Comportamentos de risco à saúde e excesso de peso corporal em escolares de
Toledo, Paraná, Brasil
O processo de urbanização, industrialização e desenvolvimento tecnológico
ocorrido nas últimas décadas alteraram profundamente a estrutura social das
populações, principalmente daquelas residentes nos grandes centros urbanos
(Allender, Foster, Hutchinson, & Arambepola, 2008). Isto influenciou
decisivamente para que crianças, adolescentes e adultos adotassem um estilo de
vida cada vez mais suscetível aos comportamentos de risco à saúde (Center for
Disease Control and Prevention [CDC], 2010; Bergmann, Halpern, & Bergmann,
2008).
Dentre estes comportamentos, podem ser destacados os hábitos alimentares
inadequados, os níveis insuficientes de atividade física, o uso de drogas
lícitas (bebidas alcoólicas e cigarros) e comportamentos sexuais de risco, os
quais têm sido frequentemente estudados em populações jovens (Iannotti, Kogan,
Janssen, & Boyce, 2009; Mulye et al., 2009). Vários fatores podem ser
apontados como determinantes dos comportamentos de risco à saúde nesta
população, destacando-se a substituição das atividades físicas vigorosas por
opções que exigem pouco gasto energético, aumento dos índices de violência,
facilidades de acesso às drogas lícitas e maior suscetibilidade a influência de
modelos apresentados pela mídia (Feijó & Oliveira, 2001).
As diferenças entre os sexos apresentam-se também como um fator importante para
o entendimento da aquisição de alguns comportamentos de risco à saúde entre os
jovens. Isto fica evidenciado quando se observa as diferenças entre os sexos
para o consumo de bebidas alcoólicas, onde rapazes tendem a iniciar este
consumo precocemente em relação às meninas (Pechansky, Szobot, &
Sclvoletto, 2004). Por outro lado, em relação ao nível de atividade física, as
meninas são menos ativas que os rapazes (Nader, Bradley, Houts, Mcritchie,
& O'Brien, 2008).
Dentro deste grupo populacional, a aderência a determinados comportamentos de
risco à saúde pode estar associada a faixas etárias específicas (Pechansky et
al., 2004). Principalmente na pré-adolescência, onde os jovens são mais
vulneráveis à adoção de comportamentos pouco saudáveis (Feijó & Oliveira,
2001), que provavelmente irão estender-se até a vida adulta (Malina, 2001;
Paavola, Vartiainen, & Haukkala, 2004).
Nessa perspectiva, tão importante quanto identificar quais comportamentos podem
estar comprometidos entre os jovens, é tentar compreender em que fase da
adolescência os jovens apresentam maior vulnerabilidade aos comportamentos de
risco à saúde. Em sendo assim, torna-se importante identificar possíveis
relações entre os comportamentos de risco à saúde, a faixa etária e o sexo,
para que estratégias de intervenções mais efetivas para esses grupos
populacionais possam ser planejadas.
Diante disto, o presente estudo teve como objetivo descrever a proporção de
adolescentes expostos aos comportamentos de risco à saúde e ao excesso de peso
corporal, bem como identificar suas associações com a faixa etária e o sexo, em
escolares do município de Toledo, Paraná, Brasil.
MÉTODO
Amostra
O presente estudo foi realizado durante os meses de maio e junho de 2007, com
uma amostra representativa dos alunos matriculados nas turmas de 5ª a 8ª série
de ensino fundamental, do período diurno, na rede estadual de ensino do
município de Toledo, Paraná, Brasil. Os pais e/ou responsáveis autorizaram a
participação dos escolares na pesquisa mediante a assinatura do termo de
consentimento livre e esclarecido (TCLE). Os procedimentos adotados neste
estudo foram aprovados pelo comitê de ética da Universidade Paranaense (UNIPAR,
protocolo nº 1013/2007).
De acordo com o Núcleo Regional de Educação, existiam 5.253 alunos matriculados
nas turmas de 5ª a 8ª série da rede estadual de ensino de Toledo, Paraná, no
ano de 2007. Estas turmas foram selecionadas para o estudo por corresponderem
alunos com idades entre 10 e 15 anos. Efetuou-se o cálculo amostral para
determinação da amostra mínima de estudo, considerando uma prevalência estimada
de 50%, erro máximo de 5%, nível de significância de 95% e efeito do desenho de
2.0. Desta forma, a amostra necessária para o estudo foi estimada em 716
escolares.
