Efeitos da vibração do corpo todo sobre a força e potência muscular de idosos:
Uma revisão sistemática
INTRODUÇÃO
O envelhecimento está associado à deterioração dos sistemas neuromuscular
(Frontera et al., 2000) e sensorial (Evans et al., 2002), bem como a do
processamento central (Fathi et al., 2010), fatores estes que estão diretamente
envolvidos com comprometimentos físicos, prejuízos psicológicos e consequente
perda da autonomia e qualidade de vida (Chu, Chiu, & Chi, 2006).
A redução da massa e da força muscular representa uma grande preocupação diante
do envelhecimento, uma vez que contribuem para o aumento do risco de quedas
(Chu et al., 2006), fraturas (Baumgartner et al., 1998), perda da independência
funcional e apresentam alto impacto na qualidade de vida (Chu et al., 2006).
O declínio da massa muscular, e consequentemente da força, está associado ao
aumento da sarcopenia, cujos mecanismos desencadeadores incluem: a diminuição
no número e no tamanho das fibras musculares (Frontera et al., 2000), a redução
na síntese proteica (Rooyackers, Adey, Ades, & Nair, 1996), o aumento do
componente não contrátil do tecido muscular (Kent-Braun, Ng, & Young,
2000), a diminuição do número e no recrutamento das unidades motoras (Erim,
Beg, Burke, & de Luca, 1999), as alterações na arquitetura muscular e nas
propriedades da estrutura tendínea (Onambele, Narici, & Maganaris, 2006),
assim como a redução da função mitocondrial (Short et al., 2005).
A presença da sarcopenia pode, adicionalmente, contribuir para o
desenvolvimento de desordens crónicas comummente relacionadas ao envelhecimento
(Di Monaco, Vallero, Di Monaco, & Tappero, 2010; Miljkovic-Gacic et al.,
2008), ressaltando ainda mais a necessidade de valorização de programas de
intervenção voltados para a otimização do desempenho muscular nesta população.
O exercício físico é capaz de induzir adaptações no sentido de retardar, assim
como atenuar o declínio de diversas funções orgânicas desencadeadas a partir do
envelhecimento. Além disso, a prática do exercício físico é defendida na
tentativa de otimizar o desempenho neuromuscular de idosos (Nelson et al.,
2004; Ryan et al., 2004). Os exercícios resistidos (ER) vêm sendo apresentados
como uma importante estratégia para minimizar os efeitos da sarcopenia, através
das adaptações neurais e estruturais decorrentes desta intervenção (Hakkinen,
Kraemer, Newton, & Alen, 2001; Kubo, Kanehisa, Miyatani, Tachi, &
Fukunaga, 2003).
Recentemente, a utilização de estímulos com cargas vibratórias, conhecido como
vibração do corpo todo (VCT), tem sido sugerido como uma forma alternativa de
intervenção capaz de otimizar a força muscular de idosos (Bogaerts et al.,
2007; Machado, Garcia-Lopez, Gonzalez-Gallego, & Garatachea, 2010;
Roelants, Delecluse, & Verschueren, 2004; Verschueren et al., 2011; Von
Stengel, Kemmler, Engelke, & Kalender, 2012). Diante disso, este estudo
teve como objetivo sintetizar, a partir de uma revisão sistemática, as
evidências científicas disponíveis sobre a utilização do treino com VCT como
uma alternativa para a obtenção de modificações efetivas sobre a força e a
potência muscular de idosos.
MÉTODO
Os estudos selecionados foram recuperados das bases Medline, SciELO, Lilacs,
Biblioteca Cochrane, PEDro e Science Citation Index, entre 1982 e dezembro de
2012, a partir da estratégia de busca incluindo a combinação das palavras-chave
(whole body vibration OR vibration exercise OR vibration training) AND
(muscle strength OR strength OR force OR "muscle power OR power)
AND (elderly OR older). Os descritores utilizados na base Medline foram:
(muscle strength OR strength OR force) AND (elderly OR older) AND (vibration
exercise OR vibration training OR whole body vibration) AND (power OR muscle
power). Adicionalmente, os seguintes limites foram utilizados para a consulta:
acima de 60 anos, humans, english, spanish e portuguese, clinical trial and
randomized controlled clinical trial. O período de busca dos estudos ocorreu
entre 8 de dezembro e 20 de dezembro de 2012.
