Efeito da crioterapia e termoterapia associados ao alongamento estático na
flexibilidade dos músculos isquiotibiais
A flexibilidade recebe inúmeras definições, sendo a mais utilizada, a simples
habilidade de movimentar uma articulação através da amplitude de movimento
(ADM) disponível, livre de dor, restrições e sem provocar stresse no sistema
músculo-tendídeo (Carregaro, Silva, & Gil Coury, 2007). Os factores que
afectam a flexibilidade são vários, entre os quais, o sedentarismo, a
imobilidade prolongada, a prática de actividades repetitivas e especialmente no
caso dos músculos isquiotibiais, a permanência prolongada na postura sentada.
Estes factores podem levar a um encurtamento dos músculos, afectando sua
capacidade de deformação e podendo causar alterações na mecânica dos membros
inferiores e coluna vertebral. Além de aumentar o risco de desenvolvimento de
disfunções posturais e predisposição de lesões do aparelho locomotor (Davis,
Ashby, McCale, McQuain, & Wine, 2005; Decoster, Scanlon, Horn, &
Cleland, 2004; Herbert & Xavier, 2003).
Com o objectivo de proporcionar a manutenção e/ou o aumento da flexibilidade,
muitos profissionais tem utilizado diferentes técnicas de alongamento muscular,
sendo a mais utilizada, o alongamento estático (Viveiros, Polito, Simão, &
Farinatti, 2004).
O alongamento estático é uma técnica que consiste em alongar passivamente um
segmento à máxima amplitude possível, utilizando força manual ou mecânica e
mantendo-o por um período específico de tempo. Esse tipo de exercício seria
responsável pela redução da resistência muscular, devido ao aumento da
viscoelasticidade da unidade motora, resultando no aumento do comprimento
muscular. Segundo diferentes autores, esses factores poderiam prevenir lesões,
desde que o alongamento seja realizado de forma crónica antes e após programas
de exercício (Almeida et al., 2009; Shrier & Gossal, 2000; Viveiros et al.,
2004).
Entretanto, não há um consenso de como executá-lo e garantir uma máxima
eficácia, além de sugerir dúvidas com relação ao número de séries, frequência e
duração dos programas de alongamento. Algumas pesquisas têm descrito o uso de
recursos térmicos associados a estes programas com o objectivo de optimizar os
resultados (Branco et al., 2006; Signori, Voloski, Kerkhoff, Brig, &
Plentz, 2008; Viveiros et al., 2004).
A associação dos recursos térmicos aos programas de alongamento tem sido
utilizada com o intuito de proporcionar maiores ganhos de amplitude de
movimento. No entanto, não existe consenso na literatura a respeito de
protocolos específicos para o uso de tais recursos associados ao exercício de
alongamento. Taylor, Waring e Brashear (1995) avaliaram os ganhos de
flexibilidade dos músculos isquiotibiais em voluntários submetidos a protocolos
de alongamento estático realizado isoladamente e combinado com o uso de calor e
frio. Os resultados demonstraram que o alongamento, quando associado ao uso de
calor, proporcionou maior ganho de flexibilidade, quando comparado ao uso da
técnica realizada de forma isolada e quando associada ao frio.
Dessa forma, o maior ganho proporcionado pela associação do calor, seria
explicado pelo aumento da extensibilidade das fibras colágenas, diminuição da
viscosidade e tensão tecidual. Isso, favoreceria o relaxamento das propriedades
mecânicas do músculo, diminuindo, assim, o espasmo muscular e o stiffness
articular (Draper, Knight, Fujiwara, & Castel, 1999; Draper, Miner, Knight,
& Ricard, 2002; Funk, Swank, Adams, & Treolo, 2001; O'Sullivan, Muray,
& Sainsbury, 2009).
De forma distinta, Cornelius e Jackson (1984) observaram que os ganhos de
flexibilidade muscular foram maiores no grupo que associou o alongamento por
facilitação neuromuscular proprioceptiva ao uso da crioterapia. Apesar do pouco
conhecimento e entendimento na literatura do modo pelo qual a crioterapia
associada ao alongamento poderia optimizar os ganhos de flexibilidade, alguns
pesquisadores embasados nos reconhecidos efeitos fisiológicos da aplicação do
frio, têm sugerido mecanismos que poderiam explicar estes resultados, tais
como, diminuição da velocidade de condução nervosa, do reflexo de estiramento e
analgesia local (Kanlayanaphotporn & Janwantanakul, 2005; Knight, 2000;
Swenson, Sward, & Karlsson, 1996).
