Valores normativos do desempenho motor: Construção de cartas percentílicas
baseadas no método LMS de Cole & Green
INTRODUÇÃO
A aptidão física (AptF) procura expressar, de forma integrada, um conjunto
multivariado e parcimonioso de funções e estruturas corporais envolvidas na
performance desportivo-motora (Ardoy et al., 2011), usualmente designadas de
componentes morfológica, muscular, motora, cardiorrespiratória e metabólica
(Bouchard & Shephard, 1994). Não obstante a pluralidade do seu conceito
(Freitas, Marques, & Maia, 1997), pode ser genericamente definida como o
estado ou a condição que permite a execução de atividades físico-motoras que
envolvem esforços físicos, sem que se instale fadiga excessiva (Malina,
Bouchard, & Bar-Or, 2004). Além disso, tem sido consensual classificar as
suas componentes em dois domínios aparentemente distintos: (1) as que se
associam ao desempenho atlético, necessários à eficiência desportiva, e (2) as
que se associam ao estado de saúde, isto é, as que atuam na promoção da saúde
(Guedes, 2007; Safrit, 1990).
Algumas das principais razões da pesquisa dos níveis de AptF associada à saúde
de crianças e jovens, não atletas, centram-se no fato da infância e
adolescência serem consideradas janelas críticas para o desenvolvimento de
proficiência motora, além de serem, também, momentos sensíveis à influência de
fatores ambientais que condicionam a estabilização de comportamentos saudáveis
(Bustamante, Beunen, & Maia, 2012; Freitas et al., 2002; Guedes &
Guedes, 1997; Ortega et al., 2011; Silva, Beunen, & Maia, 2011), isto é, a
participação efetiva em atividades desportivas e/ou da prática regular de
exercício físico (Guedes, 2007). Estilos de vidas construídos e desenvolvidos
nestes períodos, saudáveis ou não, poderão influenciar comportamentos e estados
de saúde na fase adulta (Malina, 2001).
É compromisso do estado Português, consagrado pela Lei de Bases do Sistema
Educativo nº46/86 e pela Organização da Estrutura Curricular do Ensino Básico e
Secundário (Jacinto, Carvalho, Comédias, & Mira, 2001; Ministério da
Educação e da Ciência [MEC], 1991a, 1991b, 1998, 2004), a promoção e
desenvolvimento físico-motor adequados à infância e à adolescência. Neste
sentido, a Educação Física Escolar possui um valor educativo inquestionável em
termos da promoção de atividades físicas e desportivas, pedagogicamente
orientadas, para o desenvolvimento multilateral e harmonioso do aluno, tendo
definido como um dos principais propósitos, em todos os blocos de ensino,
elevar o nível funcional das capacidades motoras condicionais de modo
específico a cada nível de escolaridade (Jacinto et al., 2001; MEC, 1991a,
1991b, 1998, 2004). Embora tais aspetos devam ser desenvolvidos, também, em
parceria com a comunidade, sobretudo na iniciação à prática desportiva em
clubes, é atribuído ao Professor de Educação Física a diligência de identificar
os níveis de desempenho motor de seus alunos com avaliações periódicas,
monitorizar a sua mudança ao longo dos anos letivos, bem como proporcionar
oportunidades diferenciadas para elevar as capacidades motoras a nível
funcional, ou seja, conceber e realizar atividades físico-motoras sintonizadas
com as necessidades das crianças e/ou do adolescentes (Jacinto et al., 2001;
MEC, 1991a, 1991b, 1998, 2004).
A Organização da Estrutura Curricular do Ensino Básico e Secundário (Jacinto et
al., 2001; MEC, 1991a, 1991b, 1998, 2004) sugere a avaliação criterial da AptF
relacionada com a saúde, isto é, o uso adequado dos resultados dos testes
motores administrados para inferir sobre o desempenho nas capacidades motoras
avaliadas de acordo com valores de corte pré-estabelecidos. Contudo, tais
pontos de corte não provêm de estudos na população portuguesa, a que se
adiciona o fato de não existir, atualmente, um mecanismo confiável à proposição
desta classificação, sugerindo níveis mínimos necessários à redução de risco de
doenças crónico-degenerativas (Guedes, 2007; Pate & Daniels, 2013).
