Atividade eletromiográfica dos músculos estabilizadores da escápula durante
variações do exercício push up em indivíduos com e sem síndrome do impacto do
ombro
A adequada ativação dos músculos estabilizadores escapulares, principalmente o
serrátil anterior e o trapézio, é fundamental ao movimento coordenado das
articulações escapulotorácica e glenoumeral, e contribui para efetiva função do
ombro (Lukasiewicz, McClure, Michener, Pratt, & Sennet, 1999; McClure,
Michener, Sennett, & Karduna, 2001). Assim o desequilíbrio muscular e as
alterações no sincronismo destas articulações podem determinar condições
dolorosas, como a Síndrome do Impacto do Ombro (SIO), uma das principais
afecções musculoesqueléticas em praticantes de modalidades esportivas que
exigem o movimento do braço acima da cabeça(Ludewig & Braman, 2011; Phadke,
Camargo, & Ludewig, 2009).
A SIO é definida como a condição dolorosa decorrente do impacto mecânico e
consequente compressão das estruturas contidas no espaço subacromial, sobretudo
durante a elevação do braço, geralmente relacionada ao uso excessivo da
articulação glenoumeral (Neer, 1983). Entre os diferentes fatores relacionados
à etiologia desta síndrome estão as alterações na ativação dos músculos
estabilizadores escapulares, caracterizadas pelo aumento da ativação do músculo
trapézio superior em relação ao serrátil anterior, que ocasiona um aumento da
translação superior da escápula e diminuição da rotação superior e tipping
escapular, resultando na redução do espaço subacromial e predispondo o impacto
(Kibler, 1998; Kibler et al., 2002; Ludewig & Cook, 2000).
Dessa forma, os exercícios em cadeia cinética fechada (CCF) têm sido empregados
nos programas de reabilitação, visando à ativação do músculo serrátil anterior
e das diferentes porções do músculo trapézio na tentativa de alcançar o
equilíbrio destas forças musculares e com isso adequação da cinemática
escapular (Kibler & Livingston, 2011; Tucker, Armstrong, Gribble, Timmons,
& Yeasting, 2010). Estes exercícios auxiliam na recuperação da estabilidade
dinâmica da articulação glenoumeral, uma vez que envolvem mecanismos
neuromusculares e proprioceptivos, que possibilitam a coativação da musculatura
estabilizadora desta articulação (Dillman, Murray, & Hintermeister, 1994;
Lephart & Henry, 1996), sendo eficazes para aquisição e manutenção de uma
base estável para os diversos movimentos do ombro.
Assim, a atividade eletromiográfica (EMG) dos músculos serrátil anterior e
trapézio têm sido avaliada, por meio da eletromiografia de superfície, durante
a realização de exercícios de push up e suas variações, na tentativa de
identificar o padrão de ativação muscular durante estes exercícios,
principalmente quando incluídas mudanças na instabilidade da superfície de
apoio (Ludewig, Hoff, Osowski, Meschke, & Rundquist, 2004; Martins et al.,
2008; Oliveira, De Morais, & De Brum, 2008; Park & Yoo, 2011). Estes
estudos têm demonstrado que os exercícios em CCF proporcionam níveis
significativos de ativação muscular dos estabilizadores escapulares,
possibilitando inclusive maior ativação do serrátil anterior em relação ao
músculo trapézio fibras superiores, fato que seria fundamental na reabilitação
dos indivíduos com a SIO (Park & Yoo, 2011; Tucker, Campbell, Swartz, &
Armstrong, 2008).
Considerando a existência de desequilíbrio muscular entre os estabilizadores
escapulares nos indivíduos com a SIO, e os efeitos dos exercícios em CCF
relatados anteriormente, é importante avaliar a necessidade da inserção destes
exercícios associados à base instável de apoio na reabilitação, uma vez que
nessa condição seria requisitada uma melhor estratégia neuromotora para
garantir a estabilização do membro superior e tronco (Ludewig et al., 2004).
