Efeito da distância sobre o arremesso no basquetebol desempenhado por crianças
O arremesso tipo jump (ATJ) pode ser considerado a técnica de arremesso mais
importante no basquetebol pelas vantagens que apresenta em relação aos demais
tipos de arremessos (Okazaki, Rodaki, Sarraf, Dezan & Okazaki, 2004). As
vantagens do ATJ são associadas à obtenção de maior precisão, maior velocidade
em sua realização, melhor proteção contra marcação e melhor desempenho em
diversas distâncias da cesta (Okazaki, Okazaki, Rodacki & Lima, 2009).
Estes critérios evidenciam ser o ATJ a técnica de arremesso mais eficiente e
também a mais utilizada no basquetebol, independente da função desempenhada
pelos jogadores (Knudson, 1993; Okazaki et al., 2004). Por outro lado, o ATJ é
uma habilidade motora especializada, que envolve padrão distinto do movimento
fundamental de arremessar. Sua complexidade técnica a torna difícil de ser
ensinada às crianças iniciantes no basquetebol e faz necessário que as
variáveis associadas ao seu desempenho sejam amplamente investigadas.
O ATJ de crianças apresenta diferenças motoras e físicas em relação aos
arremessos desempenhados por adultos experientes (Okazaki, Rodacki, Dezan &
Sarraf, 2006b). Okazaki e colaboradores (2006b) demonstraram que crianças
utilizam a estratégia de arremessar a bola por meio de movimento em fase, no
qual as articulações dos membros superiores (ombro, cotovelo e punho) realizam
uma ação simultânea para lançar a bola. Tal estratégia tem sido relacionada à
simplificação na demanda de controle do sistema nervoso central para facilitar
a regulação do movimento (Newell & Vaillancourt, 2001; Temprado, Della-
Grasta, Farrel & Laurent, 1997; Vereijken, Van Emmerik, Whiting &
Newell, 1992). Esta facilitação no controle do movimento diminui o
aproveitamento da energia reativa do movimento (Newell & Vaillancourt,
2001; Vereijken et al., 1992; Hudson, 1986), e da energia de um pré-estiramento
na musculatura extensora do cotovelo num contramovimento (Hudson, 1986; Okazaki
, Rodacki & Okazaki, 2006a). Além disso, ainda limita a transferência de
energia de uma articulação para a outra através de uma sequência próximo-distal
(Okazaki et al., 2006a; Okazaki, Okazaki & Kopp, 2008a), como tem sido
reportado em adultos habilidosos (Elliott, 1992; Okazaki et al., 2006b; Okazaki
et al, 2009). Deste modo, é possível afirmar que o ATJ de crianças possui
estratégias coordenativas distintas e menos eficientes quando comparadas à
adultos experientes.
Outra característica do ATJ de crianças é a dificuldade em sincronizar o
lançamento da bola com os instantes em que os maiores valores das velocidades
angulares ocorrem nas articulações (ombro, cotovelo e punho) responsáveis pelo
lançamento da bola (Okazaki & Rodacki, 2005; Okazaki et al., 2006b). Esta
limitação, associada à pequena capacidade em gerar força para lançar a bola,
pode acarretar em maior utilização da articulação do ombro no lançamento para
estabilização do movimento. Além disso, em crianças a articulação do ombro
também parece contribuir para a determinação da altura e do ângulo ótimo de
lançamento da bola (Knudson, 1993). Grande amplitude de flexão de ombro é
sugerida para tentar garantir maior ângulo e altura de lançamento da bola
(Knudson, 1993). A utilização de grandes ângulos de lançamento permite maiores
ângulos de entrada da bola na cesta, o que implica em maior área de passagem da
bola dentro da cesta (alvo virtual; cf. Miller & Bartlett, 1996). Já a
maior altura de lançamento implica em menor trajetória para a bola chegar à
cesta. Como a redução na trajetória demanda menor geração de impulso mecânico,
tal fator pode auxiliar na manutenção da precisão, pois quanto maior a geração
de impulso, maior a variabilidade da resposta de movimento, ou seja, menor
precisão (Meyer, Abrams, Kornblum, Wright & Smith, 1988; Schmidt, Zelaznik,
Hawkins, Frank & Quinn, 1979). Entretanto, são necessários estudos que
analisem o efeito de variáveis capazes de modificar as estratégias de regulação
da geração de impulso e da manutenção da precisão do arremesso em crianças para
melhor compreensão do papel das articulações no movimento. Especialmente,
porque, tratando-se o ombro de uma articulação proximal, pequenas mudanças
nesta articulação podem levar às grandes variações na posição da mão para
lançar a bola, gerando maior instabilidade e, consequentemente, menor precisão
do arremesso.
