos resultados. A estes coube
autorizar o armazenamento dos dados e materiais coletados, que foram mantidos
sob a guarda dos investigadores. A confidencialidade dos dados foi garantida
assim como o seu anonimato durante o processo de tratamento e análise, tendo
sido o estudo efetuado de acordo com os princípios éticos enunciados na
declaração de Helsínquia.
Instrumentos e procedimentos
A avaliação do desenvolvimento motor global foi realizada através da aplicação
da bateria de testes Test of Gross Motor Development (TGMD-2) proposta por
Ulrich e Sanford (2000), composta por 12 habilidades divididas em 2
subconjuntos (locomotor e controlo de objetos) que medem as habilidades motoras
globais que se desenvolvem cedo na vida. O subconjunto locomotor avalia as
habilidades motoras que exigem movimentos fluidos e coordenados do corpo quando
a criança se move numa ou noutra direção: corrida, galope, salto com um pé,
salto com obstáculo, salto horizontal e deslize. O subconjunto de controlo de
objetos mede as habilidades motoras que demonstram movimentos eficientes de
agarrar, lançar e bater: bater em bola parada, driblar estático, agarrar/
apanhar, pontapear, lançar superior e inferior.
A referida bateria foi aplicada a ambos os grupos de crianças nos campos
exteriores da escola (ar livre), à mesma hora do dia e com condições
climatéricas semelhantes (sem precipitação, brisa leve e sobre uma amena
temperatura média do ar). Tal como propõe o autor, os testes foram repetidos
(reteste) uma semana depois em condições de realização semelhantes. Todas as
crianças tinham calçado desportivo e roupa adequada e confortável. As
avaliações foram registadas em vídeo (câmara Sony, modelo N.DCR-SX30E), e este
foi utilizado somente para fins científicos, sem exposição das crianças
participantes, que tiveram a sua identidade protegida.
O mesmo examinador observou ambas as imagens-vídeo e avaliou o desempenho
individual em cada habilidade motora global de acordo com componentes
comportamentais que são apresentadas como critérios que representam um padrão
maduro da habilidade. No total, para cada criança e em ambos os momentos de
registo (teste e reteste) foram observados 47 critérios de desempenho,
divididos por 12 habilidades, das quais 6 são habilidades locomotoras e 6
habilidades de controlo de objetos. Na observação indeferida de cada habilidade
(teste e reteste), o desempenho em cada componente comportamental pressupôs um
registo binário de plena concretização ou de não desempenho. Em cada
habilidade e para cada item/componente comportamental, o examinador somou a
pontuação atribuída em cada registo (teste e reteste) e assumiu o seu resultado
final. Posteriormente, os resultados das habilidades foram somados para se
obter o resultado bruto de cada subconjunto (locomotor e controlo de objetos),
que depois foi convertido num resultado estandardizado de acordo com as
normativas fornecidas por Ulrich e Sanford (2000). Por último, os resultados
estandardizados foram somados e convertidos num quociente motor global sobre o
qual se atribuiu uma classificação qualitativa. Adicionalmente, foi ainda
determinada a idade equivalente relativa ao resultado bruto de cada subconjunto
atendendo às normativas propostas.
Análise Estatística
Os resultados foram agrupados e analisados estatisticamente. Assim, para todas
as variáveis numéricas procedeu-se ao tratamento estatístico descritivo básico
através de medidas de tendência central e de dispersão. Foi testado o
pressuposto da normalidade das distribuições das variáveis, com o teste K-S
(Kolmogorov-Smirnov com a correção de Lilliefors) no sentido de optar pelo
procedimento estatístico mais adequado aquando da análise bivariada. Não se
verificando o pressuposto da normalidade das distribuições, recorreu-se ao
teste de Mann-Whitney U para a comparação de médias de duas amostras
independentes, como alternativa não paramétrica ao teste T-Student. Recorreu-se
ao teste não paramétrico de Kruskall-Wallis para o estudo da igualdade das
medianas pelo quadriénio escolar. O nível de significância foi estabelecido em
5%. Todos os procedimentos estatísticos foram efetuados com recurso ao software
SPSS (Statistical Package for the Social Sciences, versão 21.0).
RESULTADOS
Os resultados por subconjunto locomotor, subconjunto de controlo de objetos bem
como o cálculo final do quociente de desenvolvimento motor global (TGMD-2)
comparados por idade e experiência aquática, estão dispostos na tabela_1.