Dois pesquisadores fizeram a busca de forma independente e cega e
posteriormente estes resultados foram confrontados e diante de alguma
discordância um terceiro avaliador foi convocado objetivando um consenso. Os
critérios de inclusão utilizados para a seleção dos estudos foram: tipo de
estudo (ensaio clínico controlado e ensaio clínico controlado e randomizado),
artigos disponíveis na íntegra em espanhol, inglês, e português, indivíduos com
idade acima de 60 anos e de ambos os sexos e estudos investigando o efeito da
intervenção com VCT sobre a força e a potência muscular. Os estudos contendo a
comparação dos efeitos da VCT com outros modelos de intervenção também foram
incluídos. Foram excluídos os estudos conduzidos em idosos com qualquer
diagnóstico de enfermidades neuromusculares e disfunções osteomioarticulares,
estudos com proposta de investigar o efeito agudo da VCT, assim como, textos
oriundos de artigos de revisão, teses/dissertações, resumos e de congressos.
Seguindo os critérios de elegibilidade, inicialmente foram analisados os
títulos e os resumos dos artigos, e aqueles apontados como relevantes foram
adquiridos em versão completa para a elaboração de uma análise mais criteriosa.
Diante da impossibilidade de obtenção do estudo na íntegra, ainda foi feita uma
tentativa de contato com os autores para a sua obtenção, assim como para a
possível identificação de estudos adicionais. Referências bibliográficas dos
estudos originais recuperados, assim como de revisões da literatura, também
foram consultadas objetivando adicionar estudos para a presente revisão.
A análise dos artigos foi conduzida a partir de um roteiro estruturado que
considerava os seguintes componentes: característica da amostra, desenho
experimental, característica do treinamento vibratório, instrumentos de medida
de força e potência muscular e desfechos encontrados. A análise dos dados foi
realizada a partir de uma revisão crítica de conteúdo.
A análise da qualidade metodológica dos estudos foi realizada com base na
escala PEDro. O instrumento consiste em uma escala com 11 critérios
contemplando a análise de validade interna e informações estatísticas para que
os resultados dos estudos possam ser interpretados. A pontuação varia de zero a
dez, sendo que o critério 1 (validade externa) não é utilizado para calcular a
pontuação. Em virtude das características dos ensaios clínicos desta revisão
sistemática, ressalta-se a dificuldade de se alcançar certas condições como
"cegamento" dos terapeutas ou sujeitos em estudos de intervenção.
Optou-se por consultar e manter o escore estabelecido dos estudos selecionados
que estavam indexados na base de dados PEDro e que por sua vez já apresentavam
a avaliação metodológica. Os escores iguais ou superiores a 5 foram
considerados de moderada a alta qualidade (Moseley, Herbert, Sherrington &
Maherz 2002). Para os estudos que não estivessem disponíveis na base de dados
PEDro foi realizada uma análise de forma independente por dois investigadores.
Em seguida, as diferenças entre os avaliadores foram discutidas e corrigidas.
RESULTADOS
Dos 91 artigos recuperados, 75 foram excluídos, pois 30 não atenderam aos
critérios de inclusão estabelecidos e 45 também foram desconsiderados por serem
referências redundantes. Desta forma, foram selecionados 16 estudos para a
apreciação crítica quanto aos efeitos do treino de VCT sobre a força e potência
muscular de idosos (Figura_1).
Diante da apreciação dos estudos que investigaram o efeito da VCT sobre a força
muscular e compararam com a presença de um grupo controle (ausência de
intervenção), foram identificados doze estudos (75%), sendo que 83.3% destes
encontraram que o estímulo vibratório foi superior à condição controle (Tabela
1). Já Vershueren et al. (2011) ao compararem um grupo de VCT associado à
suplementação de vitamina D vs. a condição controle (apenas suplementação de
vitamina D) observaram que ambas as condições promoveram melhora na força
muscular dinâmica dos extensores do joelho (6.4 a 7.9%) após seis meses de
intervenção, não indicando efeitos adicionais a partir do estímulo vibratório.
De forma similar, Da Silva et al. (2009) não verificaram a presença de efeitos
a partir de 13 semanas no grupo de VCT, assim como na condição controle.
