Influência da atividade física na imagem corporal: Uma revisão bibliográfica
The influence of physical activity on body image: A literature review
ABSTRACT
Body image can be understood as the mental representation of our own body.
Since physical activity is a source of bodily experiences, it is necessary to
have a wider view of their effects on body image. The aim of this study was to
analyze the evolution of research on body image and physical activity and to
reflect about the relationship between physical activity and body image. We
used three databases - Web of Science, Scopus and SportDiscus. A total of 10
studies were carefully selected. The review points to a significant evolution
of the designs of these surveys, an important development of methodology and
evaluation resources. Moreover, it is concluded that physical activity exerts
influences on body image in various ways. A program of physical activity must
respect the person individuality to determine the adopted intensity, frequency
and length, knowing that the minimal recommendations to achieve a feedback
related with body image development regard to two sessions per week during 12
weeks.
Keywords: body image, physical activity, literature review
A imagem corporal pode ser entendida com a representação mental do corpo. Ela é
dinâmica e singular. Este constructo multifacetado tem componentes percetivos e
atitudinais ' cognitivos, emocionais e comportamentais ' que se estabelecem num
continuum, partindo de valores positivos e usualmente associados a sentimentos
e comportamentos saudáveis ' prática de exercícios, cuidados com o corpo,
relações sociais estáveis, autoestima ' para valores negativos, associados a
outros quadros clínicos ' como depressão e obesidade, por exemplo. Estes
valores negativos associam-se a distúrbios da representação do corpo, estando
alguns descritos nos manuais de diagnóstico de doenças mentais ' i.e.,
transtorno alimentar e dismorfia corporal ' ou com evidências fortes apontando
para uma relação causal ' i.e., dismorfia muscular (Cash, 2004; Hausenblas
& Fallon, 2006).
Os problemas com a imagem do corpo podem progredir de uma moderada insatisfação
para uma preocupação extrema com a aparência física, levando a uma imagem
corporal negativa, que é uma condição mais estressante e inibitória que a
insatisfação corporal inicial (Rosen, Orosan, & Reiter, 1995). Cash (2004)
apresenta a imagem corporal negativa como um forte sentimento de insatisfação
com aspetos da aparência física que as pessoas têm consigo mesmas.
Historicamente as pesquisas em imagem corporal focaram-se em avaliar, descobrir
relações, estabelecer causas e tratamentos para a imagem corporal negativa
(Thompson & Gardner, 2002). Neste processo variadas formas de intervenção
foram investigadas com o intuito de avaliar seus efeitos, ou descobrir
variáveis correlacionadas que fornecessem evidências sobre como promover
compensações longitudinais a fim de propiciar o desenvolvimento da imagem
corporal (Cash & Pruzinsky, 2002; Thompson, 1990). Com este intuito, o
número de estudos sobre o exercício no tratamento da saúde mental e na promoção
do bem-estar vem crescendo e importantes informações sobre a influência da
atividade física sistematizada na imagem corporal estão sendo descobertas '
e.g., a relação entre o tempo de prática e melhorias na auto-estim.
Esclarecemos que, segundo o estudo de Fox e Wilson (2008) o tempo mínimo de
duração de um programa de atividade física/exercícios não deve ser inferior a
um período de 12 semanas, pois um tempo inferior a este pode não ser suficiente
para mudar um constructo, especialmente quando este é suscetível a outros
eventos que ocorrem simultaneamente na vida.
Entretanto, nem sempre a atividade física é usada na busca para estabelecer uma
imagem corporal bem estruturada. O abuso do exercício ' atividade física
sistematizada, que possui frequência, duração e intensidade delineadas
(Caspersen, Powell, & Christensen, 1985), tem sido motivo de frequente
preocupação nos casos de dismorfia corporal, pelo alto índice de dependência
que pode gerar. Outra preocupação é o uso do exercício como método
compensatório nos quadros de bulimia nervosa. Esses dois exemplos ilustram como
a atividade física pode auxiliar na perpetuação de distúrbios, que envolvem uma
representação prejudicada do corpo (Assunção, Cordas, & Araújo, 2002).
Para Tavares (2003), a atividade física (incluindo o exercício) deve
proporcionar ao indivíduo vivências que possibilitem um desenvolvimento de sua
imagem corporal, o que implica, em última instância, tornar-se consciente de
seus próprios sentimentos e reações fisiológicas em relação ao corpo e à
atividade, respeitando seus limites e suas possibilidades. Este é um processo
que pode ser facilitado pelo profissional da educação física ao trabalhar
experiências corporais com seus alunos, considerando as necessidades educativas
especiais dos mesmos (Tavares, 2007).
