Perfil antropométrico e fisiológico de atletas de futsal da categoria sub-20 e
adulta
O futsal como tantas outras modalidades coletivas requer intensa participação
do metabolismo aeróbio e anaeróbio (Barbero-Alvarez, Soto, Barbero-Alvarez,
& Granda-Vera, 2008; Castagna, Belardinelli, Impellizzeri, Abt, Coutts,
& D'Ottavio, 2007; Dogramaci & Watsford, 2006; Lima, Silva, &
Souza, 2005). Frequentemente são exigidos esforços intermitentes de curta
duração e de alta intensidade apoiados em grande quantidade de ações realizadas
com e sem bola (Barbieri, Benites, & Machado, 2007). Entretanto, devido às
características do futsal (substituições ilimitadas, tempo de jogo
cronometrado, tamanho da quadra, entre outras) verifica-se uma relação
particular entre os metabolismos (relação esforço-pausa), o que justifica uma
preparação física única e específica para a modalidade.
Estudos têm quantificado aspetos antropométricos e fisiológicos de atletas de
futsal e fornecido subsídios importantes para o planejamento do treinamento.
Comparações entre as categorias são importantes para caracterizar as diferenças
e as similaridades nos aspetos antropométricos (caracterizado pelas medidas
antropométricas e somatotipo) e fisiológicos (caracterizado pelo desempenho
aeróbio e anaeróbio). Assim, o treinamento e as transições entre as categorias
tornam-se mais especializados e menos desgastantes para os atletas. No entanto,
embora estudos tenham sugerido diferenças entre as categorias em formação nos
aspetos antropométricos e fisiológicos (Dias, Carvalho, Souza, Avelar, Altimari
& Cyrino, 2007; Avelar et al., 2008; Ré, Teixeira, Massa, & Böhme,
2003; Cyrino, Altimari, Okano, & Coelho, 2002), não há relato de
comparações realizadas entre a categoria Sub-20 (última categoria antes de
acender para a categoria adulta ' atletas com idade entre 18 e 20 anos) e a
adulta.
Neste sentido, quando comparamos, analisando resultados apresentados por
diferentes estudos (Alvarez, D'Ottavio, Vera & Castagna, 2009; Avelar et
al., 2008; Leal Junior, Souza, Magini & Martins, 2006; Lima et al., 2005),
as características antropométricas da categoria Sub-20 e adulta, nota-se
similaridade entre as categorias (categoria adulta: massa corporal entre 68 e
76 kg, estatura entre 1.73 e 1.80 m, índice de massa corporal em torno de 24
kg/m2, percentual de gordura entre 9 e 10% e perfil com predominância da
mesomorfia; categoria Sub-20: média de massa corporal de 68.5 kg, de estatura
de 1.77 m e de índice de massa corporal de 21.7 kg/m2). Ainda, como as regras
básicas do jogo de futsal são similares entre as categorias e entre os sexos,
supõe-se que a mesomorfia seja o somatotipo mais indicado para a modalidade
(Queiroga, Ferreira & Romanzini, 2005; Queiroga, Ferreira, Pereira &
Kokubun, 2008). Com relação às características fisiológicas, é conhecido que na
categoria adulta de futsal masculino a intensidade do deslocamento é alterada a
cada 3.28 s, sendo que 26% destes ocorrem em alta intensidade. Ainda, são
exigidos em torno de 13 a 39 corridas em alta intensidade a cada 79 s e consumo
de oxigênio (VO2máx) entre 40.1 a 57.1 ml.kg-1.min-1 (Castagna, D'Ottavio,
Vera, & Barbero Alvarez, 2009; Avelar et al., 2008; Dogramaci &
Watsford, 2006). Para as categorias de formação no futsal, apenas um estudo
analisou o desempenho aeróbio e anaeróbio de uma categoria de formação (Sub-
17), revelando valores de 84% e 75% da frequência cardíaca máxima e do VO2máx,
respetivamente, e que 9% do jogo foi executado em intensidade maior que 70% da
frequência cardíaca máxima (Castagna et al., 2007). Com isso, parece que as
exigências fisiológicas entre as categorias são distintas, sendo que as
exigências para a categoria adulta são maiores.
