Deteção de T-patterns em treinadores de futebol em competição
INTRODUÇÃO
Na atualidade o treinador não tem somente de dominar os conteúdos relativos à
metodologia de treino, saber tudo sobre a modalidade em que exerce a sua
atividade, ser um exímio observador, mas tem também de ser um excelente
comunicador. Segundo Vallé e Bloom (2005) a atividade do treinador é
extremamente complexa e exigente, não se esgotando somente em treinar atletas
para competir.
A liderança efetiva do treinador é influenciada pelo seu comportamento e pela
sua capacidade de comunicação (Brandão & Carchan, 2010). Um treinador
profissional foi entrevistado no âmbito de um estudo realizado por Jones,
Armour e Potrac (2003), tendo o técnico dado enfâse ao conhecimento profundo
sobre o jogo e à capacidade de transmitir esse conhecimento aos jogadores, bem
como à capacidade de estabelecer uma interação positiva a fim de conseguir um
ótimo rendimento por parte dos atletas. Em linha com o referido está o
mencionado por um treinador expert de futebol numa entrevista efetuada no
desenvolvimento de uma investigação realizada por Potrac, Jones e Armour
(2002). O treinador entrevistado referiu que a liderança do técnico é reforçada
pela capacidade de emitir informação lógica, que tem por objetivo influenciar
uma mudança de comportamento. Foi ainda referido que a incapacidade do
treinador demonstrar o profundo conhecimento que tem da modalidade no processo
de comunicação com os jogadores é um pecado capital do treinador de futebol.
Desta forma, é importante que o processo de comunicação, num momento de
especial dificuldade como o da competição, seja eficaz.
É através da comunicação que o treinador gere a sua equipa e emite instruções
técnicas e táticas (Culver & Trudel, 2000). O treinador recorre a um
conjunto de estratégias de comunicação para emitir informação pertinente aos
atletas e equipa de conteúdo tático, psicológico, físico, sobre a equipa de
arbitragem e equipa adversária.
Moreno e Campo (2004) defendem que o treinador em competição deve emitir
instrução preferencialmente tática, individual, de caráter fortemente positivo,
centrada na própria equipa e na equipa adversária.
Num estudo realizado por Smith e Cushion (2006) com treinadores profissionais
do setor de formação foi verificado que 40.38% do tempo de jogo é passado
observando em silêncio, e 27.13% dos comportamentos observados correspondem à
instrução. Os resultados obtidos para o louvor (17.66%), são justificados pelos
treinadores como sendo importantes para aumentar a confiança dos atletas.
A investigação tem evoluído também através da realização de estudos (Bennie
& O'Connor, 2011; Côté & Sedgwick, 2003) que procuram perceber qual a
perceção dos treinadores e atletas sobre o coaching efetivo. Côté e Sedgwick
(2003) na modalidade de remo, verificaram que os treinadores valorizam a
instrução técnica, bem como a utilização de analogias para explicar o que
pretendem. O feedback imediato, honesto e construtivo e a capacidade de
estabelecer uma interação positiva entre treinador-atleta, foram outras das
estratégias referenciadas. Bennie e O’Connor (2011), num estudo realizado com
treinadores e atletas de râguebi e cricket, verificaram a importância da
comunicação honesta, coerente, justa e que possibilite a troca de ideias entre
treinador e atletas. Em ambos os estudos foi valorizada a capacidade do
treinador em ter em conta as diferenças individuais dentro da equipa.
O comportamento do treinador de futebol em competição tem sido objeto de estudo
de diversas investigações (Ramirez & Diaz, 2004; Santos & Rodrigues,
2008; Santos, Lopes, & Rodrigues, 2013; Santos, Sequeira, & Rodrigues,
2012; Smith & Cushion, 2006), utilizando diversos sistemas de observação,
realizadas com equipas seniores e do setor de formação, baseando as suas
análises no tratamento estatístico e representação gráfica, com o intuito de
perceber melhor como os treinadores dirigem as suas equipas em competição. No
entanto, segundo Jonsson et al. (2006) os métodos tradicionais de análise são
limitados na sua capacidade de descrever as interações complexas de eventos que
ocorrem ao longo de um período de tempo.