Dos 16 artigos elegíveis para compor a presente revisão sistemática, 7 estudos
(44%) compararam a vibração do corpo todo com outra modalidade de exercício
físico e os seus respetivos efeitos sobre a força muscular (Tabela_1). Desses
estudos, 3 utilizaram os exercícios resistidos (42.8%), 3 estudos incluíram
exercícios de multimodalidades (42.8%) e apenas um propôs a comparação com
exercícios aeróbios (14.4%) (Tabela_1). Os três estudos que comparam o treino
de VCT com as rotinas de exercícios de multimodalidades verificaram que ambas
as intervenções promoveram uma melhoria da força muscular isométrica (9.4 a
16.2%) dos extensores do joelho em programas variando de 12 a 18 meses de
intervenção, não existindo diferenças entre as abordagens de intervenção. De
forma similar, Roelands et al. (2004) e Vershueren et al. (2004) também não
observaram diferença nos ganhos de força muscular isométrica e dinâmica dos
extensores do joelho, após 24 semanas, entre o grupo de VCT (15 a 16.5%) quando
comparado com o exercício resistido (13.9 a 18.4%). Diferentemente, Bemben,
Palmer, Bemben e Knehans (2010) verificaram que, após 8 meses, o treino de VCT
foi superior na otimização da força muscular dos abdutores (60%) e adutores
(40%) do quadril quando comparada com a condição de treino de força.
Entretanto, não houve nenhuma diferença entre os grupos referente à força
muscular dos extensores e flexores do quadril. O único estudo que propôs um
protocolo de exercícios aeróbios versus o treino de VCT não identificou nenhuma
modificação na força muscular após 8 meses de intervenção.
Considerando os efeitos sobre a potência muscular, foi identificada a presença
de sete estudos, sendo que nenhum efeito foi reportado entre os quatro (57.1%)
que compararam o treino de VCT com um grupo controle (Tabela_2). Três estudos
(42.9%) compararam as rotinas de VCT com outras modalidades de intervenção,
entretanto, apenas Raimundo, Gusi e Tomas-Carus (2009) observaram que o grupo
submetido ao treino vibratório obteve um aumento significativo de 7% na
potência muscular, medida pelo salto, quando comparado com o grupo que praticou
exercícios aeróbios.
A análise do conteúdo dos estudos selecionados revelou heterogeneidade dos
protocolos de intervenção de VCT que identificaram o aumento da força e da
potência muscular em idosos. Os efeitos sobre o aumento nas variáveis estudadas
foram obtidos em ensaios clínicos envolvendo um período variando de 8 semanas
(Rees, Murphy, & Watsford, 2008) a 18 meses (Von Stengel et al., 2012) de
intervenção, com uma frequência entre duas (Da Silva et al., 2009; Verschueren
et al., 2004; Von Stengel et al., 2012) a cinco sessões (Machado et al., 2010)
semanais. A maioria dos artigos (12 estudos) propôs um programa com uma
frequência de três sessões semanais (Bautmans, Van Hees, Lemper, & Mets,
2005; Bogaerts et al., 2007, 2009; Mikhael, Orr, Amsen, Greene, & Singh,
2010; Raimundo et al., 2009; Rees et al., 2007, 2008; Roelants et al., 2004;
Von Stengel, Kemmler, Bebeneck, Engelke, & Kalender, 2011), intercaladas
por um dia. As intensidades do treino utilizadas variaram de 1 (Mikhael et al.,
2010) a 12 mm (Von Stengel et al., 2011) de amplitude de deslocamento e uma
frequência de 12 (Mikhael et al., 2010; Von Stengel et al., 2011) a 40 Hz
(Bautmans et al., 2005; Bogaerts et al., 2007, 2009; Da Silva et al., 2009;
Machado et al., 2010; Roelants et al., 2004; Verschueren et al., 2004). Grande
parte dos estudos (43.7%) adotou como procedimento a realização de 30 a 40 Hz
de frequência. O volume típico encontrado, considerando a duração do estímulo
de VCT, incluiu protocolos de 30 (Bautmans et al., 2005; Bogaerts et al., 2007,
2009; Da Silva et al., 2009; Machado et al., 2010) a 90 segundos (Von Stengel
et al., 2011).
O tamanho da amostra e a idade média dos participantes variaram de 19 (Mikhael
et al., 2010) a 214 idosos (Bogaerts et al., 2009) e de 62.3 (Mikhael et al.,
2010) a 79.3 anos (Machado et al., 2010), respetivamente.