A geração de impulso e os níveis de precisão do arremesso também são
influenciados pela alteração na distância do arremesso. O aumento da distância
torna necessário maior produção de impulso para lançar a bola e maior precisão
para arremessar. O aumento no impulso decorre do aumento na trajetória que a
bola deve percorrer com o acréscimo na distância. Já a maior precisão é
necessária devido à menor possibilidade de erro (menor alvo virtual) decorrente
do aumento na distância do arremesso. Em adultos, algumas estratégias de
organização do movimento têm sido verificadas. Uma delas é o aumento da
distância no arremesso como maior flexão do ombro e extensão do cotovelo,
associados ao aumento na velocidade do centro de massa do indivíduo em direção
à cesta, como mecanismo compensatório à medida que a distância do arremesso foi
aumentada (Miller & Bartlett, 1993). Com isso, os autores sugerem maior
papel do ombro e do cotovelo na geração de impulso para lançar a bola e maior
papel do punho para a manutenção da precisão no arremesso (Miller &
Bartlett, 1993). A análise das diferentes estratégias de controle no arremesso
desempenhado por adultos como efeito da manipulação da variável distância não
tem, até o momento, sua contrapartida para a análise do ATJ em crianças.
A análise do desempenho do arremesso de crianças, em função do aumento da
distância, pode auxiliar na compreensão das variáveis que influenciam as
estratégias de geração de impulso e da manutenção na precisão para lançar a
bola. E, deste modo, contribuir para a otimização do processo ensino-
aprendizagem, através de subsídios para um treinamento mais especializado.
Dentro deste escopo, o presente estudo objetivou investigar o efeito do aumento
na distância sobre o desempenho do ATJ de crianças. Foi levantada a hipótese de
que o ombro é uma das principais articulações responsáveis pela geração de
impulso no arremesso em maiores distâncias, que será inferido por meio de
maiores amplitude e velocidade no instante de lançamento da bola. Ainda, que as
crianças utilizam a estratégia de aumentar a velocidade concomitantemente nas
articulações (ombro, cotovelo e punho) do membro responsável por lançar a bola.
MÉTODO
Amostra
Quinze crianças destras do sexo masculino (idade M = 12.1 anos e DP = 1.44;
peso M = 53.3 kg e DP = 14.4; estatura M = 1.62 m e DP = 0.16) foram
aleatoriamente selecionadas para participar do estudo. As crianças realizavam
três sessões de treinamento por semana com a prática sistemática de basquetebol
(experiência M = 1.3 anos e DP = 1.2). Não foram reportadas lesões, fadiga ou
outros fatores que pudessem interferir na realização do arremesso. Os
responsáveis e as crianças assinaram um termo de consentimento livre e
esclarecido de participação para o estudo. Os procedimentos do estudo foram
aprovados pelo comitê de ética em pesquisa da universidade local.
Procedimentos
Antes da filmagem dos arremessos, foi permitido aos participantes um período de
aquecimento de 10 - 20 minutos. O aquecimento incluiu exercícios generalizados
e específicos de arremessos. Depois do aquecimento, marcas autorreflexivas (1.5
cm de diâmetro) foram afixadas sobre a pele e roupas dos participantes para
identificar os centros articulares segundo o modelo biomecânico proposto
(figura_1). Foram utilizadas as seguintes referências anatômicas para a
elaboração do modelo biomecânico: (1) eixo articular da 5ª falange do pé ' base
do 5º metatarso falangeano, (2) tornozelo ' maléolo lateral da fíbula, (3)
joelho ' epicôndilo lateral do fêmur, (4) quadril ' trocânter maior do fêmur,
(5) tronco ' crista ilíaca, (6) ombro ' tubérculo maior do úmero (3-5 cm abaixo
do acrômio), (7) cotovelo ' epicôndilo lateral do úmero, (8) punho ' processo
estiloide da ulna, (9) eixo articular da 5ª falange ' base do 5º metacarpo
falangeano (figura_1). Após, os participantes realizaram mais uma série de
arremessos, durante aproximadamente dois minutos, para adaptar a movimentação
corporal às marcas autorreflexivas colocadas. A seguir, foram filmados dez
arremessos realizados por cada um dos participantes. Foi solicitado aos
participantes que realizassem arremessos diretamente à cesta, sem o recurso da
tabela antes da bola chegar à cesta.