A metodologia observacional (Santos et al., 2009; Sarmento, Leitão, Anguera,
& Campaniço, 2009) atualmente segue uma abordagem nos estudos efetuados no
âmbito do desporto, em diferentes modalidades com o objetivo de detetar padrões
temporais (T-patterns) (Anguera, 2004; Jonsson et al., 2006; Jonsson et al.,
2010; Louro et al., 2010; Noguera & Camerino, 2013) de comportamento.
Também na modalidade de futebol têm sido realizados diversos estudos no sentido
de detetar e analisar a existência deste tipo de padrões comportamentais
(Jonsson, Bjarkadottir, Gislason, Borrie, & Magnusson, 2003; Sarmento,
Anguera, Campaniço, & Leitão, 2010; Camerino, Chaverri, Anguera, &
Jonsson, 2012; Lapresa, Arana, Anguera, & Garzón, 2013).
A técnica de análise dos T-patterns sustenta-se através da deteção da estrutura
temporal e sequencial de uma série de dados (Jonsson et al., 2010), permitindo
a obtenção de informações valiosas sobre as estratégias de comunicação dos
treinadores (Castañer, Miguel, & Anguera, 2009). No estudo que realizaram
com treinadores de Futsal em competição recorrendo à deteção e análise de T-
patterns, Castañer, Anguera, Miguel e Jonsson (2010) concluíram que os T-
patterns encontrados permitem caracterizar as estratégias de comunicação
utilizadas pelos treinadores na direção da equipa em competição.
Tendo em conta o anteriormente exposto, com o estudo pretendemos verificar a
existência de T-patterns de comportamento de instrução durante a competição,
com treinadores de futebol do setor de formação, a fim de perceber quais as
estratégias de comunicação e quais são as principais preocupações sobre o
conteúdo da informação emitida. É ainda nosso objetivo verificar a existência
destes T-patterns na direção da equipa e no momento das substituições.
MÉTODO
Para a realização do presente estudo recorreu-se à metodologia observacional
tendo em conta os requisitos definidos por Anguera, Blanco-Villaseñor, Losada e
Hernadez-Mendo (2000), tendo sido observados os comportamentos dos treinadores
em duas competições que decorreram no final da época de 2011-12 e início da
época de 2012-13.
No que diz respeito ao desenho observacional da nossa investigação, e segundo
Anguera, Blanco-Villaseñor, Hernandez-Mendo e Losada (2011), é pontual/
nomotético/ multidimensional (P/N/M). Pontual, uma vez que foram observados
dois jogos por treinador, sem que houvesse uma sequência temporal pré definida.
Nomotético, visto que pertence a uma investigação onde são analisados os
comportamentos do treinador e os comportamentos dos atletas em competição.
Multidimensional, porque o comportamento de instrução dos treinadores foi
analisado segundo vários níveis de resposta.
Participantes
Participaram no nosso estudo 4 treinadores de futebol que dirigiam equipas dos
campeonatos nacionais de Portugal, do setor de formação – juniores “B” (15-16
anos) e juniores “A” (17-18 anos). Os treinadores observados eram licenciados
em Desporto, possuíam o curso de treinadores da modalidade de nível II (n= 3) e
nível IV (n= 1). Tinham uma média de idade de 42.5 anos (DP= 5.59) e uma média
de 14.5 anos (DP= 6.18) de experiência a trabalhar no setor de formação.
Uma vez que o nosso estudo teve em conta o Modelo de Análise da Relação
Pedagógica em Competição (Rodrigues, 1997), será importante referir também que
a nossa amostra é constituída por 2 competições na totalidade do tempo de jogo.
Os jogos agendados tiveram em conta a disponibilidade dos treinadores, a
condição de visitado e a expetativa de vitória.