O estudo da variabilidade dos níveis de AptF, sobretudo relacionada com a
saúde, tem procurado produzir valores de referência locais, ou seja,
específicos de diferentes populações, contextos ambientais e condições
socioculturais (Bustamante et al., 2012; Maia et al., 2007; Silva et al.,
2011). A construção de cartas percentílicas locais (i.e., específicas da
região) representa um capital informativo importante na gestão sistemática e
eficiente do processo de ensino-aprendizagem, no âmbito escolar e desportivo,
bem como no auxílio ao planeamento de estratégias e intervenções de órgãos
institucionais, neste caso, os departamentos de desporto das Câmaras
Municipais. É evidente que estes propósitos têm uma elevada generalização a
qualquer região, indiferentemente do seu país de origem. Daqui que o principal
propósito da presente pesquisa seja apresentar valores de referência
percentílica para cinco provas de AptF, nomeadamente, dinamometria manual,
impulsão horizontal, corrida vaivém, corrida de 50 jardas e corrida/marcha da
milha. Do mesmo modo, contrastará, graficamente, e atribuirá significado aos
valores das crianças e jovens vouzelenses relativamente ao desempenho
apresentado noutros estudos desenvolvidos no país, precisamente no arquipélago
dos Açores (Maia et al., 2007), e no exterior, concretamente na Espanha
(Serrano et al., 2009), no Brasil (Silva et al., 2011) e nos EUA (Maia &
Lopes, 2007; Safrit, 1990).
MÉTODO
Participantes
Os participantes desta pesquisa provêm do Projeto Vouzela Ativo, um estudo
auxológico e epidemiológico, com delineamento transversal, sobre crescimento
somático, desenvolvimento e saúde da população escolar do Concelho de Vouzela,
Distrito de Viseu. A amostra foi constituída por crianças e adolescentes das 20
escolas municipais do Concelho, com idades compreendidas entre os 7 e os 17
anos, avaliados no ano de 2010. Somente na avaliação da aptidão
cardiorrespiratória a amostra foi ampliada por dois momentos distintos: 2008 e
2010.
A Tabela_1 mostra o número de indivíduos agrupados por idade e sexo,
representando ≈70% das crianças e adolescentes da rede escolar pública de
Vouzela.
Instrumentos e Procedimentos
O projeto e os protocolos de avaliação foram aprovados pela Faculdade de
Desporto da Universidade do Porto, pelos diretores dos agrupamentos escolares,
e pelo Centro de Saúde de Vouzela. O consentimento livre e informado foi
assinado pelos pais e/ou encarregados de educação dos alunos.
Controlo da qualidade da informação
O controlo da qualidade da informação passou por cinco etapas: (1) treino da
equipe de avaliação por parte de avaliadores experientes (primeiro e último
autores do presente artigo); (2) realização de retestes com uma amostra
aleatória de 185 crianças e jovens num intervalo de duas semanas; (3) aplicação
das provas sob a supervisão da primeira autora; (4) controlo da entrada da
informação e análise exploratória prévia para identificar erros na entrada dos
dados; (5) cálculo de estimativas de fiabilidade com base no coeficiente de
correlação intraclasse (R) e respetivos intervalos de confiança a 95%:
dinamometria manual, R= 0.973 (IC95%= 0.964−0.980); impulsão horizontal, R=
0.933 (IC95%= 0.910−0.951); corrida vai-vém, R= 0.812 (IC95%=0.748−0.860);
corrida de 50 jardas, R= 0.905 (IC95%= 0.823− 0.980); corrida/marcha da milha,
R= 0.854 (IC95%= 0.735−0.920).
Avaliação da aptidão física
Foi utilizado um conjunto de testes oriundos das baterias da AAHPER Youth
Fitness Test (American Alliance for Health, Physical Education, and Recreation
[AAHPER], 1976) e Fitnessgram (Welk & Meredith, 2008) marcadores das
seguintes componentes da AptF: agilidade e velocidade (corrida vaivém e corrida
de 50 jardas), força explosiva dos membros inferiores (impulsão horizontal) e
estática da mão (preensão), e capacidade aeróbia (corrida/ marcha da milha).
