Dismorfia muscular: A busca pelo corpo hiper musculoso
O transtorno dismórfico corporal tem por característica principal alterações na
perceção da autoimagem, preocupações irracionais de possíveis imperfeições na
aparência, de modo acentuadamente excessivo e desproporcional à realidade,
gerando importantes prejuízos no funcionamento pessoal, familiar, social e
profissional (Fairburn, 1994; Torres, Ferrão, & Miguel, 2005).
Na década de 1990, a preocupação com a imagem corporal era eminentemente
feminina, relacionada à anorexia e à bulimia. Atualmente, estas preocupações
corporais afetam ambos os sexos, e de forma crescente os homens, sendo
denominadas de dismorfia muscular (DM) ou vigorexia (Hildelbrandt, Langenbu-
cher, & Schlundt, 2004).
A dismorfia muscular é um transtorno recentemente descrito e ainda não consta
nos manuais de diagnóstico em psiquiatria e seu quadro clínico ainda não está
devidamente definido. Também são escassos estudos epidemiológicos sobre o
transtorno, sendo a maior parte dos dados científicos obtidos a partir de
atletas ou fisiculturistas, prejudicando generalizações sobre a prevalência ou
incidência desse quadro. Alguns autores sugerem que o transtorno origina-se por
fatores socioculturais (Pope Jr, Gruber, Choi, Olivardia,&Phillips, 1997).
Pesquisadores argumentaram que a DM comummente se manifesta quando os
indivíduos recebem pressões sociais para alcançar um determinado padrão
corporal (Cohane & Pope Jr, 2001; Olivardia, 2001; Pope Jr, Phillips, &
Olivardia, 2000).
Outros pensam que a DM decorre de uma baixa autoestima, insatisfação e
distorção da aparência do corpo, associadas a fatores biológicos e sociais
(Lantz, Rhea, & Mayhew, 2001). Grieve (2007) propôs que as variáveis mais
importantes relacionadas à dismorfia muscular são a distorção da perceção da
imagem corporal, a insatisfação com o corpo, e a construção de uma imagem
corporal ideal internalizada. Essas três variáveis, juntamente com
perfeccionismo, afeto negativo, baixa autoestima e pressão da mídia são
pensadas como a base das condições necessárias para o desenvolvimento da
dismorfia muscular.
A identificação precoce da dismorfia muscular minimiza o uso de drogas que
podem ser nocivas ao corpo e a mente, por exemplo, os esteroides anabólicos
androgénicos (EAA), geralmente administrados para se obter rapidamente os
resultados desejados ou fantasiados, como um corpo perfeitamente hipertrofiado
e forte. Na maioria dos casos, tal comportamento é fruto da busca pela
aceitação social e, decorrente da pressão exercida pela mídia, na qual o
narcisismo se manifesta muito atuante (Rohman, 2009).
Neste contexto, fica clara a íntima relação entre a busca pelo corpo musculoso
e a ausência de limites para atingir tal objetivo, conduzindo pessoas à procura
de um corpo exageradamente hipertrofiado. Sujeitos que praticam o treinamento
de força exaustivamente não apenas em busca do bem-estar, mas principalmente
objetivando corpos progressivamente musculosos, são sérios candidatos ao
diagnóstico de DM. Normalmente estes indivíduos estão dispostos a manter uma
dieta principalmente hiperproteica e hipolipídica, a usar fármacos e praticar o
treinamento de força de maneira demasiadamente intensa para conseguir o
objetivo de um corpo perfeito, que jamais é alcançado.
Desta forma, o presente estudo tem o objetivo de analisar os aspetos
socioculturais, psicológicos e o uso de recursos ergogênicos relacionados à
dismorfia muscular, identificando os riscos à saúde promovidos por esse
transtorno. Espera-se que o trabalho possa contribuir para melhor entendimento
das práticas de hiperinvestimento no corpo, vistas na sociedade contemporânea
consumista, principalmente no que diz respeito à compulsão pela aquisição de um
corpo musculoso, tendo como referência temática as noções de dismorfia
muscular.
MÉTODO
Foi realizado um estudo transversal exploratório, de abordagem quali-
quantitativa.
Amostra
Foram credenciados para o estudo 20 indivíduos, de ambos os sexos, com idade a
partir de 18 anos, praticantes de musculação e inscritos em comunidades
específicas sobre dismorfia muscular, na rede mundial de computadores. Estes
foram selecionados por meio da mídia eletrônica, considerando sua disposição de
participar da pesquisa via correio eletrônico. Importa salientar que para
resguardar a identidade dos participantes, atribuímos nomes fictícios de
personagens que remetem a imagens de corpos musculosos.
Foram consideradas as orientações sugeridas pela Resolução no 196/96 do
Conselho Nacional de Saúde / MS, visando assegurar os direitos e deveres que
dizem respeito à comunidade cientifica, ao(s) sujeito(s) e ao Estado. A
metodologia deste estudo foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres
Humanos do Hospital Universitário Lauro Wanderley da Universidade Federal da
Paraíba ' UFPB sob o Protocolo nº 378/2009.