Esses efeitos permitiriam maior amplitude de movimento durante a realização dos
exercícios de alongamento, devido à menor sensação de desconforto e dor durante
a execução do alongamento. Sendo um factor muito importante, pois geralmente
observa-se que a limitação álgica durante as manobras de alongamento antecede a
limitação tecidual, o que isso poderia comprometer a eficiência do exercício
(Brasileiro, Faria, & Queiroz, 2007).
Estudos mais recentes (Draper et al., 2002; Funk et al., 2001) demonstraram que
a associação de recursos térmicos ao exercício de alongamento não oferece
maiores ganhos de flexibilidade quando comparado à realização do alongamento
feito de forma isolada.
Contudo, observa-se ampla divergência metodológica em todos os estudos, sendo
eles, realizados em diferentes amostras, com diversas técnicas de alongamento e
variados protocolos de aplicação dos recursos termoterapêuticos. Portanto, não
se encontra na literatura um consenso em relação à eficiência da associação
entre os programas de alongamento e o uso de recursos térmicos e
principalmente, quais seriam as técnicas mais apropriadas para promover aumento
de flexibilidade. O objectivo deste estudo foi verificar a influência dos
recursos termoterapêuticos quando associados a exercícios de alongamento
estático mantido por três minutos com intensidade constante, durante um período
curto de treinamento.
MÉTODO
Amostra
O estudo foi realizado em quarenta indivíduos jovens de ambos os sexos com
média de idades de 21.97 ± 3.28 anos, todos sedentários, sem história de lesão
musculo-esquelética e/ou cirurgia em membros inferiores e que apresentaram
amplitude de extensão do joelho inferior ou igual a 160° graus. Os indivíduos
que praticavam alguma actividade física há pelo menos seis meses, e que
possuíam hipersensibilidade à aplicação de gelo ou calor, foram excluídos do
estudo em questão. Todos os indivíduos leram e assinaram um termo de
consentimento, segundo a resolução n.º 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.
Além disso, este estudo foi submetido e aprovado pelo Comité de Ética da
Universidade de Pernambuco-UPE.
Procedimentos
Inicialmente, foi realizada uma avaliação física composta por uma anamnese e um
exame físico, durante os quais foram colhidos dados pessoais, antropométricos e
avaliado o ângulo de extensão activa do joelho direito dos voluntários. Para a
colecta da extensão activa do joelho (EAJ) direito, o participante foi colocado
em uma maca, em decúbito dorsal, tendo o quadril direito flectido a 90° e o
membro inferior esquerdo mantido em extensão na maca. Este posicionamento foi
mantido por dois pesquisadores, enquanto foi solicitado ao voluntário estender
activamente o joelho direito. Um terceiro pesquisador realizou então a
goniometria. Para isso, foi utilizado um goniómetro da marca CARCI® (São Paulo,
Brasil), sendo este posicionado da seguinte maneira: o eixo foi colocado no
côndilo lateral, o braço fixo direccionado para o trocânter maior do fémur e o
braço móvel em paralelo à perna. As medidas foram realizadas três vezes
consecutivas e posteriormente foi feito uma média aritmética.
Posteriormente, os indivíduos foram distribuídos de forma aleatória em quatro
grupos com dez componentes:
Grupo 1 ' Grupo controle, ou seja, os indivíduos pertencentes a esse grupo não
foram submetidos aos exercícios de alongamento, apenas foram realizadas as
avaliações inicial e final, antes e após o período de estudo.
Grupo 2 ' Os indivíduos foram submetidos a um protocolo de uma série de
alongamento estático dos músculos isquiotibiais mantidos por três minutos,
realizado por cinco dias consecutivos.
Grupo 3 ' Os indivíduos foram submetidos ao mesmo procedimento do grupo 2. No
entanto, os exercícios de alongamento foram precedidos de aplicação calor por
meio do equipamento de ondas curtas modelo Diatermed (CARCI® − São Paulo,
Brasil), com disposição coplanar das placas na região posterior da coxa por
vinte minutos, no modo contínuo e intensidade de 80W (Brasileiro et al., 2007).
Optou-se por este protocolo de diatermia por ondas curtas, pois estudos
anteriores demonstraram que quando aplicado em intensidades altas, o mesmo é
capaz de produzir um aquecimento tecidual na ordem de 4.0 a 4.6 ºC em grandes
áreas e com uma profundidade de até três centímetros (Brown & Baker, 1987;
Draper et al., 1999; Robertson, Ward, & Jung, 2005).