Por outro lado, durante o processo de reabilitação é necessário implementar um
programa de exercícios específicos para cada etapa de tratamento, respeitando
principalmente a evolução clínica de cada paciente. Diante disso, observa-se a
busca pela prescrição de tarefas isométricas, consideradas mais simples e mais
seguras do ponto de vista da execução, e posteriormente a evolução para a
realização das taferas de forma dinâmica. Assim o objetivo deste estudo foi
comparar a atividade eletromiográfica do serrátil anterior e do trapézio
superior, médio e inferior, assim como a razão entre atividade EMG destes
músculos durante a realização isométrica de variações do push up em indivíduos
assintomáticos e com síndrome do impacto do ombro.
O presente estudo tem como hipótese que a inserção da superfície instável
durante as tarefas isométricas, consideradas mais simples, é capaz de
proporcionar alterações na atividade EMG sem que ocorra alteração na proporção
de ativação dos músculos trapézio e serrátil anterior, nos indivíduos
assintomáticos. Por outro lado, se espera que os indivíduos com SIO, apesar de
fisicamente ativos, apresentem alterações na proporção de ativação desses
músculos como estratégia adaptativa frente a instabilidade criada.
MÉTODO
Amostra
Foram avaliados 30 voluntários, do sexo masculino, praticantes de atividades
físicas que envolvessem movimentos repetidos do membro superior acima da
cabeça: voleibol (dois), natação (dois), lutas (dez) ou musculação (dezesseis),
há pelo menos seis meses, com frequência mínima de quatro vezes por semana e
duração semanal superior à seis horas de treino. Os voluntários foram divididos
em dois grupos com igual número de participantes: o primeiro foi composto por
indivíduos que apresentassem sinais e sintomas e/ou diagnóstico confirmado da
SIO (grupo SIO) e o outro compreendia indivíduos assintomáticos (grupo
controle). Os dados antropométricos e dominância funcional dos dois grupos
estão apresentados na tabela_1.
Os critérios de inclusão do estudo foram: sujeitos do sexo masculino,
fisicamente ativos, com idade entre 18 e 35 anos. Além disso, para distribuição
entre os grupos, foram estabelecidos alguns critérios. No grupo SIO, foram
incluídos sujeitos que apresentaram dor na articulação do ombro (membro
dominante) por pelo menos seis semanas anteriores à avaliação, que referiram
dor à palpação e apresentaram positividade em pelo menos dois dos três testes
clínicos específicos avaliados (Neer, Jobe e Hawkins) (Hawkins & Kennedy,
1980; Jobe & Moynes, 1982; Neer, 1983) ou aqueles que tivessem confirmado o
diagnóstico clínico de SIO. Os demais foram incluídos no grupo controle.
Foram excluídos do estudo, os voluntários que apresentaram histórico de
cirurgias e fraturas na cintura escapular, ombro e cervical, lesão nervosa
periférica, doenças articulares degenerativas. Todos os voluntários assinaram o
termo de Consentimento Livre e Esclarecido, segundo a resolução nº 196/96 do
Conselho Nacional da Saúde e o estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em
Pesquisa da Universidade de Pernambuco sob o protocolo 274/10.
Instrumentos
Para aquisição dos registros eletromiográficos dos músculos serrátil anterior
(SA), trapézio fibras superiores (TS), inferiores (TI) e médias (TM), foram
utilizados quatro canais do sistema Myosystem Br-1 da Datahominis Tecnologia
Ltda® (Uberlândia ' Brasil). Os sinais mioelétricos foram adquiridos por meio
de eletrodos de superfícies ativos, diferenciais de ganho de 20 vezes,
compostos por duas barras retangulares paralelas de prata pura (10 x 2 x 1 mm,
com distância de 10 mm entre barras), da Datahominis Tecnologia Ltda®
(Uberlândia ' Brasil). O equipamento possuía aterramento e aquisição simultânea
comum para os canais, filtro de banda 10 Hz a 5 KHz; três estágios de
amplificação, impedância dos canais de 10G? em modo diferencial, Razão de
Rejeição em Modo Comum de 92 dB, 16 bits e faixa resolução dinâmica, faixa de
amplitude de -10V a +10V e placa conversora analógica-digital.