Instrumentos e Procedimentos
O instrumento para coleta de dados foi um questionário de identificação e
caracterização dos sujeitos, estruturado e fundamentado a partir de artigos
científicos da literatura (Azevedo, 2008; Dawes & Mankin, 2004). Foram
contempladas variáveis objetivas relacionadas ao perfil e caracterização
socioeconômica do grupo (sexo, escolaridade, renda familiar, estado civil,
tempo de prática da musculação, frequência de treino, tempo gasto em cada
sessão) e subjetivas (idade, tempo de uso e tipo/nome relativos aos suplementos
alimentares e esteroides anabolizantes, tipo de dieta e incômodos quanto à
aparência física). Por fim, os dados acerca da rotina alimentar e imagem
corporal dos sujeitos foram analisados. O questionário foi estruturado de forma
a ser respondido voluntária e anonimamente.
A abordagem quali-quantitativa da pesquisa não admitiu uma testagem dos
instrumentos, própria da investigação convencional, como afirma Freitas (2000).
N o entanto, houve o cuidado de aplicar 10 questionários-piloto, composto por
15 itens distribuídos nas dimensões supracitadas objetivando optar por questões
que se revelaram imprescindíveis diante do fenômeno, no sentido de
potencializar e apreender a realidade estudada.
Procedimentos para Coleta de Dados
O contato com os indivíduos incluídos na pesquisa foi realizado nos meses de
novembro e dezembro de 2009. Inicialmente foi criado um perfil pelos
pesquisadores em 52 comunidades relacionadas à Vigorexia, Viciados em
Academia, Vigorexia Síndrome de Adônis, Vigorexia®, Vigorexia. Doença ou
não?, Perdi um amigo para VIGOREXIA!, Feio de tão grande é o @$%¨&o,
Eu tenho VIGOREXIA e DAí?, Vigorexia, um estilo de vida., Fisiculturismo,
etc., dos sites de relacionamentos (ORKUT e BLOGS), totalizando o contato com
125003 indivíduos pertencentes às comunidades. Nestas, foram postadas
informações pertinentes ao estudo, bem como foi divulgado o endereço eletrônico
da pesquisadora principal para os internautas que apresentassem interesse em
receber e preencher o questionário.
Os sujeitos do estudo estavam cientes de sua participação voluntária e de não
haver nenhuma consequência pela sua não-participação. Foi ressaltada pela
pesquisadora a importância da fidedignidade dos dados fornecidos. Todos os
participantes eram membros de pelo menos uma comunidade do site de
relacionamentos ORKUT®.
Técnicas de Análise dos Dados
Após o recebimento dos questionários, foi realizada uma análise quantitativa
dos dados obtidos por meio de estatística descritiva, como frequência,
percentual, média e desvio padrão. Para decompor as questões subjetivas foi
utilizada a técnica de análise de conteúdo a fim de desvelar e compreender os
fenômenos que envolvem a dismorfia muscular. A organização da análise de
conteúdo envolveu três fases: pré-análise, exploração do material e análise de
interpretação dos resultados (Bardin, 2002). A pré-análise dos registros foi
realizada por meio da leitura flutuante, ou seja, este foi o momento em que
houve organização do material, formulação das questões norteadoras e elaboração
de indicadores que fundamentaram a interpretação final. Durante a fase de
exploração do material houve a tomada das decisões adotadas na pré-análise. Foi
o momento da codificação, em que os dados brutos foram categorizados de forma
organizada e agregados em unidades, as quais permitiram uma descrição das
características relacionadas aos conteúdos. Nesse sentido são nomeadas as
características sociodemográficas, as práticas do treinamento de força, o uso
de esteroides anabólicos androgénicos, os aspetos psicossociais, de imagem
corporal e nutricional.
APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
As reflexões empreendidas neste estudo foram focadas na compreensão dos aspetos
sociopsicoculturais, e do uso de recursos ergogênicos, definida pelos atores
sociais que apresentam compulsão pela prática do treinamento de força. Desta
maneira, foi possível perceber, ao longo do trabalho, que não é aceitável uma
extensão desta temática sem estabelecer uma relação indissociável entre os
contextos sociopsicoculturais e biológico.
Dados Sociodemográficos
No que concerne aos dados sociodemográficos, dos 20 atores sociais
participantes do presente estudo, constatou-se que todos eram solteiros e 85%
eram do sexo masculino. A idade apresentou variação entre 18 e 24 anos (19.6 ±
1.98 anos). Em relação à renda mensal familiar, 50% dos sujeitos relataram ter
renda igual ou superior a sete salários mínimos. Importa salientar que
atualmente o valor do salário mínimo é de R$ 510.00 ou cerca de € 214.00. A
relação entre a dismorfia muscular e o sexo masculino pode ser atribuída às
características do transtorno, uma vez que as alterações na perceção da imagem
corporal e a consequente compulsão pelo treinamento de força conduzem a uma
progressiva hipertrofia muscular. Esta, conforme afirmam Pope Jr et al. (1997)
e Olivardia (2001) é um desejo principalmente de indivíduos do sexo masculino.
No entanto, mulheres cada vez mais estão demonstrando este anseio pela estética
musculosa, tendo em vista a popularização das modelos fisiculturistas
concomitantemente aos apelos da mídia. Em 2000, Olivardia, Pope Jr e Hudson,
encontraram maior incidência de transtornos de humor, transtornos de ansiedade
e transtornos alimentares em homens com dismorfia muscular do que em sujeitos
sem este transtorno. Os pesquisadores também evidenciaram que entre 5% e 10%
dos levantadores de peso e 9% dos pacientes com transtorno dismórfico corporal
possuíam dismorfia muscular.