A amostra observacional é constituída por 4151 configurações de comportamento
de instrução dos treinadores.
Instrumentos
O instrumento utilizado para codificar os comportamentos de instrução dos
treinadores em competição foi o Sistema de Análise da Instrução em Competição
para o futebol - SAIC (Santos & Rodrigues, 2008); ver Tabela_1.
Procedimentos
Após termos a autorização por parte dos treinadores e dos clubes procedemos à
recolha dos dados que consistiu no registo através de vídeo das competições dos
treinadores de futebol que dirigiam equipas do setor de formação.
O registo vídeo foi realizado através de uma câmara de filmar com disco rígido
colocada no lado oposto ao banco de suplentes da equipa que dirigia. A referida
câmara tinha acoplado um sistema wireless que recebia o som proveniente do
microfone que estava preso ao treinador. Utilizámos ainda uma segunda câmara
que filmou o jogo, para uma melhor interpretação da instrução emitida pelo
treinador no momento da codificação dos comportamentos.
Posteriormente as gravações efetuadas foram observadas e codificados os
comportamentos do treinador, utilizando para o efeito o programa LINCE®, do
Laboratório de Observación de la Motricidad, INEFC, Universidad de Lleida
(Gabín, Camerino, Anguera, & Castañer, 2012). De seguida efetuou-se a
exportação dos resultados para um ficheiro de valores separados por vírgulas da
Microsoft Excel®, que foi utilizado para a deteção de T-patternsde
comportamento no programa informático THEME 5.0®, da empresa Noldus Information
Technology (Magnusson, 2000).
Fiabilidade
O treino dos observadores e a fiabilidade intra observador e inter observadores
foi realizado de acordo com o definido por Brewer e Jones (2002). Os valores de
fiabilidade foram obtidos recorrendo à medida de concordância Kappa de Cohen
(Cohen, 1960). Os valores para a fiabilidade intra observador foram obtidos
através da observação do mesmo vídeo em dois momentos distintos separados por
uma semana (valor K> 0.841). Os valores de fiabilidade inter observador foram
superiores a 0.817.
Análise Estatística
Para deteção e análise dos T-patterns de comportamento recorreu-se ao programa
informático THEME 5.0® (Magnusson, 2000). A referida análise permite detetar a
estrutura temporal e sequencial de uma série de dados (Jonsson et al., 2010),
assegurando não só a deteção de T-patterns com múltiplas relações hierárquicas
que envolvem múltiplas configurações (Lapresa et al., 2013), mas também a
identificação de padrões ocultos possibilitando, desta forma, uma abordagem
diferente das complexas relações estabelecidas continuamente durante uma
sequência de dados (Louro et al., 2010).
O programa THEME permite ainda efetuar uma operação de seleção dos padrões de
comportamento que serão mais relevantes de acordo com o estabelecimento de
critérios quantitativos e qualitativos e em função dos objetivos pretendidos em
cada estudo (Anguera, 2004; Sarmento et al., 2010).
No sentido de possibilitar a deteção e análise dos T-patterns de comportamento
de instrução, foram tidos em conta critérios diferenciados. Desta forma, quando
analisados os treinadores de forma individual, estabeleceu-se o número mínimo
de repetições de 3 e nível de significância de 0.001. Por sua vez, quando
analisados os dados relativos aos quatro treinadores, em conjunto, estabeleceu-
se um número mínimo de repetições de 5 e nível de significância de 0.001. A
escolha dos T-patterns de comportamento apresentados para cada um dos
treinadores e na totalidade dos treinadores observados obedece aos seguintes
critérios:1) maior número de configurações de comportamento de instrução
encontradas num T-pattern com pelo menos dois níveis de relação hierárquica; 2)
maior número de ocorrências registadas do T-pattern com pelo menos dois níveis
de relação hierárquica; 3) existência de explicação lógica para a sequência
temporal de configurações de comportamento de instrução; 4) outro T-pattern
característico do comportamento de instrução do treinador em competição (ex.,
momento das substituições).