A ordem das distâncias (2.8 m, 4.6 m e 6.4 m) foram randomizadas entre os
sujeitos para a realização dos arremessos. Foi permitido um intervalo de
descanso, sempre que solicitado pelas crianças, para evitar qualquer
aparecimento de fadiga. A análise cinemática foi realizada em duas dimensões.
Uma filmadora (JVC modelo GR-DVL 9500E, Japan) com frequência de amostragem de
100 Hz foi posicionada aproximadamente a 8 m do plano sagital do lado preferido
dos participantes (lado direito). O local de filmagem foi representado
esquematicamente na figura_2. Três arremessos bem sucedidos, da série dos dez
arremessos filmados, foram aleatoriamente selecionados para as análises
cinemáticas do arremesso. Em situações nas quais as crianças não conseguiram
três arremessos bem sucedidos, foram realizados arremessos complementares.
Estes arremessos complementares não foram utilizados no cálculo da precisão dos
arremessos.
O início do movimento foi definido no instante em que os participantes
iniciaram a elevação da bola (flexão do ombro ou do cotovelo) enquanto o final
foi definido 0.1 segundo (10 quadros) depois do lançamento da bola (instante em
que a bola perde o contato com a mão). As marcas do modelo biomecânico foram
manualmente digitalizadas por um único avaliador experiente por meio de um
software específico para análise de movimento (SIMI Motion®). O centro da bola
foi digitalizado e utilizado para identificar os parâmetros relacionados à sua
trajetória.
O ângulo, a altura (deslocamento linear vertical), e a velocidade (vertical,
horizontal e resultante) no instante de lançamento da bola foram analisados. O
ângulo de lançamento foi obtido através da determinação de um ângulo formado
pela trajetória da bola e de uma linha horizontal, calculados após 0.05
segundos do instante de liberação da bola. Através dos pontos anatômicos
descritos na Figura_1 como parâmetros cinemáticos para análise do movimento do
arremesso foram determinadas as seguintes variáveis: (a) maior e menor
deslocamento angular; (b) amplitude angular; (c) ângulo no instante de
lançamento; (d) maior e menor velocidade angular; (e) tempo de movimento total
e até o instante de lançamento. O deslocamento e a velocidade linear do centro
de massa também foram analisados. O centro de massa foi analisado por meio da
marca do modelo biomecânico colocada para representar o quadril. Assim, foi
assumido que esta marca no quadril teria comportamento próximo ao apresentado
pelo centro de massa (cf. Abernethy et al., 2005, p.69). A precisão dos
arremessos foi analisada de acordo com a representação esquemática da figura_3.
Um filtro recursivo passa baixa do tipo Butterworth de 4º ordem foi aplicado
para reduzir os componentes de frequência mais altos. Foi utilizada uma
frequência de corte de 6 Hz determinada por meio do método de análise residual
(Winter, 1990). A determinação da intensidade da filtragem foi realizada com
base no deslocamento angular do cotovelo, pelo fato desta articulação
apresentar maiores velocidades angulares. Depois da filtragem, o deslocamento e
a velocidade angulares foram calculados.
A precisão na digitalização dos dados foi determinada pela análise de um vídeo
aleatoriamente selecionado, o qual foi digitalizado três vezes e as variáveis
do cotovelo calculadas. Uma ANOVA com medidas repetidas demonstrou não haver
diferenças entre as tentativas e as comparações absolutas não apresentaram
diferenças significantes (erros < 1%) tanto para o deslocamento, para a
velocidade angular e deslocamento linear (p > .0).