Dada a possibilidade de ser uma fonte de compensações longitudinais e também de
agravamento de transtornos, é de extrema importância não só ao profissional de
educação física, mas a todos os profissionais da saúde, o conhecimento das
consequências que algumas modalidades de atividades físicas podem exercer na
imagem corporal. Assim sendo, os objetivos deste trabalho foram: (a) analisar
as características e a evolução da pesquisa em imagem corporal e atividade
física, e (b) desenvolver uma reflexão sobre as relações entre atividade física
e imagem corporal, identificando os efeitos que diferentes tipos de atividade,
intensidade, duração e frequência podem exercer na imagem corporal. Para este
fim, reunimos trabalhos experimentais realizados nos últimos 30 anos que
avaliaram os efeitos na imagem corporal de pessoas submetidas à intervenção de
atividades físicas sistematizadas.
MÉTODO
Esta pesquisa é uma revisão de bibliografia através da qual foi feita a
análise, avaliação crítica e a integração da literatura publicada sobre imagem
corporal e atividade física.
Os dados foram reunidos a partir de três bases internacionais: Web of Science,
Scopus e SportDiscuss. Nas três bases, foram combinadas as palavras-chave body
image, longitudinal, exercise, physical activity, physical exercise, fitness,
exercise training com o operador booleano AND.
Como critério de inclusão adotou-se selecionar (a) artigos publicados nos
últimos trinta anos, (b) estudos experimentais ou semi-experimentais, (c)
estudos de natureza qualitativa ou quantitativa, (d) estudos que contivessem
descrição da intervenção de atividade física realizada, (e) intervenção com
duração mínima de 12 semanas (seguindo as recomendações de Fox & Wilson,
2008), e, por fim, (f) os estudos poderiam incluir a população em geral (ambos
os sexos, idade e situações especiais, e.g.: gravidez). Por sua vez, foram
excluídos deste estudo os artigos que (a) não realizaram intervenção de
atividades físicas ou que as realizaram em um período de tempo inferior a 12
semanas; (b) estudos que não descreveram as atividades realizadas na
intervenção, e (c) estudos que não usaram questionários validados em sua coleta
de dados, no caso de estudos quantitativos.
RESULTADOS
Foram encontrados na pesquisa bibliográfica um total de 107 artigos. Deste
total, 29 artigos foram excluídos por aparecerem repetidamente nas bases de
dados, configurando 78 artigos exclusivos. Após aplicados os critérios de
inclusão e exclusão, chegámos ao resultado final deste levantamento
bibliográfico, para o qual foram selecionados um total de 10 artigos.
Para fins de análise e melhor compreensão do leitor, os artigos serão
apresentados nas seguintes subcategorias, dentro da categoria imagem corporal e
atividade física: crianças asmáticas, mulheres e grupos de ambos os sexos.
Imagem corporal e atividade física: Crianças asmáticas
Apenas um dos estudos teve como foco a população de crianças. Varray (1988)
investigou os efeitos de exercícios recreativos na água, com crianças asmáticas
entre sete e 10 anos. As aulas tiveram duração de 24 semanas e freqüência de
uma a duas horas semanais. Os testes e questionários utilizados foram: (a) Body
Image Questionnaire (Bruchon-Schweitzer, 1987), (b) Inventário de Autoestima
(Cooper-smith, 1971), (c) Teste Projetivo de Rorschach, e (d) entrevista
semiestruturada com os pais. Os resultados mostraram que após a prática da
natação houve melhor reconhecimento do corpo em sua totalidade, diminuição do
quadro de ansiedade assim como diminuição dos escores barreira/penetração (para
mais informações, ver Fisher & Cleveland, 1958). Entretanto, o autor chama
atenção para um aspeto metodológico desta pesquisa: a seleção dos testes
utilizados. Apesar das escalas psicométricas selecionadas terem propriedades
psicométricas adequadas para a população ' validade e confiabilidade ' o único
teste que identificou alterações na população estudada foi o teste projetivo de
Rorschach. A este fato, Varray (1988) atribuiu duas hipóteses: os outros testes
não foram sensíveis o suficiente ou o número amostral reduzido influenciou
negativamente os resultados. A entrevista realizada com os pais, ao contrário
do que se esperava, não mostrou que era capaz de influenciar a imagem corporal
das crianças.
Imagem corporal e atividade física: Mulheres
Dos 10 artigos analisados, seis trabalharam exclusivamente com a população
feminina. Vandereycken, Depreitere, e Probst (1987) realizaram um estudo com o
propósito de influenciar a maneira como jovens mulheres em tratamento para
anorexia nervosa experienciavam seus corpos. A intervenção, que teve uma
duração total de quatro anos, consistiu em uma terapia corporal orientada, com
variadas técnicas corporais ' relaxamentos, exercícios bioenergéticos,
expressão livre na dança, grupos de comunicação não verbal, entre outras
atividades realizadas em intensidades leves. A avaliação do tratamento foi
realizada através de entrevistas, questionários ' Eating Disorder Inventory
(Garner, Ol-mstead, & Polivy, 1983) e Body Attitudes Test (Vandereycken
& Meermann, 1984) ' vídeos, encontros e discussões em grupo. Os resultados
indicaram que além do aumento do peso, aos poucos, as pacientes demonstram
prazer em realizar as atividades, conseguiram relaxar e expressar seus
sentimentos com mais facilidade, se sentiram mais motivadas, aumentaram a
capacidade de perceção corporal e desenvolveram uma imagem corporal positiva.