RESULTADOS
As observações realizadas aos 4 treinadores de jovens de futebol permitiram
registar comportamentos de instrução que representam configurações de códigos
relativos à dimensão objetivo, forma, direção e conteúdo da instrução emitida.
A apresentação dos resultados dos T-patterns de comportamento será realizada em
primeiro lugar, para cada treinador e depois na totalidade dos treinadores.
Para o treinador de jovens 1 detetámos 16 T-patternsde comportamento de
instrução na direção da equipa em competição, com o máximo de dois níveis de
relação hierárquica entre configurações.
Na tabela_2 apresentamos as configurações de comportamento de instrução que têm
mais ocorrências. A configuração com mais ocorrência (n= 20) diz respeito à
avaliação positiva da execução dos atletas (AVP), seguindo-se a prescrição de
indicações (PRE), sob a forma auditiva (AU) e auditiva-visual (AUVIS),
direcionada aos atletas (ATL) e relativas aos aspetos técnicos (TEC),
psicológicos (PSI) e táticos (TAT). Tal facto pode ser verificado no T-pattern
apresentado referente ao treinador 1 na figura_1.
A apresentação do T-pattern de comportamento plasmado na figura_1 justifica-se
por ter sido aquele que apresenta um maior número de relações hierárquicas, mas
também por ser aquele que mais vezes (4 repetições) nos jogos observados do
treinador de jovens 1. Este T-pattern inicia-se (01) com a emissão de instrução
por parte do treinador com o objetivo de avaliar positivamente a execução e/ou
comportamento (AVP), sob a forma auditiva-visual (AUVIS), direcionada ao atleta
(ATL) e sem conteúdo (SC). De seguida (02) a instrução assume a forma auditiva
e visual (AUVIS), com objetivo prescritivo (PRE), de conteúdo psicológico
pressão eficácia (PPE) e direcionada ao atleta (ATL). A última configuração
(03) do padrão representado é semelhante à primeira, diferindo somente no
recurso à comunicação auditiva (AU). O T-patterndescrito demonstra que o
treinador para além de avaliar positivamente, procura prescrever comportamentos
eficazes para a resolução das situações de jogo e em seguida voltar a avaliar
positivamente a ação dos atletas.
Relativamente ao treinador 2 registámos 26 T-patterns de comportamento de
instrução na direção da equipa em competição. Os padrões referidos têm um
máximo de três níveis hierárquicos de relação entre comportamentos.
As configurações de comportamento de instrução com mais ocorrências são
direcionadas ao atleta (ATL), recorrendo à comunicação auditiva (AU) e
auditiva-visual (AUVIS). O comportamento de instrução com mais frequência de
ocorrência (n= 99) avalia positivamente a execução dos atletas (AVP). Os
treinadores emitem também informação com o conteúdo tático (TAT) e psicológico
(PSI) (Tabela_3).
O T-pattern de comportamento da figura_2 representa a sequência temporal de
dados com mais configurações de entre os padrões encontrados para o treinador
2, sendo também o que ocorre num maior número de vezes (3 repetições). O padrão
inicia (01) com a prescrição (PRE) ao atleta (ATL) de informação sob a forma
auditiva (AU) e com conteúdo relativo aos princípios específicos de futebol
(TAPJ), sendo solicitado de seguida (02) à equipa uma maior eficácia na
resolução das situações de jogo (PPE). Posteriormente (03) o treinador emite
informação relacionada com a modificação do ritmo de jogo (PRI) e (04) a
prescrição (PRE) de indicações relativa aos esquemas táticos (TAET). De
salientar que a sequência temporal das duas últimas configurações ocorrem
isoladamente em mais quatro situações que a totalidade do T-pattern. Tal facto
deve-se ao treinador, em alguns momentos dos jogos observados, ter solicitado a
rápida marcação dos lançamentos de linha lateral para poder aproveitar a
momentânea desorganização defensiva do adversário.
