Burnout em tenistas brasileiros infanto-juvenis
INTRODUÇÃO
O termo burnout surgiu na década de 70 e foi abordado pela primeira vez por
Freundenberger (1974), que utilizou o termo para descrever sentimentos de
diminuição da motivação, falta de comprometimento e desgaste emocional de
voluntários de uma clínica ao tratarem usuários de drogas. Simultaneamente,
Cristina Maslach e colaboradores entrevistavam uma variedade de profissionais
da área médica e profissões de ajuda como professores, advogados e assistentes
sociais, procurando compreender as relações entre esses profissionais e seus
clientes (Schaufeli, Leiter, & Maslach, 2009). Como resultado das
entrevistas os autores perceberam que com frequência os profissionais se
sentiam exaustos emocionalmente, desenvolviam perceções negativas sobre os
pacientes e vivenciavam crises em relação às suas competências pessoais. A
partir deste conjunto de sentimentos os pesquisadores caracterizaram a síndrome
de burnout, um constructo tridimensional caracterizado pelo esgotamento
emocional, despersonalização e sentimentos de reduzida realização pessoal
(Maslack & Jackson, 1981).
Com a evolução dos estudos a comunidade científica logo percebeu que os atletas
também poderiam ser uma população de risco para o desenvolvimento da síndrome,
e investigações específicas para esta população resultaram em diversos modelos
(Coakley, 1992; Cohn, 1990; Smith, 1986). Com base nos estudos de Maslack e
Jackson (1981), Raedeke (1997) estabeleceu um novo modelo que definiu o burnout
desportivo como uma síndrome psicofisiológica fundamentada em três dimensões:
exaustão física e emocional, desvalorização desportiva e reduzido senso de
realização desportiva. A exaustão física e emocional está associada às demandas
de treinos e competições, onde o atleta se sente exausto e cansado com
frequência. A desvalorização desportiva tem relação com a perda de interesse
pela modalidade, o atleta pode parar de se preocupar com o seu rendimento, ter
atitudes negativas em relação ao desporto e o desvalorizar em comparação a
outras atividades de sua vida. O reduzido senso de realização desportiva está
relacionado a uma insatisfação com o desempenho das habilidades, o atleta pode
se frustrar por não atingir suas metas pessoais ou sentir que seu rendimento
está abaixo de suas expectativas (Raedeke, 1997; Raedeke & Smith, 2001).
Muitas vezes o burnout não é identificado pelos envolvidos no meio desportivo
(Pires, Brandão, & Machado, 2005), o que é preocupante, tendo em vista que
a síndrome pode resultar no abandono da prática desportiva (Garce de Los Fayos
& Vallerino, 2010), conhecido na literatura como dropout (Raedeke, Lunney,
& Venables, 2002). É importante considerar que, mesmo quando não há o
abandono, o burnout pode ser motivo de sofrimento psíquico para o indivíduo que
convive com ele (Raedeke, 1997; Smith, 1986) e resultar na queda de desempenho.
O Athlete Burnout Questionnaire (Raedeke & Smith, 2001) foi desenvolvido e
após a sua criação e reconhecimento pela comunidade científica (Andrade,
Casagrande, Brandt, & Viana, 2012; Goodger, Gorely, Lavalle, &
Hardwood, 2007) foi traduzido e adaptado para outras línguas como o alemão,
árabe, chinês, francês, norueguês, português e espanhol (Arce, De Francisco,
Andrade, Gloria, & Raedeke, 2012) ampliando o campo de investigação. Os
avanços têm-se dado também com investigações qualitativas (Cresswell &
Eklund, 2007; Gustafsson et al., 2008; Raedeke, Lunney & Venables, 2002) e
estudos que relacionam o burnout com outras variáveis como o overtraining
(Gustafsson et al., 2008; Lemyre & Roberts, & Stray-Gundersen, 2007),
motivação (Losdale, Hodge, & Rose, 2009), perfeccionismo (Appleton, Hall,
& Hill, 2009; Hill, Hall, Appleton, & Kozub, 2008), clima motivacional
(Smith, Gustafsson, & Hassmén, 2010), entre outros.