Tucker e Maxwell (1992) publicaram uma pesquisa sobre os efeitos do treinamento
de peso no bem-estar emocional e na imagem corporal de mulheres. Participaram
do estudo 152 mulheres com média de idade igual a 20.2 anos, todas
universitárias, divididas em grupo experimental e grupo de controle. Os
sujeitos de ambos os grupos responderam, pré e pós-intervenção, aos
questionários (a) General Well Being Schedule (Dupuy, 1970) ' que avalia o bem-
estar subjetivo e a angústia psicológica ' e (b) a uma versão modificada da
Body Cathexis Scale (modificada por Tucker, 1981) ' que avalia a satisfação com
partes do corpo. Além dos questionários, os sujeitos do grupo experimental
fizeram também testes de força muscular (1 RM) e medidas de três dobras
cutâneas.
O grupo experimental foi submetido a 12 semanas de treinamento com pesos. O
treino foi realizado duas vezes por semana, com duração de aproximadamente 45
minutos. A intensidade foi moderada, com três séries de 10 repetições para cada
exercício, a saber: supino reto, rosca direta com halteres, leg press sentado
na máquina. Ao final da intervenção as mulheres do grupo experimental
apresentaram perda de peso, significativo aumento de força muscular e queda nas
medidas de dobras cutâneas. Os resultados dos testes General Well-Being e Body
Cathexis Scale permitiram inferir que a intervenção teve um efeito positivo
sobre a imagem corporal, pois quando comparado ao grupo de controle, o grupo
experimental apresentou escores mais positivos.
No ano seguinte, Tucker e Mortell (1993) compararam os efeitos da caminhada e
do treinamento de peso na imagem corporal de mulheres de meia-idade.
Participaram do estudo 60 mulheres com média de idade igual a 42.5 anos. Os
sujeitos foram separados aleatoriamente em dois grupos: treinamento resistido
ou caminhada. Ambos os grupos fizeram as atividades três dias por semana,
durante 12 semanas. Para avaliar os efeitos do exercício, os pesquisadores
utilizaram a Body Cathexis Scale (Tucker, 1981) e realizaram testes de 1RM e
testes de caminhada de 1 milha. Os resultados antes e pós-intervenção indicaram
que o treinamento regular resistido foi estatisticamente significante no
aumento da força muscular dinâmica e absoluta. Os exercícios regulares de
caminhada provocaram aumento significante na resistência cardiorrespiratória ao
longo de três meses de experimento. Além da confirmação dos resultados
esperados, ocorreram mudanças na imagem corporal ' aumento da satisfação com o
corpo, em ambos os grupos. Comparando os grupos entre si, os autores
verificaram que o grupo de treinamento resistido teve maiores ganhos de força
muscular, assim como melhorias significantes na imagem corporal, quando
comparados ao grupo de caminhada. Para os autores, o treino resistido causou os
melhores resultados na imagem corporal por promover as mudanças mais visíveis
na aparência do corpo quando comparado ao treino de caminhada. Enquanto os
efeitos da caminhada são menos visíveis aparentemente, o treino resistido torna
os músculos mais tonificados, mais definidos e isso pode ser um mecanismo de
feedback positivo que reforça a autoestima e aumenta a satisfação com o corpo.
Anos mais tarde, Stoll (2000) realizou um estudo quase-experimental sobre
aptidão física e as estimativas de recursos, focado em avaliar os efeitos das
variáveis psicossociais de um programa de atividade física moderada. A
intervenção teve duração de 12 semanas, com frequência de uma vez por semana,
duração entre 60 e 75 minutos, e contou com exercícios variados, em intensidade
moderada, assim de melhorar a flexibilidade e a força. Vinte e uma mulheres
(média de idade igual a 34.14 anos), sedentárias há pelo menos dois anos, foram
distribuídas aleatoriamente por um grupo experimental (n = 10) que participou
da intervenção e um grupo de controle (n = 11), que não fez atividades durante
este período. O conceito do corpo, o autoconceito sobre desempenho e o
autoconceito na comunicação e nas competências pessoais foram avaliados,
respectivamente, através da escala Köperkonzept (KSK) de Alfermann e Stoll
(1996), e das subescalas Selbstkonzepts zur Allgemeinen Leistungsfähigkeit
(FSAL) e Selbstkonzepts zur Kommunikations - und Umgangsfähigkeit (FSKU), ambas
pertencentes à escala Frankfurter Selbstkonzeptskalen (FSK), desenvolvida por
Deusinger (1986). Os questionários foram preenchidos em três momentos: (T1)
antes do início da intervenção, (T2) logo após o término da intervenção, e (T3)
12 semanas após o término das intervenções.