A amostra estimada foi distribuída uniformemente pelos níveis de ensino (5ª a
8ª série do ensino fundamental), de maneira que cada extrato tivesse proporção
semelhante na amostra final. Posteriormente, a amostra foi selecionada em dois
estágios: a) 24 turmas (seis turmas para cada nível de ensino) foram
selecionadas aleatoriamente para serem visitadas; b) no segundo estágio, todos
os alunos da turma sorteada foram recrutados para participar do estudo.
Contudo, foram excluídos do estudo os adolescentes que não apresentaram o TCLE
assinado pelos pais ou responsáveis, bem como os escolares que tinham idades
distintas da faixa etária de interesse (10 a 15 anos). Desta forma, a amostra
definitiva do estudo foi composta por 669 escolares, sendo 50.1% (n = 335)
rapazes e 49.9% (n = 334) moças.
Procedimentos
No levantamento das informações referentes aos comportamentos de risco à saúde
e ao excesso de peso corporal, utilizou-se o instrumento adaptado do
questionário Global School-Based Student Health Survey (GSHS), desenvolvido
pela Organização Mundial de Saúde (WHO), em colaboração com as Nações Unidas e
com a supervisão do Centro de Controle de Doenças (CDC). Este questionário
também foi utilizado em estudos prévios para identificar os componentes da
saúde de adolescentes brasileiros (Tassitano et al., 2010; Legnani et al.,
2009), sendo composto pelas seguintes seções: a) peso e estatura auto-
referidos; b) informações pessoais; c) atividades físicas; d) comportamentos
sedentários; e) hábitos alimentares; e f) consumo de drogas lícitas (cigarro e
bebidas alcoólicas).
A aplicação deste questionário foi realizada em sala de aula com o grupo de
alunos presentes no dia da coleta de dados e na presença do professor da turma.
Após a distribuição dos questionários e de posse de um exemplar, o pesquisador
fez a leitura de cada questão, em seguida os alunos marcavam sua resposta
individualmente, passando para a questão seguinte. Quando solicitado o auxílio
do avaliador, os escolares foram prontamente atendidos. Desta forma, o
preenchimento dos questionários teve duração em torno de 30 minutos.
As medidas auto-referidas de peso corporal e estatura foram utilizadas para
cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC). Para identificação do excesso de
peso corporal entre adolescentes, o IMC foi classificado por sexo e idade de
acordo com a tabela normativa para adolescentes brasileiros, proposta por Conde
e Monteiro (2006).
Foram considerados como insuficientemente ativos os escolares que mencionaram
não realizar 60 minutos de atividades físicas de intensidades moderada a
vigorosa em pelo menos cinco dias da semana. Além disso, o tempo em atividades
sedentárias (televisão, vídeo game e computador) foi considerado excessivo
quando o adolescente referiu permanecer duas horas ou mais por dia nestas
atividades.
Quanto ao consumo de alimentos, foram classificados com baixo consumo de frutas
e de vegetais os escolares que mencionaram ingerir estes alimentos em menos de
quatro dias por semana. Por sua vez, o consumo dos alimentos com alto valor
calórico (doces, salgados e refrigerantes) foi considerado elevado quando os
escolares reportaram, para cada um destes alimentos, uma ingestão superior a
quatro dias na semana.
As informações referentes ao consumo de drogas lícitas (bebidas alcoólicas e
cigarros) nos 30 dias precedentes à pesquisa foram classificadas, considerando
como comportamentos de risco à saúde o consumo de pelo menos um cigarro ou uma
dose de bebida alcoólica durante este período.