Estudos mostraram que atletas juvenis são muito afetados pela síndrome
(Appleton et al., 2009; Cohn, 1990; Cresswell & Eklund, 2007; Curran,
Appleton, Hill, & Hall, 2011; Gould, Tuffey, Udry, & Loehr, 1996a,
1996b, 1996c; Gustafsson, Kentta, Hassén, & Lundqvist, 2007; Hill et al.,
2008; Raedeke et al., 2002; Smith et al., 2010;). Embora tenha sido uma das
primeiras modalidades a atrair estudos sobre burnout a partir das pesquisas de
Gould et al. (1996a, 1996b, 1996c), o ténis de campo tem recebido menor atenção
nos últimos anos.
Apesar dos evidentes avanços na literatura internacional referente ao estudo do
burnout no desporto, no Brasil a realidade é diferente. Em uma recente revisão
sistemática, Pires, Santiago, Samulski e Costa (2012) identificaram apenas oito
artigos relacionados à síndrome de burnout no contexto desportivo brasileiro,
demonstrando a necessidade de estudos que auxiliem na melhor compreensão desta
realidade no país.
Tendo em vista a problemática apresentada, o presente estudo tem como objetivo
investigar o burnout em tenistas infanto-juvenis brasileiros.
MÉTODO
O presente estudo se caracteriza como uma pesquisa descritiva de campo com
delineamento transversal.
Participantes
A amostra foi selecionada de forma não probabilística, utilizando-se o critério
do voluntariado.
Participaram do estudo 88 tenistas infanto-juvenis cadastrados nas categorias
14, 16 e 18 anos em suas respetivas federações e/ou confederação. Sessenta e
nove tenistas eram do sexo masculino (M= 15.3 anos, DP= 1.2), entre eles 18
cadastrados na categoria 14 anos, 31 na categoria 16 anos e 20 na
categoria 18 anos. Dezanove tenistas participantes eram do sexo feminino (M=
15.1 anos, DP= 1.3), entre elas 6 cadastradas na categoria 14 anos, 9 na
categoria 16 anos e 4 na categoria 18 anos.
A amostra abrangeu tenistas de diferentes regiões e estados brasileiros: Santa
Catarina (n= 34), São Paulo (n= 16), Rio Grande do Sul (n= 11), Distrito
Federal (n= 9), Minas Gerais (n= 7), Rio de Janeiro (n= 5), Mato Grosso do Sul
(n= 3), Paraná (n= 2) e Espírito Santo (n= 1).
Instrumentos
Foram utilizados como instrumentos para coleta de dados o Questionário de
Burnout em Atletas ' QBA (Pires, Brandão & Silva, 2006) e um questionário
para caracterização sociodemográfica e desportiva.
O QBA é a versão brasileira do Athlete Burnout Questionnaire (Raedeke &
Smith, 2001). O questionário é composto por 15 afirmações que correspondem a
sentimentos relativos ao burnout. Para cada afirmação o respondente se
posiciona em uma escala do tipo Likert que varia de Quase nunca (1) a Quase
sempre (5). Cada afirmação se refere a um construto relacionado à manifestação
de burnout em atletas (Raedeke, 1997): exaustão física e emocional, reduzido
senso de realização desportiva e desvalorização desportiva. Em relação ao
burnout geral, os resultados são atribuídos a partir da média aritmética dos 15
itens do instrumento. Realizou-se o teste de consistência interna (alpha de
Cronbach) do QBA a partir dos dados do presente estudo. Para todas as escalas
foram encontrados valores satisfatórios de consistência interna: exaustão
física e emocional (alpha= 0.81); reduzido senso de realização desportiva
(alpha= 0.75); e desvalorização desportiva (alpha= 0.64).