O T-pattern representado nesta figura é o que ocorre num maior de número de
vezes (5 repetições) comparativamente aos restantes T-patternsde comportamento
de instrução registados para o treinador 2 na condução da equipa em competição.
É um padrão onde o treinador (01) solicita eficácia tática (TAEG) ao atleta
(ATL) e posteriormente (02,03) avalia positivamente o comportamento/execução
(AVP) do atleta (ATL).
Quando analisados os dados do treinador de jovens 3, detetámos 86 T-patternsde
comportamento de instrução na direção da equipa em competição, caracterizados
por um máximo de seis configurações e três níveis de relação hierárquica.
Na tabela_4 podemos verificar que a configuração de comportamento de instrução
com mais ocorrências (n= 91) é relativa à prescrição de informação (PRE), sob a
forma auditiva (AU), direcionada ao atleta (ATL) e com conteúdo relativo ao
método de jogo da equipa (TAMJ). As restantes configurações com mais
ocorrências têm conteúdo tático (TAT) e psicológico (PSI), direcionada ao
atleta (ATL), recorrendo a comunicação auditiva (AU) e auditiva-visual (AUVIS).
As duas últimas configurações têm o objetivo avaliativo positivo (AVP) e
afetivo positivo (AFP), relativamente à execução e comportamento dos atletas.
Apesar do T-pattern representado na figura_3 ser constituído por 5
configurações distintas, de facto só acontece por 3 vezes na sua totalidade.
Inicia-se (01) com um comportamento de instrução que tem como objetivo
descrever (DES) ao atleta (ATL) aspetos importantes sobre a equipa adversária
(EQADV), seguindo-se (02) informação com o objetivo interrogativo (INT). A
ocorrência destas duas configurações isoladamente é registada por mais duas
vezes. Tal facto deve-se ao treinador 3 utilizar muitas vezes a estratégia de
interrogar os atletas para verificar se estes tinham rececionado e percebido a
instrução emitida anteriormente.
De seguida (03) o treinador emite informação com o objetivo de prescrever
instrução (PRE) que procura pressionar os jogadores para uma maior eficácia de
jogo (PPE) e posteriormente (04) emite a instrução que pretende avaliar
positivamente (AVP) o comportamento e execução técnico-tática do atleta. De
salientar que estas duas últimas configurações acontecem isoladamente em mais
seis ocorrências. A última configuração (05) é relativa ao comportamento de
instrução do treinador que tem o objetivo de descrever (DES) informação com
conteúdo centrada na equipa de arbitragem (EQARB).
O T-pattern de comportamento de instrução da figura_4 é o que tem maior número
de ocorrências nos jogos observados do treinador 3. É constituído por 3
configurações de comportamento distintas. O treinador fornece indicações (01)
ao atleta (ATL) sobre aspetos relativos ao método de jogo da equipa (TAMJ),
tendo em vista a criação de situações favoráveis para a concretização dos
objetivos do ataque e defesa; (02) prescreve indicações (PRE) com conteúdo
sobre os princípios específicos de ataque e defesa (TAPJ). A última
configuração (03) vem reforçar a utilização do questionamento (INT) para
confirmar a receção e o entendimento das instruções anteriormente emitidas. Em
nossa opinião este T-pattern de comportamento de instrução tem bastante
relevância, pois acontece diversas vezes ao longo do período de tempo dos jogos
observados.
Registamos com o treinador 4 o número de ocorrências mais elevado de T-patterns
de comportamento de instrução na direção da equipa em competição (n= 105). Os
padrões referidos têm um máximo de seis configurações e 4 níveis de relação
hierárquica.
Na tabela_5, podemos verificar que a configuração com mais ocorrências (n= 210)
tem como objetivo prescrever informação (PRE) que procura pressionar os
jogadores para uma maior eficácia na resolução das situações de jogo (PPE),
direcionada ao atleta (ATL) e sob a forma auditiva (AU). As restantes
configurações de comportamento de instrução direcionam a informação ao atleta
(ATL), sob a forma auditiva (AU) e tem conteúdo tático (TAT) e psicológico
(PSI). De salientar o terceiro comportamento de instrução com mais ocorrências
que é relativo a avaliação positiva (AVP) da execução e comportamento dos
atletas.