Antes da colocação dos eletrodos foram realizadas a tricotomia, leve abrasão e
assepsia da pele com álcool, para diminuir a impedância da pele e eliminar
possíveis interferências. O posicionamento dos eletrodos nos músculos Trapézio
Superior (TS), Trapézio Médio (TM) e Trapézio Inferior (TI) foi feito de acordo
com as recomendações do projeto SENIAM (Hermens, Freiks, & Merletti, 1999).
Para o músculo serrátil anterior o eletrodo foi posicionado sobre a quinta
costela, segundo descrição de Hintermeister, Lange, Schultheis, Bey, &
Hawkins (1998). Todos os eletrodos foram fixados com esparadrapo. O eletrodo de
referência foi posicionado no punho, sobre o manúbrio esternal e interposto com
gel eletrocondutor. Para os voluntários do grupo controle, os eletrodos foram
posicionados no membro dominante.
Para o processamento dos dados eletromiográficos, foi utilizado o programa
Myosystem Br-1 versão 3.5.4. O sinal eletromiográfico bruto foi retificado,
feito o alisamento com filtro butterworth de 4ª e 10 Hz ordem, e utilizado para
derivar os valores da amplitude eletromiográfica obtidos por meio do cálculo do
root mean square (RMS). Os dados foram coletados a 4000Hz e aplicados filtros
digitais de passa baixa de 500Hz e passa alta de 15Hz. Os valores RMS EMG foram
normalizados pelo valor máximo da amplitude eletromiográfica obtida nas três
repetições da contração voluntária máxima (CVM).
A proporção de ativação muscular entre os músculos trapézio superior e o
inferior (TS/TI) e o trapézio superior e serrátil anterior (TS/SA) em cada
tarefa, pôde ser avaliada por meio do cálculo da razão eletromiográfica. Neste
procedimento também se realizou a normalização dos dados brutos, sendo
calculada por meio da razão entre a média RMS obtida em cada exercício e o
valor de RMS máximo encontrado na CVM de cada músculo. Assim, as razões EMG
foram mensuradas pela razão do valor normalizado do TS dividido pelo valor
normalizado da razão SA e TI. Identificando assim, qual músculo sobressaia-se
mais em cada tarefa. O valor de razão foi considerada baixo se fosse menor que
0.3, que indicava uma ativação do SA ou TI três vezes maior em relação ao TI ou
TS. Os valores da razão próximo ou maior que 1.0 foram considerados como
ativação muscular similar entre os dois músculos ou maior predominância do TS
sobre o SA e TI.
Procedimentos
Inicialmente foram realizados a anamnese para coleta de dados pessoais e
antropométricos e o exame físico, no qual foram realizados os testes clínicos
de Neer, Jobe e Hawkins para confirmação da SIO e dessa maneira realizar a
distribuição dos voluntários nos dois grupos. Concluída a avaliação, foi
realizado um sorteio que determinou a ordem de execução das tarefas e
posteriormente foi feita a limpeza da pele com álcool e a colocação dos
eletrodos.
Em seguida, foram realizadas três repetições de uma contração voluntária máxima
(CVM) para cada um dos músculos avaliados, de acordo com o posicionamento do
teste muscular manual (Kendall, McCreary, & Provence, 1995). Estas deveriam
ser mantidas por 6 segundos, com intervalos de 2 minutos entre cada repetição.
O valor máximo da amplitude registrado nas CVMs foi utilizado para a
normalização do sinal EMG.