No que concerne à faixa etária, a investigação realizada por Vieira, Rocha e
Ferrarezzi (2010) corrobora com os resultados do presente estudo, apresentando
idade média de 24 anos. Fato este que pode ser explicado pelo início da
dependência pelo treinamento de força na adolescência em função de pressões
sociais advindas principalmente da família e amigos, e o agravamento desta
dependência na fase adulta podem ocorrer, segundo Swami e Tovvé (2007) e Vieira
et al. (2010), em consequência às preocupações e exigências sociais referentes
à imagem corporal na tentativa de anular os efeitos ocasionados pela idade
cronológica, pelos hábitos de vida adquiridos sobre a autoimagem, e pelas
exigências da mídia em busca da aceitação social e realização.
De maneira geral é nítida a predominância de adultos jovens na prática do
treinamento de força. Em Curitiba, 61.2% dos frequentadores de academia tinham
entre 20 e 29 anos (Reis, Manzoni, & Simonard-Loureiro, 2006). Em Campinas
59.6% dos praticantes de treinamento de força pesquisados tinham entre 17 e 28
anos (Lollo & Tavares, 2004). Assim, os resultados da presente pesquisa
corroboram com os achados científicos que demonstram associação entre o período
inicial da dismorfia muscular - no final da adolescência - e seu
desenvolvimento, período no qual naturalmente as pessoas apresentam maior
insatisfação com o próprio corpo e se submetem exageradamente à prática do
treinamento de força, sem levar em consideração os riscos à saúde decorrente da
busca de se atingir um corpo musculoso a qualquer preço. Na adolescência,
existem cobranças, principalmente socioculturais, para que os meninos fiquem
fortes e musculosos. A esse respeito, Arraz (2010, p. 8) cita "...Stallone,
Schwarze-negger, Van Damme, He-Man, Super Homem, Conan ,... difícil encontrar
um adolescente que não tenha, ao menos uma vez, se inspirado num desses ícones
da virilidade masculina, com músculos enormes e corpo dividido. Estimulados
progressivamente pela mídia, que associa a idéia do corpo perfeito ao sucesso e
felicidade, e pela enorme difusão de academias de ginástica nos anos 90, os
jovens marombeiros' foram em busca do sonho de ter o poder e o respeito
encarnados numa silhueta musculosa".
Ainda, de acordo com Beiras, Lodetti, Cabral, Toneli e Raimundo (2007) as
histórias em quadrinhos de super-heróis ganham vida na imaginação dos leitores,
estabelecendo fortes ligações com seu cotidiano. Assim, estas caracterizações
remetem a tendências distintas de representação dos corpos, (re)produzindo
normas sociais e valores estéticos sobre a corporeidade, principalmente no
universo masculino, cuja imagem do corpo está associada ao modelo de virilidade
instituído socialmente.
No que concerne ao nível de escolaridade, a maioria dos participantes estava
cursando ou havia cursado o ensino superior (50%), o que demonstra um elevado
grau de instrução destes praticantes, supostamente com maiores possibilidades
de acesso às informações, além do potencial para o desenvolvimento de análises
críticas. Além disso, a maior prevalência no ensino superior é condizente com a
faixa de idade mais prevalente entre os atores. Pesquisas realizadas por Pope
Jr, Katz e Hudson (1993) e Pope Jr et al. (1997, 2000) identificaram que
sujeitos com altos níveis de escolaridade sofriam de dismorfia muscular,
apresentando necessidade compulsiva de praticar o treinamento de força. Dentre
eles, graduados em diversas profissões, inclusive na área de saúde como
educadores físicos e médicos e ainda, sujeitos com título de Ph.D. (Philosophy
Doctor).
Neste sentido, é importante apresentar estudos realizados com praticantes de
treinamento de força no Brasil. Nas academias de Porto Alegre (RS) foram
encontrados resultados semelhantes, com predominância de praticantes de
treinamento de força cursando o ensino superior, onde 36% possuíam ensino
superior completo e 40% ensino superior incompleto (Silva et al., 2007).
Achados de Frizon, Macedo e Yonamine (2005) em pesquisa também realizada no RS,
apontou que estudantes universitários praticam o treinamento de força e fazem
uso de substâncias injetáveis, sendo motivados principalmente pela estética.
Santos e Santos (2002) na cidade de Vitória no Estado do Espírito Santo,
observaram que 76% dos frequentadores de academias estavam cursando o ensino
superior e, em São Paulo, 69.9% dos entrevistados em academias de ginástica
possuíam curso superior (Pereira, Lajolo, & Hirschbruch, 2003), o que
evidencia um grau de escolaridade similar ao encontrado no presente estudo.
No tocante a variável renda familiar, 50% dos sujeitos referiram aquela acima
de sete salários mínimos (R$ 3570.00 ou cerca de € 1516.00). Estes achados nos
permitem inferir e direcionam para uma tendência de que os indivíduos com
dismorfia muscular possuem encargos financeiros aproximadamente três vezes mais
da média salarial dos brasileiros que, de acordo com a pesquisa realizada em
2009 pela instituição financeira Cetelem em parceria com o instituto de
pesquisas Ipsos, é de R$ 1201.00 ou cerca de € 510.00. Assim, a renda mensal
dos vigoréxicos potencializam a aquisição e utilização de recursos ergogênicos
como anabolizantes e suplementos alimentares, que possuem custo elevado.