Dentre as formas de medida de força muscular estão: o teste de uma repetição
máxima (1RM) (Bemben et al., 2010; Mikhael et al., 2010), dinamómetro
isocinético (Bautmans et al., 2005; Bogaerts et al., 2007, 2009; Da Silva et
al., 2009; Raimundo et al., 2009; Rees et al., 2007, 2008; Roelants et al.,
2004; Verschueren et al., 2004) e plataforma de força (Machado et al., 2010;
Von Stengel et al., 2011, 2012). A força muscular dinâmica foi avaliada em 10
estudos (Bautmans et al., 2005; Bemben et al., 2010; Da Silva et al., 2009;
Mikhael et al., 2010; Raimundo et al., 2009; Rees et al., 2007, 2008; Roelants
et al., 2004; Verschueren et al., 2004, 2011) e a isométrica em 9 estudos
(Bogaerts et al., 2007, 2009, 2011; Machado et al., 2010; Roelants et al.,
2004; Verschueren et al., 2004, 2011; Von Stengel et al., 2011, 2012). As
medidas de potência muscular foram realizadas a partir dos testes de salto
(Raimundo et al., 2009; Von Stengel et al., 2011, 2012) e diante do dinamómetro
isocinético (Da Silva et al., 2009; Machado et al., 2010; Rees et al., 2008).
Um resumo de todos os estudos e seus desfechos está disponível nas tabelas_1 e
2.
Dentre os 16 estudos encontrados, 81.3% apresentavam os resultados da análise
metodológica disponíveis para consulta na base Pedro. Dos estudos que não
apresentavam a análise da qualidade metodológica, dois foram identificados com
baixa qualidade. Dos artigos que compõem a presente revisão, 68.8% apresentaram
escores ≥ 5 na escala de avaliação, considerados assim, de moderada a alta
qualidade.
DISCUSSÃO
Efeitos da VCT sobre a força muscular
De modo geral, os estudos evidenciam o aumento da força muscular isométrica e
dinâmica diante da intervenção com VCT, incluindo programas, variando entre 2 e
18 meses. Apenas três estudos não identificaram efeito induzido pela VCT sobre
a força muscular (Bautmans et al., 2005; Da Silva et al., 2009; Raimundo et
al., 2009).
Bautmans et al. (2005) não observaram modificações na força muscular dos
extensores do joelho de mulheres idosas institucionalizadas, após 6 semanas de
intervenção com VCT (35-40Hz; 2-5mm). No entanto, mesmo sem efeitos sobre a
variável de desempenho muscular, observou-se uma melhoria significativa nas
tarefas funcionais no grupo de vibração, quando comparadas à condição controle.
A falta de descrição do ângulo de flexão durante a isometria e o facto de os
autores avaliarem a força de forma dinâmica, apesar dos sujeitos terem sofrido
a intervenção com exercícios estáticos, limitam a interpretação destes achados.
Além disto, ressalta-se a curta duração do estudo (6 semanas), e o baixo tempo
total do estímulo vibratório (3 a 6 minutos), quando comparado a outros estudos
(Tabela_1). De forma similar, Raimundo et al. (2009) também não observaram
efeitos dos exercícios isométricos concomitantes a VCT (12.6Hz; 3-6mm) sobre a
força muscular dinâmica de mulheres, após 8 meses de intervenção. Entretanto, a
amostra reduzida, a utilização de uma baixa frequência de VCT (12.6Hz), assim
como a falta de informações sobre a aderência ao programa, representam
importantes ameaças à validade interna deste experimento.
Da Silva et al. (2009) também não identificaram a presença de efeitos nas
variáveis de força e potência muscular, após 13 semanas de exercícios
isométricos com VCT (30-40Hz; 2.0-6.0mm) em idosos ativos. No entanto, a
presença de limitações metodológicas restringe a interpretação destes
resultados, como a ausência de randomização, falta de uma condição controle
para as posturas utilizadas durante a VCT, ausência de critérios de
elegibilidade para as amostras, variação entre os géneros e a carência dos
dados de aderência ao programa.
Além das limitações metodológicas apresentadas, é possível identificar na
Tabela_1, que os estudos que não apontaram efeito da intervenção com VCT sobre
a força muscular contemplam a realização exclusiva de exercícios isométricos e
em contrapartida, a mensuração da variável resposta envolve medidas de produção
de força dinâmica (Bautmans et al., 2005; Da Silva et al., 2009; Raimundo et
al., 2009). Tais condições podem justificar os resultados encontrados.