A análise dos resultados mostrou que o grupo experimental, quando comparado ao
grupo de controle, apresentou melhorias significantes referentes às variáveis
autoconceito, perceção da aptidão e atitude negativa em relação ao corpo. Antes
do programa de exercícios, os participantes do grupo de controle obtiveram
resultados mais baixos para as variáveis imagem corporal negativa e
preocupações com o físico, quando comparados ao grupo experimental. Foram
observadas mudanças significativas no autoconceito, na perceção da aptidão, na
ansiedade e na autoestima dos participantes do grupo experimental, após a
atividade física. A ansiedade diminuiu progressivamente de T1 a T3, enquanto o
recurso autoestima aumentou continuamente em todas as três medidas. Já as
outras duas variáveis ' perceção da aptidão e autoconceito ' obtiveram
resultados positivos de T1 a T2, mas tiveram quedas após a suspensão dos
exercícios (T3). Assim, pode-se afirmar a contribuição da atividade física
moderada para a melhoria da conceção do corpo. Contudo, algumas alterações,
como perceção da aptidão, podem não ser sustentadas com o cessar das atividades
físicas.
Em um estudo com mulheres com câncer de mama, Pinto, Clark, Maruyama e Feder
(2003) analisaram as mudanças psicológicas e físicas dessas mulheres associadas
à participação ao exercício físico. Participaram do estudo 24 mulheres
sedentárias, diagnosticadas com câncer de mama nos três anos anteriores ao
estudo, e que tiveram suas sessões de quimioterapia e radioterapia (pós-
cirurgia) terminadas. Essas mulheres foram divididas em grupo experimental '
submetido a 12 semanas exercícios aeróbios moderados (60-70% da frequência
cardíaca máxima), três vezes por semana ' e grupo de controle ' não praticou
exercícios. Para a avaliação do programa foi utilizado o teste de pico
ergômetro e três questionários: (a) o Profile of Mood States (POMS; McNair,
Lorr, & Droppelman, 1971), (b) a Positive and Negative Affect Scale (PANAS;
Watson, Clark, & Tellegen, 1988), e (c) a Body Esteem Scale (BES; Franzoi
& Shields,1984).
Os resultados indicaram que o programa de intervenção melhorou a imagem
corporal das participantes do grupo experimental nas subescalas de Condições
Físicas e Preocupações com o Peso da Body Esteem Scale. O grupo de controle
relatou uma diminuição nos escores dessas subescalas, reforçando o papel que o
exercício pode ter na prevenção de declínios na satisfação com a imagem
corporal de pacientes com câncer. O grupo experimental mostrou uma diminuição
dos sentimentos de angústia, verificada na POMS e PANAS, mas esses resultados
não foram considerados confiáveis, uma vez que o n da amostra foi baixo (e
diminuído durante a pesquisa ' três mulheres do grupo experimental desistiram
da pesquisa).
Calogero e Pedrotty (2004) investigaram os efeitos de um programa intervenção
física projetado para reduzir o abuso de exercícios em mulheres com distúrbios
alimentares. Participaram do estudo 254 mulheres, diagnosticadas com anorexia
nervosa subtipo restritivo (n = 82), anorexia nervosa subtipo purgativo (n =
33), bulimia nervosa (n = 89), ou transtorno alimentar não especificado (n =
50), admitidas para tratamento durante um período de seis meses. A amostra foi
dividida em grupos experimental ' que praticaram exercícios por pelo menos duas
vezes por semana ' e de controle, que não fez exercício físico. Para avaliação
dos efeitos da intervenção sobre a saúde mental e física das pacientes, os
pesquisadores utilizaram (a) uma versão adaptada do Exercise History and Eating
Disorder Severity, a partir da 12a edição do Eating Disorders Examination
(Fairburn & Wilson, 1993), (b) o Obligatory Exercise Questionnaire
(Thompson & Pasman, 1991), (c) a subescala Appearance Control da escala
Objectified Body Consciousness (McKinley & Hyde, 1996), e (d) o Eating
Disorder Patient's Expectations and Experiences of Treatment (Clinton, 2001).
Adicionalmente, registraram o ganho de peso semanal e total das pacientes. A
intervenção consistiu num programa de exercícios de coordenação, alongamento,
exercícios posturais, treino de flexibilidade, equilíbrio, jogos recreativos ou
outras atividades que elas gostassem. As atividades foram realizadas quatro
vezes na semana, com uma duração de 60 minutos por sessão.