Entretanto, comparações destas características entre as equipes Sub-20 e
adultas seriam interessantes para a promoção de atletas para a categoria
adulta. Devido a uma série de situações inusitadas, como convivência com
atletas mais velhos, estilo de jogo, exigências e cobranças, há indicação de
que a transição entre a categoria Sub-20 e a adulta é a mais desconfortável
para os atletas (Ré, Teixeira, Massa, & Böhme, 2003). Estas novas situações
podem acarretar queda de rendimento esportivo, overtraining e desmotivação, que
muitas vezes não são considerados/identificadas na prática. Como as normas da
CBFS permite a participação de atletas da categoria Sub-20 nas equipes da
categoria adulta, o questionamento sobre o momento correto de ingressar o
atleta na categoria adulta é evidenciado. Desta forma, compreender aspetos
relacionados a antropometria predominante e ao desempenho fisiológico
relacionados as duas categorias podem auxiliar neste processo de transição e
também permitir ajustes precisos nas cargas de treinamento com a finalidade de
maximizar o desempenho sem sobrecarregar os atletas.
Sendo assim, o objetivo do estudo foi determinar o perfil antropométrico, bem
como diferentes capacidades fisiológicas, tendo por base a caracterização da
capacidade aeróbia e anaeróbia de atletas de futsal do sexo masculino e
comparar entre as categorias Sub-20 e adulta. A hipótese do estudo é que os
atletas da categoria adulta apresentem parâmetros aeróbios e anaeróbios
melhores do que os atletas da categoria Sub-20, porém perfil antropométrico
similar entre as categorias.
MÉTODO
Participaram do estudo 24 atletas do sexo masculino pertencentes a duas equipes
de futsal, sendo que uma das equipes era composta por jogadores da categoria
Sub-20 (12 atletas) e outra por jogadores da categoria adulta (12 atletas).
Ambas as equipes disputam campeonatos de nível estadual (estado de São Paulo -
Brasil) da Segunda divisão e torneios regionais da respetiva categoria.
Todos os atletas não apresentavam histórico de problemas de saúde e assinaram
um termo de consentimento livre e esclarecido aprovado pelo comitê de ética
local. Os atletas de cada categoria realizavam treinamento quatro vezes por
semana, de duas a três horas por dia, no período noturno. O treinamento das
duas equipes consistia em estímulos físicos, técnicos e táticos (com e sem
bola). Além disso, as equipes participavam de jogos duas vezes por semana em
dias diferentes dos treinos. As duas equipes estavam em período de competição e
por isso em fase similar de preparação durante as avaliações.
Os participantes foram submetidos a uma rotina de avaliação que envolvia
medidas antropométricas (massa corporal, estatura, espessura das dobras
cutâneas, perímetro corporais e diâmetros ósseos) e testes para estimativa da
capacidade aeróbia e anaeróbia. Os testes e medidas foram realizados em dois
dias com intervalo de 48 h. No primeiro dia foram avaliadas as medidas
antropométricas e a capacidade aeróbia, enquanto no segundo dia a capacidade
anaeróbia.
Medidas antropométricas
A massa corporal foi mensurada por meio de uma balança antropométrica com
precisão de 100 g e a estatura a partir de um estadiômetro de madeira com
precisão de 0.1 cm. As espessuras das dobras cutâneas foram mensuradas em
milímetro com auxilio de um compasso Cescorf®. Foram destacadas as dobras nas
regiões tricipital, subescapular, suprailíaca (supraespinhal), coxa e perna
medial. Os diâmetros ósseos biepicôndiliano do úmero e do fêmur foram
determinados por um paquímetro de metal (Somet®) com escala de medida de 0.1
cm. As medidas de circunferência do braço contraído e da panturrilha foram
realizadas com auxílio de uma fita métrica inextensível (Mabis®Japan).
As medidas antropométricas permitiram o cálculo do índice de massa corporal, da
densidade corporal, a partir do emprego do modelo de regressão proposto por
Jackson, Pollock, & Ward (1980) enquanto o percentual de gordura foi
determinado de acordo com a sugestão de Siri (1961). O somatotipo corporal foi
estimado seguindo as orientações de Heath e Carter (1967). As medidas
antropométricas para o cálculo do somatotipo foram realizadas a partir das
sugestões de Ross e Marfell-Jones (1982).
Avaliação do componente aeróbio
Para avaliar a capacidade aeróbia empregou-se o teste de corrida de vai e vem
(Léger, Mercier, Gadoury, & Lambertz, 1988). O teste consiste em uma série
de corridas intermitentes e progressivas de 20 m, iniciando com velocidade de 8
km/h com incremento de 0.5 km/h a cada minuto. O teste foi aplicado em uma
quadra poliesportiva coberta, devidamente marcada e equipada. A capacidade
aeróbia máxima foi estimada a partir da equação de regressão abaixo.
VO2max = (6 x velocidade do teste) - 24.4
Esse protocolo demonstrou validade concorrente aceitável em adultos jovens
brasileiros (homens, r = .73; mulheres, r = .75) (Duarte & Duarte, 2001).