Embora a maior parte da literatura revisada assinale uma melhora significativa
da força muscular a partir da VCT (Tabela_1), e também apresente indicativos de
alta a moderada qualidade metodológica, a presença de algumas variáveis
intervenientes merecem ser consideradas para um melhor esclarecimento dos
resultados encontrados.
Bogaerts et al. (2011) e Machado et al. (2010) identificaram um aumento
significativo da força dos extensores de joelho de idosos, após 6 meses (força
isométrica − 14.9%) e 10 semanas (força isométrica − 38%), respetivamente, de
exercícios estáticos e dinâmicos associados a VCT, 1.6-2.2g/30-40 Hz (Bogaerts
et al., 2011) e 2.0-4.0mm/20-40Hz (Machado et al., 2010), quando comparados com
o grupo controle. Após 6 meses de intervenção com VCT foi identificada uma
menor adaptação muscular quando comparado com a rotina de apenas 10 semanas de
intervenção com vibração. Tais resultados podem ser explicados pelo facto da
amostra ser composta por idosos institucionalizados.
Após 12 meses de um programa de exercícios dinâmicos associados à VCT do tipo
vertical (35Hz; 1.7mm) mulheres pós-menopausa apresentaram aumento de 24.4% na
força dos extensores de joelho e na densidade mineral óssea da lombar. Os
mesmos efeitos foram observados no grupo de idosas que foram submetidas à
vibração através de uma plataforma do tipo rotatória (12.5Hz; 12mm) quando
comparado com o grupo controle (Von Stengel et al., 2011).
Analisando os estudos que utilizaram um desenho experimental com situação
controle do estímulo vibratório (Bautmans et al., 2005; Mikhael et al., 2010;
Rees et al., 2007, 2008; Von Stengel et al., 2012), observa-se que a maior
parte dos estudos não demonstrou efeitos adicionais diante da VCT. Portanto,
pode-se atribuir que as modificações parecem resultar das adaptações musculares
provocadas pelos exercícios e não pelo estímulo vibratório.
Em contrapartida, efeitos adicionais foram encontrados em dois estudos
conduzidos pelo mesmo grupo de pesquisadores (Rees et al., 2007, 2008), com
desenhos experimentais, número e característica dos participantes muito
semelhantes, incluindo grupos independentes, onde um foi submetido a oito
semanas com uma frequência de três sessões semanais de VCT (26Hz; 5-8mm)
associados a exercícios estáticos e dinâmicos (EX+VCT), enquanto um outro grupo
foi conduzido a uma condição controle (EX), incluindo exatamente os mesmos
procedimentos, exceto o estímulo de vibração. No primeiro, Rees et al. (2007)
não identificaram efeitos sobre a força muscular do quadril nos grupos
investigados, no entanto, o grupo de EX+VIB (8.1%) e o EX (7.2%) apresentaram
valores similares para o aumento da força dinâmica dos extensores do joelho
quando comparados com os valores pré-intervenção. Apenas os resultados para o
desempenho muscular dos flexores plantares apresentaram um aumento
significativo (18.5%) no grupo EX+VCT. No estudo subsequente os autores (Rees
et al., 2008) observaram resultados similares, onde os valores de força
muscular dinâmica dos flexores plantares só apresentaram diferença
significativa no grupo de vibração (18.2%), enquanto nenhuma mudança foi
identificada no grupo EX. Diante da condição controle apresentada nos dois
ensaios experimentais (Rees et al., 2007, 2008), parece que a VCT foi capaz de
induzir maiores adaptações na resposta muscular do tríceps sural do que apenas
a partir dos exercícios dinâmicos e estáticos. Entretanto, os mesmos efeitos
não foram observados no desempenho muscular dos flexores e extensores do
quadril e do joelho.