Investigação de Azevedo (2008) encontrou resultados análogos ao do atual estudo
quando a prevalência da renda familiar mensal de indivíduos com dismorfia
muscular foi igual ou maior do que sete salários mínimos. Resultado diferente
ao do presente estudo foi encontrado por Silva Júnior, Souza, Silva, Oliveira e
Souza (2008), na cidade do Rio de Janeiro, onde apenas 4.3% dos pesquisados
relataram renda entre sete e nove salários mínimos, 13.0% declaram possuir
renda maior que 10 salários mínimos e 43.5% entre um e três. Estes achados
demonstram que o treinamento de força é um exercício físico difundido e
acessível para indivíduos e comunidades de todas as classes sociais.
Treinamento de Força
Em relação aos aspetos da prática do treinamento de força, tantos os atores do
sexo masculino, quanto feminino, apresentaram resultados análogos. Verificou-se
que 50% da amostra treina há mais de três anos (3.3 ± 1.89 horas), com
frequência semanal de cinco vezes (5.3 ± 0.66 vezes/ semana), usando mais de
uma hora e meia de treino (1.55 ± 0.83 horas) por sessão. Esses resultados
foram similares aos verificados em diversas cidades do país (Araújo &
Soares, 1999; Lollo & Tavares, 2004; Silva et al., 2007; Silva Júnior et
al., 2003), nos quais um número expressivo dos praticantes de treinamento de
força o realizam cinco ou mais vezes por semana, com duração de duas horas para
cada sessão de treino.
De acordo com Pereira, Doimo e Kowalski (2009), atualmente algumas práticas
corporais tais como a compulsão pelo treinamento de força, vem sendo
justificadas pelo desejo de se ter um corpo ideal. A aparência física parece
ser forte elemento nas relações sociais, pois a ela são atribuídos significados
e, ao almejar esses modelos corpóreos, o resultado é transmitido também no
caráter de transformação pessoal. Essa idealização do corpo ideal, além de ser
inspirada por alguns ídolos, enalteceu mais uma vez a cobiça pelo corpo
proporcional. É justamente essa ilusão de que existem partes desproporcionais
em seu corpo, que o vigoréxico assume um dos sinais do transtorno dismórfico
corporal.
As análises advindas deste estudo permitem sugerir forte indício de sintomas da
dismorfia muscular como constatado por Olivardia (2001), nos quais os
exercícios físicos foram responsáveis por grande parte das atividades do
vigoréxico, que destina a vida à academia, se sentindo rejeitado, discriminado
ou deprimido se ficar um dia sem exercício físico ou sem o uso de esteroides
anabolizantes, chegando a comprometer as atividades sociais, ocupacionais,
recreativas e até mesmo os relacionamentos interpessoais. Este comportamento
foi possível ser observado no momento que um dos atores sociais chama a
atenção:
"Terminei inclusive um namoro em razão disso, ela dizia que eu me preocupava
mais com meu corpo do que com o que ela sentia... (Adônis)"
É fácil perceber que estas modificações sociais, principalmente no que concerne
a prática exacerbada do treinamento de força, são incentivadas diante da
expansão dos meios de comunicação, nos quais se tem enfatizado o culto à forma
física e à boa aparência, o que contribui para um maior interesse e desejo por
um corpo esteticamente perfeito (Carvalho, Rodrigues, Meyer, Lancha Jr, &
De Rose, 2003; Grieve, Truba, & Bowersox, 2009; Iriart & Andrade,
2002).
Além disso, o ideal muscular é reforçado pelos significados ou respeito frente
aos conceitos dos outros, como da família, dos amigos e da mídia. Estas fontes
comunicam expectativas sobre os benefícios do ganho muscular, e essa
expectativa possui um papel importante na promoção do corpo musculoso como
sendo o ideal (Smolak, Murnen, & Thompson, 2005; Stanford & McCabe,
2005).
Para Baudrillard (1970), as mudanças dos códigos sociais por meio das
narrativas midiáticas se justapõem às experiências vividas, produzindo a
realidade por meio de cópias e simulações. Dando sequência às denúncias que
envolvem a indústria cultural e adicionando-se à crítica de Jameson (1996)
referente à estetização da realidade, Baudrillard nomeou de esquizofrenia
cultural o processo de invenção midiática do real. E vai além quando indica
que o que ultimamente faria girar a roda do capitalismo, seriam investimentos
libidinais no imaginário. Acredita-se que estes autores afirmam que a
onipresença da mídia determina uma repercussão de imagens que acaba por
asfixiar o próprio registro do imaginário, ou seja, a possibilidade criativa do
indivíduo que deseja desenhar uma estética para aquilo que anseia.
Tanto a obsessão quanto a compulsão pela prática exacerbada do treinamento de
força em busca do corpo perfeito podem gerar outras consequências maléficas ao
vigoréxico, como o overtraining. Este se caracteriza pelo excesso de
treinamento, ou seja, tempo de recuperação incompleto entre as sessões de
treinamento, provocando manifestações de ordens físicas, psíquicas ou
emocionais, tais como perda de apetite e peso corporal, insônia,
irritabilidade, depressão, ansiedade, agressividade, lesões, diminuição da
libido, fraqueza, cansaço constante, dificuldade de concentração e dores
músculo-articulares (Assunção, 2002; Fleck & Kraemer, 2006).