O questionário de caracterização sociodemográfica e desportiva foi composto por
variáveis relacionadas à rotina de treino, competição e características
pessoais do atleta. Nesse questionário ainda foi incluso o Critério Padrão de
Classificação Económica Brasil/2008 da Associação Brasileira das Empresas de
Pesquisa [ABEP] (2011).
A variável volume de treino foi obtida por meio da multiplicação das horas
diárias de treino pelo número de treinos semanais.
O ranking dos atletas foi verificado por meio do site da Confederação
Brasileira de Tênis [CBT] (2011).
Procedimentos
Primeiramente o projeto de pesquisa passou pela aprovação do Comitê de Ética de
Pesquisa em Seres Humanos da Universidade executora do estudo (parecer número
66/2011).
As coletas de dados foram realizadas em três diferentes situações: Torneio
Estadual Catarinense Infanto-Juvenil; Torneio Brasileiro Infanto-Juvenil; e no
local usual de treino dos atletas.
Os Termos de Consentimento Livre Esclarecido - TCLE foram entregues aos atletas
ou responsáveis pelos mesmos. Após a assinatura do TCLE, cada participante foi
convidado a acompanhar o pesquisador individualmente a um local reservado onde
receberam as instruções sobre o preenchimento dos questionários. Após
instruções prévias, os participantes ficaram à vontade para responderem
isoladamente aos questionários, sendo que o pesquisador colocou-se à disposição
para esclarecer dúvidas surgidas durante o preenchimento.
Os questionários foram aplicados antes do início de uma sessão de treino, para
aqueles que responderam no momento do treino. Para os atletas que iriam
participar de uma das competições, os questionários foram aplicados antes da
sua primeira participação, reduzindo as possíveis influências dos resultados
dos jogos em suas respostas.
Análise Estatística
As informações foram armazenadas e analisadas no software SPSS® versão 17.0. Os
dados foram tratados com estatística descritiva (média, desvio padrão, valores
máximos e mínimos, frequência e percentual) e inferencial. Quanto à análise
inferencial, foram utilizados testes de comparação. Considerando que os dados
não se distribuíram normalmente (Kolmogorov-Smirnov < 0.05), foram utilizados
para comparação do burnout de diferentes grupos os testes de Mann-Whitney
(comparação de dois grupos) e Kruskal-Wallis (comparação de mais de dois
grupos). Quando utilizado este último, realizou-se post hoc por meio do Mann-
Whitney, com correção de Bonferroni de acordo com recomendações de Field
(2009). Estabeleceu-se alfa de 0.05 (p< 0.05).
O tamanho do efeito (d) foi calculado quando as comparações resultaram em
diferenças significativas. Consistente com os padrões apresentados por Cohen
(1988) para ciências sociais e do comportamento, os valores de d foram assim
considerados: d= 0.1 efeito pequeno, d= 0.3 efeito médio, d= 0.5 efeito grande.
Ainda, foram apresentados os valores de delta variação intergrupos (Δ).
RESULTADOS
A maioria dos participantes era do sexo masculino, tinha um nível
socioeconómico alto (classes A1 e A2), praticava ténis há mais de quatro anos e
competia na categoria 16 anos. A maior parte competia em torneios de nível
nacional e/ou internacional e estava posicionado entre 31º e 100º no ranking
nacional. Quanto ao número de treinos semanais e horas diárias de treino, a
maioria dos atletas treinava de 4 a 5 dias por semana e entre 2 e 4 horas
diárias, resultando em um volume de treino semanal que variou entre 11 e 20
horas para a maior parte deles. A maioria dos participantes participava de 1 ou
2 competições por mês (ver Tabela_1). Destaca-se ainda que 72.7% dos tenistas
não possuía patrocínio.