Após a análise dos resultados, concluiu-se que as mulheres diagnosticadas com
anorexia nervosa subtipo restritivo e anorexia nervosa subtipo purgativo que
participaram da intervenção aumentaram seu peso em cerca de 40% quando
comparadas às pacientes com o mesmo diagnóstico do grupo de controle. Como
esperado, o grupo diagnosticado com bulimia nervosa não teve alterações
significativas no peso em relação ao grupo de controle. Já o grupo de
transtorno alimentar não especificado não sofreu alterações em relação ao peso,
contrariando o que era esperado para o grupo. Comparando os resultados antes e
após a intervenção Calogero e Pedrotty (2004) observaram que as participantes
do grupo experimental demonstraram uma redução significativa na ansiedade, e
diminuíram seu comprometimento emocional, envolvimento e rigidez com o
exercício. Além disso, elas mudaram a opinião sobre exercício e saúde ao
deixarem de lado algumas das falsas crenças que tinham sobre o assunto. Para os
autores, essas descobertas sugerem que o uso de um programa que tenha como meta
a redução do abuso de exercícios em mulheres com transtornos alimentares é
possível durante o tratamento residencial e resulta em mudanças positivas sem
interferir no ganho de peso.
Imagem corporal e atividade física: Ambos os sexos
Nenhum dos artigos selecionados de acordo com os critérios de inclusão e
exclusão, desta revisão, estudou os efeitos da atividade física na imagem
corporal exclusivamente na população masculina. Dados a respeito da população
masculina apareceram apenas em três pesquisas com populações mistas.
Alfermann e Stoll (2000) investigaram os efeitos do exercício físico no
autoconceito e no bem-estar de adultos de meia-idade de ambos os sexos,
sedentários há pelo menos 12 meses. Esta pesquisa consta de dois estudos, o
primeiro com um grupo experimental e um grupo de controle, e o segundo com dois
grupos experimentais e dois grupos placebo. As atividades dos grupos placebo
foram formuladas para que os grupos não ficassem propriamente inativos, mas que
suas atividades fossem tão leves que os seus membros não pudessem ser
caracterizados como pessoas ativas. Os sujeitos dos grupos experimentais
realizaram atividades físicas sistematizadas. No primeiro estudo participaram
de um programa de exercícios um total de 24 adultos (17 mulheres e sete homens)
entre 25 e 50 anos, durante seis meses. Os exercícios para o desenvolvimento de
flexibilidade, coordenação, força e resistência duraram cerca de 60 minutos,
uma vez por semana, com a intensidade podendo atingir cargas submáximas (75% da
carga máxima). Para a avaliação do programa, os pesquisadores utilizaram
escalas criadas por eles mesmos, que incluíram (a) a autoavaliação positiva,
(b) a autoavaliação negativa, (c) a aptidão física, e (d) a atratividade
física. Usaram ainda a subescala Self-Esteem da Frankfurt Scales of Self-
Concept (Deusinger, 1986) para avaliar a auto-estima, a versão alemã do
Spielberger's State-Trait Anxiety Inventory (Laux, Glanzmann, Schaffner, &
Spielberger, 1981) para avaliar a ansiedade-traço e para avaliar as queixas
psicossomáticas usaram a escala Beschwerde-Liste (Zerssen, 1976).
Os resultados deste experimento indicaram que as alterações mais significativas
foram observadas principalmente nas variáveis associadas às experiências
físicas, como autoconceito físico. As variáveis de ansiedade-traço e de
autoestima permaneceram inalteradas. Segundo os autores, essas duas variáveis
podem ser menos suscetíveis a mudanças decorrentes do exercício físico por
serem características da personalidade do sujeito, mas um programa de exercício
físico mais intenso (e.g., duas vezes por semana), pode produzir mudanças nas
mesmas.
No experimento dois, 21 homens e 51 mulheres participaram de um programa de
exercícios por seis meses. Neste experimento, Alfermann e Stoll (2000)
dividiram os sujeitos da pesquisa em quatro grupos: dois experimentais e dois
placebos. Um dos grupos experimentais praticou exclusivamente exercícios
aeróbios ' como caminhada, corrida, ciclismo e natação, duas vezes por semana,
por 60 minutos, com intensidade adaptada a cada participante - não atingindo
70% da carga máxima individual. O outro grupo experimental seguiu a mesma
proposta de exercícios que o grupo experimental do primeiro estudo (uma vez por
semana durante uma hora, com exercícios de flexibilidade, coordenação, força e
resistência). Um dos grupos placebo seguiu um programa de relaxamento muscular
progressivo e treinamento autogénico. O segundo grupo placebo realizou
alongamentos da cadeia posterior e aulas de correção postural, nas quais os
sujeitos aprenderam a sentar-se e a movimentar-se de maneira a prevenir as
dores nas costas. Ambos os grupos placebo tiveram encontros duas vezes por
semana, com 60 minutos de duração. A duração total deste segundo estudo foi de
seis meses. Basicamente, a forma de avaliação desta intervenção foi a mesma
adotada no primeiro estudo. Foi feita apenas uma modificação no Spielberger's
State-Trait Anxiety Inventory, ao qual se acrescentou uma subescala para
avaliar traços de raiva. Testes de aptidões físicas também foram acrescentados
para medir resistência, flexibilidade, equilíbrio, velocidade, força, arremesso
à distância e coordenação. As avaliações atitudinais foram feitas em três
momentos: no começo do programa de intervenção, ao final da intervenção e seis
meses após a finalização do programa. Os testes físicos foram aplicados somente
antes e logo após o final da intervenção.