Avaliação do componente anaeróbio
Para avaliar a potência anaeróbia e o índice de fadiga foi utilizado o Running-
based Anaerobic sprint test (RAST) (Zacharogiannis, Paradisis, & Tziortzis,
2004). O teste consiste em seis corridas de 35 m em velocidade máxima com
intervalos de 10 s e foi aplicado em uma pista de atletismo devidamente marcada
e equipada. A potência anaeróbia de cada corrida e o índice de fadiga (IF)
foram calculados por meio das equações abaixo.
A partir da potência anaeróbia de cada corrida foi selecionada a potência
máxima e calculada a potência média para cada participante.
Análise estatística
Idade, massa corporal, estatura, índice de massa corporal, percentual de
gordura, tempo de prática, somatotipo, VO2max, duração de cada corrida em
velocidade máxima, potência anaeróbia máxima e média e índice de fadiga foram
as variáveis utilizadas para comparar os grupos. A análise estatística foi
realizada usando o pacote estatístico SPSS versão 15.0 para Windows© (SPSS,
Inc., Chicago, IL) com nível de significância de p< .05. Os dados foram
agrupados e descritos em valores de média e desvio padrão. O teste de Shapiro
Wilk foi utilizado para verificar a normalidade na distribuição dos dados. Em
seguida, os grupos, categoria Sub-20 e adulta, foram comparados por meio do
teste t de Student para amostras independentes.
RESULTADOS
Características antropométricas
A análise estatística revelou diferença significativa somente para a idade (t22
= - 7.21, p> .001), obviamente favorecendo os atletas da categoria adulta. O
somatotipo predominante apresentado pelos atletas da categoria Sub-20 e adulta
foi o endo mesomorfo. Por sua vez, não diferiram significativamente entre os
componentes de antropométricos (Tabela 1).
Tabela 1
Características gerais e antropométricas dos atletas de futsal da categoria
adulta e Sub-20. IMC ' índice de massa corporal.
Características fisiológicas
Os atletas das diferentes categorias apresentaram similar VO2max, duração de
cada corrida, potência anaeróbia máxima e média e para índice de fadiga (Tabela
2). Desta forma, os atletas da categoria Sub-20 e adulta apresentaram
semelhante perfil fisiológico, considerando a capacidade aeróbia e anaeróbia.
Tabela 2
Características fisiológicas dos atletas de futsal da categoria adulta e Sub-
20.
DISCUSSÃO
As hipóteses do estudo foram confirmadas parcialmente uma vez que os atletas da
categoria Sub-20 e da adulta não diferiram em relação aos indicadores
fisiológicos (desempenho aeróbio e anaeróbio). Por sua vez a similaridade entre
as categorias em relação ao perfil antropométrico foi prevista inicialmente.
A semelhança do tempo de treinamento entre as categorias, que normalmente
costuma favorecer a categoria adulta, proporciona um lastro de aptidão
equiparado entre os atletas (Machado & Gomes, 1999). Estudos mostram que
atletas com tempo de treinamento próximos, sendo este realizado em intensidade
e volume semelhante, apresentam desempenhos parecidos (Santana, França, Reis,
& Ribeiro, 2007). É possível que se o grupo de atletas da categoria adulta
fosse mais velho e consequentemente com maior tempo de treinamento, aparecessem
diferenças significantes, favorecendo a equipe da categoria adulta.
Desta forma, apesar dos atletas da categoria adulta (22.4 ± 1.6 anos) ser
significativamente mais velhos do que os atletas da categoria Sub-20 (18.6 ± .8
anos), a distância absoluta, isto é, aproximadamente quatro anos, é pequena.
Nesta fase de desenvolvimento não há nenhuma transformação orgânica e
fisiológica importante que destaque o metabolismo energético em indivíduos com
idades entre 18 e 22 anos (Weineck, 2005), o que aumenta a relevância do
treinamento para efetivar alterações neste aspeto. É interessante ressaltar que
a idade da categoria adulta deste estudo é discretamente menor a de outras
equipes profissionais (25 a 26 anos) (Avelar et al., 2008; Barbero-Alvarez et
al., 2008; Zacharogiannis et al., 2004).
A preparação geral no futsal adota a categoria adulta como base para os
treinamentos da categoria Sub-20 (Arena & Böhme, 2004; Rezer &
Shigunov, 2004). Semelhantes intensidades e volumes de treino são utilizados
para estas categorias, o que proporciona desenvolvimento e desempenho similar
entre as categorias. Juntamente com isso, existe a participação dos atletas da
categoria Sub-20 nos jogos da categoria adulta e algumas vezes nos
treinamentos. Esta prática comum contribui para que atletas Sub-20 desenvolvam
elevada capacidade aeróbia e anaeróbia (Lima et al., 2005), equiparando-os aos
atletas da categoria adulta. Do ponto de vista fisiológico, isto permitiria que
atletas da categoria Sub-20 atuassem junto com a categoria adulta sem déficits
no desempenho.