Observou-se nos relatos características desses sintomas que associam a
dismorfia muscular ao overtraining, como é possível observar nas falas:
"Insônia eu sempre tive [...]. O desinteresse sexual é comum dependendo das
dosagens de ergogênicos misturadas, principalmente no caso de testosterona,
pois durante o seu uso, é como se tivesse ingerindo várias doses de Viagra ao
dia pois a libido vai nas alturas e algumas semanas após descontinuado seu uso,
o quadro acaba revertendo devido a desaceleração da produção natural do
hormônio pelo organismo devido as doses sintéticas que foram injetadas (2). "
"Já senti insônia, lesões musculares, sentimento de inferioridade, desmotivação
(Adônis)."
"Senti insônia, fraqueza, lesões poucas vezes e desmotivação, porém nunca
desisti, além de sentir enjôo quase todo treino (ultimamente), e tremedeira e
palpitação poucas vezes (Rocky)."
"Já senti insônia, fraqueza, lesões musculares, sentimento de inferioridade e
depressão (Minotauro)."
A ocorrência dessas características, principalmente o evento de lesões, pode
ser uma das consequências do estado de overtraining ao qual o indivíduo se
submete na busca pelo corpo ideal. Essa insistência em continuar com o
treinamento mesmo após lesões pode estar significativamente associada aos
sinais de dismorfia muscular. Além disso, Nagayama, Porta, Chaud, Marchioni e
Ribeiro (2000) e, Calfee e Fadale (2006) sugerem que a falta de orientação
adequada por meio dos profissionais de saúde pode estar permitindo parte da
sociedade a usar substâncias que possam realizar seus desejos estéticos de
maneira imediatista, como os EAA.
Esteroides Anabólicos Androgénicos
O uso e abuso dos EAA têm aumentado entre os praticantes do treinamento de
força, principalmente entre os vigoréxicos (Ferreira, Ferreira, Azevedo,
Medeiros, & Silva, 2007; Silva, Danielski, & Czepielewski, 2002). Neste
sentido, dados advindos deste estudo constataram que 35% dos participantes
masculinos e 5% dos femininos relataram utilizar pelo menos uma das seguintes
substâncias: nandrolona, testosterona, stanozolol, clembuterol, oximentolona,
durateston, deca durabolin, oxandrolona, pulmonil, deposteron, Primobolan,
dexa, propionato de testosterona, trembolona, boldenona, efedrina, turinabol e
lipostabil®. Sobre este ponto, destaca-se o discurso de Rambo:
"Já fiz uso de ergogênicos. De início foram uma opção para tratamento de lesão
que me poderia trazer benefícios musculares também, então, comecei com o uso de
nandrolona acompanhada de um mix de testosterona. Anos mais tarde acabei
testando também stanozolol, clembuterol e oximentolona."
Sob este aspeto, o uso de esteroides anabolizantes torna ainda mais nítida a
busca irracional pelo corpo musculoso, sendo irrelevante as consequências desta
busca, sejam elas psicológicas, fisiológicas e/ou sociais. Estudos recentes de
Kanayama, Brower, Wood, Hudson e Pope Jr (2009) e Rohman (2009) mostraram que
os EAA estão associados à predisposição, precipitação ou perpetuação dos
fatores psiquiátricos da dismorfia muscular que incluem complicações como
alterações de humor e comportamento, anormalidades na percepção corporal e
sintomas de abstinência. Assim, o constante uso e abuso dos EAA podem ocorrer
em virtude da dismorfia muscular com o objetivo de alcançar um corpo cada vez
mais musculoso em um pequeno intervalo de tempo.
"Hoje em dia penso em usar algo que me ajude pra ter o corpo perfeito
(Belfort)."
Brower (1992), e Middleman e Durant (1996) revelam que ocorrem síndromes de
abstinência provocadas pela dependência e interrupção do uso de EAA, sendo
consistentes com os critérios da dismorfia muscular e têm o potencial de
desencadear crises comportamentais, como as decorrentes deste transtorno. Silva
et al. (2002) demonstram que tais efeitos comportamentais podem estar
relacionados ao uso de metandiona, devido à alteração da função serotoninérgica
causada por esta substância. Estas síndromes aparecem em cerca de 14% a 57% dos
casos (Brower, 1992), nos quais, segundo Wroblewska (1996), percebem-se
sintomas como perda de controle, depressão, fadiga, inquietação, perda de
apetite, insônia, decréscimo da libido e dores de cabeça.
Assunção (2002), Gomes (2005), e Pope Jr e Katz (1994) tem relatado alterações
de imagem corporal entre levantadores de peso e fisiculturistas, principalmente
entre os que utilizam EAA. De uma maneira geral, os resultados de pesquisas
convergem para o fato de que os levantadores de peso portadores de dismorfia
muscular utilizam anabolizantes com maior frequência e em maior quantidade,
quando comparados àqueles que não apresentam os sintomas da vigorexia. É válido
ressaltar que, dentre os vigoréxicos que apresentam os sintomas, os usuários de
anabolizantes demonstram quadro mais grave (Assunção, 2002).