Os resultados indicaram que os participantes dos grupos placebo tiveram
melhores resultados do que os sujeitos dos grupos experimentais no que se
refere a autoconceito e bem-estar e que os efeitos permaneceram estáveis seis
meses após o término das atividades. Embora os participantes dos grupos
experimentais de ambos experimentos terem tido ganhos significativos no que se
refere a autoconceito físico depois de seis meses de exercício, apenas para o
grupo experimental que praticou exercícios aeróbios (experimento dois)
identificou-se incrementos de autoestima, e isso foi unânime entre os
participantes. Para Alfermann e Stoll (2000), os resultados dos dois estudos
confirmam a hipótese de que o exercício provoca melhorias no autoconceito
físico; porém, não apenas os exercícios físicos, mas também outras atividades
físicas, como as realizadas com os grupos placebo, são capazes de influenciar
as variáveis dependentes.
Em outro estudo, Stoll e Alfermann (2002) analisaram os efeitos físicos na
avaliação do autoconceito corporal e bem-estar entre idosos. Uma amostra de 88
pessoas, homens (n = 16) e mulheres (n = 72), com idade mínima igual a 50 anos
foi recrutada para o estudo, que teve duração de 14 semanas. A amostra foi
dividida em três grupos: (a) grupo experimental, que praticou exercícios
moderados uma vez por semana durante 60-75 minutos; (b) grupo placebo, que teve
aulas de línguas estrangeiras, uma vez por semana, durante 90 minutos; e (c) um
grupo de controle, que não praticou atividades. A versão alemã do Conservation
of Resources Evaluation (originalmente publicada por Hobfoll, 1989), quatro
escalas criadas pelos autores para avaliar o autoconceito em idosos, a versão
alemã do Spielberger's State-Trait Anxiety Inventory (Laux et al., 1981), e a
escala Besch-werde-Liste (Zerssen, 1976) foram utilizadas antes do início e ao
final da intervenção, para avaliar os efeitos do programa na amostra.
Os resultados revelaram melhorias no autoconceito corporal de homens e mulheres
do grupo experimental quando comparado aos grupos de controle e placebo. As
variáveis de recursos de avaliação e bem-estar subjetivo não apresentaram
melhorias em nenhum dos grupos. Este estudo não identificou, entre os
participantes dos três grupos, efeitos positivos para a ansiedade e para as
queixas psicossomáticas. Stoll e Alfermann (2002) atribuíram esse achado às
características dos exercícios, que não foram focados para tal objetivo, e
consideraram também como fator a frequência semanal do programa ' que seria
menos do que o necessário para alterar as variáveis analisadas.
Ginis, Eng, Arbour, Hartman, e Phillips (2005) publicaram um estudo no qual
examinaram as diferenças entre homens e mulheres, no que se refere à mudanças
na imagem corporal e suas relações com as mudanças corporais subjetivas e
objetivas. Participaram do estudo 25 homens e 16 mulheres sedentários que foram
submetidos a um programa de treinamento resistido progressivo, com duração de
12 semanas e frequência de cinco dias por semana. Para avaliar o programa, os
participantes responderam, antes e depois da intervenção, à (a) Social Physique
Anxiety Scale (versão de 9 itens desenvolvida por Martin, Rejeski, Leary,
McAuley, & Bane, 1997), (b) à subescala Body Areas Satisfaction do
Multidimensional Body-Self Relations Questionnaire (Brown, Cash, & Mikulka,
1990), (c) às subescalas Body Fat e Body Strength do questionário Physical
Self-Description Questionnaire (Marsh, Richards, Johnson, Roche, &
Tremayne, 1994), (d) à escala Male Body Silhouette (Lynch & Zellner, 1999)
' para os homens ' e (e) à escala Female Body Silhouette (Furnham, Titman,
& Sleeman, 1994) ' para a mulheres.