Finalizada a última CVM, foram dadas orientações para realização das tarefas:
knee push up (KPU) e one - arm knee push up (OKP). Para a realização do knee
push up, os voluntários deveriam ficar em posição de quatro apoios mantendo 90°
de flexão de quadril e joelho, tronco alinhado e cabeça em posição neutra. Os
membros superiores deveriam estar a 90º de flexão do ombro, cotovelos em
completa extensão e punhos a 90° de extensão. As mãos deveriam estar
posicionadas na base de suporte a uma distancia equivalente a largura do ombro
(Figura_1). Para o one-arm push up o posicionamento foi semelhante, apenas foi
solicitado aos voluntários que colocassem o membro superior contralateral na
região dorsal (Figura_2). Os voluntários foram orientados a manter essa
posição, segundo o comando verbal do pesquisador. Um disco inflável
proprioceptivo modelo DiscoFlex ' Mercur S.A (Santa Cruz do Sul, Brasil) foi
utilizado para conferir a instabilidade à base de suporte. Em todas as
situações foi realizada a medição e marcação dos pontos para o posicionamento
das mãos.
Foram realizadas três repetições de cada exercício, em base estável e instável.
As tarefas foram mantidas por 8 segundos, com intervalos de 1,5 minutos entre
as repetições e os exercícios, para minimizar possíveis efeitos de fadiga
local. A ordem da realização dos exercícios foi determinada por sorteio.
Análise Estatística
Para processamento e análise dos dados foi utilizado o programa SPSS versão
16.0. Após consolidação e validação dos dados inseridos, foi utilizado teste de
Shapiro-Wilk para a avaliação da normalidade dos dados. Inicialmente, foi
aplicado o teste t de student para comparação intergrupos, das variáveis idade,
estatura e massa corporal. O efeito dos grupos, exercícios e a interação dessas
variáveis sobre a atividade EMG músculos foi avaliado pela análise de variância
ANOVA (2 grupos x 4 exercícios x 4 músculos) com pós teste de Tukey . Em todas
as situações foi utilizado nível de significância de 5%. Além disso, nas
variáveis em que foram observados valores de p < .05, foi calculado eta
quadrado η2 = efeito da variância/ variância total) para avaliação da magnitude
do efeito.
RESULTADOS
Características da amostra
A análise intergrupos não revelou diferenças estatísticas para as variáveis
idade (p = .873), massa corporal (p = .902) e estatura (p = .981) (Tabela_1.).
Atividade EMG
Na Tabela_2 estão descritos os valores da atividade EMG dos músculos avaliados,
nos diferentes grupos e exercícios. A análise de variância evidenciou nenhum
efeito dos grupos na atividade EMG dos músculos TS [F(4.195) = 0.515; p =
.479], TM [F(4.195) = 0.016; p = .90], TI [F(4.195) = 0.175; p = .679] e SA [F
(4.195) = 0.271; p = .607]. Também não foi observada interação entre grupos e
diferentes exercícios para os valores EMG dos músculos TS [F(4.195) = 2.248; p
= .097], TM [F(4.195) = 1.164; p = .328], TI [F(4.195) = 0.937; p = .427] e SA
[F(4.195) = 0.395; p = .757].
No entanto, para o grupo controle foi verificado que o tipo de exercício
apresentou efeito sobre a atividade do músculo SA [F(2.713)=10.515; p = .003;
η2 = .38]. Nesse caso foi possível observar que a superfície instável foi
responsável pela diminuição da atividade do SA, no grupo controle, em relação à
superfície estável, nos exercícios KPU (p = .02) e OKP (p = .03). Para o grupo
SIO, foi observado efeito do tipo de exercício sobre a atividade dos músculos
TI [F(2.713)=6.766; p = .001; η2 = .25] e SA [F(2.713) =10.515; p = .003; η2 =
.38]. Foram observados menores valores EMG no exercício OKP instável em relação
ao KPU estável, tanto para o TI (p = .01), quanto para o SA (p = .001). Nos
demais músculos não se evidenciou efeito dos diferentes tipos de exercício
sobre a atividade EMG.