Análise Estatística
Para análise dos dados utilizou-se inicialmente a estatística descritiva
(média, desvio padrão, frequência relativa) para a caracterização da amostra e
identificação da proporção dos escolares expostos aos comportamentos de risco à
saúde e ao excesso de peso corporal. Em seguida, foi realizado o teste t para
amostras independentes para analisar as diferenças entre os sexos e as faixas
etárias nas variáveis antropométricas. O teste do qui-quadrado foi utilizado
para comparação entre os sexos e as faixas etárias nas proporções dos
comportamentos de risco à saúde e do excesso de peso corporal. A análise de
regressão logística binária, ajustada pelo sexo e faixa etária, foi realizada
para estimar a inter-relação da faixa etária com os comportamentos de risco à
saúde e o excesso de peso corporal. Os cálculos estatísticos foram
desenvolvidos no programa estatístico SPSS versão 17.0, adotando um nível de
significância de p < .05.
RESULTADOS
Os valores médios e o desvio padrão das variáveis antropométricas (massa
corporal, estatura e IMC) e da idade estão descritos na Tabela 1. Foram
verificadas diferenças significativas (p < .05) entre as faixas etárias de 10 a
12 anos e de 13 a 15 anos, em todas as variáveis analisadas, independentemente
do sexo. Nas comparações entre os sexos, verificou-se que os rapazes
apresentaram médias de idade e massa corporal superiores aos seus pares do sexo
feminino somente na faixa etária entre 13 e 15 anos.
Tabela 1
Caracterização da amostra
As proporções dos comportamentos de risco à saúde e do excesso de peso
corporal, bem como suas associações com a faixa etária e o sexo estão
ilustradas na Tabela 2. Na amostra total, evidenciou-se que 18.7% dos escolares
apresentaram excesso de peso corporal. Além disso, observou-se que mais da
metade dos adolescentes foram classificados como insuficientemente ativos
(62.6%) e apresentavam consumo de verduras inferior a quatro dias na semana
(51.6%). Os demais comportamentos de risco à saúde apresentaram as seguintes
proporções: tempo em atividades sedentárias superior a duas horas por dia
(47.7%); consumo de frutas inferiores a quatro dias na semana (46.5%); consumo
de doces, salgados e refrigerantes superiores a quatro dias na semana (30.7%,
20.6% e 49.1%, respectivamente); consumo de bebidas alcoólicas (32.0%); e
consumo de cigarros (4.6%).
Tabela 2
Associação da faixa etária e do sexo com os comportamentos de risco à saúde e o
excesso de peso corporal em escolares de Toledo, Paraná.
Nos rapazes, verificou-se que os escolares entre 10 e 12 anos de idade
apresentaram maior proporção de insuficientemente ativos quando comparados aos
seus pares entre 13 e 15 anos (X2 = 13.458; p < .05). Em contrapartida,
escolares da faixa etária entre 13 e 15 anos apresentaram maior proporção de
permanência em atividades sedentárias por mais de duas horas ao dia (X2 =
4.035; p < .05) e consumo de bebidas alcoólicas (X2 = 8.136; p < .05). As
meninas com idades entre 10 e 12 anos apresentaram maior proporção de excesso
de peso corporal em comparação aos seus pares entre 13 e 15 anos (X2 = 8.644; p
< .05). Por outro lado, as meninas mais velhas (13 e 15 anos) apresentaram
maiores proporções do consumo de doces em quatro ou mais dias da semana (X2 =
8.425; p < .05), de bebidas alcoólicas (X2 = 15.708; p < .05) e de cigarros (X2
= 7.968; p < .05) em comparação às meninas mais novas (10 e 12 anos).
Na análise das diferenças entre os sexos, foi demonstrado que nos escolares com
idades entre 10 e 12 anos, os rapazes apresentam maior consumo de bebidas
alcoólicas (X2 = 5.522; p < .05), enquanto as moças tiveram maior proporção de
consumo excessivo de salgados (X2 = 5.289; p < .05). Na faixa etária entre 13 e
15 anos, os rapazes apresentam maior proporção de excesso de peso corporal (X2
= 6.046; p < .05), de tempo sedentário superior a duas horas por dia (X2 =
5.244; p < .05) e do baixo consumo de vegetais (X2 = 5.514; p < .05), quando
comparados às moças. Por sua vez, o percentual de insuficientemente ativos (X2
= 13.273; p < .05) e do elevado consumo de doces (X2 = 9.458; p < .05) foram
superiores nas meninas em comparação aos rapazes. O baixo consumo de frutas e o
elevado consumo de refrigerantes apresentaram proporções semelhantes entre os
sexos e as faixas etárias (p > .05).