Os T-patterns do treinador 4 foram selecionados porque dizem respeito a um
momento importante na direção da equipa em competição, a substituição (figura
5), devido ao número de ocorrências (3 repetições) e número de configurações
distintas (n= 5).
Podemos verificar que o treinador emite em primeiro lugar (01) indicações
relativas ao aquecimento (FAQ) que o atleta suplente está a realizar (ex.:
“Emanuel, vem.”). De seguida (02), o treinador fornece indicações relativas ao
sistema de jogo (TASJ), (03) às funções/missões táticas especificas defensivas
e ofensivas (TAFUNC) e (04) incentiva/motiva o atleta para a sua ação ser
eficaz no jogo (PPE). A configuração (05) é relativa à emissão de instrução com
objetivo afetivo positiva (AFP). Este comportamento surgiu sempre que o atleta
que esteve em campo passa junto ao treinador no banco de suplentes. A análise
do padrão permite ainda constatar que o treinador aproveita também este momento
de paragem no jogo (06), para emitir informação prescritiva (PRE) a toda a
equipa (EQ) com o intuito de incentivar a uma maior eficácia no jogo (PPE).
De acordo com a figura_6, o T-pattern inicia-se (01) com o treinador a
solicitar à equipa resistência às adversidades que ocorrem no jogo (PRA),
prescrevendo (PRE) de seguida (02) um conjunto de orientações ao atleta
relativas ao método de jogo da equipa (TAMJ) e (03) às combinações táticas
(TACOMB) a executar. Através da análise da configuração do padrão concluímos
que o treinador avalia positivamente (AVP) a execução do atleta (04). De
salientar que a sequência de comportamentos descritos nas configurações de
comportamento anteriores ocorrem isoladamente mais três vezes e que as
configurações relativas à prescrição de orientações sobre as combinações
táticas (TACOMB) e avaliação positiva (AFP) da execução do atleta ocorrem
várias vezes durante o período dos jogos observados (n=8). O padrão
representado termina com a configuração (05) relativa ao comportamento de
instrução do treinador que procura incentivar o atleta para uma maior eficácia
na resolução das situações de jogo (PPE).
Tal como referimos anteriormente realizámos também o estudo dos T-patterns de
comportamento de instrução na direção da equipa em competição da totalidade dos
treinadores. De acordo com a tabela_6 as configurações de comportamento com
mais frequência de ocorrência são direcionadas ao atleta (ATL), sob a forma
auditiva (AU) e auditiva-visual (AUVIS) e procuram prescrever (PRE) soluções
táticas (TAT) e psicológicas (PSI) para a resolução das situações de jogo, bem
como avaliar positivamente (AVP) a execução dos atletas.
Os T-patterns encontrados têm no máximo quatro configurações e três níveis de
relação hierárquica. Tendo em conta os critérios definidos foram detetados 57
T-patternsde comportamento de instrução.
Na figura_7, podemos verificar um T-pattern de comportamento de instrução no
momento em que os treinadores operam as substituições. Os treinadores começam
(01) por emitir instrução relativa ao aquecimento do atleta (FAQ), dando ordem
para ele o terminar e dirigir-se para junto do banco para receber as
indicações. Essas indicações são numa primeira fase (02) dedicadas ao modo de
colocação do jogador no sistema de jogo da equipa (TASJ) e de seguida dão
indicações relativas à sua função/missão tática especifica no processo ofensivo
e defensivo (TAFUNC). De salientar que a forma de comunicação utilizada no
momento das substituições é auditiva-visual (AUVIS).