Referente à comparação dos níveis de atividade EMG dos quatro músculos em cada
exercício, foi possível observar, no grupo SIO, nenhuma diferença estatística
nos exercícios KPU estável [F(2.760) = 2.150; p = .104], KPU instável [F(2.760)
= 1.053; p = .376], OKP estável [F (2.760) = 2.590; p = .061] e OKP instável [F
(2.760) = 1.101; p = .356]. No grupo controle, a análise de variância
identificou diferenças na atividade EMG entre os músculos no exercício KPU
estável [F(2.760) = 4.398; p = .001; η2 = .20], com maior atividade do SA em
relação ao TS (p = .001). Por outro lado, no exercício KPU instável não foram
observadas diferenças significativas [F(2.760) = 2.212; p = .096]. No exercício
OKP instável foi evidenciada diferença significativa na atividade EMG entre os
músculos [F(2.760) = 3.505; p = .021; η2 = .16], com maior atividade do SA
comparado ao músculo TI (p = .04). Por fim, no exercício OKP estável se
observou um maior número de diferenças estatísticas [F(2.760) = 8.199; p =
.001; η2 = .32 ]. Nesse casso, a atividade EMG do músculo SA foi superior em
relação ao TS (p = .001), TM (p= .04) e ao TI (p = .001).
Razão TS/SA e TS/TI
Na tabela_3 estão descritos os valores das razões TS/SA e TS/TI, nos diferentes
grupos e exercícios. A análise de variância evidenciou nenhum efeito dos grupos
nas razões TS/SA [F(4.195) = 0.035; p = .853] e TS/TI [F(4.195) = 1.171; p =
.288]. Também não foi observada interação entre grupos e diferentes exercícios
para os valores das razões TS/SA [F(4.195) = 0.223; p = .640] e TS/TI [F(4.195)
= 0.262; p = .613].
No entanto, a razão TS/SA foi influenciada pelo tipo de exercício [F(4.195) =
4.497; p = .04; η2 = .10]. Nesse caso, a superfície instável foi responsável
pelo aumento significativo dessa variável durante a execução dos exercícios KPU
(p = .03) e OKP (p =.03), no grupo SIO. Entretanto, para os valores da razão
TS/TI não foi verificado nenhum efeito do tipo de exercício [F(4.195) = 1.105;
p = .302].
No grupo SIO, os resultados mostraram que a razão TS/TI apresentou valores
superiores à razão TS/SA durante a realização dos exercícios OKP estável (p =
.038), OKP instável (p = .013) e KPU instável (p = .048). No entanto, nenhuma
diferença foi observada entre as razões no exercício KPU estável (p = .295). No
grupo controle não foram observadas diferenças entre as razões no exercício KPU
realizado em ambas as superfícies de apoio (estável ' p = .120; instável ' p =
. 164). No entanto, no exercício OKP, em ambas as superfícies, foram observados
maiores valores da razão TS/TI em comparação à razão TS/SA (estável ' p = .012;
instável ' p = .004). (Tabela_3).
DISCUSSÃO
O objetivo do presente estudo foi avaliar e comparar a atividade muscular dos
estabilizadores da escápula entre praticantes de atividade física com e sem
histórico de síndrome do impacto durante quatro exercícios de cadeia cinética
fechada. Vários autores (Andrade, Araújo, Tucci, Martins, & Oliveira, 2011;
Araújo, Andrade, Tucci, Martins, & Oliveira, 2011; Ludewig et al., 2004;
Martins et al., 2008; Oliveira et al., 2008; Tucker et al., 2010) têm avaliado
e sugerido a inserção de exercícios de cadeia cinética fechada, tais como push
up, em programas de reabilitação com o objetivo de fortalecimento dos músculos
escapulares, em especial o serrátil anterior.
A busca pelo fortalecimento e reequilíbrio de forças entre os músculos serrátil
anterior e trapézio se justifica, pois indivíduos com SIO geralmente apresentam
aumento da atividade do trapézio fibras superiores e diminuição da atividade do
serrátil anterior e alteração da cinemática escapular (Ludewig & Cook,
2000; Ludewig et al., 2004). No presente estudo observou-se que a atividade
desses músculos variou conforme o tipo de exercício e a base de apoio.
Os resultados evidenciaram, no grupo controle, maior atividade do músculo SA em
relação ao TS nas tarefas realizadas sobre base estável. No entanto, o mesmo
comportamento não foi observado no grupo SIO, não existindo diferença
estatística na atividade do SA em relação aos demais músculos.