Comparação com outros estudos
A comparação dos níveis de AptF das crianças e adolescentes vouzelenses com
resultados de pesquisas prévias foi efetuada com base nos valores medianos
(P50). Deste modo, foram selecionados estudos de referência nacional e
internacional que apresentam valores percentílicos das diferentes provas de
AptF utilizadas nesta pesquisa: o Youth Fitness Test, publicado pela American
Alliance for Health, Physical Education, Recreation and Dance (AAHPER, 1976),
desenvolvido na população norte-americana; o estudo sobre crescimento e
desempenho motor de crianças e jovens açorianos com idades entre os 6 e os 18
anos (Maia et al., 2007); o estudo realizado na região do Cariri, estado do
Ceará, Brasil, designado Crescer com Saúde no Cariri (Silva et al., 2011); a
pesquisa desenvolvida em Madrid, a qual é proveniente de um projeto maior,
designado Nutrição e Biodiversidade Humana (Serrano et al., 2009).
Análise Estatística
Inicialmente foi efetuada a análise exploratória dos dados para detetar
possíveis outliers, bem como analisar as distribuições das variáveis; de
seguida foram calculadas a média, desvio-padrão e amplitude. A construção das
cartas percentílicas foi efetuada, separadamente, para cada uma das provas de
AptF em cada sexo. Os percentis foram obtidos pelo método LMS (Cole &
Green, 1992) implementado no software LMSchartmarker Pro versão 2.54 (Pan &
Cole, 2011). Para normalizar a distribuição dos valores em cada uma das
variáveis, o método LMS recorre à transformação Box-Cox, específica para cada
idade; os valores L, M e S são Cubic Splines em cada intervalo etário. Três
curvas suavizadas e específicas de cada idade são produzidas, designadas de
curva L (transformação Box-Cox), curva M (mediana) e curva S (coeficiente de
variação) com base na seguinte equação,
em que Zα é o desvio normal equivalente para a amostra total, α e C100α (t) o
percentil correspondente. A complexidade da suavização de cada curva é medida
pelos graus de liberdade equivalentes para L(t),M (t)eS (t). Foram utilizados
testes Q (Pan & Cole, 2004; Royston & Wright, 2000) para ajuizar da
adequação do ajustamento, bem como das representações de Worm plots (Pan &
Cole, 2004; van Buuren & Fredriks, 2001).
RESULTADOS
A Tabela_2 apresenta a distribuição dos scores z das provas de AptF,
nomeadamente, dinamometria manual, impulsão horizontal, corrida vaivém, corrida
de 50 jardas e corrida/marcha da milha, para meninos e meninas. Esta
distribuição foi comparada com as proporções esperadas de uma distribuição
normal nos seguintes percentis: P3, P10, P25, P50, P75, P90, P97. Os resultados
mostram elevada proximidade entre os valores esperados e os observados,
sugerindo bom ajustamento das curvas percentílicas.
As curvas de referência para as provas de AptF das crianças e adolescentes
vouzelenses, com idades compreendidas entre os 7 e os 17 anos e de ambos os
sexos, são apresentadas nas Figuras_1 e 2.
Os valores percentílicos estão descritos nas Tabelas_3 e 4.
Em todas as provas os rapazes vouzelenses apresentaram valores mais elevados do
que as meninas. Estas diferenças tendem a aumentar com a idade, sendo maiores
durante o período circum-pubertário. Nas provas de força explosiva e estática,
nomeadamente de preensão e impulsão horizontal, verifica-se aumento dos valores
de força ao longo da idade. O comportamento das curvas percentílicas é distinto
entre rapazes e raparigas, i.e., rapazes apresentam incrementos contínuos até
os 17 anos, enquanto as raparigas tendem a estabilizar gradativamente e/ou
aumentar ligeiramente os ganhos de força. Na prova de agilidade e de
velocidade, os rapazes apresentam decréscimos de tempo de conclusão da prova ao
longo das idades, sobretudo nas mais avançadas. As meninas reduzem este tempo,
consideravelmente, até os 12 anos de idade e, a partir daí, tendem a
estabilizar. Na corrida/marcha da milha, o comportamento das curvas entre
rapazes e raparigas são similares. Os rapazes têm melhores desempenhos em todas
as idades e percentis, cujas diferenças se situam em torno dos 28 s a 1.52 min.