A divergência na caracterização da amostra, as diferentes formas de mensuração
da variável resposta, a grande heterogeneidade dos protocolos de vibração,
contendo as variáveis de volume e intensidade, e a ampla variação nos desenhos
experimentais (Tabela_1), prejudicam a comparação e inferência de tais
resultados. Nos estudos revisados é evidente a constante falta de controle dos
procedimentos realizados associados ao estímulo vibratório, sendo que a
principal limitação consiste na ausência de um grupo controle incluindo os
mesmos exercícios realizados no grupo de VCT (Bemben et al., 2010; Bogaerts et
al., 2007, 2009, 2011; Da Silva et al., 2009; Machado et al., 2010; Roelants et
al., 2004; Verschueren et al., 2011; Von Stengel et al., 2011). Tal limitação
torna os achados questionáveis, já que não é possível identificar se os
resultados são realmente induzidos pela vibração.
Efeitos dos exercícios concomitantes à VCT versus outras modalidades de
intervenção
Bogaerts et al. (2007, 2009) identificaram em dois estudos com o mesmo
procedimento experimental, que os modelos de intervenção incluindo a VCT
concomitantes a exercícios estáticos e dinâmicos versus os exercícios incluindo
multimodalidades ' alongamento, aeróbio, coordenação, força e equilíbrio '
apresentaram efeitos similares no desempenho muscular isométrico dos extensores
do joelho, variando de 9.4 a 9.8% no grupo de VCT e de 9.8 a 13.1% no grupo de
multimodalidades.
Os estudos que compararam as condições experimentais de VCT versus o ER
apresentaram achados contraditórios (Bemben et al., 2010; Roelants et al.,
2004). Roelants et al. (2004) verificaram um aumento significativo na força
muscular isométrica (15.0%) e dinâmica (16.1%) induzido a partir de 24 semanas
de intervenção incluindo exercícios estáticos e dinâmicos associados à VCT (35-
40Hz; 2.5-5.5mm). No entanto, efeitos similares (18.4% na força isométrica e
13.9% na força dinâmica) foram encontrados no grupo submetido ao ER (cadeira
extensora e Leg-Press ' 2x, 12 a 15 RM). Em um ensaio clínico controlado e
randomizado, com duração de 24 semanas, Verschueren et al. (2004) encontraram
achados similares: um aumento significativo de 15% e de 16.5% foi apresentado
no grupo de VCT para as variáveis de força muscular isométrica e dinâmica dos
extensores do joelho, respectivamente. Os resultados para o desempenho muscular
dos extensores do joelho, no grupo de idosos submetidos a ER, também
demonstraram aumento significativo (variando de 10.6 a 16%), sem no entanto,
diferença significativa entre os grupos experimentais.
Contrariando estes achados, Bemben et al. (2010) evidenciaram um aumento
significativo de 60% na força muscular dos abdutores, assim como de 68% na
adução do quadril, após 8 meses de intervenção de VCT (2-4 mm; 30-40Hz),
associada ao ER (3x 10 rep; 80% 1RM), quando comparado aos efeitos do ER
isolado. Entretanto, nos dois grupos foram encontrados efeitos similares para
força muscular dos extensores/flexores do quadril e extensores do joelho. Uma
possível justificativa, para tais resultados, pode ser o padrão em cadeia
cinética fechada realizada a partir da intervenção com VCT. Tais efeitos podem
ser atribuídos à especificidade da posição em agachamento, onde há uma demanda
constante de ativação dos músculos adutores e abdutores que atuam como
importantes estabilizadores pélvicos. Desta maneira, considerando a
especificidade e a falta de um grupo controle incluindo apenas a posição em
cadeia cinética fechada sem o estímulo vibratório, questiona-se o maior
desempenho muscular dos abdutores e adutores do quadril a partir do estímulo
mecânico de vibração.
Resumindo, a ausência de uma condição controle, com os mesmos exercícios usados
e posturas semelhantes às da VCT, sugerem um fator de confundimento na
interpretação dos resultados.
Efeitos da VCT sobre a potência muscular
A manifestação rápida da força de membros inferiores tem sido sugerida como um
melhor preditor de quedas e de desempenho funcional de idosos (Izquierdo,
Aguado, Gonzalez, Lopez, & Hakkinen, 1999). Estudos têm verificado que
idosos com histórico de quedas demonstram menor potência nos músculos da perna
do que idosos não caidores (Perry, Carville, Smith, Rutherford, & Newham,
2007; Skelton, Kennedy, & Rutherford, 2002). Dentro deste contexto, torna-
se relevante verificar se os efeitos da VCT estão associados ao aumento da
potência muscular.