Em ambos os grupos foi possível observar que a realização do exercício com
apoio unilateral sobre a superfície instável proporcionou a diminuição
significativa da atividade do SA, dados esses, que corroboram os estudos de
Oliveira, De Morais, & De Brum (2008) e Tucker, Armstrong, Gribble,
Timmons, & Yeasting (2010). Entretanto, Araújo, Andrade, Tucci, Martins,
& Oliveira (2011) ao avaliarem o efeito da superfície instável na atividade
EMG de músculos do membro superior durante realização do exercício push up, não
observaram diferenças na ativação do músculo SA em resposta a instabilidade.
Essas divergências podem estar relacionadas ao fato do estudo de Araújo et al
(2011) ter controlado a carga exercida durante os exercícios, diferentemente do
presente estudo e das pesquisas anteriores (Oliveira et al., 2008; Tucker et
al., 2010). O controle da carga por meio do feedback sonoroso utilizado no
estudo de Araújo et al (2011) parece ter contribuído para que os voluntários
mantivessem níveis similares de ativação do SA. Por outro lado, os voluntários
do presente estudo podem ter apenas se concentrado na manutenção do equilíbrio
postural e inconscientemente podem ter descuidado em relação ao nível de
esforço exercido, independente do comando verbal aplicado.
A instabilidade gerada na superfície de apoio durante os exercícios acarreta
mudanças na ativação dos músculos escapulares para garantir estabilidade ao
ombro (Andrade et al., 2011; Lehman, Gillas, & Patel, 2008; Tucci et al.,
2011). Conforme observado no presente estudo, nos indivíduos assintomáticos, a
ativação do SA, considerado o principal estabilizador da escápula, foi superior
a dos demais músculos durante OKP estável, assim como, superior à ativação do
TS no KPU estável e instável e superior ao TI no OKP instável. Este pode ser
considerado um mecanismo normal e necessário à sustentação e execução das
tarefas solicitadas, bem como à manutenção da estabilidade do complexo
articular do ombro. O fato de que esse comportamento não tenha sido observado
nos indivíduos com a SIO pode sugerir a presença de um desequilíbrio de forças
entre os músculos escapulares, em especial o SA, e sugere que as estratégias
motoras adotadas nesse grupo não sejam suficientes para prover adequada
estabilidade à articulação (Cools et al., 2007; De Morais Faria, Teixeira-
Salmela, De Paula Goulart, & De Souza Moraes, 2008; Hardwick, Beebe,
McDonnell, & Lang, 2006).
Em relação às razões EMG, foi observado maior valor da razão TS/TI em relação à
TS/SA no grupo controle durante o OKP estável e instável. Ressaltando que não
foram observadas diferenças na ativação do TS ou TI nestes exercícios, não
sendo possível determinar, se a razão elevada deve-se a maior ativação do TS ou
diminuição do TI. Entretanto, foi observada maior ativação do SA em relação aos
demais músculos neste exercício, fato que pode justificar os menores valores
para razão EMG entre este músculo e o TS. Ainda no grupo controle foi possível
observar que a superfície instável não alterou os valores das razões TS/SA e
TS/TI, corroborando os resultados de Martins et al (2008) que ao avaliar a
razão TS/SA durante exercícios em CCF, entre os quais o push up nas bases
estável e instável, semelhante ao OKP do presente estudo, não encontraram
diferença significativa entre as superfícies.
Outro aspecto importante é o valor da razão TS/SA, que no presente estudo
apresentou médias variando entre 0.40 e 0.69, o que representa razões de
ativação consideradas moderadas e divergem de estudos prévios (Ludewig et al.,
2004; Martins et al., 2008) que encontraram razões TS/SA com valores
considerados baixos, ou seja, próximos à 0.30. Essas diferenças podem ser
explicadas pelas diferenças da amostra, uma vez que Martins et al (2008)
avaliaram homens sedentários e o presente estudo avaliou praticantes regulares
de atividade física. Em relação à divergência com os resultados de Ludewig,
Hoff, Osowski, Meschke, & Rundquist (2004), a justificativa cabe às
diferenças existentes na execução do exercício, o qual foi realizado de forma
dinâmica e com incremento da fase de protração escapular, enquanto o presente
estudo avaliou o exercício realizado de forma isométrica.
