Validação e desenvolvimento de um sistema de observação da comunicação cinésica
do instrutor de fitness
INTRODUÇÃO
A comunicação não-verbal, enquanto todos os aspetos da comunicação que vão
para além das palavras ditas ou escritas (Knapp & Hall, 2010, p. 32),
assume uma grande relevância no âmbito do processo comunicativo, já que os
indivíduos tendem a julgar a qualidade da comunicação essencialmente através
dos sinais não-verbais (Mehrabian, 1981).
Esta importância tem sido corroborada nalguns estudos realizados recentemente
no âmbito da comunicação cinésica (i.e. movimentos corporais), no que diz
respeito à utilização de gestos com e sem intenção comunicativa (Castañer,
Camerino, Anguera, & Jonsson, 2010, 2011; Castañer, Franco, Rodrigues,
& Miguel, 2012). Entenda-se gestos como os movimentos realizados
essencialmente com os braços e mãos, conforme operacionalizado em diferentes
estudos (Cartmill, Goldin-Meadow, & Beilock, 2012).
A comunicação cinésica assume uma importância acrescida no contexto das aulas
de grupo de fitness já que os instrutores estão grande parte do tempo em
comunicação (Franco, Rodrigues, & Balcells, 2008) em condições onde a
comunicação verbal está limitada pela utilização de música com volume elevado a
acompanhar a realização dos exercícios (Mirbod et al., 1994). Nestas condições,
as principais instruções são muitas vezes substituídas ou ilustradas através de
um código gestual universal e/ou previamente estabelecido, permitindo assim uma
maior rapidez e clareza na comunicação. Esta componente cinésica ocorre, por
exemplo, quando um instrutor informa os praticantes sobre a necessidade de
realizarem um pivot apontando o dedo indicador para cima e girando,
ilustrando dessa forma o movimento a realizar. Este gesto sugere um determinado
pensamento que muitas vezes não é possível ser expresso por palavras, tendo
dessa forma um impacto nas aprendizagens (Goldin-Meadow, 2004).
Considerando que o perfil de intervenção de um instrutor de fitness se pode
analisar em função dos comportamentos observados, a existência de um
instrumento de observação que possa ser aplicado para a análise da comunicação
cinésica dos instrutores de fitness poderá permitir esta avaliação com recurso
à metodologia observacional, a qual, como referem Camerino, Castañer e Anguera
(2012), combina a abordagem qualitativa e quantitativa do comportamento. No
contexto desportivo, a metodologia observacional corresponde a um conjunto de
procedimentos científicos que se encontram estruturados e que permitem o
registo formal e análise de comportamentos e ações motoras em contexto natural,
sendo muitas vezes a melhor estratégia, senão mesmo a única possível (Anguera,
2009). A importância da metodologia observacional no contexto do desporto é
enorme, imprimindo objetividade, precisão e rigor metodológico, sendo que a sua
aplicação neste contexto é ainda marginal, existindo por isso uma grande margem
para o desenvolvimento de investigações futuras (Leitão & Campaniço, 2009).
No que diz respeito ao contexto do fitness, por exemplo, os sistemas de
observação desenvolvidos até ao momento centram-se essencialmente na
quantificação das funções mais gerais de ensino de conteúdos, de que são
exemplo os estudos que caraterizaram o comportamento do instrutor de fitness
(Franco et al., 2008) e que analisam os seus feedbacks (Simões, Franco, &
Rodrigues, 2009).
Tendo em conta esta realidade, este estudo objetivou o desenvolvimento e
validação de um sistema de observação para a análise da comunicação cinésica
dos instrutores de atividades de grupo de fitness (SOCIN-Fitness) e a
realização de uma aplicação piloto deste sistema por forma a dar suporte à sua
validade.
MÉTODO
Nesta seção serão consideradas, separadamente, as opções metodológicas
associados ao desenvolvimento do sistema de observação SOCIN-Fitness e ao
estudo piloto.
Participantes
No processo de desenvolvimento e validação do sistema de observação, para além
do observador-investigador, participaram dois observadores no teste da
fiabilidade inter-observadores, ambos com mais de 10 anos de experiência de
lecionação de atividades de grupo de fitness, ligados à formação superior de
instrutores e com investigações desenvolvidas no âmbito da observação do
comportamento na área do fitness, tendo-se codificado três aulas de fitness. A
validade facial foi realizada por dois painéis de especialistas independentes,
um primeiro composto por três docentes do ensino superior com o doutoramento
realizado na área da observação e um segundo constituído por três especialistas
em atividades de grupo de fitness, com mais de 10 anos de experiência e ligados
à formação superior de instrutores.