Machado et al. (2010) não identificaram efeito sobre a potência muscular dos
extensores do joelho, após 10 semanas de intervenção de exercícios dinâmicos e
estáticos associados à VCT (2.0-4.0mm; 20-40Hz). Da mesma forma, outros autores
(Bautmans et al., 2005; Da Silva et al., 2009; Mikhael et al., 2010; Von
Stengel et al., 2011) também não observaram efeitos induzidos da VCT sobre a
potência muscular, após programas de 6 semanas a 12 meses de intervenção.
Em contrapartida, Rees et al. (2008) observaram um aumento de 12.3% na potência
muscular dos flexores e de 10.6% dos extensores do joelho, a partir de 8
semanas de exercícios estáticos e dinâmicos associados à VCT. O grupo controle,
que foi submetido às mesmas intervenções da condição experimental, exceto pela
adição do estímulo vibratório, apresentou aumentos similares da potência
muscular dos flexores e extensores do joelho, variando de 6.3% a 7.9%. Os
benefícios superiores da VCT, quando comparados com a condição controle, só
foram evidenciados para a potência muscular dos flexores plantares, que
apresentaram ganhos de 20.4% após a intervenção. Nenhum efeito adicional foi
encontrado para a potência muscular dos flexores e extensores do quadril e para
os músculos dorsiflexores do tornozelo. Considerando que o controle do
equilíbrio corporal também é promovido a partir das estratégias motoras do
tornozelo, do quadril e do passo, os ganhos evidenciados na potência dos
flexores plantares após o estímulo vibratório podem contribuir de alguma forma
para a melhora na manutenção da estabilidade corporal e dos ajustes
antecipatórios, entretanto, como isso não foi investigado no estudo citado a
possível inferência desses achados é apenas uma especulação. Raimundo et al.
(2009) também encontraram um aumento de 7% na potência muscular, a partir do
salto vertical, após 8 meses de intervenção, mesmo diante de uma baixa
frequência de VCT (12.6 Hz), quando comparado com o grupo que realizou apenas
exercícios aeróbios.
A quantidade limitada de estudos e os achados divergentes na literatura
considerando a influência da VCT sobre a potência muscular de idosos restringe
fortemente a interpretação destes achados.
Prescrição da VCT na intervenção terapêutica de idosos
Doze estudos (75% dos trabalhos) propõem um programa com uma frequência de três
sessões semanais, intercaladas por um dia, sendo utilizado em 43.7% dos estudos
a realização de um programa com uma frequência de 30 a 40 Hz. O volume típico
encontrado, considerando a duração do estímulo de VCT, incluiu protocolos de 30
a 60 s aplicados concomitantes aos exercícios estáticos e dinâmicos e a
realização de 1 a 3 séries com 60 s de repouso.
Contrariando a maior parte dos desenhos experimentais conduzidos, Mikhael et
al. (2010) utilizaram um estímulo intermitente de 20 minutos de vibração (1
minuto de estímulo por 1 minuto de repouso) e observaram, após 13 semanas (12
Hz; 1mm), aumento significativo da força muscular, mensurado a partir do
agachamento (1RM ' 10.7 a 14.4%).
Na prática clínica é comum a utilização da VCT, incluindo protocolos de
agachamento associando as atividades isométricas, concêntricas e excêntricas.
As evidências disponíveis apontam para a manutenção destas rotinas, uma vez que
os estudos que conduziram o programa de intervenção apenas com exercícios
estáticos não obtiveram efeitos sobre a força muscular de idosos (Bautmans et
al., 2005; Da Silva et al., 2009; Raimundo et al., 2009). No entanto, poucos
estudos contemplam a informação da amplitude de movimento do joelho durante o
estímulo com VCT (Mikhael et al., 2010). Desta forma, torna-se necessário o
desenvolvimento de novos ensaios clínicos objetivando verificar os efeitos de
diferentes amplitudes de movimento do joelho e suas implicações sobre o
desempenho muscular em indivíduos idosos.
Mecanismos associados ao efeito do estímulo de vibração sobre a força muscular
A hipótese defendida na literatura da especialidade é que diante da ação
mecânica da vibração alterações no comprimento da unidade músculo-tendão são
produzidas e este estímulo é detetado pelos recetores sensoriais desencadeando
uma resposta do sistema neuromuscular de contração muscular reflexa (Cardinale
& Bosco, 2003), conhecida como reflexo vibratório tónico (RVT) (Abercromby
et al., 2007; Hazell, Jakobi, & Kenno, 2007; Roelants, Verschueren,
Delecluse, Levin, & Stijnen, 2006). A onda vibratória é considerada um
poderoso estímulo dos aferentes Ia do fuso muscular (Roll & Vedel, 1982;
Roll, Vedel, & Ribot, 1989).