Grupo 4 ' Os indivíduos foram também submetidos ao procedimento de alongamento
estático, porém, precedido pela aplicação de crioterapia. Para isso, os
voluntários foram posicionados em decúbito ventral, em seguida a região
posterior da coxa foi coberta por uma bandagem para evitar ulcerações
provocadas pelo frio e uma bolsa de gel resfriada foi colocada sobre a
musculatura citada. Além disso, foi aplicada compressão na região por meio de
bandagem elástica. O tempo de aplicação da técnica de crioterapia foi de vinte
minutos.
As medidas de amplitude articular foram realizadas antes e após cada sessão de
alongamento para avaliar os efeitos imediatos da intervenção, enquanto as
medidas que foram feitas antes e após o término dos protocolos do programa
foram utilizadas para avaliar os efeitos em médio prazo. O programa constou de
cinco sessões de alongamento, sendo que a ultima avaliação goniométrica foi
realizada setenta e duas horas após o término do programa.
Os procedimentos de alongamento estático foram realizados sobre uma maca, com o
voluntário em decúbito dorsal. O membro inferior esquerdo permaneceu fixo sobre
a maca, sendo estabilizado por um dos pesquisadores. O membro inferior direito
foi posicionado com o joelho totalmente estendido e quadril em flexão. Por meio
de um sistema de polia e corda, uma extremidade foi fixada em torno do
tornozelo direito e outra extremidade com um peso de sete quilos. Este peso
realizava a flexão passiva do quadril até à amplitude máxima suportada por cada
voluntário, mantendo desta forma uma intensidade constante do exercício de
alongamento durante três minutos.
Análise Estatística
As análises estatísticas foram realizadas no programa SPSS, versão 11.0. Antes
da análise de cada variável, a normalidade na distribuição dos dados foi
verificada por meio do teste de Kolmogorov-Smirnov. Para a análise do efeito
agudo, os valores de amplitude de movimento de extensão do joelho foram
aferidos antes e após cada sessão. Na análise do efeito crónico, foram
registados os ângulos pré e pós-treinamento. As diferenças entre as medidas
foram avaliadas por meio de análise de variância (ANOVA), com medidas repetidas
com post-hoc de Tukey. Para comparação entre os valores pré-treinamento e pós-
treinamento intragrupo foi utilizado o teste t pareado. Em todas as situações
foi utilizado um nível de significância de p< .05.
RESULTADOS
São apresentados na figura 1, os valores de média e desvios-padrão encontrados
antes do programa de alongamento e após seu término, de cada grupo,
relacionados ao teste de flexibilidade dos músculos isquiotibiais. Através da
análise estatística observou-se que todos os grupos apresentaram aumento da
amplitude articular (p < .05), excepto o grupo controle.
Figura 1. Valores de amplitude articular (graus) antes e após o programa de
alongamento; * p < .05
As médias do ganho final de amplitude articular foram: grupo controle: −1.87º,
grupo alongamento 3 minutos estático: 11.87º, grupo calor: 11.40º e grupo
crioterapia: 9.87º.
Por meio da análise estatística (ver figura 2) observou-se diferença
significativa entre os grupos submetidos aos programas de alongamento em
relação ao grupo controle (p < .05). No entanto, não houve diferença
significativa entre os grupos submetidos às diferentes técnicas (p > .05).
Figura 2. Médias dos ganhos de amplitude articular após programa de alongamento
* p < .05 − Diferença em relação ao grupo controle
Por outro lado, a análise dos valores médios de ADM de cada grupo submetido aos
diferentes programas de alongamento (ver figura 3) demonstrou que o grupo 3
(calor) apresentou ganho significativo a partir da segunda avaliação (p < .05),
enquanto o grupo crioterapia apresentou ganho a partir da terceira avaliação (p
< .05) e o grupo alongamento estático, somente apresentou diferença entre a
primeira e a ultima avaliação (p < .05).
Figura 3. Valores de ADM ao longo de todo o programa de alongamento
DISCUSSÃO
O presente estudo objectivou avaliar a influência do uso de recursos
termoterapêuticos em associação com a técnica de alongamento estático, no ganho
de flexibilidade da musculatura posterior da coxa durante um curto período de
treinamento.
De fato, foi possível confirmar que o exercício de alongamento é eficaz em
propiciar ganho de flexibilidade, mesmo quando executado em um curto período de
tempo. Por outro lado, a aplicação prévia de recursos termoterapêuticos não
influenciou no aumento de amplitude de movimento ao final do programa.
Ao se analisar o valor de amplitude de movimento ao longo de cada sessão
observou-se, a partir da segunda avaliação, uma maior efectividade no grupo
submetido à associação do alongamento precedido da aplicação de calor,
sugerindo que o uso da diatermia por ondas curtas foi eficaz para o aumento da
temperatura local, corroborando com vários autores (Draper et al., 1999;
Lentell, Hetherington, Eagan, & Morgan, 1992; Robertson et al., 2005) que
descrevem aumento da temperatura muscular na ordem de 4 ºC em uma profundidade
de três a cinco centímetros e que perduraram no mínimo cinco minutos.