O burnout geral e suas dimensões apresentaram valores médios semelhantes
(aproximadamente 2), porém os tenistas apresentaram escores ligeiramente mais
altos nas dimensões desvalorização desportiva e reduzido senso de realização
desportiva. A dimensão exaustão física e emocional apresentou os menores
escores (ver Tabela_2). Foram comparadas as variáveis sociodemográficas e
desportivas dos grupos com burnout inferior (< 2) e superior (≥ 2), a fim de se
verificar possíveis diferenças entre tenistas com diferentes níveis de burnout.
Verificou-se que os grupos não apresentaram diferenças importantes,
justificando a realização de análises que englobaram toda a amostra em
conjunto.
Quando comparados grupos de tenistas de diferentes sexos, classificações
socioeconómicas, categorias, níveis competitivos, rankings e com diferentes
frequências de participação mensal em competições, verificou-se que estes não
apresentaram níveis de burnout diferenciados (ver Tabela_3).
Foram encontradas diferenças significativas nas seguintes variáveis. O tempo de
prática associou-se com a exaustão física e emocional (p= 0.02). O tempo diário
de treino associou-se com a desvalorização desportiva (p= 0.03) e o reduzido
senso de realização desportiva (p= 0.05). O volume de treino semanal associou-
se com o burnout geral (p= 0.03), com a desvalorização desportiva (p= 0.04) e
com o reduzido senso de realização desportiva (p< 0.01).
Após a análise de post hoc foi possível identificar entre quais grupos
especificamente as diferenças existiram. Em relação à associação da dimensão
exaustão física e emocional com o tempo de prática, os tenistas que praticam de
1 a 3 anos se diferenciaram dos que praticam entre 4 a 7 anos (U= 115, p=
0.005, d= 0.371) com menores índices para os que treinaram há menos anos (Δ=
−0.57). Em relação ao volume de treino semanal, os tenistas que treinavam até
10 horas por semana se diferenciaram dos que treinam entre 11 e 20 horas no
burnout geral (U= 328.5, p= 0.009, d= 0.309), desvalorização desportiva (U=
338.5, p= 0.011, d= 0.300) e reduzido senso de realização desportiva (U= 287.5,
p= 0.002, d= 0.372). Aqueles com menor volume de treino apresentaram maior
índices de burnout geral (Δ= 0.33), desvalorização desportiva (Δ= 0.56) e
reduzido senso de realização (Δ= 0.44).
A relação entre o burnout e as variáveis horas diárias de treino e número de
treinos semanais apresentou valores p insuficientes após a correção de
Bonferroni, não sendo possível identificar diferenças entre grupos específicos.
DISCUSSÃO
A maioria dos tenistas participantes apresentou nível socioeconómico alto, o
que é compreensível tendo em vista que o ténis de campo competitivo no Brasil é
uma modalidade de elevado custo. O tenista necessita de um suporte financeiro
para manter essa atividade (ex: treino especializado, materiais desportivos,
viagens). Esse suporte pode vir na forma de patrocínio ou através do apoio
familiar. Entretanto, ao se observar que a maior parte dos tenistas do presente
estudo não possui nenhum tipo de patrocínio, a responsabilidade de garantir o
suporte financeiro dos tenistas estudados é quase que exclusiva da família.
Coakley (1992) traçou a hipótese de que atletas com estrutura económica
inferior supostamente se envolveriam com maior intensidade na atividade
desportiva de rendimento, suportando melhor as dificuldades inerentes à
modalidade. Como a diferença entre os mais e os menos favorecidos
economicamente foi pequena no presente estudo, formando um grupo homogéneo,
essa análise mais aprofundada em torno das diferenças socioeconómicas não foi
possível de ser realizada.
