Preconceito e esportes de aventura: A (não) presença feminina
As atividades de aventura e o turismo de aventura representam um nicho de
mercado de bastante sucesso, dentro das opções relacionadas ao entretenimento e
ao lazer na atualidade. Derivadas desta perspectiva foram criadas determinadas
sistematizações que levaram ao surgimento de algumas modalidades de esportes de
aventura. Estas atividades possuem características bastante atraentes e
persuasivas, voltadas, especialmente, ao contato com a instabilidade do
ambiente natural e com experimentações baseadas em risco controlado, o que pode
propiciar sensações inusitadas, assim como fortes emoções.
Os esportes de aventura costumam atrair a atenção de atletas arrojados e ávidos
por pertencerem a um seleto grupo de aventureiros, que parecem se deslumbrar
com a representação do mito do herói e da eterna juventude, associado ao
imaginário dessas técnicas. Porém, suas reais características são ainda
praticamente desconhecidas, tendo em vista a carência de reflexões a respeito
dessas modalidades. No âmbito da Psicologia do Esporte, poucos estudos já foram
efetivados, no sentido, principalmente, de se conhecer os motivos de adesão a
estas práticas. Entretanto, no que tange às características psicofisiológicas,
muito ainda se tem que investigar. Talvez, uma das razões para esta falta de
atenção da academia para com estes esportes tenha relação com a dificuldade de
atuação e de coleta de dados em um setting altamente diferenciado (ambiente
natural), contendo inúmeras variáveis de difícil controle.
O esporte de aventura e os atletas já são uma realidade, merecendo o olhar da
academia sobre os inúmeros parâmetros ainda a serem investigados neste
contexto. Um dos pontos que chamam a atenção, quando o foco recai nos esportes
de aventura, é a questão da diferenciação de gênero. Conquanto algumas
modalidades de esportes de aventura já recebam o público feminino de modo mais
natural, especialmente devido aos ditames de regras próprias para a composição
de equipes, como é o caso da corrida de aventura, para que este público se
insira no âmbito de outras modalidades, parece ainda haver uma série de
quesitos, os quais, não raro, dificultam esse acesso.
Quando se analisam diretamente os esportes de aventura, pode-se constatar a
escassez de mulheres envolvidas, o que revigora a tese de que ainda se percebem
inúmeros equívocos e limitações preconceituosas, que se contrapõem como
barreiras impeditivas para a vivência feminina nessas atividades. Essas
barreiras de caráter estigmatizante podem promover o desrespeito às mulheres
que, porventura, não tenham um perfil técnico desenvolvido, ou sendo
consideradas como incompetentes para essas atividades esportivas, somente
levando-se em consideração valores socioculturais retrógrados.
Estes aspectos referentes à questão de preconceito e gênero e da carência de
mulheres envolvidas nos esportes de aventura, representaram a inquietação
geradora deste estudo. Sendo assim, torna-se relevante buscar analisar esse
universo temático, no sentido de se compreender melhor como se dá a inserção da
mulher nas atividades e esportes de aventura na atualidade.
Algumas mulheres já ultrapassaram certas barreiras e desafios culturais e se
impuseram no ambiente do esporte de aventura, tornando-se atletas de diferentes
modalidades. Portanto, este facto se torna bastante instigante, no sentido de
se compreender, no olhar dessas atletas, como se efetivam as relações de gênero
no contexto dos esportes de aventura.
Sendo assim, este trabalho teve por objetivo investigar a aceitação, por parte
dos homens, bem como, possíveis atitudes e condutas preconceituosas, no que
tange à presença feminina nos esportes de aventura, no olhar de atletas já
consagradas no âmbito dos esportes de aventura no Brasil.
Revisão de literatura
A luta feminina pela igualdade de direitos e oportunidades sociais não é nova e
alguns autores salientam que esta percepção de desigualdade se dá em diversos
contextos culturais (Rutland, Killen, & Abrams, 2010). No campo do esporte,
esta desigualdade é bastante patente, o que mereceu a atenção de inúmeros
estudiosos (Oliveira, Cherem, & Tubino, 2008; Valporto, 2006), preocupados
em compreender as relações de poder e gênero envolvidas, no âmbito esportivo.