Este aumento da temperatura local proporcionaria um aumento da extensibilidade
das fibras colágenas, alterando as propriedades viscoelásticas e mecânicas do
tecido muscular, facilitando o ganho de flexibilidade (Draper, Castro, Feland,
Schulthies, & Eggett, 2004; Peres, Draper, Knight, & Ricard, 2002).
De acordo com esta teoria, o uso da crioterapia poderia proporcionar um impacto
negativo no ganho de flexibilidade, uma vez que se observa na literatura que o
resfriamento dos tecidos seria responsável pelo aumento da rigidez do tecido
conjuntivo e diminuição da extensibilidade (Knight, 2000). No entanto, no
presente estudo pôde-se observar que a aplicação do frio também proporcionou
ganhos significativos de ADM nas primeiras sessões.
Este ganho pode ser explicado por dois factores, o primeiro estaria relacionado
ao fato da hipotermia causar uma diminuição do espasmo muscular e do reflexo de
estiramento, por meio da redução do input sensorial do fuso muscular que é
responsável por uma facilitação do estímulo motor e aumento da tensão do
músculo (Eston & Peres, 1999). Outro factor positivo à crioterapia seria a
diminuição da sensibilidade dolorosa ao alongamento por meio da redução da
velocidade de condução nervosa (Proulx, Ducharme, & Kenny, 2003). Uma vez
reduzida esta sensação, maior seria a tolerância do voluntário a manobra,
permitindo um alongamento mais efectivo devido à diminuição da limitação álgica
que frequentemente precede a limitação mecânica tecidual (Brasileiro et al.,
2007).
O grupo de voluntários submetidos somente ao alongamento apresentou ganhos
similares de flexibilidade em relação aos demais grupos que fizeram uso dos
recursos térmicos, confirmando que o aumento da flexibilidade está directamente
relacionado ao estímulo mecânico, que seria responsável pelo remodelamento dos
tecidos conjuntivo e musculotendíneo. A manutenção do alongamento promoveria
aumento não só da extensibilidade, mas também no comprimento muscular e nas
estruturas das proteínas contráteis dos sarcômeros (Prado et al., 2005).
O ganho de flexibilidade do grupo submetido ao alongamento, somente foi
evidenciado ao final do programa, sugerindo que o alongamento estático mantido
por três minutos é eficaz para o ganho de flexibilidade se for realizado por no
mínimo cinco sessões. Além disso, os recursos térmicos parecem facilitar o
ganho no início do programa, possivelmente por minimizar as limitações
teciduais e álgicas presentes durante a manobra de alongamento. No entanto,
esta a relação de ganhos obtidos no início não foi mantida nas últimas sessões
do programa, apresentando resultados similares ao programa de alongamentos
realizados de forma isolada.
Portanto, a aplicação prévia de recursos térmicos ao alongamento estático não
confere maiores ganhos de flexibilidade em indivíduos saudáveis. Fato este, que
torna dispensável a associação prévia de tais recursos, pois os ganhos
imediatos obtidos pela associação do alongamento com o calor e o frio não foram
mantidos até o final do programa, sugerindo que o sucesso do programa aplicado
a sujeitos saudáveis está relacionado à eficiência do exercício de alongamento.
Os resultados sugerem que na prática clínica, não seria uma boa estratégia de
tratamento, associar recursos termoterapêuticos ao alongamento muscular, com o
objectivo de acelerar ou aumentar os ganhos de flexibilidade, pelo menos em
indivíduos sedentários sem histórico de lesões.
No entanto, mais estudos devem ser realizados, sobretudo com o objectivo de
avaliar os efeitos da associação dos recursos térmicos e diferentes técnicas de
alongamento em indivíduos que apresentem diminuição da ADM causada por
alterações msculo-articulares e que estejam em processo de reabilitação, assim
como em atletas. Para que se possa então, justificar ou não, o uso de tais
recursos, que aumentam consideravelmente a complexidade e o tempo de
atendimento, e consequentemente aumentam as despesas dos serviços de
reabilitação.
CONCLUSÕES
A partir dos resultados encontrados no presente estudo, conclui-se que o
alongamento estático proporciona aumento da flexibilidade de músculos
encurtados independentemente do uso de recursos térmicos, mesmo em um curto
período de tempo. No entanto, em futuros estudos se deve avaliar protocolos
mais longos, bem como, a associação dos recursos térmicos com outras técnicas
de alongamento em diferentes grupos musculares.