Com isso, a análise dos atletas, com relação aos parâmetros antropométricos e
fisiológicos, pode caracterizar de forma geral a categoria adulta (Tabela 3),
uma vez que diferenças entre as categorias não foram evidenciadas e muitos
jogadores da categoria Sub-20 também fazem parte do plantel da equipe adulta.
Assim, os resultados apresentados pelo presente estudo são similares ao
encontrado por estudos anteriores que analisaram a categoria adulta de futsal
(Alvarez et al., 2009; Castagna et al., 2009; Avelar et al., 2008; Dogramaci
& Watsford, 2006; Leal Junior et al., 2006), principalmente com relação a
massa corporal, estatura, índice de massa corporal e somatotipo predominante.
Entretanto, foi encontrado valores superiores com relação à percentual de
gordura e inferiores para VO2máx. Possivelmente a diferença no nível de
competição disputada pelos atletas deste estudo e dos outros estudos, os
diferentes métodos de treinamento e as limitações metodológicas de cada estudo,
sejam as explicações para as diferenças encontradas nestes dois parâmetros.
Tabela 3
Média e desvio padrão das características gerais, antropométricas e
fisiológicas da categoria adulta no futsal IF - índice de fadiga.
Apesar da semelhança entre as categorias, a proficiência no jogo e a
experiência no futsal poderiam dar mais condições ao atleta da categoria adulta
aproveitar eficazmente os recursos físicos, técnicos, táticos e psicológicos
(Amaral & Garganta, 2005; Ré et al., 2003). Logo, para promover o atleta da
categoria Sub-20 para a adulta, além de considerar o perfil antropométrico e
fisiológico é importante analisar outros aspetos envolvidos com o contexto do
futsal, como os fatores técnicos, táticos e psicológicos. A capacidade técnica
do atleta é relevante para a proficiência e promoção para a categoria
subsequente (Barbieri & Gobbi, 2009). Como o futsal é um esporte de técnica
aberta e, sobretudo um jogo de informação (Amaral & Garganta, 2005), os
atletas necessitam decodificar as informações situacionais (Corrêa & Tani,
2006) para selecionar a ação mais adequada para determinado momento do jogo
(Amaral & Garganta, 2005; Garganta, 2002). Dessa maneira, mesmo
apresentando elevada capacidade aeróbia e anaeróbia e somatotipo preferencial
para o esporte em questão, os atletas da categoria Sub-20 podem ter
dificuldades em selecionar a ação mais adequada. Por isso, muitas vezes atletas
com alto nível técnico conseguem compensar seus baixos níveis fisiológicos
durante a partida, principalmente atletas com mais experiência (Couto Junior,
Moreno, Souza, Prado & Machado, 2007). Além disso, a tática imposta pela
equipe durante a partida pode ser decisiva (Duarte, 2008). Atletas mais
proficientes no futsal aproveitam melhor os aspetos ofensivos e defensivos que
ocorrem durante a prática de futsal, indicando a importância do aspeto tático
para determinar a promoção do atleta para a equipe principal. Ainda, muitos
atletas da categoria Sub-20 não estão preparados psicologicamente para
enfrentar situações que surgem na categoria adulta (Barbieri et al., 2007),
como por exemplo, cobranças por resultados e da torcida. Dessa maneira,
recomenda-se que os aspetos táticos, técnicos e psicológicos também sejam
levados em consideração pela equipe técnica antes da promoção do atleta na
categoria adulta. Com isso, alertamos para ainda excessiva preocupação com os
fatores antropométricos e fisiológicos, negligenciando outros fatores do mesmo
modo importantes para a transição entre as etapas de formação e a idade adulta
no futsal.
CONCLUSÕES
Em conclusão, as categorias Sub-20 e adulta apresentam similar perfil
morfológico e desempenho aeróbio e anaeróbio, o que sugere que os atletas da
categoria Sub-20 estão aptos, com relação aos aspetos estudados, para atuarem
na categoria adulta. No entanto, para futuros estudos seria interessante que
aspetos táticos, técnicos e psicológicos fossem analisados para auxiliar na
compreensão desta fase de transição e no treinamento dos atletas. Apesar de
indicações relevantes no estudo, os resultados devem ser considerados com
cuidado, uma vez que apenas duas equipes, uma de cada categoria, foi analisada.
Por isso, seria interessante analisar mais atletas de ambas as categorias para
fortalecer as conclusões encontradas neste estudo.