Nas reflexões promovidas por Gill e Kamphoff (2010), os autores afirmam que a
categoria de gênero está envolvida em diferentes âmbitos da sociedade,
inclusive, no que concerne ao contexto esportivo. Esses autores também
salientam que as perspectivas de foco sobre o feminismo e o multiculturalismo
representam, ainda, fatores que merecem atenção da área acadêmica. Estas
discussões são imprescindíveis, no sentido de favorecer a desconstrução da
hipérbole relativa à supremacia masculina associada ao mundo do esporte, em
busca da justiça de gênero e de suplantar as lacunas impregnadas na realidade
social, reconhecendo-se a importância do papel feminino nessa nova construção
do esporte contemporâneo (Vertinsky, 2010).
A desigualdade de gênero associada ao campo do esporte parece exceder as
quadras e pistas, entrando, agora, na perspectiva das atividades e esportes de
aventura. A mulher, para conseguir suplantar o preconceito arraigado sobre sua
presença nas atividades de aventura, enfrenta diversas barreiras. Entre elas,
podem-se notar as representações sociais de gênero.
O papel feminino sempre foi associado à fraqueza e aos detalhes estéticos,
entre outras características adotadas para a mulher como um valor aceito em
sociedade (Lippa, 2010; Romariz, Devide, & Votre, 2007). Sendo assim, fica
difícil suplantar o pressuposto de que as mulheres são muito femininas para
viverem se machucando, marcando a pele, ou, o que é pior, a consideração de que
são incompetentes para tais atividades. Como afirma Goellner (2003), para a
mulher, parecem ser prerrogativas sociais apenas os atributos de ser bela,
feminina e maternal, desconsiderando-se, ainda, toda a sua potencialidade em
outros papéis assumidos.
Ampliando-se o foco para os esportes de modo geral, pode-se perceber a falta de
reconhecimento dado à figura feminina, ilustrado na dificuldade que estas
possuem para galgar cargos deliberativos nas federações esportivas, ou, de
terem credibilidade para arbitrarem ou dirigirem como técnicas algumas
atividades esportivas, ou mesmo, de receberem patrocínio como atletas, em
relação aos homens. Outra barreira existente é a supremacia da massificação da
figura masculina no esporte, em detrimento da figura feminina (Goellner, 2005).
Isto se pode notar, inclusive, na esfera de propaganda e venda de marcas, em
que os homens são também mais visados.
Estas representações sobre a figura do homem ligada ao esporte têm estreita
relação com o mito do herói, cuja designação imaginária o coloca como portador
de poderes intensos, capazes de superar qualquer obstáculo (Costa, 2000; Costa
& Tubino, 1999). O imaginário relativo à força, potência e virilidade está
diretamente associado ao corpo masculino, pensamento que rechaça a força, a
potência e a garra da mulher atleta (Cheung & Halpern, 2010).
Ao se fazer uma incursão pelas publicações referentes às atividades e esportes
de aventura, pode-se notar que poucos trabalhos estão divulgados focalizando a
figura feminina atuante nesses esportes. Alguns livros já publicados (Gasques,
2002; Ortiz, 2007) reiteram a luta feminina por estratégias capazes de inseri-
las e serem reconhecidas no âmbito dos esportes de aventura.
Entretanto, pode-se perceber que diversos desses livros, basicamente escritos
por homens, fazem apenas alguma menção sobre a presença feminina no esporte de
aventura. Quando citadas, estas figuras femininas se mostram em fotos, apenas
ilustrando a pessoa de alguém famosa ou a foto de uma medalha conquistada, não
havendo registros de mulheres fazendo manobras ousadas ou em ação efetiva na
modalidade (Figueira, 2008).