Verificou-se que o desenvolvimento motor global (TGMD-2) e o desempenho
normalizado em ambos os subconjuntos, é significativamente distinto entre
crianças com e sem experiência aquática (p < .05) para todos os anos de
escolaridade. Essas desigualdades são espelhadas na figura_1, que revela a
distribuição categórica do desenvolvimento motor das crianças estudadas. De
facto, as crianças com experiência aquática, na sua maioria, variam sobretudo
entre o nível médio e abaixo da média, com alguns casos no nível pobre. As
restantes crianças apresentam uma distribuição claramente enviesada para o
nível pobre e muito pobre, com poucos casos no nível abaixo da média.
Na tabela_2, apresentamos os resultados normalizados para cada habilidade do
subconjunto locomotor de acordo com o ano de escolaridade e a experiência
aquática de ambos os grupos. Numa análise sumária da tabela, julgamos
pertinente salientar que o número de habilidades motoras globais sobre as quais
se identificaram diferenças significativas entre os grupos é menor entre os
alunos de 2º ano (apenas o desempenho na habilidade corrida é
significativamente distinto entre grupos, p=0.006) embora amplo entre os alunos
do 4º ano de escolaridade (todas as habilidades neste subconjunto).
Verificamos ainda no estudo da igualdade das medianas pelo quadriénio escolar
que apenas a habilidade deslize, nas crianças com experiência aquática, revela
uma variação positiva e significativa (p=.000).
Na tabela_3 apresentamos os dados normalizados de cada habilidade do
subconjunto controlo de objetos de acordo com o ano de escolaridade e a
experiência aquática das crianças. Seguindo a tendência observada no
subconjunto anterior, as crianças do 2º ano de escolaridade não apresentam
diferenças significativas no desempenho motor das habilidades testadas entre
grupos de alunos com ou sem experiência aquática prévia. Na variação ao longo
do quadriénio o desempenho de todas habilidades motoras, exceto o drible
estático, altera-se de forma positiva e significativa (p < .05) apenas para as
crianças com experiência aquática.
A atribuição da designada idade equivalente de desenvolvimento motor por cada
subconjunto consta na tabela_4. Pela análise desta tabela verificamos que a
idade equivalente para TGMD-2 é significativamente superior (p < .05) nos
alunos com experiência aquática em ambos os subconjuntos e para todos os anos
de escolaridade, exceto no 1º ano para o subconjunto controlo de objetos.
Contudo, e exceto para o 1º ano no subconjunto locomotor, a idade equivalente é
sempre mais baixa que a idade cronológica real. Para além disso, a diferença
entre a idade real e a idade equivalente para TGMD-2 tende a aumentar com o ano
de escolaridade em ambos os grupos de crianças e subconjuntos avaliados.
DISCUSSÃO
Foi objetivo principal do trabalho descrever o nível de desenvolvimento motor
global de crianças do 1º ciclo do ensino básico em Portugal de acordo com a sua
experiência prévia em programas de ensino da natação em contexto escolar. Os
estudos neste domínio e particularmente no contexto escolar são escassos, o que
condiciona a comparação direta dos nossos resultados. Para além disso, a
ausência de normativas para a população Portuguesa não nos permite medir a sua
real expressão, pelo que a interpretação dos dados deve ser considerada com
cautela.
Numa apreciação geral, a aprendizagem da natação em contexto escolar parece
contribuir significativamente para um desempenho otimizado em variadas
habilidades motoras globais. No entanto os nossos dados também revelam que o
nível de desenvolvimento motor das crianças avaliadas nos dois grupos é, em
grande frequência, insuficiente para a idade, considerando a escala normativa
utilizada. Este último facto, e independentemente dos grupos considerados,
parece concordante com os resultados apresentados por Afonso et al. (2009).
Nesse estudo, dos escassos publicados sobre a população Portuguesa, foram
envolvidas 853 crianças de ambos os géneros dos 3 aos 10 anos da Região
Autónoma da Madeira. Apesar de os resultados demonstrarem uma evolução na
proficiência motora com a idade na quase totalidade das habilidades testadas,
um número considerável de crianças madeirenses foi classificado na categoria
médio nas habilidades de locomoção (51.5%) e de manipulação (37.7%). No que
se refere aos equivalentes etários apresentados pelos autores – abaixo da
média nas habilidades de locomoção (86.5%) e de manipulação (87.7%), os dados
são convergentes com o nosso estudo, revelando uma categorização preocupante.
Estas diferenças normativas entre populações foram igualmente identificadas por
Cepicka (2010) num estudo realizado com crianças Checas das principais escolas
urbanas, usando a mesma bateria de testes proposta por Ulrich e Sanford (2000).