Participaram no estudo piloto doze instrutores de fitness, ou seja três
instrutores por cada uma das atividades de Step, Localizada, Indoor Cycling e
Hidroginástica. A seleção destas quatro atividades teve a ver com a sua
natureza distinta, já que se pretendia validar o SOCIN-Fitness para o contexto
das atividades de grupo. As aulas de Step analisadas caraterizaram-se por terem
uma natureza mais coreografada, ao passo que as restantes três atividades tinha
uma natureza mais atlética, as quais por sua vez se diferenciavam pelo recurso
à utilização de halteres e outros materiais de resistência, como o caso da
atividade de Localizada, da bicicleta estacionária na atividade de Indoor
Cycling, ou de serem realizadas em meio aquático como a atividade de
Hidroginástica, onde também são utilizados materiais de flutuação e de aumento
da resistência na água (Francis & Seibert, 2000).
Com o objetivo de controlar algumas variáveis exteriores à investigação e que
poderiam influenciar os resultados, foram definidos os seguintes critérios de
seleção dos instrutores: i) serem do género feminino, já que o género dos
sujeitos poderia influenciar a comunicação cinésica dos instrutores (Kennedy
& Camden, 1983); ii) serem licenciados em desporto na área da Condição
Física, uma vez que alguns estudos apontam para o facto de a formação inicial
poder influenciar a atuação profissional dos treinadores/professores (Malek,
Nalbone, Berger, & Coburn, 2002); iii) terem pelo menos cinco anos de
experiência como instrutor de fitness, na lecionação da respetiva atividade, de
forma a uniformizar a experiência dos instrutores considerando a taxonomia
definida por Berliner (1994). Os instrutores tinham idades compreendidas entre
os 24 e os 48 anos (M= 31.50, DP= 6.14), uma experiência profissional como
instrutor de fitness de 6 a 26 anos (M= 9.83, DP= 5.52) e uma experiência na
lecionação da atividade de 5 a 17 anos (M= 8.25, DP= 3.75).
As 12 aulas de atividades de grupo observadas foram todas constituídas por
aquecimento, parte fundamental e retorno à calma, tendo uma duração média de 47
minutos (DP= 45 seg.). No toral foram registados 2904 comportamentos cinésicos,
referentes a gestos com intenção comunicativa (n= 2744, 94.5%) e gestos sem
intenção comunicativa (n= 160, 5.5%).
Procedimentos
Processo de desenvolvimento e validação do SOCIN-Fitness
Para o desenvolvimento e validação do SOCIN-Fitness partiu-se do Sistema de
Observação da Comunicação Cinésica (SOCIN), desenvolvido para o contexto do
ensino da educação física (Castañer et al., 2010, 2011) composto por 4
dimensões e 16 categorias. Neste processo, recorreu-se à metodologia de Brewer
e Jones (2002) composta por cinco fases. Inicialmente, após o treino inicial do
observador de acordo com a metodologia proposta por Mars (1989), foram testadas
as fiabilidades inter-observadores (dois observadores efetuaram a visualização
de um vídeo separadamente) e intra-observador (o observador-investigador
visionou o mesmo vídeo em duas ocasiões com intervalo de uma semana), para
assegurar o conhecimento na íntegra do sistema de observação da comunicação
cinésica (SOCIN) original (fase 1). Seguidamente, o sistema original SOCIN foi
aplicado a diferentes atividades de grupo de fitness, com o objetivo de
aperfeiçoar o sistema de observação para o contexto das aulas de grupo de
fitness (fase 2). Após a produção de uma versão do SOCIN-Fitness, foi realizada
a validação facial da versão do sistema de observação SOCIN-Fitness por
especialistas (fase 3). Posteriormente foi testada a fiabilidade inter-
observadores relativamente ao novo sistema de observação para garantir a sua
objetividade. Para tal, dois observadores treinados de acordo com a metodologia
de Mars (1989), efetuaram a visualização de um vídeo separadamente, de forma a
não existir acesso aos registos de ambos (fase 4). Por fim, foi testada a
fiabilidade intra-observador para verificar a estabilidade temporal do novo
sistema de observação, através da técnica de teste-reteste. Assim sendo, o
observador-investigador visionou o mesmo vídeo em duas ocasiões distintas,
distando as observações uma semana (7 dias), como proposto por Mars (1989)
(fase 5).