Constata-se que os rapazes e as raparigas reduzem o tempo de conclusão de prova
até os 12 anos de idade e, a partir desta idade, tendem a manter e/ou diminuir
o desempenho. Ressalta-se, ainda, que as raparigas, após os 13 anos de idade,
têm maior aumento no tempo de realização desta prova.
As comparações dos valores medianos das crianças e adolescentes vouzelenses com
outras referências, nacional e internacionais, nas provas de preensão e
impulsão horizontal estão apresentadas na Figura_3. Na preensão, o
comportamento da curva mediana é similar entre as amostras vouzelense,
carirense, açoriana e espanhola, bem como os valores medianos em cada idade. A
amostra espanhola apresenta menores valores neste teste. Na prova de impulsão
horizontal, a amostra proveniente dos EUA tem valores superiores em ambos os
sexos e um comportamento distinto nas raparigas. Crianças e adolescentes
vouzelenses reportam valores superiores aos açorianos em todas as idades; o
mesmo não ocorre em comparação aos carirenses, os quais mostram valores mais
elevados nas raparigas até os 10 anos e nos rapazes entre os 7 e os 14 anos de
idade.
A Figura_4 ilustra as comparações dos valores medianos nas provas de corrida
vaivém, corrida de 50 jardas e corrida/marcha da milha. Na corrida vaivém, os
jovens norte-americanos apresentam melhores desempenhos, enquanto os
vouzelenses realizam a corrida vaivém em menor tempo relativamente aos
açorianos. As diferenças entre os valores medianos das três amostras reduzem-se
ao longo da idade, em ambos os sexos, e a partir dos 15 anos a diferença é
quase irrelevante. Na corrida de 50 jardas, rapazes e raparigas norte-
americanos são os mais rápidos, e os vouzelenses têm melhores resultados que os
açorianos. A amplitude das diferenças entre açorianos e vouzelenses mostra-se
mais elevada até aos 10 anos de idade; as diferenças de desempenho entre
vouzelenses e norte-americanos são insignificantes aos 17 anos, em ambos os
sexos.
As crianças e adolescentes vouzelenses têm melhor resistência
cardiorrespiratória que norte-americanos, exceto nos meninos a partir dos 14
anos, e nos seus pares açorianos. Ao contrário do que ocorre na maioria das
provas anteriormente descritas, o comportamento das curvas medianas de cada
amostra é distinto, sobretudo na amostra norte-americana. Os jovens vouzelenses
e açorianos reduzem o tempo de realização de prova, de modo linear, até os 12
anos; a partir desta idade, há incrementos dos valores medianos nos
vouzelenses, manutenção do tempo de prova nas raparigas açorianas e decréscimos
sucessivos nos rapazes açorianos. Não se verifica linearidade na curva mediana
dos jovens norte-americanos, mas sim oscilações consecutivas, incrementos e
decréscimos, ao longo da idade.