Estudos recentes têm utilizado o Athlete Burnout Questionnarie validado em seus
respectivos países (Appleton et al., 2009; Cresswell & Eklund, 2006;
Gustafsson et al., 2008; Hill et al., 2008, 2010; Lemyre et al., 2007;). Nesses
estudos os atletas participantes apresentaram escores variando entre 2.09 e
2.43 para a dimensão reduzido senso de realização desportiva, 2.28 e 2.57 para
a dimensão exaustão física e emocional e 1.66 e 2.16 para a dimensão
desvalorização desportiva. Os tenistas participantes do presente estudo
apresentaram valores próximos aos destas pesquisas. Quanto às dimensões, a
maior parte dos estudos realizados com modalidades diversas, inclusive no
ténis, apresentou escores ligeiramente mais altos para a dimensão exaustão
física e emocional (Cresswell & Eklund, 2006; Losdale et al. 2009; Appleton
et al., 2009; Hill et al., 2010; Gould et al., 1996a). Os tenistas do presente
estudo se comportaram de maneira diferente ao apontar escores levemente mais
altos para a dimensão reduzido senso de realização desportiva. Raedeke (1997)
classificou como valores altos de burnout os com média de aproximadamente 3
pontos (2.97 a 3.40), ressaltando ainda que para o atleta ser classificado com
burnout severo é necessário apresentar altos escores nas três dimensões, já que
a síndrome é multidimensional. Os tenistas do presente estudo, de maneira
geral, não se encontram em um estado de risco da síndrome, e não podem ser
classificados como burnout severo segundo a classificação de Raedeke (1997).
Entretanto, é necessário uma ressalva, pois alguns estudos apontaram que o
burnout tende a aumentar ao longo da temporada, com escores mais altos ao final
da mesma (Cresswell & Eklund, 2006, 2007; Lai & Wiggins, 2003). Logo,
pode ser necessário um acompanhamento mais atento por parte dos pais e
treinadores perante os tenistas que apresentaram escores mais próximos aos
valores altos. A coleta de dados do presente estudo foi realizada no meio de
uma temporada, o que pode justificar os índices moderados de burnout, que não
necessariamente se manteriam até o seu final.
Não foram encontradas diferenças significativas entre o burnout de homens e
mulheres, confirmando a tendência apresentada em outros estudos. Lai e Wiggins
(2003) estudaram essa relação com atletas juniores de futebol, encontrando
maiores escores de burnout para o sexo masculino, enquanto Gustafsson et al.
(2007) verificou em desportos individuais maiores valores de burnout para as
mulheres. Segue em aberto a temática para que futuros estudos explorem mais
detalhadamente as possíveis diferenças no burnout desportivo de homens e
mulheres.
O tempo de prática de ténis esteve associado à exaustão física e emocional,
sendo que os que treinam há menos tempo (entre 1 a 3 anos) se sentem menos
exaustos do que os que treinam há mais tempo (entre 4 e 7 anos), com
associações de efeito moderado. Esse achado corrobora com o estudo de Cresswell
e Eklund (2006), o qual verificou que jogadores de rugby mais experientes
apresentavam maior exaustão física e emocional.
Três anos de experiência com a modalidade pode ser considerado um período
curto, onde esses tenistas podem estar menos comprometidos com o desporto do
que os demais, em uma fase prazerosa, divertida, entusiasmados em participar de
uma equipa, evoluir tecnicamente e participar de torneios. Com o tempo, o
aumento na dedicação e envolvimento com a modalidade pode resultar em maior
cobrança dos pais, técnicos e até mesmo do próprio atleta e isso pode induzir a
um desgaste físico e emocional dos mesmos. Entretanto, a falta de associação do
tempo de prática com a desvalorização desportiva e com o reduzido senso de
realização desportiva sugere que os atletas ainda estão motivados e satisfeitos
com a sua participação.
A exaustão também está relacionada à rotina de treino e viagens dos tenistas,
como aponta a literatura. Chiminazzo e Montagnner (2009) investigaram as
perceções de treinadores brasileiros de tenistas juvenis e profissionais para
identificar como descreviam um atleta em estado de esgotamento e fatores
desencadeadores desse processo. Os técnicos relataram que as viagens para
disputar torneios, constantes no ténis de campo, compõem uma demanda difícil
para os atletas, especialmente para os que estudam. Ficar longos períodos longe
da família, amigos e conseguir conciliar as demandas da escola com as demandas
do ténis é um fator complicador. Gould et al. (1996b) entrevistou os tenistas
com maiores escores de burnout a partir de um estudo quantitativo e as demandas
de viagens foram relatadas como um dos principais fatores que levaram ao
burnout dos mesmos.