Estudo piloto
A recolha dos dados foi efetuada mediante um pedido prévio de autorização ao
responsável do ginásio, bem como aos instrutores e praticantes envolvidos.
Todos os procedimentos adotados foram aprovados pelo comité de ética e conselho
técnico-científico da instituição envolvida com o parecer n.º 12/2012,
cumprindo todas as recomendações éticas definidas por Harriss e Atkinson (2009,
2011), garantindo a proteção dos participantes. As gravações dos vídeos (i.e.
imagem e som) foram realizadas com recurso a uma câmara digital, sendo o seu
conteúdo posteriormente transferido para o disco rígido de um computador. Para
o visionamento e registo das ocorrências foi utilizado o programa informático
LINCE (Gabín, Camerino, Castañer, & Anguera, 2012). Para a análise da
comunicação cinésica dos instrutores foi utilizado o novo Sistema de Observação
da Comunicação Cinésica do Instrutor de Fitness (SOCIN-Fitness), tendo-se
efetuado o registo do comportamento, sempre que o instrutor se dirigiu ao(s)
praticante(s) com o intuito de comunicar de forma não-verbal, através da
realização de gestos com e sem intenção comunicativa. Os dados foram em seguida
transportados para o programa informático SPSS ' Statistical Package for Social
Sciences, versão 20, para a realização dos cálculos estatísticos efetuados.
Análise Estatística
Para testar as fiabilidades inter-obser-vadores e intra-observador foi
calculado o índice de concordância Kappa de Cohen (Cohen, 1960) para cada
categoria de análise em ambos os testes.
No estudo piloto, foram calculadas as medidas de tendência central (i.e.,
média) e medidas de dispersão (i.e., desvio-padrão; valor mínimo e máximo) para
cada atividade, tendo em conta a percentagem de ocorrências verificada nas
categorias do SOCIN-Fitness. Considerando que a aplicação prévia do teste de
Shapiro-Wilk indicou que as variáveis dependentes não possuíam uma distribuição
normal, as diferenças entre as médias obtidas para cada atividade foram
analisadas com recurso ao teste estatístico não paramétrico de Kruskal Wallis,
apropriado para comparações entre três ou mais amostras independentes (Maroco,
2010). Para identificar entre que atividades ocorreram as diferenças
significativas apontadas no teste Kruskal Wallis, foi utilizado o teste post
hoc não paramétrico de Dunn, o qual aplica a correção de Bonferroni ao nível de
significância utilizado nas comparações múltiplas entre pares de médias
(Maroco, 2010).
RESULTADOS
No que diz respeito ao processo de desenvolvimento e validação do SOCIN-
Fitness, verificou-se que, na fase 1, o teste de fiabilidade inter-observadores
indicou valores de Kappa que variaram entre 0.804 na categoria Batuta e 0.965
na categoria "Manipulação de Material". Por seu turno, no teste de
fiabilidade intra-observador os valores variaram entre 0.794 na categoria
Demonstração e 0.967 na categoria Observação. Durante as fases 2 e 3 foram
realizadas algumas adaptações e introduzidas novas categorias, passando o novo
sistema a denominar-se de SOCIN-Fitness. Na fase 4 foi testada a fiabilidade
inter-observadores do SOCIN-Fitness, tendo-se obtido valores de Kappa que
variaram entre 0.774 na categoria Batuta e 0.947 na categoria Com
exercício. Da mesma forma, na fase 5 foi testada a fiabilidade intra-
observador do SOCIN-Fitness, obtendo-se valores de Kappa que variaram entre
0.752 na categoria Rítmico e 0.950 na categoria Social (Tabela_1).
Na Tabela_2 é apresentada a versão final do Sistema de Observação da
Comunicação Cinésica do Instrutor de Fitness, o qual é composto por 5 dimensões
de análise e 21 categorias.
No que se refere ao estudo piloto, a atividade onde os instrutores realizaram
um maior número de gestos por minuto foi a de Step (M= 7.36, DP= 1.82), seguida
pelas atividades de Indoor Cycling (M= 4.92, DP= 1.45), Hidroginástica (M=
4.73, DP= 1.69) e por fim a de Localizada (M= 3.68, DP= 1.72).