Análise Estatística
Inicialmente, os dados foram analisados utilizando estatística descritiva
(média e desvio padrão). Os testes de Kolmogorov-Smirnov e Hartley foram
utilizados para verificar a normalidade e a homogeneidade, respetivamente. A
comparação entre as condições de distância, para as variáveis cinemáticas
(espaciais e temporais) e da precisão do arremesso foi realizada através de uma
ANOVA com medidas repetidas. A comparação posterior foi realizada pelo teste de
Tukey. As análises estatísticas foram realizadas com nível de significância
estabelecido em p ≤ .05.
RESULTADOS
As variáveis que descreveram a trajetória da bola, em função do efeito da
distância no arremesso em crianças, foram expressas na tabela_1. Na tabela_2
encontram-se as variáveis relativas ao comportamento do centro de massa. As
variáveis cinemáticas de deslocamento angular e de velocidade angular, foram
expressas nas tabelas 3 e 4, respetivamente.
Tabela_1
Tabela_2
Tabela_3
Tabela_4
DISCUSSÃO
Os resultados do presente estudo contribuem para explicar a diminuição na
precisão do arremesso com o aumento na distância do arremesso tipo jump (ATJ)
em crianças. Com o aumento na distância do ATJ, ocorre maior demanda de impulso
para realização do arremesso. Além disso, à medida que a distância do arremesso
aumenta, o tamanho do alvo virtual diminui (Brancazio, 1981; Miller &
Bartlett, 1993), provocando maior demanda na acurácia. Nessas situações, a
maior produção de força necessária para suprir a necessidade de impulso
ocasiona alterações cinemáticas no movimento. Da mesma forma, a manutenção da
acurácia também exige ajustes cinemáticos. No presente estudo, as crianças não
se mostraram capazes de realizar de maneira eficiente as alterações nas
estratégias de controle para que o desempenho fosse mantido frente à maior
demanda por força produzida e acurácia no ATJ.
Houve modificação significante em todas as variáveis cinemáticas relacionadas à
trajetória da bola com o aumento da distância de arremesso, com exceção no
tempo total e no tempo até o lançamento. O aumento da velocidade resultante de
lançamento, decorrente dos aumentos de velocidade vertical e horizontal, além
da diminuição da altura e ângulo de lançamento refletem claramente ajustes no
movimento com o objetivo de cumprir a tarefa, caracterizando o aumento na
demanda de geração de força para a realização de arremessos mais longos. Além
disso, alterações de altura e ângulo de lançamento têm sido relacionadas à
diminuição na precisão do arremesso (Knudson, 1993) e estão em consonância com
resultados verificados em arremessos de adultos com o acréscimo na distância
(Miller & Bartlett, 1996; Satern, 1993).
A menor altura de lançamento pode ocorrer em função de diferentes fatores, tais
como a redução na altura do salto (Elliott, 1992), o lançamento da bola antes
do ponto mais alto do salto (Knudson, 1993), diminuição na flexão do ombro
(Elliott & White, 1989; Miller & Bartlett, 1993), diminuição na
extensão do cotovelo no instante de lançamento da bola (Knudson, 1993), e maior
inclinação do tronco para frente (Elliott & White, 1989). No presente
estudo, as crianças apenas demonstraram redução na altura do salto na distância
de lance livre, em comparação às demais distâncias. Mudanças mais expressivas
no deslocamento do centro de massa para ATJ mais longos ocorreram com
significância para a velocidade vertical total, sendo também significante a
velocidade vertical do centro de massa no instante de lançamento, o que pode
estar relacionado à tentativa de gerar maior impulso ao movimento com o aumento
na distância de arremesso.
A maior velocidade vertical no ato do arremesso indica que o lançamento da bola
ocorreu antes do instante de maior altura de salto. Pois, arremessos realizados
no instante de maior altura de salto devem coincidir com velocidade nula do
centro de massa. A estratégia de lançar a bola antes do ápice do salto pode
contribuir para o aproveitamento da energia gerada no salto para otimizar a
geração de impulso no lançamento da bola (Elliott, 1992; Knudson, 1993). Esta
estratégia tem sido verificada no desempenho de crianças (Rodacki &
Okazaki, 2005), atletas com menor capacidade em gerar força (Okazaki et al.,
2006b) e em arremessos realizados em longas distâncias da cesta (Elliott,
1992).