Em 1993, Pope Jr, Katz e Hudson analisando uma amostra de 108 fisiculturistas
(com e sem uso de esteroides anabolizantes), relataram o que foi denominado na
época de anorexia nervosa reversa. Nesta amostra, foram identificados nove
indivíduos (8.3%) que se descreviam como muito fracos e pequenos, quando na
verdade eram extremamente fortes e musculosos. Ademais, todos mencionavam uso
de EAA e dois tinham história anterior de anorexia nervosa. Demonstrou-se ainda
que quatro entre nove fisiculturistas com dismorfia muscular desenvolveram o
transtorno somente depois que começaram a fazer uso de esteróides
anabolizantes, o que indica que estas drogas facilitam, em muitos casos, a
distorção da imagem corporal. Além disso, segundo Lise, Gama e Silva, Ferigolo
e Barros (1999), a dismorfia muscular acarreta outros problemas físicos e
estéticos podendo estar relacionado ao uso de EAA, como por exemplo, a
desproporção displásica, caracterizada pela desproporção entre segmentos
corporais e problemas ósseo-articulares causados tanto pelo peso corporal
excessivo, quanto pela sobrecarga exagerada durante o exercício.
Os problemas graves mais percebidos atualmente são a adesão às drogas nas
farmácias, na mídia eletrônica e sua crescente popularização entre as pessoas
que frequentam academias de ginástica, principalmente entre os vigoréxicos,
além dos efeitos colaterais letais decorrentes de seu uso abusivo.
Aspetos Psicossociais
Os achados do presente estudo corroboram com a descrição da dismorfia muscular.
Esta deve ser considerada como um transtorno da linhagem obsessivo-compulsiva,
tanto pela obsessão em musculatura, quanto pela compulsão aos exercícios.
Ainda, é constante a distorção do esquema corporal e a ingestão de recursos
ergogênicos (Gomes, 2005; Pope Jr & Katz, 1994; Torres et al., 2005). Em
relação à perceção corporal, novamente pode-se observar que tanto os homens
quanto as mulheres descreveram relatos similares aos encontrados na literatura,
ou seja, 80% dos atores sociais se consideram magros/ fracos, não se consideram
fortes e musculosos mesmo descrevendo um grande volume muscular como relatado a
seguir. Este fato pode conduzir a alterações na perceção do esquema corporal,
como observado nestes recortes:
"Apesar de braços de 46 cm frio (sem estar aquecido durante o treinamento) acho
eles finos (Hulk)."
"Me olho no espelho e sempre me acho fraco e magro, mesmo estando com 11% de
gordura, 90 quilos e um metro e oitenta e cinco de altura (Conan)."
Assim, os resultados sugerem que os atores apresentam traços característicos da
dismorfia muscular sugeridos por Pope Jr e Katz (1994), nos quais os portadores
demonstram alterações quanto à perceção da real imagem corporal de si, bem como
alterações na personalidade e comportamentos, como baixa autoestima,
dificuldades para integrar-se socialmente, timidez e possa, frequentemente,
rejeitar ou aceitar com sofrimento a própria imagem corporal, não se
considerando forte o suficiente ao acreditar que sempre está faltando algo a
mais em sua musculatura. Facilmente essa insatisfação pôde ser verificada:
"Acho que sempre falta alguma coisa (Super Homem)."
"Me sinto sempre fraco, acho que pego pouco peso, mesmo todos dizendo que não
(Rocky)."
Notadamente há uma insatisfação com o próprio corpo. Neste caso, ressalta-se o
fato de ser comum, mesmo quando se está com o somatotipo adequado, sentirem-se
com a imagem corporal inadequada, apresentando, desta maneira, alguma alteração
na perceção da autoimagem. Esta alteração pode ser resultado das pressões
exercidas sobre o sujeito, principalmente pelo contexto sociocultural no qual o
indivíduo está situado e pela mídia. No entanto, por meio das experiências
vividas o sujeito constrói uma visão intimamente associada do eu e da imagem
corporal, ambos dependentes do desenvolvimento do sistema sensorial,
neurológico, da perceção e das relações sociais e culturais, o que permite ao
indivíduo escapar da passividade frente às pressões e, intervir de modo
autônomo, no sistema das relações sociais como detentor de suas decisões e de
suas ações.
Outro traço psicológico comum à dismorfia muscular, e que foi claramente
narrado pelos participantes da pesquisa, refere-se à constante checagem dos
ganhos musculares, com repetidas observações de seu corpo no espelho. Não
surpreendentemente, 90% dos participantes (75% dos homens e 100% das mulheres)
afirmaram esta prática compulsiva. A seguir, algumas falas:
"Sim, mais ou menos umas 40 vezes por dia me olho no espelho. Antes do treino e
depois (Conan)."
"Sim, constantemente (Mulher Maravilha, She-ra, Rambo, Hulk, Coleman, Super
Homem)."
"Sim, eu às vezes me acho narcizista (Rocky)."
De acordo com Olivardia (2001), a obsessão da beleza física se converte em
algumas doenças emocionais como ansiedade, depressão, fobias, atitudes
compulsivas e repetitivas como seguidas observações no espelho, possíveis
ganhos de massa muscular checados até 13 vezes ao dia, e que conduzem à
dismorfia muscular, estando relacionada com uma patologia psíquica das pessoas
excessivamente preocupadas com a aparência, não estando satisfeitas com seus
músculos e sempre estão na busca obsessiva pela perfeição, como pode ser
observado no relato de Conan:
"Eu quando fico sem treinar um tempo, sinto dores musculares e depressão por
que penso que estou ficando fraco, magro e com isso eu perco a vontade de me
alimentar direito."