Relativamente aos gestos com intenção comunicativa, verificou-se que tiveram
maioritariamente a função de regular o comportamento dos praticantes,
principalmente através da morfologia deítica (i.e., apontar para algo) e
cinetográfica (i.e., imitando uma ação), na situação de informação aos
praticantes durante a realização de exercício. No que se refere aos gestos sem
intenção comunicativa constatou-se que os adaptadores realizados pelos
instrutores foram maioritariamente do tipo auto-adaptador e objetual. Apenas na
atividade de Hidroginástica se registaram hetero-adaptores, sendo que não se
verificou a ocorrência de nenhum gesto multi-adaptador (Tabela_3). Através do
teste estatístico de Kruskal-Wallis verificou-se a existência de diferenças
significativas (p< 0.05) nas categorias "Ilustrador",
"Informação", "Feedback", "Organização",
"Com exercício" e "Sem exercício".
As atividades onde ocorreram diferenças foram assinaladas na tabela de
resultados e são seguidamente apresentadas por cada categoria: i) Categoria
Emblema Técnico ' os instrutores de Steputilizaram significativamente mais
emblemas técnico comparativamente aos instrutores de Localizada (p= 0.047),
Indoor Cycling (p= 0.022) e Hidroginástica (p= 0 0.023), os quais não se
diferenciaram significativamente entre si; ii) Categoria Informação ' os
instrutores de Steprealizaram significativamente mais gestos na situação de
informação comparativamente aos instrutores de Hidroginástica (p= 0.002); iii)
Categoria Feedback ' os instrutores de Hidroginástica realizam
significativamente mais gestos com a função pedagógica de dar feedback,
comparativamente aos instrutores de Step (p= 0.001), Localizada (p= 0.022) e
Indoor Cycling (p= 0.017), sendo que os instrutores de Step diferenciaram-se
ainda por realizarem significativamente menos gestos com esta função
comparativamente aos instrutores de Localizada (p= 0.050), e Indoor Cycling (p=
0.028); iv) Categoria Organização - os instrutores de Localizada e
Hidroginástica não se diferenciaram entre si e realizaram significativamente
mais gestos para gerir materiais ou organizar os praticantes no espaço,
comparativamente aos instrutores de Step (p= 0.010, p= 0.021), e Indoor Cycling
(p= 0.34, p= 0.027), os quais não se diferenciaram significativamente entre si;
v) Dimensão Exercício ' os instrutores de Hidroginástica participaram
significativamente menos nos exercícios quando realizaram os gestos,
comparativamente aos instrutores de Step (p= 0.001), Localizada (p= 0.022) e
Indoor Cycling (p= 0.001), os quais não se diferenciaram significativamente
entre si.
DISCUSSÃO
O presente estudo objetivou o desenvolvimento e validação de um sistema de
observação para a análise da comunicação cinésica de instrutores fitness. De
acordo com Anguera (2009) o desenvolvimento de um instrumento ad hoc deve ter a
finalidade de estar totalmente adaptado à conduta e ao contexto onde se aplica.
As adaptações realizadas ao SOCIN ao longo da fase 2 e 3, bem como os valores
de fiabilidade inter-observadores e intra-observador obtidos nas fases 4 e 5,
sugerem que as dimensões e categorias que compõem o SOCIN-Fitness são válidas
para a análise do comportamento de comunicação cinésica dos instrutores de
fitness no contexto das atividades de grupo. Este sistema é uma combinação dos
sistemas de categorias com os formatos de campo, o que permite que se beneficie
das vantagens de ambos, por um lado, e se neutralize os seus inconvenientes,
por outro (Campaniço, Leitão, Jonsson, Sarmento, & Anguera, 2011).
A versão desenvolvida e validada do SOCIN-Fitness foi posteriormente aplicada a
12 instrutores num estudo piloto. O elevado número de ocorrências registadas
(n= 2904) corrobora a importância deste tipo de comunicação neste contexto
específico. A utilização deste tipo de comunicação gestual beneficia a
comunicação permitindo uma maior rapidez e clareza na transmissão da
informação, para além de ter efeitos profiláticos relativamente a possíveis
lesões nas cordas vocais originadas pelo excesso de esforço (Long, Williford,
Olson, & Wolfe, 1998).
As análises efetuadas à função dos gestos sugerem que os instrutores,
independentemente da atividade, realizam mais gestos de regulação do que de
ilustração, o que indicia uma preocupação na potenciação do exercício realizado
pelos praticantes ao longo da aula. As morfologias de gestos mais comuns foram
a de apontar para algo (i.e., Deítico) e de imitação de uma ação (i.e.,
Cinetográfico), com exceção da atividade de Step onde os gestos específicos
(i.e., Emblema Técnico) foram também dominantes e ocorreram significativamente
mais (p= 0.035) comparativamente às restantes atividades. Esta exceção pode
dever-se ao facto de os instrutores de Step utilizarem gestos que simbolizam as
habilidades motoras padrão (e.g. passo toque, passo em V) durante o ensino
dos conteúdos coreográficos não sendo este aspeto comum às restantes atividades
que se caraterizam por serem atividades mais atléticas e menos coreográficas.