As diferenças entre os resultados brutos e os respetivos percentis foram
substanciais entre as crianças checas e as norte-americanas, o que conduziu o
autor a referir que os valores normativos do TGMD-2 devem ser generalizados com
reserva para outras populações. Do mesmo modo, o parâmetro idade equivalente
deve ser usado e interpretado com precaução, apenas como dado balizador, e se
possível recorrendo a outros dados para estudo comparativo (Ulrich &
Sanford, 2000). A idade equivalente relaciona o resultado obtido com a idade
real, sendo uma medida do nível de desenvolvimento da criança. Contudo, o uso
deste parâmetro parece controverso na literatura, cujas referências utilizadas
não estarão generalizáveis para todas as populações. Do nosso ponto de vista
urgem estudos que propiciem uma aproximação mais real do parâmetro idade
equivalente e que recorram a normativas contextualizadas a cada população
alvo.
Outra explicação para o facto de os níveis de desenvolvimento global estarem
abaixo de classificação positiva para grande parte da amostra pode estar no
contexto socioeconómico da escola. No nosso estudo as crianças pertencem a
escolas públicas com localização geográfica próxima, embora de agrupamentos
distintos. Não foram considerados critérios socioeconómicos no recrutamento da
amostra, que pertence a um distrito do interior centro de Portugal; esta
limitação, a par da inexistência de normativas para a população Portuguesa,
leva-nos a considerar os nossos resultados com cautela. De facto, o estudo de
Chow e Louie salienta precisamente esse efeito contextual, ao verificar a
influência do tipo de escola (publica ou privada) na performance das
habilidades motoras de crianças do ensino pré-escolar. Segundo os autores, as
crianças de escolas privadas tendem a obter melhores resultados nas habilidades
locomotoras, embora tal não se tenha verificado no domínio das habilidades de
controlo de objetos. O estudo recente de Pope, Liu, e Getchell (2011) confirma
esta necessidade em reforçar o quadro de estímulos psico-motores apropriados à
idade, sobretudo em crianças provenientes de contextos socioeconómicos
desfavorecidos. Para além disso, segundo Tsimaras et al. (2011), a influência
sociológica no desenvolvimento motor durante a infância parece resultar
inclusive de variações étnicas que podem contribuir para uma maior ou menor
participação das crianças em atividades físicas organizadas dentro e fora da
escola, bem como no incentivo dos pais para estas atividades.
O quociente motor do TGMD-2 é um valor estandardizado, consequente do
desempenho motor cumulativo nas várias habilidades motoras globais que integram
os dois subconjuntos. Como atrás referimos, os nossos resultados foram
significativos no que se refere às diferenças entre as crianças com e sem
experiência aquática prévia para todos os anos escolares e em ambos os
subconjuntos (resultado normalizado). Contudo, e não obstante as diferenças
entre os grupos, o desenvolvimento motor global e inclusive o desempenho em
diversas habilidades motoras tende a diminuir no quadriénio. O estímulo
adicional (ao da frequência em aulas de Expressão e Educação Física e Motora)
da prática de natação parece distinguir positivamente os praticantes no que se
refere à proficiência motora, porém será insuficiente para manter a maioria da
amostra ao longo do quadriénio escolar numa classificação acima da média no que
se refere ao desenvolvimento motor global. Esta influência cumulativa da
prática da natação parece convergir nos resultados propostos por Wrotniak,
Epstein, Dorn, Jones, e Kondilis (2006), nos quais se evidencia que o
desempenho motor está positivamente associado com o nível de atividade física e
inversamente associado com o sedentarismo nas crianças, embora exista um limite
mínimo de atividade física para que as crianças sejam consideradas fisicamente
ativas. De acordo com o autor, a promoção da atividade física pode ter como
alvo apropriado o aumento do desempenho motor na juventude. No nosso estudo não
foram considerados indicadores de nível de atividade física dos jovens, podendo
ser considerado uma limitação do mesmo.
Paula e Belo (2009) obtiveram recentemente resultados equiparáveis, não
obstante o fato da amostra ser reduzida (20 crianças de 7 a 9 anos) e terem
recorrido à forma reduzida do Teste de Proficiência Motora de Bruininks-
Oseresky. De acordo com os autores, as crianças que praticam Natação, em
comparação com crianças que praticam Futsal, apresentam valores superiores em
todos os componentes da motricidade global e fina, embora as crianças
praticantes de Futsal reúnam resultados mais homogéneos entre si. Mesmo na
aplicação de pequenos blocos de intervenção, os efeitos no desenvolvimento
motor parecem ser significativos durante estas idades, o que revela uma enorme
sensibilidade das crianças nesta fase sensível. O estudo de Mortimer,
Krysztofiak, Custard, e McKune (2011) e de Yasumitsu e Nogawa (2013) são dois
exemplos recentes desse efeito no desempenho psicomotor (tempo de reação,
destreza manual e coordenação óculo-manual) e na agilidade, respetivamente.