As inter-relações da faixa etária (variável dependente) com os comportamentos
de risco à saúde e o excesso de peso corporal estão apresentadas na Tabela 3.
Verificou-se que os rapazes da faixa etária entre 13 e 15 anos apresentaram 59%
menos chances de ser insuficientemente ativos do que seus pares mais novos (10-
12 anos). Em contrapartida, os rapazes mais velhos (13 e 15 anos) apresentaram
75% mais chances de permanecer em atividades sedentárias por mais de duas horas
ao dia, bem como 93% mais chances de consumir bebidas alcoólicas do que seus
pares entre 10 e 12 anos. Nas moças, verificou-se que as escolares da faixa
etária entre 13 e 15 anos tiveram 62% menos chances para a ocorrência do
excesso de peso corporal. No entanto, foi observado que as moças entre 13 e 15
anos obtiveram um risco 2.2 vezes maior de consumir doces em excesso, assim
como, 2.57 vezes mais chances de consumir bebidas alcoólicas do que seus pares
mais novos (10 e 12 anos). Os demais comportamentos de risco à saúde não
apresentaram associação significativa com a faixa etária, independentemente do
sexo (p > .05).
Tabela 3
Inter-relação da faixa etária com os comportamentos de risco à saúde e o
excesso de peso corporal em escolares de Toledo, Paraná.
DISCUSSÃO
O presente estudo buscou identificar a proporção de jovens (idades entre 10 e
15 anos) expostos aos comportamentos de risco à saúde e ao excesso de peso
corporal, bem como identificar possíveis associações com a faixa etária e o
sexo. Os resultados evidenciaram elevadas proporções de comportamentos de risco
à saúde, como insuficientemente ativo (62.6%), baixo consumo semanal de
vegetais (51.6%) e elevado consumo semanal de refrigerantes (49.1%). Não
obstante, o tempo excessivo em atividades sedentárias (47.7%), o baixo consumo
semanal de frutas (46.5%) e o elevado consumo semanal de doces (30.7%), também
se apresentaram como comportamentos em proporções elevadas.
A proporção de escolares deste estudo, classificados como insuficientemente
ativos, foi superior ao verificado em estudos com escolares de outras cidades
brasileiras (Gonçalves, Hallal, Amorim, Araújo, & Menezes, 2007; Pelegrini
& Petroski, 2009). Contudo, dados do GSHS, realizado com adolescentes de 34
países, apontam uma estimativa internacional onde 80% dos adolescentes são
insuficientemente ativos (Guthold, Cowan, Autenrieth, Kann, & Riley, 2010),
sendo bem superior aos resultados aqui apresentados. Para o presente estudo,
foi demonstrado que ser da faixa etária entre 13 e 15 anos (entre os rapazes)
foi fator de proteção para este comportamento de risco, enquanto que as moças
(entre os escolares com idades de 13 a 15 anos) apresentaram as maiores
proporções de insuficientemente ativos em comparação aos rapazes da mesma faixa
etária.
Quanto ao comportamento sedentário, verificou-se que cerca da metade dos
escolares gastam pelo menos duas horas diariamente em atividades sedentárias,
essa proporção foi superior às encontradas em estudos com adolescentes
brasileiros (Tenório et al., 2010; Pelegrini & Petroski, 2009) e de outros
países (Guthold et al., 2010). Os rapazes mais velhos (13 e 15 anos) foram
identificados como subgrupo de maior risco ao comportamento sedentário, os
quais apresentaram 75% mais chances de passar tempo excessivo em atividades
sedentárias do que os rapazes mais novos (10 e 12 anos). Resultados semelhantes
também foram observados em estudos prévios realizados com adolescentes
brasileiros (Tenório et al., 2010), americanos (Fulton et al., 2009) e europeus
(Nilsson et al., 2009).
A literatura tem sugerido que os comportamentos relacionados à atividade física
e ao sedentarismo, quando adquiridos na adolescência, podem se estender até a
vida adulta (Malina, 2001) e favorecer o desenvolvimento de inúmeras doenças,
como diabetes tipo 2, hipertensão e aterosclerose (Katzmarzyk, Church, Craig,
& Bouchard, 2009; Telama & Yang, 2000). Desta forma, políticas públicas
de promoção da atividade física e redução do tempo sedentário em adolescentes
devem ser realizadas neste município, focando principalmente os subgrupos de
maior risco a estes comportamentos.