Os resultados indicaram que homens e mulheres obtiveram respostas similares no
que se trata de satisfação com áreas do corpo e demostraram um significativo
aumento com a satisfação corporal e um decréscimo significante na ansiedade a
partir da intervenção proposta. Apesar das semelhanças, as mudan-ças possuíram
diferentes significados. Para os homens, as melhorias na imagem corporal se
relacionaram apenas com as mudanças corporais subjetivas, como por exemplo a
perceção da composição corporal, que nem sempre corresponde com a medida
objetiva (em valores numéricos) desta variável. Para as mulheres, as mudanças
na imagem corporal se relacionaram tanto com mudanças físicas subjetivas
(perceção) como com mudanças objetivas (como aumento da força). Esses
resultados sugerem que apesar de homens e mulheres obterem melhorias na imagem
corporal provenientes do treinamento de força, eles se beneficiam do treino por
diferentes razões.
DISCUSSÃO
A leitura dos artigos selecionados nos permite inferir características,
verificar uma evolução dos desenhos das pesquisas, desenvolver uma reflexão
sobre as relações entre atividade física e imagem corporal e identificar os
efeitos que mudanças no tipo de atividade, na intensidade, na duração e/ou na
frequência podem exercer na imagem corporal.
Quanto às características da pesquisa em imagem corporal, nota-se, nos
trabalhos aqui analisados, um grande foco na satisfação corporal. Dessa forma,
fica evidente que a dimensão percetiva e as demais dimensões atitudinais da
imagem corporal ' afetos, crenças e comportamentos ' estão subexplorados e uma
compreensão ampliada da relação causal entre a atividade física e a imagem
corporal, por ora, fica limitada.
Ainda em relação à pesquisa em imagem corporal, a análise dos artigos nos
permitiu refletir sobre os instrumentos para avaliar a mesma. Thompson (2004)
já havia afirmado que a variedade das escalas e as possibilidades de escolha
são grandes atualmente, por isso é fundamental ao pesquisador delinear
corretamente qual dimensão da imagem corporal ele pretende investigar e saber
selecionar instrumentos com boas qualidades psicométricas. Entretanto, o estudo
de Varray (1988) nos aponta para um outro fator: é importante considerar se o
instrumento é adequado, não só em termos psicométricos, mas também se é
sensível o suficiente para identificar as mudanças provocadas pelo exercício na
imagem corporal. Esta análise da validade preditiva de uma escala é rara em
nossa área, sendo de nosso conhecimento apenas um estudo que abordou este tipo
de validade (Litt & Dodge, 2008). Um projeto piloto pode ser uma solução
para o pesquisador para testar seus instrumentos.
Quanto ao desenho da pesquisa, em uma análise cronológica, podemos notar um
desenvolvimento importante no que se refere à metodologia e aos recursos de
avaliação da imagem corporal. Nos estudos de Vanderey-cken et al. (1987) e
Varray (1988), a ausência de um grupo de controle deixa o estudo vulnerável e
sem parâmetros para analisar as mudanças ocorridas antes e depois da
intervenção realizada com os sujeitos. A partir do estudo de Tucker e Mortell
(1992), o grupo de controle se faz presente em todas as outras pesquisas. Além
do grupo de controle, Stoll e Alfermann (2000, 2002) introduzem em suas
pesquisas um grupo placebo, cujos dados permitiram novas conclusões.
Outra evolução no delineamento destas pesquisas sobre atividade física e imagem
corporal foi a introdução de diferentes exercícios nas intervenções realizadas.
Da terapia corporal (Vandereycken et al., 1987) ao treinamento com pesos
(Tucker & Maxwell, 1992) surgiram novas possibilidades tanto no
planejamento quanto na execução da pesquisa em si, pois o espaço exigido por
uma intervenção com pesos é menor. Especialmente para as intervenções
longitudinais, os exercícios com pesos em ambiente fechado podem ser uma
escolha coerente para países com inverno rígido, a fim de minimizar os riscos
de drop-out da amostra. Além de inovar os estudos, Tucker e Maxwell (1992)
ainda apontaram para a variabilidade de efeitos que os diferentes tipos de
exercício podem ter na imagem corporal, ampliando também a possibilidade de
compreender mais amplamente a relação entre imagem corporal e cada tipo de
exercício.
A escolha das atividades a serem realizadas na intervenção é, assim, de extrema
importância. Adicionalmente, o estudo de Stoll e Alfermann (2000) aponta para
uma reflexão interessante: os autores verificaram que o grupo experimental -
que realizou atividades de fitness duas vezes por semana - obteve melhores
resultados para autoconceito físico quando comparados ao grupo placebo.