É importante não deixar que a vida do atleta se limite ao desporto. Os pais e
treinadores devem estabelecer estratégias para equacionar a participação no
ténis com outras atividades, evitando limitar as relações sociais, amizades e
atividades estritamente relacionadas ao contexto desportivo, diminuindo o
efeito da rotina. O conjunto limitado de experiências de vida pode também levar
o atleta ao desenvolvimento de uma identidade unidimensional que faça que o
atleta não enxergue, no futuro, alternativa de sucesso para sua vida além de se
tornar tenista profissional. Dessa maneira, mesmo que no futuro, o atleta se
sinta frustrado e fracassado por não atingir os objetivos que almejou, poderá
aumentar ainda mais o investimento, mantendo-se na atividade até que os seus
custos (quantidade de tempo e esforço despendido, incapacidade de se envolver
em outras atividades) sejam recompensados o que a literatura chama de atletas
aprisionados ao desporto (Coakley, 1992; Raedeke, 1997). O que é preocupante já
que não são todos os atletas que têm o perfil e habilidade para sobreviverem
com o ténis.
Não foram encontradas diferenças significativas no burnout quando comparado o
nível competitivo e o ranking dos tenistas. Gould et al. (1996a) constatou que
os tenistas que haviam experimentado altos escores de burnout eram os que
tinham participado de equipas mais fortes de ténis dentro da sua universidade e
jogado em categorias de idade avançada à sua. Quanto ao ranking esperava-se que
os jogadores mais bem posicionados obtivessem menores escores de burnout, em
especial no que tange o reduzido senso de realização desportiva, tendo em vista
que essa dimensão tem relação com as metas e expectativas do atleta. De fato,
os mais mal posicionados no ranking apresentaram maiores escores de burnout nas
três dimensões, mas sem apresentar diferença significativa.
O overtraining é definido na literatura como uma consequência do excesso de
treino e altas cargas de competições associados a períodos insuficientes de
recuperação (Gould, 1996b; Lemyre et al., 2007). O mesmo é apontado ainda como
um precursor da síndrome do burnout, pois se relaciona positivamente com a
exaustão física e emocional (Lemyre et al., 2007; Gustafsson et al., 2008).
Entretanto, no presente estudo não foram verificadas associações significativas
entre a exaustão física e emocional e as horas diárias de treino, número de
treinos semanais e volume de treino semanal. Assim, não se pode afirmar que
tenistas infanto-juvenis com elevado volume de treino vão estar necessariamente
em estado de overtraining, pois se trata de uma relação complexa. Gould et al.
(1996b) tentou explicar esse aspeto ao investigar tenistas: tenistas que
treinavam 6 horas semanais indicavam que o treino estava adequado para eles
enquanto tenistas que treinavam 35 horas semanais achavam que o treino ainda
não era suficiente (p. 360). Então, o treino e o overtraining devem ser
avaliados dentro de uma abordagem intra-individual, pois cada atleta pode
apresentar respostas diferentes ao treino em função de sua motivação,
expectativas, nível de condicionamento físico, etc.