Os comportamentos compulsivos são hábitos apreendidos e seguidos por alguma
gratificação emocional, normalmente um alívio de ansiedade e/ou angustia,
acontecendo quase automaticamente, sendo executadas várias vezes (Gomes, 2005;
Pope Jr & Katz, 1994).
Quanto aos benefícios em ser musculoso, ambos os gêneros descreveram as mesmas
respostas, nas quais 50% dos participantes relataram aumento da autoestima, 35%
apresentaram melhoras no aspeto social, principalmente ao afirmarem que o corpo
musculoso impõe respeito sendo mais aceitos em seus grupos sociais e 15%
melhorias estéticas, características que são confirmadas pela literatura
científica (Gomes, 2005; Silva & Moraes, 2006). De acordo com Olivardia
(2001) a preocupação excessiva com a imagem corporal geralmente provoca
insegurança social, podendo agravar uma introversão existente. A atitude comum
é acreditar que a timidez e a insegurança social seriam resolvidas tendo corpos
belos e fortes.
Imagem Corporal
Quanto à aparência, 85% dos sujeitos (70% dos homens e 100% das mulheres)
relataram a hipertrofia muscular como objetivo ao praticar o treinamento de
força, idealizando um corpo musculoso, proporcional e com baixo percentual de
gordura. Assim, está claro que os objetivos estéticos são os mais desejados
pelos praticantes dessa modalidade de exercício físico, apresentando traços
semelhantes aos sintomas psicossociais da dismorfia muscular.
Achados de Santos e Santos (2002) observaram que 69% dos frequentadores de
academia de ginástica possuíam objetivos de hipertrofia. Em Goiânia (GO),
estudo realizado em 15 academias, onde 99% dos entrevistados praticavam
exercício de força, foi detetado que 60.5% deles desejavam aumentar a
musculatura corporal (Silva & Moraes, 2006). Pope Jr, Phillips e Olivardia
no ano de 2000 descobriram que, em média, os homens gostariam de ter um corpo
com 12.7 quilos a mais de músculos. Isto torna evidente a participação de
fatores socioculturais na etiologia da dismorfia muscular, sendo intermediados
pela hipervalorização da imagem musculosa.
Considerando a importância da compreensão dos participantes do estudo sobre a
valorização da imagem corporal hiper musculosa, foi indagado se algum aspeto na
aparência física os incomodava a ponto de deixá-los deprimidos, ansiosos ou
zangados com isso. Com esta questão buscou-se identificar possíveis
insatisfações corporais um dos sinais principais da dismorfia muscular. Sob
este olhar, 85% dos atores (70% dos homens e 100% das mulheres) responderam que
sim, como ilustrado a seguir.
"Às vezes acho que meus ganhos cessaram e fico nervoso com isso (He-Man)."
"Às vezes em dado período de ganha ou perda de volume e/ou definição, o atleta
acaba passando por modificações que pode fazer com que a motivação psicológica
melhore ou piore de acordo com os resultados. Isso é normal [...] Mas, ficar
deprimido faz parte do processo às vezes ou inconformado, é justamente essa
cobrança que ajuda a caminhar no caminho da melhora e da superação (Rambo)."
A partir destas falas importa evidenciar a influência da dimensão sociocultural
na imagem corporal, propagando um ideal de saúde em razão do consumo de
inúmeros produtos, utilizando como isca um modelo específico de estética
corporal. Conforme as palavras de Anzai (2000, p. 73): "...Se a televisão, a
publicidade, o cinema, as revistas, os jornais, e agora a internet, defendem as
dietas milagrosas, os músculos torneados e bronzeados, as vitaminas que evitam
o envelhecimento, as clínicas de rejuvenescimento e as academias de ginástica,
é porque isso tudo dá muito dinheiro. E se muito pouco se fala de afeto e
respeito entre as pessoas comuns, não tão lindas e nem tão elegantes como as
modelos, mas, que mesmo assim, se sentem felizes, certamente é porque isso é
bem menos rentável".
Assim, Galli e Reel (2009) em estudo de evidência qualitativa afirmaram que
esta influência foi citada por 80% dos praticantes de treinamento de força,
emergindo quatro categorias: religião, relacionamento com o sexo oposto, os
meios de comunicação e, comentários e expectativas a cerca de seus corpos. No
presente estudo, é notória a explicação de duas das quatro categorias
supracitadas, sendo elas, relacionamento com o sexo oposto e expectativas sobre
sua imagem corporal:
"Quanto à aparência de musculoso, além de ser ótimo para autoestima, pode ser
vantajoso com o sexo oposto. Fora isso me foi oferecida algumas oportunidades
como desfiles, patrocínio e de modo geral uma certa popularidade que me pode
ser benéfica no meu ramo profissional de atuação da área jurídica e de vendas
(Rambo)."
Estes resultados demonstraram que constantemente esses indivíduos sentem-se
insatisfeitos com a imagem corporal adquirida, apresentando compulsão em
praticar exercícios com pesos para minimizarem tais sentimentos e alcançarem os
corpos hipertrofiados como desejam.