Ao se atentar o olhar para a divulgação sobre os esportes e atividades de
aventura em diferentes mídias, pode-se perceber, também, a predominância de
reportagens sobre atletas masculinos, em relação às atletas femininas. Estas,
quando são focalizadas pela mídia televisiva, por exemplo, aparecem apenas para
reforçar a beleza, a feminilidade e a vaidade, mas, raramente, são expostas
mostrando suas habilidades técnicas, sua competência estratégica na atividade,
ou sua coragem e radicalidade em determinado lance ou tarefa motora, como já
apontou Figueira (2008).
Ainda sobre essa forma preconceituosa de apreensão do universo feminino pelas
mídias, pode-se perceber a insistência dos canais televisivos em buscar termos
como deusas, ninfas, musas, para definirem as mulheres atletas em ação. Esta
posição reforça a ideia de algo fora do normal ou diferente, já que, com esta
visão, as mulheres atuantes nesses esportes parecem ser tomadas como seres
irreais (Figueira, 2008), ou, apenas desta forma, se igualar aos feitos dos
homens.
Como estratégias de disseminação do trabalho feminino com o esporte de
aventura, a criação de associações esportivas femininas já é uma realidade para
algumas atividades de aventura, como no caso do skate. Na mídia impressa,
também já se notam algumas iniciativas, como entrevistas e reportagens em
revistas, descrevendo os processos da atividade, ou comentando-se sobre alguma
participação em campeonato. Porém, tudo isto ainda é bastante pouco.
Ainda que estas iniciativas já estejam em curso, são muitas as barreiras que a
mulher terá que enfrentar, para conseguir se impor como atleta nos esportes de
aventura e superar a desigualdade de gênero. Quando se procura investigar,
inclusive, a presença de profissionais do sexo feminino envolvidos com os
treinamentos técnicos, tático e psicológico nos esportes de aventura, nota-se
também uma ausência de enfoques na literatura específica, sobre estas
temáticas. Sendo assim, tornam-se prementes novos olhares sobre esses e outros
enfoques no campo dos esportes de aventura, no sentido de se contribuir para as
futuras reflexões e se promover a tão almejada mudança axiológica em prol da
valorização feminina nos esportes de aventura.
MÉTODO
Amostra e Instrumentos
Este estudo teve uma natureza qualitativa, em função de que esta, conforme
salienta Richardson (1999), possibilita uma melhor compreensão do universo
pesquisado, captando, de forma mais intensa e aprofundada, os fenômenos e
mudanças inseridos num contexto social. Para tanto, o estudo foi desenvolvido
em duas etapas, sendo a primeira referente a uma revisão de literatura sobre as
temáticas propostas e pertinentes ao entendimento deste estudo, e a segunda a
uma pesquisa exploratória, a qual permitiu entrar no universo da população a
ser analisada de forma direta, favorecendo o conhecimento real da situação e a
identificação de problemas e possíveis soluções.
A pesquisa exploratória utilizou como instrumento para a coleta dos dados um
questionário contendo perguntas abertas e aplicado online. A aplicação do
instrumento de coleta de dados online, utilizando, assim, a informática,
apresenta pontos positivos, como destaca Joly e Silveira (2003), por agilizar a
coleta dos dados, favorecer o acesso aos sujeitos, além de tornar a análise
mais ágil, contribuindo, ainda, no aspecto econômico, possibilitando segurança
e interação com o sujeito da pesquisa de maneira mais rápida.
A amostra intencional participante do estudo foi constituída por 16 mulheres,
com faixa etária entre 24 a 51 anos, totalizando uma média de 34 anos,
selecionadas pelo facto de serem praticantes de atividades de aventura na
natureza há algum tempo, sendo atletas de nível nacional no Brasil. Dessas
atletas, 15 possuíam nível de escolaridade superior completo e apenas uma o
segundo grau incompleto. Dentre os tipos de atividades praticadas, estas
atletas citaram estarem envolvidas em diversas modalidades, entre elas:
escalada, montanhismo, mountain bike, rafting, skate, corrida de orientação,
canoagem, trekking, ciclismo, rappel, pára-quedismo, bóia-cross, canyoning e
balonismo. No que concerne ao tempo de prática dessas atividades, este variou
entre dois e 29 anos, obtendo-se uma média de 9.5 anos.