No que se refere à função pedagógica do gesto (i.e. Situação), verificou-se que
os gestos realizados pelos instrutores tiveram essencialmente a função de
informar os praticantes. No caso dos instrutores de Step essa função de
informar foi significativamente mais elevada do que a dos instrutores de
Hidroginástica, os quais, por sua vez, se destacaram significativamente dos
restantes instrutores por realizarem significativamente mais gestos com a
função pedagógica de feedback, para ajudar, corrigir os praticantes ou avaliar
a sua prestação motora. Estas diferenças podem-se ficar a dever à própria
natureza das atividades, já que no Step, sendo uma atividade coreografada, o
instrutor necessita recorrentemente de informar os praticantes dos movimentos
que irão ocorrer em seguida, ao passo que na Hidroginástica, por ser uma
atividade que recorre à realização de exercícios de resistência muscular, os
instrutores tendem a se concentrar no auxílio aos praticantes para uma correta
realização dos mesmos, através do feedback pedagógico.
Verificou-se igualmente que os gestos de Organização ocorreram
significativamente mais nas atividades que utilizam vários materiais, ou seja a
Hidroginástica e a Localizada, já que os instrutores destas atividades,
mediante o tipo de exercícios que irão realizar, necessitam de informar os
praticantes sobre os materiais que serão utilizados e, adicionalmente, por
questões de segurança e comodidade, indicam qual a melhor localização para os
mesmos.
Relativamente à dimensão Exercício verifica-se que os instrutores das
atividades de Step, Localizada e Indoor Cycling participam maioritariamente no
exercício quando realizam os gestos, não se diferenciando significativamente
entre si. Estes resultados estão de acordo com o estudo realizado por Franco et
al. (2008), onde se verificou que o principal comportamento pedagógico dos
instrutores de fitness foi o de Informação com Exercício, o que é considerado
pelos praticantes como sendo importante para a qualidade dos instrutores
(Papadimitriou & Karteroliotis, 2000). Apesar disso, na atividade de
Hidroginástica os instrutores realizaram significativamente mais gestos quando
não estavam a participar no exercício (p= 0.022), o que se pode explicar pelo
facto de nesta atividade os instrutores se encontrarem situados fora da
piscina, o que dificulta o acompanhamento dos exercícios realizados pelos
praticantes dentro de água.
Quanto aos gestos sem intenção comunicativa (i.e., Adaptadores), verificou-se
que a sua ocorrência é relativamente baixa (5.5%) face ao total de gestos
realizados, os quais se caraterizaram por ser maioritariamente do tipo Auto-
adaptador e Objetual, não existindo diferenças entre os instrutores das
diferentes atividades a este nível.
CONCLUSÕES
Tendo em consideração os objetivos definidos, podemos concluir que: i) os
resultados obtidos no processo de adaptação e desenvolvimento do SOCIN-Fitness
sugerem que este sistema é válido para a observação da comunicação cinésica dos
instrutores de fitness em contexto real de ensino de atividades de grupo; ii)
os resultados obtidos no estudo piloto através da aplicação do SOCIN-Fitness
revela a existência de um perfil de comunicação cinésica dos instrutores de
fitness que difere entre algumas das atividades analisadas. O facto de o SOCIN-
Fitness se ter revelado válido coloca à disposição dos profissionais de fitness
uma ferramenta de autodiagnóstico, que irá possibilitar assim o desenvolvimento
desta competência, a qual deverá ser otimizada de forma diferenciada em função
da atividade, já que como se viu, a comunicação cinésica tende a ser própria de
cada atividade.
Dada a natureza preliminar da aplicação do SOCIN-Fitness, os resultados obtidos
limitam-se apenas às atividades analisadas pelo que será pertinente a extensão
desta análise a outras atividades de grupo. De igual forma, a circunstância de
se ter analisado apenas três instrutores por cada atividade limita a
extrapolação dos resultados obtidos, pelo que será importante a realização de
estudos futuros com a aplicação do SOCIN-Fitness a amostras de maior dimensão.