A melhora na coordenação intra e intermuscular induzida pelo aumento temporário
do drive neural para os músculos com um maior recrutamento e sincronização das
unidades motoras provocadas durante a aplicação do estímulo vibratório são
defendidos como possíveis mecanismos que colaboram para o aumento do controle
neuromuscular (Abercromby et al., 2007; Hazell et al., 2007; Roelants et al.,
2006). Entretanto, tais mecanismos carecem de evidência experimental.
As modificações no trofismo muscular são apresentadas como os mecanismos
estruturais envolvidos na otimização da força muscular, a partir da VCT.
Machado et al. (2010) identificaram um aumento variando de 8.7 a 15.5% na área
de secção transversa, medida a partir de tomografia computadorizada, para o
bíceps femoral e o vasto medial após 10 semanas de intervenção de exercícios
estáticos e dinâmicos associados à VCT (20-40Hz; 2-4mm). De forma similar,
Bogaerts et al. (2007) relataram um aumento significativo de 3.4% no volume de
massa muscular (cm3) da perna − análise através da tomografia computadorizada −
após 12 meses de intervenção com VCT (30-40Hz; 2.5-5.0mm).
No entanto, Mikhael et al. (2010) e Verschueren et al. (2011) não identificaram
a presença de tais modificações após a VCT, incluindo um programa de
intervenção de 13 semanas e 6 meses, respetivamente. No estudo conduzido por
Mikhael et al. (2010) cabe ressaltar que a VCT de baixa frequência (12Hz), o
ângulo de 20º de flexão do joelho e a característica estática do exercício,
podem ter contribuído para a ausência de efeitos após a intervenção. Outra
limitação consiste na reduzida amostra de investigação.
CONCLUSÕES
Os resultados encontrados, limitados pelos procedimentos experimentais
utilizados, sugerem que a VCT concomitante aos exercícios isométricos e
dinâmicos promovem aumento da força muscular de idosos. No entanto, nos
experimentos com a presença da condição controle dos exercícios utilizados
durante o estímulo vibratório, observa-se que a maior parte dos estudos não
demonstra efeitos adicionais decorrentes da VCT. Estes achados sugerem que as
adaptações musculares possivelmente podem ter sido provocadas pelos exercícios
e não necessariamente pelo estímulo vibratório empregado, pelo menos nas
frequências de vibração utilizadas (12 a 40 Hz).
Diante da quantidade limitada (31.2%) de estudos que se preocuparam em incluir
um grupo controle constituído dos mesmos exercícios realizados no grupo de
vibração, assim como diante da grande diversidade dos protocolos empregados nas
rotinas de vibração, ainda não é possível determinar se o estímulo vibratório,
por si só, é capaz de promover efeitos sobre a força muscular de idosos. A
partir dos experimentos realizados, não foi identificada uma relação de dose-
resposta do estímulo vibratório, variável fundamental na tentativa de nortear a
prática clínica na população alvo. A quantidade limitada de estudos e os
achados divergentes na literatura destacam a necessidade de cautela na
inferência dos dados sobre o efeito da VCT sobre a potência muscular.
Além disso, poucos estudos (43.7%) comparam a VCT com outros métodos de
intervenção para a população idosa, e mesmo considerando as limitações dos
diferentes métodos adotados (exercício resistido, aeróbios e de
multimodalidades), os resultados, até ao momento, não indicaram efeitos
adicionais a partir do estímulo vibratório quando comparados com outras
intervenções.
Desta forma, torna-se relevante o desenvolvimento de novos ensaios clínicos
controlados e randomizados na tentativa de identificar a influência de
diferentes magnitudes de estímulos vibratórios (diferentes frequências e
durações de estímulo vibratórios, empregados com diferentes intervalos ente
estímulo e recuperação e diferentes volumes de treino) e o consequente efeito
induzido no desempenho muscular. A comparação dos diferentes métodos de treino
com a vibração também necessita de ser melhor estudada.