Procedimentos
O estudo foi aceito pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do
Instituto de Biociências, da UNESP, campus de Rio Claro/SP/Brasil, sob
protocolo número 06313. Inicialmente, foi realizada uma pesquisa exploratória
em redes sociais da internet, blogs e sites, nos quais foram identificadas
algumas atletas que se destacavam no cenário nacional e/ou internacional de
esportes de aventura, momento em que foi realizado o convite para participação
na pesquisa, bem como, a explicação dos objetivos do estudo, assegurando a
garantia do anonimato e solicitado a estas o e-mail para contato. Desta
maneira, foi repassada a versão do questionário a ser respondido. De posse da
anuência das atletas, estas procederam à assinatura digital do Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido e às respostas ao questionário.
Os dados coletados por meio da aplicação do instrumento foram analisados de
forma descritiva, utilizando-se a Técnica de Análise de Conteúdo Temático. Esta
técnica, conforme Richardson (1999), permite evidenciar os aspectos mais
relevantes do contexto das respostas e que mais diretamente respaldam o
objetivo proposto no estudo.
RESULTADOS e DISCUSSÃO
A questão 01 do questionário relacionou-se aos aspectos motivacionais que
provocaram a aderência dessas mulheres aos esportes de aventura. O principal
motivo citado foi a identificação com este tipo de atividade, para seis
atletas, seguido da perspectiva de poder estar em contato direto com o ambiente
natural, motivo citado por cinco atletas; duas apontaram a palavra adrenalina
como motivo; as sensações de prazer, bem-estar e satisfação foram citadas por
três atletas, sendo uma para cada um desses motivos.
Entre os estudiosos dos esportes e atividades de aventura no Brasil (Bruhns,
2009; Dias & Alves Junior, 2009; Marinho, 2008; Tahara, Carnicelli Filho,
& Schwartz, 2006; Tahara, 2004), o gosto pela atividade ao ar livre e a
perspectiva de alcance de prazer são os motivos mais frequentemente atribuídos
à adesão a estas práticas. Para Bruhns (2009), as atividades realizadas em
ambientes naturais fazem restabelecer uma relação mais efetiva entre o ser
humano e a natureza, avivando, de modo mais intenso, essa associação. Em outros
estudos, como o de Gomes e Isayama (2009), esta relação humana com o ambiente
natural e o prazer são os fatores motivacionais mais relevantes.
Nos estudos de Lavoura, Schwartz, e Machado (2008), a possibilidade de vivência
de emoções diferentes daquelas advindas das experiências cotidianas, é um forte
motivo de adesão, também citado nesse presente estudo, quando as atletas
apontam o prazer, bem-estar e adrenalina. O facto de as atletas citarem algumas
emoções que estão fortemente presentes nessas atividades, também corrobora com
estudos anteriores (Paixão, 2010; Lavoura, Schwartz, & Machado, 2008;
Schwartz, 2002).
Com base nestes autores, foi possível observar uma grande incidência de estudos
que apontam os aspectos emocionais como expressivo motivo de aderência a essas
atividades. Embora no presente trabalho as participantes também tenham citado
as sensações e emoções como fator desencadeador de inserção nas atividades de
aventura, vale ressaltar que a identificação com este tipo de atividade e o
contato com o ambiente natural é que foram os elementos mais destacados.
No que se refere à valorização das características das atividades de aventura,
Betrán (2003, p. 159) aponta que há um mix atrativo, formado pelos elementos
natureza, esporte, aventura, relacionamentos, dentre outros, os quais instigam
as pessoas a procurarem e aderirem à essas atividades. Quanto ao contato com a
natureza, Amaral e Dias (2008) também apresentam que este é o motivo primordial
citado pelos participantes em sua pesquisa, salientando que os indivíduos
buscam, por meio dessas atividades, a harmonia com o ambiente natural, o
equilíbrio, a interação e o reencontro com a natureza, corroborando, assim, os
dados encontrados neste trabalho.