Quanto aos comportamentos alimentares, os resultados do presente estudo
indicaram que aproximadamente metade dos escolares apresentou baixo consumo
semanal de frutas e elevado consumo semanal de refrigerantes. Três em cada dez
escolares apresentaram elevado consumo semanal de doces, sendo meninas com
idades entre 13 e 15 anos o subgrupo de maior probabilidade a este
comportamento de risco à saúde. Nesta faixa etária, as meninas também
apresentaram maior prevalência de consumo elevado de doces, e menor proporção
de baixo consumo de vegetais em comparação aos rapazes, semelhantes aos
resultados de estudos prévios (Levy et al., 2010; Lazarou, Panagiotakos, Kouta,
& Matalas, 2009). Da mesma dimensão, as meninas também apresentaram maior
proporção de consumo excessivo de salgados em comparação aos rapazes, na faixa
etária entre 10 e 12 anos.
Os resultados supramencionados indicaram que, de maneira geral, as meninas
apresentaram piores comportamentos alimentares em comparação aos rapazes,
principalmente na faixa etária entre 13 e 15 anos. Estes achados podem ser
explicados pela característica alimentar durante a adolescência, onde os mais
velhos começam a consumir quantidades e tipos de alimentos de sua preferência,
o que aumenta o risco de alimentação inadequada (Vieira, Priore, Ribeiro,
Franceschini, & Almeida, 2002). Portanto, devem ser desenvolvidas
estratégias para adoção de práticas alimentares saudáveis cada vez mais cedo,
como estimular o consumo diário de frutas e vegetais, bem como a redução da
ingestão de alimentos com elevados valores calóricos (doces, salgados e
refrigerantes).
Em relação ao consumo de drogas lícitas, os resultados indicaram elevado
consumo de bebidas alcoólicas, sendo identificado como subgrupo de maior risco
a este comportamento de risco à saúde os escolares da faixa etária entre 13 e
15 anos, independentemente do sexo. Esta tendência também foi verificada em
estudos prévios que analisaram esta problemática em adolescentes brasileiros
(Galduróz et al., 2010; Strauch, Pinheiro, Silva, & Horta, 2009; Bertoni et
al., 2009) e de outros países (Park, Patton, & Kim, 2010; Gmel, Kuntsche,
Wicki, & Labhart, 2010).
Em particular, vale ressaltar também que na faixa etária entre 10 e 12 anos, os
rapazes apresentaram maior proporção de consumo de bebidas alcoólicas em
comparação às meninas, corroborando com os achados de outros estudos que
identificaram o sexo masculino como grupo com maior consumo de bebidas
alcoólicas (Dodd, Al-Nakeeb, Nevill, & Forshaw, 2010; Shan et al., 2010). A
tendência de maior consumo de drogas lícitas entre adolescentes mais velhos
também foi verificada para o uso de cigarros entre os escolares do presente
estudo, principalmente nas meninas, semelhante ao apresentado em estudos
prévios (Bezerra et al., 2009; Farias Júnior et al., 2009).
Os resultados desse estudo sugerem que estes comportamentos estão sendo
evidenciados precocemente na vida desses jovens, já que a faixa etária estudada
(10 e 15 anos) compreende a fase inicial da adolescência. Portanto, o
desenvolvimento de campanhas de combate ao consumo de bebidas alcoólicas e
cigarros, bem como, a fiscalização de vendas, devem focar o público jovem
(Menezes, Gonçalves, Anselmi, Hallal, & Araújo, 2006). Igualmente, as
autoridades deveriam exercer um maior controle sobre a mídia, proibindo as
propagandas de bebidas alcoólicas, que exploram a imagem de pessoas famosas e
saudáveis (atletas) incentivando o público jovem a consumir tais substâncias.
Desta forma, o elevado consumo de cigarros e de bebidas alcoólicas pode estar
relacionado à presença de fatores ambientais estimulantes ao consumo destas
drogas, tais como a presença destes hábitos na família (pais, tios ou irmãos
fumantes ou alcoólatras), a influência da mídia e de amigos que fazem uso de
drogas (Hanewinkel, Isensee, Sargnet, & Morgenstern, 2010; Vieira, Aerts,
Freddo, Bittencourt, & Monteiro, 2008).