DISCUSSÃO
Esta pesquisa foi realizada com o propósito de construir valores de referência
percentílica para cinco provas de AptF, inspecionando o desempenho motor das
crianças e jovens vouzelenses relativamente aos seus pares residentes em locais
socioeconómica e geograficamente distintos, nomeadamente, Brasil, Espanha, EUA
e Região Autónoma dos Açores. O uso de cartas percentílicas para descrever
aspetos da trajetória modal e da variabilidade interindividual é uma das formas
mais interessantes de apresentar o comportamento dos valores normativos em
diferentes provas de AptF, face à sua relevância pedagógica e epidemiológica,
sobretudo, quando são construídas com base em procedimentos metodológicos e
analíticos robustos (Silva et al., 2011), assegurando o equilíbrio entre a
fidedignidade dos resultados obtidos e a parcimónia estatística dos modelos
produzidos. O método LMS apresenta estas características, sendo uma ferramenta
estatística muito atual, vantajoso em comparação com outros métodos de
estimação (Roelants, Hauspie, & Hoppenbrouwers, 2009), com uma distinta
representação gráfica e numérica dos perfis configuracionais do desempenho
motor. A parcimónia no ajustamento dos modelos para cada prova e sexo é
constatada com base nos resultados (não apresentados no texto) dos testes Q
sugeridos por Royston e Wright (2000) e por Pan e Cole (2004), e na adequação
da distribuição dos percentis, cujos resultados apontam diferenças muito
pequenas entre os valores esperados e os observados em cada categoria
percentílica, que se assemelham aos produzidos por Silva et al. (2011). Na
fiabilidade do desempenho nas cinco provas de AptF, os valores de correlação
intraclasse apresentados foram elevados, entre 0.81 (corrida vaivém) e 0.97
(dinamometria manual), ressaltando a elevada consistência da performance motora
de crianças e jovens vouzelenses, tal como reportado em outros estudos (Safrit,
1990; Silva et al, 2011).
Em geral, as curvas percentílicas construídas no presente estudo mostram uma
forte variabilidade interindividual no desempenho das cinco provas utilizadas
para avaliar a AptF de crianças e adolescentes vouzelenses, cujo perfil se
assemelha ao reportado em outras regiões. Em consonância com a literatura
prévia (Bustamante et al., 2012; Maia et al., 2007; Ortega et al., 2011; Silva
et al., 2011), a expressão desta variabilidade é distinta entre os sexos e
específica de cada prova, cujas trajetórias percentílicas estão condicionadas à
idade, sendo notória a superioridade do desempenho dos rapazes em todas as
provas de AptF. O comportamento distinto dos incrementos no desempenho das
provas de força, velocidade e agilidade em rapazes e raparigas refletem uma
interação complexa entre fatores biológicos e culturais associados à maturação
biológica, diferenças de dimensões corporais, oportunidades e motivos para a
prática de atividades desportivo-motoras (Malina et al., 2004).
A aptidão muscular refere-se, muito genericamente, à capacidade individual de
gerar tensão contra uma resistência externa, resistir a repetidas contrações ou
manter a contração máxima voluntária por um período de tempo prolongado e
realizar uma contração máxima dinâmica (Ruiz et al., 2006). As provas de
dinamometria manual e de impulsão horizontal têm sido amplamente aplicadas,
sobretudo em estudos epidemiológicos, para a avaliação da força estática e
força explosiva dos membros inferiores, respetivamente (Ortega, Ruiz, Castillo,
& Sjostrom, 2008). Os resultados encontrados na amostra vouzelense seguem
um padrão semelhante ao referido em estudos prévios (Maia et al., 2007; Serrano
et al., 2009; Silva et al., 2011) ou seja, o aumento linear da força ao longo
da idade, cujas diferenças entre sexos são mais expressivas durante e após o
período pubertário, face às mudanças na dinâmica muscular, sobretudo na
maturação do tecido muscular, a qual ocorre diferentemente em meninos e meninas
(Malina et al., 2004). Deste modo, os rapazes tendem a aumentar os seus níveis
de força muscular, sobretudo após os 13 e 14 anos de idade, enquanto as meninas
tendem a estabilizar seus ganhos e/ou apresentar ligeiros incrementos após esta
idade.