Em outros estudos, como os de Silva e Freitas (2010) e de Bahia e Sampaio
(2007), os principais motivos não se coadunam com estes apontados no presente
estudo, uma vez que os autores ressaltam a possibilidade de condutas
compensatórias ao se procurar as atividades em contato com a natureza, tanto em
relação às vivências diferenciadas, como no que concerne ao facto de os adeptos
desvelarem sentidos camuflados em seus íntimos. De todo modo, esses fatores não
deixam de estar relacionados aos aspectos das emoções, porém, isto reforça a
necessidade de novos estudos, devido à complexidade desses fenômenos.
Estes aspectos subjetivos são persuasivos, tanto do ponto de vista das
atividades, quanto das atletas em si mesmo. Esta afirmação se baseia no facto
de que bem pouco se tem voltado a atenção para se entender esse paradoxo
envolvendo diretamente as atividades de aventura e sua característica atrativa
de favorecer o prazer de sentir medo, seja este imaginário ou real. Talvez,
este elemento esteja diretamente associado a algum traço de personalidade,
capaz de auferir a confiança necessária para o enfrentamento da situação-
problema, de modo a alcançar o prazer de vencer obstáculos.
Em relação à questão de número 02, referente a sentir ou não algum tipo de
preconceito, nove das participantes declararam não perceberem qualquer tipo de
preconceito, apoiando suas justificativas sobre o facto, principalmente, de
serem consideradas peças-chave em alguns esportes, como na corrida de
orientação. Para esta atividade, a presença feminina é exigida, o que, de certa
forma, conduz ao facto de não haver desvalorização quanto à inserção da mulher
nesta modalidade esportiva. Algumas também se reportaram ao facto de receberem
incentivo e apoio dos homens, quando estão nos grupos de prática, o que, para
elas, representaria a ideia aventada de não sentirem preconceito.
Quando se trata do universo dos esportes, é possível observar que mesmo hoje
alguns estereótipos de gênero não foram extintos, sendo visíveis em modalidades
que mantêm a distinção de atributos pertencentes ao grupo masculino e ao grupo
feminino. Saraiva (2009) discorre sobre tal assunto reforçando o facto de que a
educação física contribuiu bastante para a masculinização do esporte e uma
feminilização das atividades rítmico-expressivas. Cabe ainda ressaltar que
pesquisas de gênero e estudos que discutem questões relativas ao corpo feminino
têm sido capazes de esclarecer o motivo que gera tais desigualdades (Devide,
2003;Goellner, 2003). Entretanto, também ficou patente que sete participantes
apontaram sentir preconceito nessas práticas. Suas justificativas recaem no
facto de que esse preconceito não é apenas restrito aos homens participantes
destes esportes, mas é advindo da própria sociedade, já que estas atividades
ainda são vistas como estritamente masculinas. É importante ressaltar que esta
participação feminina só tornou-se mais evidente no começo do século XX, no
qual ocorreram algumas modificações das idéias e representações sobre o corpo
feminino e quando havia o apoio e incentivo da família (Mourão, 1998; Goellner,
2003).
Algumas respostas também evidenciaram sutis ou subliminares elementos
preconceituosos, já que foi citado que os condutores, no caso específico do
rafting, procuram utilizar estratégias que envolvem, por exemplo, a colocação
de homens na parte dianteira do barco, por creditarem a eles maior força e
melhor coordenação para remar. Com relação a este tema, Simões (2004) coloca
que as mulheres começam a conquistar um espaço no cenário dos esportes de
risco. Essas mulheres optam pela prática de um esporte de risco extremo, visto
que, força, desafio, treinamento físico, vivência de riscos são atributos que
possuem uma história na constituição do estereótipo masculino. Este mesmo autor
prossegue seu pensamento concluindo que as mulheres desportistas abrem mão da
chamada passividade, ternura e obediência em troca de assertividade,
agressividade e ambição, ou seja: de assumir um comportamento sui generis que
incorpora quaisquer tipos de estereótipos sexuais (Simões, p.28), procurando
colocar seus limites pessoais em xeque.