Para o grupo SIO foi observada também maior razão TS/TI comparada a TS/SA na
maioria das situações avaliadas. Esses resultados sugerem que nestes
indivíduos, pode existir de fato um desequilíbrio na ativação destes grupos
musculares, seja devido à ativação excessiva do TS ou diminuição da atividade
do TI e SA, que pode resultar principalmente, na diminuição do tipping e
rotação superior da escápula, contribuindo para alterações na cinemática
escapular (Ludewig & Cook, 2000).
Apesar disso, o fato que melhor evidenciou a presença do desequilíbrio dos
músculos estabilizadores da escápula nos voluntários do grupo SIO, foi
justamente o aumento significativo da razão TS/SA com o incremento da
superfície instável. Nesses exercícios, a presença da superfície instável impõe
maior estresse ao sistema neuromuscular, fazendo com que aumente a demanda pela
manutenção e controle da estabilização escapular, aquisições essas que deveriam
ser garantidas principalmente pela sobreposição da ação do músculo SA em
relação ao TS (Ludewig et al., 2004). No entanto, o observado no presente
estudo foi justamente o contrário, visto que os valores das razões EMG
aumentaram, indicando que proporcionalmente ocorreu um aumento da atividade do
TS em relação ao SA.
Os resultados encontrados no presente estudo fornecem dados importantes para a
elaboração de programas de reabilitação para indivíduos com SIO, baseados na
possível correção do desequilíbrio muscular entre os estabilizadores
escapulares, considerando não somente o SA, mas também o TI como importantes
estabilizadores do ângulo inferior da escápula (Park & Yoo, 2011). Nesse
sentido, a inclusão de exercícios em CCF continua sendo opção interessante para
o processo de treinamento neuromuscular, com ganhos moderados de força, visto
que os níveis da atividade muscular ficaram próximos a faixa de 20 % e 40% da
CVM (DiGiovine, Jobe, Pink, & Perry, 1992).
Além disso, o presente estudo abre um espaço para discussão sobre qual o melhor
momento para a inserção da superfície instável no processo de reabilitação,
visto que a resposta neuromuscular dos voluntários do grupo SIO divergiu do
grupo controle e do que se era esperado. Apesar de se tratar de indivíduos
fisicamente ativos, foi possível observar a presença de desequilíbrio nos
músculos estabilizadores da escápula, o que talvez sugira a necessidade de se
trabalhar, previamente à inserção da superfície instável, o fortalecimento
seletivo dos músculos SA e TI em situações que a escápula esteja melhor
estabilizada, a exemplo do exercício bench-press para o SA (Araújo et al.,
2009; Tucci et al., 2011) , e exercícios em cadeia cinética aberta para o TI
(McLean, Arlotta, & Lo Vasco, 2011).
Limitações e Estudos futuros
A análise do sinal EMG foi realizada durante a realização dos exercícios de
forma isométrica, não permitindo a generalização dos resultados para atividades
dinâmicas. Além disso, no presente estudo não foi controlada a carga gerada em
cada tarefa. No entanto, a realização de contrações isométricas permitiu uma
análise mais confiável dos dados EMG, além disso, a proposta do estudo foi
analisar exercícios que fazem parte das fases iniciais dos programas de
reabilitação. A partir desses resultados, estudos futuros podem investigar o
comportamento dos músculos durante a execução dinâmica desses exercícios, a fim
de estabelecer evidências que suportem não somente sua inserção, mas também
predigam o melhor momento da sua inclusão nos programas de reabilitação.
CONCLUSÕES
Os resultados do estudo evidenciaram diferentes respostas de ativação muscular
nos indivíduos assintomáticos e com SIO frente a condições que alteram a
estabilidade da base de apoio, uma vez que foram observadas maiores razões EMG
nos exercícios em base instável, no grupo sintomático.