Não obstante serem componentes associadas ao desempenho atlético (Guedes, 2007;
Safrit, 1990), é sugerido que a agilidade e a velocidade, quando aliadas à
melhoria dos níveis de aptidão muscular e cardiorrespiratória, podem apresentar
efeitos positivos na saúde esquelética (Ortega et al., 2008). Embora haja uma
ampla variedade de testes para avaliar tais capacidades e a necessidade de se
obter mais informações a respeito da precisão, validade e fiabilidade dos
resultados obtidos na aplicação destes testes (Ortega et al., 2008), é
relativamente consensual que a corrida das 50 jardas e corrida vaivém, ambos
provenientes da bateria de testes AAHPER (AAHPER, 1976; AAHPERD, 1988) se
mostram eficientes, de fácil aplicação e de resultados altamente fiáveis
(Safrit, 1990). Os resultados da amostra vouzelense refletem um padrão de
variação esperado e similar entre os dois testes, ou seja, rapazes e raparigas
diminuem seu tempo de prova ao longo da idade, mas de modo distinto; os rapazes
apresentam melhor desempenho, sobretudo após os 12/13 anos.
Em termos comparativos, nacional e internacionalmente, os valores medianos da
dinamometria manual são muito similares. Na prova de impulsão horizontal, as
diferenças são mais expressivas, sobretudo entre as meninas, salientando a
superioridade de desempenho da amostra norte-americana. Nas corridas de vaivém
e de 50 jardas, tal como mencionado anteriormente, a amostra dos EUA é mais
veloz e ágil comparativamente aos seus pares açorianos e vouzelenses; nas
idades mais avançadas (após os 15 anos), sobretudo na agilidade, os valores
medianos tornam-se muito similares. Importa salientar que, para além de
eventuais diferenças nos fatores biológicos, culturais e socioeconómicos,
específicos de cada população, a que se associam fatores motivacionais
relativos à prática desportiva, é provável que a desfasagem temporal, i.e., 32
anos entre o presente estudo e o estudo norte-americano, e aspetos estatísticos
do cálculo dos percentis possam estar na origem da superioridade de valores
medianos das crianças e jovens norte-americanos. É importante referir que os
valores da amostra norte-americana provêm doYouth Fitness Test, publicado em
1976 pela American Alliance for Health, Physical Education, Recreation and
Dance (AAHPER, 1976), cujos percentis foram calculados de modo empírico, i.e.,
sem recurso a um qualquer modo matemático-estatístico.
Não obstante um esforço atual em reportar mudanças seculares no desempenho
motor, e a presença de um certo conflito entre os resultados disponíveis
(Smpokos, Linardakis, Papadaki, Lionis, & Kafatos, 2012), há evidências de
declínio dos valores médios de distintas componentes da AptF (Nishijima,
Kokudo, & Ohsawa, 2003; Tomkinson, 2007). Daqui que a superioridade dos
resultados da amostra norte-americana possa estar condicionada à presença de
uma tendência secular negativa no desempenho da força muscular explosiva dos
membros inferiores, da agilidade e da velocidade de resultados mais atuais,
sobretudo da amostra vouzelense.
A capacidade aeróbia tem sido uma das componentes mais estudadas no universo da
AptF (Welk & Meredith, 2008), seja na sua associação com a saúde, por estar
associada à diminuição de diferentes fatores de risco de doenças
cardiovasculares (Barlow et al., 2012; Blair et al., 1996; Grundy, Barlow,
Farrell, Vega, & Haskell, 2012), ou seja na sua relação com o desempenho
atlético, já que níveis satisfatórios de aptidão cardiorrespiratória estão
intimamente ligados à participação efetiva de crianças e jovens em inúmeras
atividades físico-desportivas (Safrit, 1990). A corrida/marcha da milha tem
sido amplamente utilizada para avaliar a resistência cardiorrespiratória de
crianças e adolescentes, e em Portugal, é uma prova comummente aplicada nos
diferentes níveis de ensino pelos professores de Educação Física (Jacinto et
al., 2001; MEC, 1991a, 1991b, 1998, 2004). De acordo com Malina et al. (2004) é
expetável uma melhoria da capacidade aeróbia ao longo da idade, sendo distinta
entre os sexos, i.e., nos meninos verifica-se um aumento contínuo até aos 16
anos, enquanto as meninas tendem a aumentar sua capacidade aeróbia até aos 13
anos de idade. A partir destas idades, verifica-se a presença de um plateau
de desempenho. Comportamentos similares são evidentes nas crianças e jovens
açorianos. Não obstante terem melhor desempenho, os jovens vouzelenses têm um
comportamento distinto - os rapazes estabilizam o seu desempenho por volta dos
12 anos e as meninas mostram um ligeiro aumento no tempo de prova, ou seja, uma
diminuição dos níveis de capacidade aeróbia. Estas diferenças podem ser devidas
a aspetos alométricos, precisamente pelo aumento corporal, muitas vezes não
proporcional ao desenvolvimento dos órgãos do sistema cardiorrespiratório, e
incrementos na quantidade massa gorda (Astrand & Rodahl, 1986). Outro
aspeto importante a ser ressaltado refere-se às condições socioeconómicas entre
as amostras consideradas, sobretudo para explicar a melhor performance dos
vouzelenses na corrida/marcha da milha. O Concelho de Vouzela preserva
características peculiares de um contexto rural, divergindo dos grandes
complexos urbanos, que influenciam a organização da rotina diária das crianças
e dos jovens, fortemente condicionada pelo espaço disponível para o
desenvolvimento de atividades lúdicas.