Foram salientadas, ainda, as questões de relacionamento com familiares e
namorados, no que tange ao ciúme do envolvimento da mulher com atividades em
presença de outros homens, demonstrando-se, assim, certos tabus ainda
vinculados à presença feminina nestas práticas, mesmo que as alterações sociais
da modernidade sejam evidentes. Outro aspecto comentado foi o de que o
preconceito era mais explícito especialmente quando as mulheres, de alguma
forma, se saiam melhores do que os homens em alguma modalidade, com bom
desempenho e performance.
Gradativamente, a mulher tem se inserido no contexto do esporte e, mais
particularmente, do esporte de aventura na atualidade (Amaral & Dias,
2008), o que faz com que as nove participantes do estudo possam expressar que
não sentem qualquer tipo de preconceito advindo dos homens, em relação a estas
práticas. Conforme salienta Breivik (2010), este aspecto pode representar um
avanço nos valores, em que se percebem novas perspectivas de expressão de
idéias e condutas referentes às questões de gênero frente aos ditames da pós-
modernidade. Isto é diferente de tempos anteriores, em que se podia perceber
com mais clareza os estigmas relativos à inserção da mulher no esporte de
aventura. Entretanto, ainda restam algumas práticas que são tidas como
masculinas. As variantes de esportes motorizados e mais tecnológicos, por
exemplo, ainda são de domínio masculino, conforme Breivik (2010) salientou,
entretanto, ele afirma que as mulheres se igualarão aos homens no futuro, tanto
em nível de performance, quanto em número de praticantes.
Em alguns esportes na natureza, como o caso da citada corrida de aventura, a
presença feminina é requisitada para compor uma equipe, sendo que esta norma
faz parte da regra geral desta atividade. Esta particularidade faz com que a
aceitação da mulher nesse esporte reforce algumas justificativas manifestadas
pelas nove participantes do estudo, quando afirmaram que não vêem obstáculos
quanto à aceitação por parte dos homens. Para elas, a presença feminina é
aceita, porém, ao mesmo tempo, existe a cobrança de muita técnica e ações quase
de igualdade com os homens, o que não deixa de ser desigual do mesmo modo e,
inclusive, reforça a ideia de que a aceitação vem apenas por imposição de uma
regra e não, necessariamente, pela mudança de valores.
Algumas vertentes das ciências têm discutido alguns aspectos dessa relação de
gênero no campo do esporte e, mesmo com muita timidez, sobre a desigualdade
entre gêneros nos esportes de aventura (Adelman, 2006). Porém, segundo Stoddart
(2011), pouca atenção ainda é dada, nesses estudos, ao papel do ambiente
definindo essas questões de gênero. Para esse autor, o ambiente é outro
importante elemento que está presente na condição da ambiência, termo que
representa a ligação entre o ser humano e o ambiente, em um processo dialético.
Sendo assim, para Stoddart (2011), deve-se levar em consideração nestas
discussões, inclusive, o papel do ambiente de prática dos esportes, procurando
compreender as maneiras como esse elemento é capaz de moldar as questões de
gênero e as relações de poder, ali existentes, como é o caso da predominância
masculina nos esportes motorizados e vividos em ambientes inóspitos, por
exemplo. Essa reflexão poderia auxiliar a compreender melhor, tanto as
desigualdades, quanto essa pseudo-igualdade aventada por algumas participantes
do estudo, ao não sentirem diretamente o preconceito, mas afirmarem que são
altamente cobradas em relação às suas performances, o que não deixa de
representar certo preconceito.