O aumento na distância do arremesso também implicou no aumento do deslocamento
horizontal, tanto durante a realização do arremesso quanto no instante de
lançamento, e no aumento da velocidade horizontal no centro de massa. Esta
estratégia também pareceu contribuir com o aproveitamento da energia produzida
pelo deslocamento do corpo para aumentar a geração de impulso no lançamento da
bola. Este comportamento também foi verificado em outros estudos, com
indivíduos adultos (Elliott, 1992; Miller & Bartlett, 1996; Satern, 1993;
Walters, Hudson & Bird, 1990). Porém, esta estratégia parece ter efeito
negativo sobre a precisão no arremesso, em função da redução na estabilidade de
movimento (Elliott, 1992; Knudson, 1993; Okazaki et al., 2006b). Uma maior
estabilidade é verificada no instante em que a velocidade vertical e horizontal
se aproxima de zero, ou seja, no ponto mais alto do salto e com o menor
deslocamento antero-posterior possível. Assim, a reorganização cinemática do
movimento das crianças visando cumprir a tarefa empregando maior velocidade ao
centro de massa não parece ter sido suficiente para manter o mesmo desempenho
com o aumento da distância.
O aumento das velocidades horizontais e verticais com o aumento da distância
reflete maiores amplitudes de movimento em diversas articulações, tanto de
membros inferiores quanto superiores, tais como: tornozelos, joelhos, quadril,
tronco, cotovelo e punho. Verifica-se, portanto, a repercussão ao longo de todo
o corpo na modificação das estratégias de controle no movimento para cumprir a
demanda do aumento na distância de arremesso. Por outro lado, arremessos mais
longos não demonstraram diminuir o ângulo de flexão do ombro e de extensão do
cotovelo. Logo, a redução na altura de lançamento da bola pareceu ser mais
influenciada, em relação à organização do movimento, pela inclinação do tronco
à frente no instante de liberação da bola. Esta maior inclinação à frente no
instante de lançamento da bola também contribui para explicar o menor ângulo de
lançamento da bola. Esta característica difere de resultados verificados em
adultos, para os quais tem sido proposto que o ângulo de lançamento da bola
seria mais relacionado ao ângulo de flexão do ombro (Okazaki et al., 2008a).
Tais resultados foram utilizados para refutar a hipótese que apontou o ombro
como a principal articulação responsável geração de impulso em maiores
distâncias.
Finalmente, a maior amplitude articular implicou em aumento na velocidade
angular de tornozelos, joelhos, quadril, tronco, ombro, cotovelo e punho. Ou
seja, todas as articulações envolvidas se deslocaram mais rapidamente com o
aumento da distância, resultando na maior velocidade de lançamento da bola nas
maiores distâncias. Deste modo, foi aceita a hipótese que afirmou a estratégia
de aumentar a velocidade concomitantemente nas articulações do membro
responsável por lançar a bola. Maiores valores de velocidade angular também têm
sido verificados, no arremesso desempenhado por adultos, na articulação do
ombro (Elliott & White, 1989; Miller & Bartlett, 1996; Satern, 1993),
do cotovelo (Miller & Bartlett, 1993, 1996; Satern, 1993) e do punho
(Rodacki, Okazaki, Sarraf & Dezan, 2005). Contudo, de forma geral, os
adultos não tendem a aumentar a velocidade angular de todas as articulações dos
membros inferiores, do tronco e dos membros superiores, em função do acréscimo
na distância de arremesso. Pois, em função da relação inversa velocidade-
precisão (Fitts, 1954), o aumento na geração de velocidade ao redor das
articulações comprometeria a precisão do arremesso.
Tem sido sugerida a articulação do punho como uma das principais responsáveis
pela manutenção da precisão do arremesso (Miller & Bartlett, 1993, 1996).