Conhece-se inclusive um efeito positivo de 5 meses de atividades aquáticas no
ambiente escolar enquanto meio de estimulação psicomotora em crianças com
paralisia cerebral espástica (Teixeira-Arroyo & Oliveira, 2007), apesar de
o âmbito do estudo e a amostra recrutada não permita comparações diretas com a
nossa pesquisa.
Embora o desempenho motor nas diferentes habilidades não mantenha uma evolução
sempre positiva ao longo do quadriénio (em ambos os grupos), os resultados
deixam entrever um número superior de habilidades motoras globais cujo
desempenho é significativamente distinto entre grupos, entre as crianças do 3º
e do 4º ano de escolaridade. Em parte esta ocorrência poderá resultar da
prática de Natação em acumulação à Expressão e Educação Física e Motora
Educação. Todavia, e para além disso, as melhorias no desempenho motor, em
particular para as habilidades de controlo de objetos, parecem ocorrer de forma
mais célere entre os 9 e os 10 anos, sobretudo para o agarrar, lançar e
pontapear (Butterfield, Angell, & Mason, 2012). Observamos ainda no estudo
da igualdade das medianas pelo quadriénio escolar uma variação significativa na
maioria das habilidades de controlo de objetos nas crianças com prática prévia
de Natação. Do nosso ponto de vista estes resultados parecem coerentes com os
pressupostos da organização metodológica do ensino da natação em Portugal no
contexto escolar (Rocha et al., 2014). Segundo os autores, nesta população (1º
ciclo do ensino básico) promove-se preferencialmente a aquisição de habilidades
aquáticas básicas (tais como entrada na água, o equilíbrio dinâmico e o
controlo respiratório), num ensino que valoriza a aquisição de compreensões
básicas na gestão de jogos e atividades lúdicas aquáticas. Nestas assume-se o
jogo como um recurso metodológico natural que agrega simultaneamente motivação,
eficácia pedagógica e, muitas vezes, a manipulação de material didático para
fins lúdicos específicos. Assim, e embora não seja conhecido efetivamente esse
transferentre habilidades aquáticas básicas e habilidades motoras globais no
meio terrestre (e vice-versa) quando se valoriza determinada conceção
pedagógica, os nossos resultados deixam antever um efeito positivo do ensino da
Natação em variadas habilidades motoras básicas mas especialmente na evolução
que se espera com a idade no desempenho motor ao nível do controlo de objetos.
Na mestria das diferentes habilidades do subconjunto locomotor seria expectável
uma maior evolução, sobretudo entre as crianças sem prática de Natação. Este
resultado deixa antever alguma insuficiência ou inadequação de estímulos para o
desenvolvimento destas habilidades no quadro da Expressão Física e Motora. De
facto, e identificando por exemplo a habilidade de corrida, poderíamos esperar
mais melhorias no processo e no produto de desempenho conforme as crianças
crescem. Essas mudanças qualitativas, que geralmente acompanham o crescimento
do tamanho do corpo, traduzem-se em níveis de força e coordenação aumentados e
resultam quase sempre em melhorias de desempenho na corrida (Haywood &
Getchell, 2004). A aplicação de mecanismos de avaliação como o TGMD-2 no
contexto do ensino pré-escolar e básico, quando devidamente enquadrado nos
projetos educativos escolares tornar-se-á preciosa. Partimos do pressuposto que
a globalidade das habilidades motoras globais pode ser otimizada até patamares
de desempenho comportamental exigíveis ao nível da mestria em relação à idade.
Assim, a triagem prematura de insuficiências em determinados comportamentos
pode e deve ser atempadamente corrigida.
CONCLUSÕES
Os nossos resultados revelam a existência de diferenças significativas no
desenvolvimento motor global e nos resultados normalizados dos respetivos
subconjuntos (locomotor e controlo de objetos) entre as crianças com e sem
experiência aquática escolar e em cada ano de escolaridade. A prática acumulada
da natação parece conduzir a uma variação positiva e significativa do
desenvolvimento em várias habilidades motoras mas sobretudo no controlo de
objetos (deslizar, bater em bola parada, driblar estático, chutar, lançar
superior e lançar inferior). Ainda assim, a classificação qualitativa do nível
de desenvolvimento motor é globalmente baixa em ambos os grupos de crianças
assim como a idade motora equivalente, que sofre alterações ligeiras ou mesmo
negativas ao longo do quadriénio escolar.
Urgem mais estudos que clarifiquem a expressão destes dados, em particular a
sua generalização à população Portuguesa e variabilidade sobre o contexto
socioeconómico das crianças.