O presente estudo apresenta algumas limitações que importa referir. Em primeiro
lugar há que mencionar a dimensão amostral e sua representatividade, sobretudo
nas idades mais avançadas, embora sejam reportados estudos prévios de maior
representatividade nacional na Suíça, cuja amostra foi de 662 crianças e
adolescentes entre os 5 e os 18 anos de idade (Largo, Fischer, & Rousson,
2003; McCarthy, Cole, Fry, Jebb, & Prentice, 2006), i.e., efetivos
semelhantes aos do presente estudo. Salientamos, também, que as estimativas das
curvas L, M e S dos resultados vouzelenses apresentam erros-padrão reduzidos,
assegurando precisão no cálculo dos percentis. Em segundo lugar, a dificuldade
em efetuar comparações mais objetivas entre diferentes populações repousa,
necessariamente, em diferenças metodológicas na aplicação dos testes, bem como
na obtenção dos valores percentílicos, a que se adicionam fatores
condicionantes do desempenho, nomeadamente socioeconómicos, culturais e
biológicos, para além dos efeitos da desfasagem temporal. Não obstante estes
aspetos, o presente estudo possui alguns pontos fortes que passamos a referir:
(1) a utilização de um método matemático-estatístico robusto, sofisticado e
muito atual de estimação numérica e representação gráfica dos perfis
configuracionais do desempenho motor das diferentes provas de AptF; (2) a
aplicação rigorosa de testes com resultados altamente fiáveis da avaliação de
diferentes componentes da AptF; (3) a apresentação de valores normativos do
desempenho motor de crianças e jovens em idade escolar, de uma região de
Portugal Continental; e (4) uma nova contribuição para ajuizar acerca do valor
do planeamento e organização mais esclarecida e eficiente da prática educativa
do Professor de Educação Física, sobretudo com a utilização de valores de
referência mais próximos da realidade portuguesa, apresentando-se como um
auxiliar importante em pesquisas sobre o crescimento e o desenvolvimento de
crianças e jovens.
CONCLUSÕES
Em conclusão, os valores de referência construídos pelo presente estudo sugerem
a forte variabilidade interindividual do desempenho motor nas diferentes provas
de AptF, fato que fortalece a necessidade de estruturar a prática pedagógica de
modo diversificado, criando oportunidades de vivências motoras capazes de
atingir diferentes níveis de desempenho e, independentemente do grau de
performance, garantir a melhoria da AptF de crianças e jovens. Relativamente às
comparações dos valores medianos da prova de dinamometria manual, crianças e
jovens vouzelenses tiveram desempenhos similares aos de outros estudos,
enquanto nas provas de impulsão horizontal, corrida vaivém e de 50 jardas
constatou-se superioridade da amostra norte-americana. Na corrida/marcha da
milha, a performance dos vouzelenses foi superior às amostras açoriana e
americana. Diferentes aspetos de natureza biológica, cultural e socioeconómica,
específicos de cada população, a que se associam fatores motivacionais
relativos à prática desportiva, bem como as características metodológicas e
temporais de cada estudo, podem estar na origem das diferenças encontradas.