Isto porque esta articulação é a mais distal (sem levar em consideração as
articulações das falanges) e faz a junção do segmento (mão) que tocaria por
último na bola. No instante do lançamento da bola, apenas o punho apresentou
aumento significante da velocidade de flexão, com o aumento na distância de
arremesso. Assim, as crianças pareceram utilizar a articulação do punho para
auxiliar na geração de impulso na medida em que a distância do arremesso foi
aumentada. Por conseguinte, aparentemente, as crianças utilizaram uma
estratégia que privilegiou a geração de impulso para compensar o aumento na
distância de arremesso, com possível detrimento em sua precisão.
Estas alterações cinemáticas verificadas no arremesso das crianças, em função
da manipulação na distância, sugerem que as articulações relacionadas aos
segmentos braço, antebraço e mão (i.e. ombro, cotovelo e punho) teriam
basicamente a mesma importância na geração de impulso para o lançamento e na
manutenção da precisão do arremesso. Pois, ainda que uma articulação tenha
maior potencial em gerar impulso para lançar a bola (i.e. o cotovelo ou o
ombro, em comparação ao punho), em distâncias mais próximas à cesta o arremesso
poderia ser desempenhado basicamente pelas articulações mais distais com menor
ação (maior restrição) das articulações mais proximais. Por outro lado, em
arremessos mais distantes da cesta, apenas as alterações no segmento que detém
o último toque na bola (mão) não seria suficiente para garantir a precisão do
arremesso, pois seu ângulo de lançamento também dependeria da participação de
outras articulações (tronco e ombro, por exemplo). Ou seja, é possível sugerir
a existência de uma única sinergia na organização do movimento de arremesso no
basquetebol. Vale ressaltar ainda que, em contextos reais de prática, esta
sinergia dependeria das restrições do ambiente (presença de um oponente,
arremesso livre, etc.), da tarefa (tipo de arremesso, distância do arremesso,
etc.) e do arremessador (dinâmica intrínseca, ou seja, aspetos físicos e
motores).
No caso particular das crianças, as estratégias ímpares de arremesso aqui
verificadas em resposta à variação de distância do ATJ podem ser atribuídas às
suas características físicas e motoras, em comparação aos estudos realizados
com adultos. Os resultados, em conjunto, indicam que a diminuição da precisão
do ATJ com o aumento na distância pode estar relacionada ao maior impulso para
lançar a bola. Isto porque em arremessos mais longos a bola deve percorrer
maior trajetória para chegar até a cesta, conforme evidenciado na literatura
(Satern, 1993; Walters et al., 1990) e confirmado em nossos dados. O aumento do
impulso, por sua vez, depende de alterações cinemáticas, suficientes para
ampliar a trajetória da bola, mas insuficientes para a manutenção da sua
precisão. Desta forma, baseadas nas variáveis analisadas, foram constatadas
relações entre variáveis cinemáticas e precisão que podem contribuir para
explicar o decréscimo de desempenho. Consequentemente, estes achados geram
informação útil para a melhor orientação no processo de treinamento,
especialmente na iniciação do basquetebol.
CONCLUSÕES
Foi estabelecida evidente relação entre distância/precisão no ATJ com
alterações cinemáticas que implicaram em modificação nas estratégias de
controle no arremesso das crianças. Uma vez que tais estratégias de controle no
movimento falharam na tentativa de manter a precisão, esta informação deve ser
levada em conta na formulação de sessões de treinamentos, assim como na
formulação das regras de disputa das categorias etárias envolvendo crianças e
jovens iniciantes no basquetebol. Foi sugerida a realização do ATJ com grandes
altura e ângulo de lançamento da bola, mas, que não demande grande geração de
velocidade de lançamento. Ademais, devem-se evitar movimentos com exacerbada
geração de força nas articulações responsáveis por lançar a bola e grandes
deslocamentos para frente durante o salto. Pois, tais fatores podem diminuir a
estabilidade e, consequentemente, a precisão dos arremessos. Estudos que
manipulem a velocidade, o ângulo e a altura de lançamento da bola no arremesso
de crianças, além da manipulação de interferências contextuais, devem ser
realizados com o objetivo de oferecer suporte às propostas de intervenção no
processo de ensino-aprendizagem do ATJ no basquetebol.