A proporção de adolescentes com excesso de peso corporal (18.7%), observada no
presente estudo, foi semelhante ao verificado em outras investigações com
adolescentes brasileiros (Campos, Leite, & Almeida, 2007; Freitas et al.,
2007) e de outros países (Shan et al., 2010; Janssen et al., 2005). A análise
de regressão logística apontou que moças da faixa etária entre 13 e 15 anos
foram o subgrupo de menor risco para o excesso de peso corporal quando
comparados às mais novas; por sua vez, os rapazes apresentaram maiores valores
percentuais de excesso de peso corporal, quando comparados às meninas, na faixa
etária entre 13 e 15 anos. Algumas investigações também encontraram
prevalências de excesso de peso corporal superiores nos rapazes (Suñé, Dias-da-
Costa, Olinto, & Pattusi, 2007), enquanto outros estudos apresentaram
associação inversa do sexo com o excesso de peso corporal (Pelegrini &
Petroski, 2009).
Deve ser levado em consideração que com a puberdade um ganho acentuado na massa
muscular ocorre entre os rapazes (Malina & Bouchard, 2002). Além disso,
diferenças comportamentais entre os sexos podem estar relacionadas com as
diferenças nas prevalências de excesso de peso corporal, enquanto as diferenças
sociais e culturais entre populações podem explicar os discordâncias entre os
estudos. Contudo, o presente estudo utilizou o cálculo do IMC a partir de
medidas auto-referidas de peso corporal e de estatura que, embora sejam
utilizadas frequentemente em estudos epidemiológicos (Coqueiro, Borges, Araújo,
Pelegrini, & Barbosa, 2009), apresentam limitações com indivíduos jovens,
uma vez que estes sujeitos tendem subestimar a massa corporal e superestimar a
estatura (Farias Júnior, 2007). Desta forma, é recomendada cautela na
interpretação destes resultados e nas comparações com outros estudos.
Embora os dados apresentados sejam relevantes, o presente estudo apresenta
algumas limitações que devem ser consideradas. A primeira já foi relatada
anteriormente e está relacionada à utilização de medidas auto-referidas para
identificação do excesso de peso corporal. No entanto, o reportar dessas
informações é procedimento corrente em estudos epidemiológicos. A segunda
limitação está relacionada à utilização de questionários para determinação dos
comportamentos de risco à saúde, uma vez que adolescentes podem relatar
comportamentos que não ocorreram na realidade simplesmente para obter
melhores resultados. Há também a possibilidade de causalidade reversa que é
uma característica inerente ao delineamento transversal adotado neste estudo.
Por fim, destaca-se que estes resultados são representativos somente dos
escolares matriculados na rede estadual de ensino do município de Toledo,
Paraná, impossibilitando a generalização dos resultados para outros grupos de
escolares. Portanto, os resultados aqui apresentados devem ser interpretados
com devida cautela.
CONCLUSÕES
Foram identificadas elevadas proporções de adolescentes expostos aos
comportamentos de risco à saúde no município de Toledo, Paraná, Brasil; as
maiores prevalências foram para insuficientemente ativo, baixo consumo semanal
de vegetais e elevado consumo semanal de refrigerantes, onde pelo menos metade
dos escolares apresentou um destes comportamentos de risco. Não obstante,
aproximadamente um em cada cinco escolares apresentou excesso de peso corporal.
A análise por regressão logística evidenciou que os adolescentes da faixa
etária entre 13 e 15 anos foram o subgrupo de maior risco para alguns
comportamentos: o tempo excessivo em atividades sedentárias entre os rapazes, o
elevado consumo semanal de doces entre as meninas, e o consumo de bebidas
alcoólicas em ambos os sexos. Em contrapartida, os rapazes e as moças com
idades entre 13 e 15 anos tiveram efeito protetor para o comportamento
insuficientemente ativo e para o excesso de peso corporal, respectivamente.
Estes resultados podem colaborar para a elaboração e o direcionamento de
políticas públicas de promoção do estilo de vida saudável aos jovens de maior
risco aos comportamentos inadequados à saúde.