Entretanto, os grupos placebos ' que realizaram atividades de relaxamento e
posturais - também apresentaram melhorias significativas para as variáveis
autoestima e bem-estar. Esses resultados nos levam a refletir sobre o contato
com o corpo, provocado pelo movimento, que pode ser a matriz do desenvolvimento
de uma nova relação e representação do corpo. Por tanto, os objetivos a serem
alcançados através de um programa de treinamento, exigem um planejamento
delicado da intervenção, já que os diferentes movimentos e intensidades
provocam reações específicas, singulares a cada sujeito. Encontramos eco nessas
reflexões no estudo de Calogero e Pedrotty (2004). Para os autores, planejar
atenciosamente as atividades e determinar os objetivos do programa de
exercícios é de extrema importância para gerar resultados positivos na imagem
corporal da população alvo. Os autores planejaram atividades físicas para
reduzir o abuso de exercícios físicos por mulheres com transtornos alimentares.
Aqui, mais do que a frequência e a intensidade, o modo através do qual as
atividades foram conduzidas fez a diferença para o estudo, que teve resultados
positivos.
Além do tipo de exercício, o pesquisador deve considerar outros três fatores:
frequência, intensidade e duração. Nas pesquisas aqui analisadas, pode-se
observar que a frequência das intervenções variou de uma a cinco vezes semanais
e a duração da sessão de 45 a 75 minutos. A intensidade dos exercícios
empregados nas intervenções variou de leve a moderada ' por volta dos 70% da
frequência cardíaca máxima ou 75% da carga submáxima de trabalho. Todos os
estudos, independente da duração da sessão (45 ou 75 minutos) identificaram
melhorias significativas na imagem corporal de suas respetivas populações, com
exceção dos estudos que realizaram suas práticas apenas uma vez por semana.
Nesses estudos, a ansiedade, as queixas psicossomáticas, a autoestima e o bem-
estar não sofreram alterações (Stoll & Alfermann 2000, 2002).
Podemos também chamar atenção ao significado das atividades para os diferentes
sexos. Ginis et al. (2005) enfatizam que homens e mulheres podem se beneficiar
de atividades físicas, mas o fazem por razões diferentes. As mulheres dão maior
importância aos resultados objetivos (referentes à medidas corporais) e os
homens atribuem um maior significado à perceção dos resultados obtidos, dando
mais importância ao caráter subjetivo do mesmo. Ainda sobre esta questão,
ressalta-se que a maioria dos estudos aqui analisados foram intervenções em
amostras femininas. A área, que sofre com uma carência de estudos, fica ainda
mais desfalcada de dados sobre outras populações e juntamente com a questão do
foco quase exclusivo na avaliação da satisfação, ressaltada no segundo
parágrafo, se constitui uma lacuna importante na literatura. Outra lacuna se
refere aos adolescentes, pois nenhum estudo sobre este grupo amostral foi
selecionado, pelos critérios de inclusão e exclusão, para esta revisão.
Ademais, estudos com crianças também são escassos.
Finalmente, outra questão interessante está no planejamento da coleta de dados,
que pode possibilitar ' ou não ' conclusões sobre alterações de traço ou estado
- e sobre os limites do papel da atividade física na imagem corporal. Stoll
(2000) e Alfemann e Stoll (2000) afirmam que os efeitos das atividades
realizadas são significantes logo após a intervenção, apontada para uma imagem
corporal mais positiva, mas desaparecem com o tempo, se os estímulos cessam.
Estes resultados apontam se as alterações foram momentâneas (estado) ou
permanentes (traço). Ressalta-se que toda experiência corporal é relevante numa
aula de educação física, entretanto, pesquisas com diferentes amostras e
planejamentos de intervenção são necessárias, para esclarecer se as alterações
na imagem corporal, provocadas pela atividade física, são temporárias por
natureza ou se essa característica varia de acordo com o tipo de intervenção.
A estas observações, gostaríamos de acrescentar o que ressalta Tavares (2003)
em relação ao profissional de educação física que pretende trabalhar com o
propósito de facilitar o desenvolvimento da imagem corporal do outro: este deve
ter a sua própria imagem corporal bem desenvolvida, já tendo lidado com suas
perdas, reconhecendo suas potencialidades e limitações. Dessa forma conseguirá
se colocar na linha tênue entre a distância que abandona e o perto que sufoca,
dando espaço para o outro identificar-se como sujeito, a partir do ouvir
empático. Este profissional também deve considerar em seu planejamento a
escolha das atividades, o objetivo que se pretende alcançar, a individualidade
do sujeito (que não é apenas biológica, mas emocional) a duração da intervenção
e frequência das sessões.
Para que a pesquisa em imagem corporal torne-se ainda mais completa, Campbell e
Hausenblas (2009) sugerem que o próximo passo é investigar como os aspetos
biológicos, fisiológicos e sociais do exercício contribuem para desenvolver a
imagem corporal. Assim, as intervenções poderão ser projetadas de maneira mais
eficaz e cuidadosa para que o exercício não venha a ser uma intervenção prática
e acessível para a imagem negativa do corpo.