No entanto, os tenistas com menor volume de treino semanal (até 10 horas)
obtiveram maiores índices de burnout geral, desvalorização desportiva e
reduzido senso de realização desportiva em relação aos que treinavam mais tempo
(11 a 20 horas), com associações de efeito moderado. Logo, supõe-se que estes
tenistas podem estar reduzindo o volume de treino ao sentir que não estão
alcançando suas metas, desvalorizando a modalidade. Esse fato corrobora com o
modelo teórico de Raedeke (1997) que explica o burnout através de uma
perspetiva de comprometimento. Atletas que já não sentem tanto prazer com o
desporto diminuem o comprometimento quando as recompensas (conquistas, troféus,
dinheiro, sentimentos de competência) não estão superando os custos (quantidade
de tempo e esforço despendido, incapacidade de se envolver em outras
atividades, sentimentos de fracasso), pois passam a perceber diferentes
alternativas para a sua vida. Gould et al. (1996b) encontrou resultados
semelhantes com tenistas infanto-juvenis, os quais demonstraram que os atletas
com maiores escores de burnout optaram por praticar a modalidade menos horas e
menos vezes por semana, pois já tinham outros interesses como prioridade. Dessa
forma, é necessário que pais e técnicos estejam atentos ao atleta que começa a
reduzir o seu tempo de treino, sendo importante que se estabeleça uma conversa
para entender os reais motivos desse comportamento. O atleta pode ter interesse
em se manter na atividade, porém com fins recreativos ou de saúde, o que Gould
et al. (1996a) denominaram de burnouts ativos. Ao saber disso, evita-se que
pais e treinadores pressionem o atleta para obter resultados e treinar buscando
o alto rendimento. Por outro lado, caso seja um caso momentâneo de queda na
motivação do atleta ou um momento difícil na carreira, pode ser necessária uma
mudança nas estratégias de elaboração de treino, evitando o abandono, visto que
um dos principais motivos de dropout em atletas brasileiros é a monotonia dos
treinos (Bara Filho & Garcia, 2008).
Por fim, o presente estudo apresenta limitações que devem ser reconhecidas. O
tamanho da amostra e o delineamento transversal que impossibilitou inferências
de causa e efeito nas nossas descobertas. Estudos com amostras maiores e
longitudinais devem ser considerados em investigações futuras sobre a síndrome
de burnout em tenistas infanto-juvenis. Ainda, os resultados encontrados não
podem ser generalizados para populações diferentes de tenistas infanto-juvenis
brasileiros. Para maiores esclarecimentos a respeito dos efeitos da síndrome em
diferentes contextos, sugere-se que futuras pesquisas devem investigar atletas
com diferentes características de idade (profissionais, juvenis), modalidades
(coletivas, individuais) além de investigar os aspetos motivacionais e de
personalidade que possam influenciar positivamente ou negativamente e vem sendo
discutidos na literatura como relevantes para melhor compreensão da síndrome
burnout em atletas (Goodger et al., 2007).
CONCLUSÕES
O presente estudo teve como objetivo investigar a síndrome de burnout em
tenistas infanto-juvenis brasileiros. O tempo de prática de ténis e o volume de
treino semanal foram variáveis do treino que estiveram associadas ao burnout
dos tenistas investigados. Os tenistas com maior tempo de prática apresentaram
perceção de maior exaustão física e emocional do que tenistas com menor
experiência. Ainda, tenistas com menor volume de treino apresentaram maiores
índices de burnout geral e nas dimensões reduzido senso de realização e
desvalorização da modalidade do que os que treinam mais horas por semana. As
associações encontradas vão ao encontro de pressupostos teóricos da síndrome de
burnout e pesquisas que investigaram essa população. A fim de confirmar as
hipóteses utilizadas para discussão, novos estudos devem replicar a
investigação das variáveis estudadas, utilizando desenhos metodológicos que
permitam estabelecer causa e efeito.
Por fim, é reconhecido na literatura a carência de estudos investigando a
síndrome de burnout em atletas brasileiros, principalmente empíricos. Logo,
nossos achados devem auxiliar treinadores, gestores e atletas na maior
compreensão da síndrome de burnout e suas possíveis relações com
características pessoais e de treino. Compreender essas relações é o primeiro
passo, essencial, para que os envolvidos na carreira dos jovens atletas possam
identificar aqueles que estão sendo acometidos pela síndrome e prevenir que
outros venham a sofrer com seus efeitos. Ainda, este estudo norteia um caminho
para futuras investigações, necessárias para que estratégias específicas de
intervenção possam ser estabelecidas com segurança.