No sentido de apresentar alguma sugestão para minimizar essas diferenciações de
gênero incutidas nas sociedades e diminuir os estigmas de gênero ainda
presentes em relação à mulher nos esportes, notadamente nos esportes de
aventura, Hill (2010) evidencia a necessidade de revigorar estratégias de
sensibilização, voltadas para a educação experiencial inclusiva. Esta autora
aponta que, para se obter soluções inclusivas, torna-se necessário enfatizar a
educação experiencial, por intermédio da qual se podem construir relações mais
significativas e habilidades sociais menos preconceituosas. Este tipo de
experiência diretamente na natureza revigora mais facilmente o senso de
pertencimento, diminuindo ou atenuando sobremaneira, as possíveis mazelas em
relação a preconceitos e estigmas.
Para Anthonissen (2011), a natureza selvagem, como cenário de diversas
modalidades de esportes de aventura, tem sido tomada como um local em que se
encontra presente a pressão ao conformismo de gênero, mas, também, segundo essa
autora, pode favorecer oportunidades de reflexão sobre a perspectiva de
alteração de valores estereotipados de gênero. Esta afirmação é baseada no
facto de que a construção do domínio masculino nos esportes de aventura tem
suas origens na grande presença e necessidade de características ditas
masculinas, como autonomia, liderança, força física e decisão nestes esportes.
Sendo assim, os estereótipos de gênero foram perpetuados, porém esta autora
corrobora a sugestão de Hill (2010), anteriormente comentada, salientando que
as experiências em ambientes naturais podem efetivamente favorecer novas
tomadas de consciência e alteração de significados de gênero para a mulher
participante.
Lugg (2003) amplia estas possibilidades de se buscar incentivo à alteração de
valores por intermédio de atividades diretamente desenvolvidas em contato com o
ambiente natural, por meio de excursões, já que estas permitem a vivência de
experiências mais livres de valores incutidos culturalmente. Estas estratégias
podem colaborar com a perspectiva de reflexão sobre novos encaminhamentos sobre
o papel feminino no esporte de aventura.
Mesmo tendo essa ligeira vantagem numérica (duas participantes de diferença), a
afirmação de que as mulheres deste estudo, inseridas nos esportes de aventura,
não sofrem preconceito direto, não é tão convincente, uma vez que, em suas
próprias justificativas, ficou patente o preconceito velado por parte dos
homens, quando elas são cobradas em termos de performance, exigindo-se
igualdade. Estas discrepâncias merecem outras pesquisas, capazes de fundamentar
novos olhares sobre a temática de gênero nos esportes de aventura.
Foi indagado, na questão 03, se elas percebiam algum obstáculo em relação à
aceitação da mulher nos esportes de aventura por parte dos homens. As respostas
a esta questão evidenciam que, para 14 participantes, a aceitação por parte dos
homens é boa, sendo que foi mencionado, inclusive, haver motivação, divisão de
tarefas, ajuda e admiração para com as mulheres. Mesmo com esta positividade,
essas participantes salientaram, porém, que os homens costumam cobrar mais das
participantes do sexo feminino, em relação à força, velocidade, procurando
igualá-las à performance masculina. Ainda para essas mulheres, o preconceito
parece ter diminuído muito, quando se compara com tempos mais antigos.
As mulheres, para estarem presentes nas práticas dos esportes de aventura,
sempre tiveram que extrapolar inúmeros obstáculos, especialmente aquelas
consideradas pioneiras nessas atividades. Robertson (2003) evidenciou, em seu
livro, que as primeiras mulheres que se envolveram com os esportes ditos
radicais, enfrentavam restrições físicas e psíquicas, tendo em vista as
inúmeras imposições ao papel feminino, desde o uso de vestimentas que não
favoreciam qualquer tipo de prática esportiva, até mesmo, as pressões culturais
e familiares. Entretanto, muitas delas quebraram esses códigos, para que
pudessem vivenciar tais práticas. Ainda segundo o autor, uma das estratégias
utilizadas pelas mulheres para conseguirem iniciar nos esportes de aventura era
a união em clubes esportivos femininos, nos quais, uma dava apoio à outra nas
empreitadas para superação dos estigmas vigentes.