Na figura_8 é apresentado um padrão com várias ocorrências nos oito jogos
observados (n= 17). Os treinadores de jovens emitem (01) instrução prescritiva
(PRE), sob a forma auditiva (AU), direcionada à equipa (EQ) e que procura
incentivar/motivar a equipa para a eficácia no jogo (PPE). De seguida (02), a
instrução é direcionada ao atleta (ATL), com conteúdo relativo ao método de
jogo (TAMJ) e, posteriormente (03), o treinador avalia positivamente (AVP) a
ação do jogador em jogo. Salientamos também que a sequência destas duas últimas
configurações ocorre em mais ocasiões que o padrão na sua totalidade durante os
jogos observados.
DISCUSSÃO
O objetivo deste estudo centrou-se na análise dos T-patterns de comportamento
de instrução, de treinadores do setor de formação na direção da equipa em
competição. A concretização deste objetivo permitiu-nos realizar uma análise
mais profunda dos resultados obtidos e desta forma obter informações valiosas
sobre as estratégias de comunicação do treinador, que podem ser importantes
para um maior conhecimento da atividade pedagógica do treinador de jovens de
futebol em competição. O conhecimento proveniente do estudo do T-patterns
relativo à comunicação dos treinadores em competição foi alcançado num estudo
realizado por Castañer et al. (2010)
De acordo com a frequência de ocorrências das configurações e dos T-patternsde
comportamento de instrução encontrados, pudemos verificar a grande utilização
por parte dos treinadores de informação com objetivo de prescrever
comportamentos mais eficazes para a resolução das situações de jogo e de
avaliar positivamente os comportamentos/execuções técnico-táticas dos atletas e
equipa, indo ao encontro do defendido por Mesquita (2005) que refere que o
treinador deve fornecer instruções de carácter formativo e positivo. A
preocupação dos treinadores observados em emitir informação com o objetivo
avaliativo positivo está de acordo com diversos estudos (Côté & Sedgwick,
2003; Jones et al., 2003; Moreno & Campo, 2004; Smith & Cushion, 2006)
Verificámos que os treinadores observados utilizam informação com o objetivo
descritivo, principalmente quando o conteúdo é relativo à equipa de arbitragem
e equipa adversária. Será também de salientar a utilização da interrogação,
principalmente pelo treinador 3, para verificar se a instrução é bem percebida
e rececionada. Neste conspecto Santos et al. (2012), verificaram, também,
apesar da baixa frequência de ocorrência, a utilização de instrução com
objetivo descritivo e interrogativo em treinadores de futebol de equipas do
sector de formação.
No treinador 3 foi possível verificar duas configurações de comportamento que
acontecem mais 5 vezes que o restante T-pattern. O comportamento referido diz
respeito à descrição de características relativas à equipa adversária, seguindo
informação com o objetivo interrogar se os atletas perceberam a instrução
emitida. A estratégia de comunicação de utilização da interrogação por parte do
treinador 3 para verificar se a informação é rececionada pelos atletas é
novamente utilizada no T-pattern de comportamento de instrução, após a emissão
de instrução com o objetivo de prescrever soluções ao atleta, relativas ao
método de jogo da equipa e princípios específicos ofensivos e defensivos.
Os treinadores dirigem as equipas utilizando a comunicação verbal, no entanto
verifica-se a preocupação de acompanhar muitas vezes essa forma de instrução
recorrendo à comunicação gestual para emitir de forma mais eficaz a instrução
(Santos & Rodrigues, 2008; Santos et al., 2012, 2013).
A direção da instrução é preferencialmente direcionada ao atleta, estando de
acordo com o defendido num estudo desenvolvido com treinadores experts de
voleibol (Moreno et al., 2005) e em estudos realizados no âmbito do futebol
(Santos & Rodrigues, 2008; Santos et al., 2012).
Os T-patterns encontrados mostram-nos a preocupação dos treinadores em emitir
aos atletas informação relativa aos aspetos táticos e psicológicos (Ramirez
& Diaz, 2004; Santos & Rodrigues, 2008; Santos et al., 2012). Os
treinadores observados centraram a informação nos aspetos relativos ao método
de jogo, princípios específicos do jogo, combinações táticas, eficácia tática,
alteração do ritmo/intensidade de jogo, incentivo e motivação dos jogadores
para uma maior eficácia na resolução das situações de jogo e resistência às
adversidades.