Aspetos Nutricionais
Além da obsessão pelo corpo perfeito, a dismorfia muscular produz uma
importante mudança na rotina e costumes dos indivíduos, notadamente na questão
alimentar, ocorrendo modificações radicais na dieta, que passa a ser
hiperproteica e acompanhada de diversos suplementos alimentares, principalmente
daqueles à base de aminoácidos e proteínas (Olivardia, 2001). Nesse sentido, a
presente pesquisa vem corroborar com a literatura visto que homens e mulheres
(90% dos participantes) se preocupam e modificam, indistintamente, a
alimentação. Esta passa a ser hiperproteica (40%) ou com restrição lipídica
(25%). E ainda, hiperproteica e hipolipídica (25%). Assim, foram obtidos os
seguintes relatos:
"Preocupação em alto consumo de proteínas (Apolo)."
"Busco sempre uma alimentação balanceada com pouca gordura e sempre com níveis
proteicos elevados (Adônis)."
"Tenho minha dieta montada, me alimento de duas em duas horas, procuro comer
proteínas de qualidade, gorduras boas e carboidratos de baixo índice glicêmico.
Faço oito refeições diárias (He-Man)."
Ainda no tocante a alimentação, 90% dos indivíduos (80% dos homens e 66.6% das
mulheres) relataram consumir suplementos alimentares, em especial os
hiperproteicos e os compostos por aminoácidos. Segundo Ferreira et al. (2007),
devido à óbvia associação entre as proteínas e os músculos, além da quantidade
significativa de informações equivocadas proveniente de atletas e comerciantes
acerca das virtudes de dietas ricas em proteínas e do grande apelo
mercadológico, estes nutrientes podem estar sendo consumidos em excesso,
provocando prejuízos à saúde e desperdício financeiro, uma vez que os
suplementos possuem custo relativamente alto. Na maioria dos casos os
consumidores de suplementos, incluindo os vigoréxicos, não são orientados e
acompanhados por profissionais habilitados, sendo mais comuns indicações
variadas ou a simples procura em meios eletrônicos ou em lojas de suplementos.
Evidenciou-se também que o ambiente digital vem sendo utilizado para obtenção
de informações e compra direta de suplementos alimentares, prática que
indubitavelmente estimula o consumo indiscriminado destes produtos.
Limitações e direções futuras
Não obstante estes resultados forneçam informações significativas sobre as
experiências da dismorfia muscular, uma limitação deste estudo foi a baixa
resposta dos atores participantes, visto que, 125003 praticantes de treinamento
de força tiveram a opção de receber o questionário enviado pelos pesquisadores,
mas, apenas 20 atores sociais responderam e compuseram o grupo estudado. Este
fato pode ter ocorrido por receio dos sujeitos em ser identificados uma vez que
suas inserções na mídia eletrônica fornecem informações pessoais com riqueza de
detalhes, podendo ser visualizado por qualquer outro integrante do site.
Os resultados deste estudo reúnem informações substanciais para se refletir a
saúde dos indivíduos que apresenta compulsão pelo treinamento de força.
Portanto, investigações futuras sobre a dismorfia muscular estão sendo
desenvolvidas no Laboratório de Estudo e Pesquisa em Lazer, Esporte, Corpo e
Sociedade - LAECOS da Universidade Federal da Paraíba, Brasil, para corroborar
com os dados analisados, examinando o papel sociocultural que envolve a
dismorfia muscular associada à imagem corporal, ao treinamento de força e uso
de recursos ergogênicos.
CONCLUSÕES
Com base nas análises sobre a dismorfia muscular foi possível inferir que é uma
temática pouco estudada, prevalente em indivíduos do sexo masculino,
principalmente entre indivíduos praticantes do treinamento de força que buscam
uma aparência física hegemônica por meio de um corpo musculoso. O transtorno
pode ter sua origem parcialmente explicada por fatores psicossociais,
relacionados a uma crescente pressão exercida principalmente pela mídia para
que os indivíduos tenham corpos fortes e musculosos motivando um aumento na
incidência da DM.
Tanto homens quanto mulheres com dismorfia muscular percebem o estado de
insatisfação corporal, anseiam pelo corpo ideal e dificilmente reconhecem
limites físicos e psicológicos para a aquisição de um corpo hiper musculoso.
Estas insatisfações, por sua vez, comummente acarretam preocupações e
interferências nas atividades pessoais e profissionais dos sujeitos, embora
aceitem sua aparência física com algum sofrimento. A dismorfia muscular está
associada ao sofrimento e prejuízos em diversas áreas da vida das pessoas. Além
disso, salienta-se que homens e mulheres apresentam os mesmos desejos e
comportamentos diante do anseio pela conquista, a qualquer custo, do corpo
ideal e musculoso. Adicionalmente, como demonstrado, sua presença pode aumentar
o risco de uso dos esteroides anabolizantes, drogas com consequências
potencialmente perigosas, bem como, de suplementos alimentares de forma
indiscriminada, sem acompanhamento de um profissional especializado.
Este estudo teve a preocupação com a hipervalorização e incentivo do culto ao
corpo, procurando preencher algumas das lacunas relacionadas ao conhecimento
sobre a dismorfia muscular. Espera-se ainda oferecer subsídios para a tomada de
consciência da necessidade de haver um trabalho multiprofissional apropriado
para o alcance de resultados significativos na prevenção e tratamento da
dismorfia muscular.