Para Pfistera (2010), as diferenciações de gênero não podem ser consideradas
naturais, uma vez que fazem parte de um construto - o de gênero, o qual é tido
como socialmente construído. Sendo assim, para essa autora, essas
diferenciações são também assimiladas e variam conforme as culturas, sendo
bastante difíceis de serem superadas.
Mesmo com a grande maioria apontando haver uma boa aceitação por parte dos
homens, duas participantes ainda sentem que não são efetivamente aceitas. As
justificativas recaem no facto de alguns homens quererem competir com as
mulheres para inferiorizá-las de algum modo, ou, com isto, desestimular a
manutenção na prática. Estas condutas evidenciam a dificuldade ainda existente,
de aceitação da presença feminina nesses esportes.
Para que a aceitação se faça de modo mais natural, Whittington (2006) revigora
a idéia de que programas de atividades na natureza, que contemplem jovens
adolescentes, podem oferecer oportunidades interessantes para a construção de
novos valores de resistência aos estereótipos sociais já impregnados,
revigorando novas noções de feminilidade, alterando aquelas mais convencionais.
Também, segundo esse autor, pode-se promover o desenvolvimento de identidade de
gênero positiva, durante a participação neste tipo de atividade ao ar livre.
Estas atividades permitem que as mulheres possam explorar diferentes
habilidades e facetas características de ambos os gêneros, o que levaria ao
desenvolvimento de novos sentidos ao papel feminino.
Os resultados evidenciados nessa questão estão em desacordo com outros estudos
(Gilenstam, Karp, & Henriksson-Larsen, 2007; Pfistera, 2010), nos quais a
rejeição feminina e as diferenças de gênero parecem ser mais presentes do que a
aceitação, nos esportes de aventura. Esta afirmação, no entanto, deve ser
relativizada, tendo em vista que esses autores focalizaram seu estudo em
modalidade não considerada como de aventura, no caso, o hockey. Sendo assim,
para Pohl, Borne, e Patterson (2000), existe uma lacuna de pesquisas que
enfatizem a compreensão de como e por quê mudanças significativas se fazem
dentro do contexto dos esportes de aventura, a ponto de concretizarem o que as
mulheres participantes deste estudo evidenciaram como um degrau já alcançado,
em relação à aceitação feminina nos esportes de aventura.
CONCLUSÕES
Considerando a contribuição das atletas na pesquisa exploratória e as reflexões
advindas de diversos autores, nota-se que, conquanto a presença feminina nos
esportes de aventura venha se disseminando, muitos entraves ainda se fazem
presentes, tais como fatores financeiros que dificultam na aquisição de
equipamentos específicos, restrita oportunidade de participação em eventos
competitivos e deslocamento para locais de treino. Além disso, a falta de tempo
para conciliar trabalho, família e o esporte também contribuem para dificultar
o envolvimento das mulheres nas atividades de aventura.
Dentre outros fatores, destaca-se o preconceito de uma forma geral, o qual,
mesmo sendo citado em baixa escala pelas participantes deste estudo, percebeu-
se que existem diferentes tipos de preconceitos envolvidos, inclusive expresso
de forma velada. Em relação à mulher, pode existir, por parte dos homens, o
ciúme de estar em contato com outros homens, por visões estereotipadas da
própria sociedade, ao se considerar um esporte estritamente masculino, ou pela
desvalorização de capacidades e habilidades, como a força e resistência. Vale
ressaltar que os fatores preconceituosos comentados neste estudo podem
significar motivos de impedimento para que outras mulheres venham a praticar
estas atividades. Apesar da maioria das atletas não se reportar a preconceitos
e à não aceitação dos homens, ficou evidente que estes aparecem
subliminarmente, merecendo atenção e aprofundamento em outras reflexões.
Sugere-se que novos estudos possam ampliar essas e outras reflexões sobre a
presença feminina nos esportes de aventura, para que se possa contribuir para a
minimização dos aspectos discriminatórios, favorecendo discussões para se
quebrar os tabus preconceituosos relacionados com as diferenças de gênero, bem
como, para assegurar o aumento de oportunidade de participação de mulheres
praticantes de atividades de aventura.