De acordo com os T-patterns encontrados, pudemos verificar sequências temporais
de comportamentos de instrução em que os treinadores de jovens têm como
principais preocupações os aspetos táticos e psicológicos, seguindo-se
informação com o objetivo de avaliar positivamente os comportamentos e
execuções técnico-táticas dos atletas (Santos & Rodrigues, 2008; Santos et
al., 2012, 2013).
Foram ainda detetados T-patterns no momento das substituições. Este momento do
jogo é aproveitado pelo treinador para intervir na competição, emitindo
informação de qualidade ao jogador que vai entrar, ao jogador que sai e porque
o jogo está parado aos restantes jogadores e equipa. Nos T-patterns analisados,
verificámos que os treinadores emitem primeiramente informação relativa ao
aquecimento do jogador que vai entrar, para posteriormente lhes fornecerem
indicações sobre o seu posicionamento no sistema de jogo da equipa e também
para esclarecer as suas funções/missões táticas especificas a desempenhar. Os
treinadores procuram ainda, nesse momento, incentivar e motivar o jogador para
uma maior eficácia na resolução das situações de jogo. Em relação ao jogador
que saiu de campo, os treinadores tiveram como principal preocupação emitir
instrução claramente positiva, com o objetivo de informar o jogador
relativamente à sua prestação. Durante as substituições os treinadores
utilizaram instrução com o objetivo prescritivo e a forma de comunicação
verificada foi gestual e verbal.
A observação de jogos diferentes, por treinador, permitiu a deteção de T-
patterns, o que demonstra que os treinadores utilizam estratégias similares em
situações diferentes (ex., substituições) que acontecem em jogos distintos. Tal
facto também foi verificado com treinadores de futsal de seniores femininos, em
contexto competitivo (Castañer et al., 2010). Interessante também foi o facto
de termos encontrado T-patterns quando analisamos os treinadores na sua
totalidade, o que demonstra a utilização de estratégias de comunicação
similares na direção de equipa jovens em competição. Estes resultados fornecem
informações valiosas sobre o perfil de comunicação (Castañer et al., 2010) dos
treinadores de jovens observados, que podem ser aproveitadas para a reflexão
dos treinadores e para uma melhor formação dos mesmos.
Em futuras investigações seria de todo pertinente fazer também a análise dos T-
patterns em treinadores experientes e novatos (Castañer, Camerino, Anguera,
& Jonsson, 2013) e em contexto de jovens e seniores, afim de verificar a
existência de perfis de comunicação diferenciados.
CONCLUSÕES
O estudo dos T-patterns de comportamento de treinadores de futebol permitiu-nos
encontrar algumas sequências temporais e lógicas e desta forma conhecer um
pouco mais sobre as estratégias de comunicação na direção da equipa em
competição.
Os padrões comportamentais dos treinadores estudados revelam que estes se
centram fundamentalmente na prescrição de comportamentos e de soluções táticas
mais eficazes para ajudar os jogadores a resolver de forma eficaz as situações
de jogo. No sentido de efetivar o propósito anteriormente descrito, os
treinadores utilizam uma comunicação fundamentalmente auditiva, socorrendo-se
por vezes de informação mista (gestual verbal) e direcionada preferencialmente
ao atleta.
Os resultados permitiram concluir que os T-patterns analisados se caracterizam
essencialmente por representarem estruturas temporais e sequências de
comportamentos de instrução que procuram emitir indicações sobre aspetos
táticos e psicológicos, seguindo-se informação com objetivo de avaliar
positivamente o comportamento e execução técnico-táticas dos atletas.
Também nos momentos das substituições pudemos verificar que existe a
preocupação com a prescrição de comportamentos, recorrendo à comunicação
gestual e auditiva e com conteúdo relativo ao sistema de jogo, funções e
missões táticas especificas a desempenhar e incentivo para uma maior eficácia
no jogo.