Processamento da informação em gestores de alto desempenho
Em 1994, Henry Mintzberg, investigador canadiano da área da gestão, apresentou
uma actualização da sua Teoria dos Papéis da Gestão, lançada em 1975. Neste
trabalho, o autor explicou que os papéis da gestão, por si agrupados nas
dimensões interpessoais, informacionais e decisionais, são desempenhados a três
níveis mediando as relações internas e externas à organização. O primeiro nível
refere-se à gestão de informações, o segundo das pessoas e o terceiro trata das
acções propriamente ditas. Segundo Mintzberg (1994), nenhum dos papéis de
gestão, mesmo que exercidos adequadamente, dispensa as tarefas compreendidas
nos demais pois todos eles constituem um todo integrado ou uma gestalt.
Para aplicar os pressupostos teóricos de Mintzberg (1975, 1994) nos dias de
hoje é necessário lançar um olhar aos fenómenos da globalização, especialmente
na alteração provocada pela utilização massiva das novas tecnologias da
informação na vida das pessoas e nas relações humanas. Neste campo, o tempo foi
alterado parecendo não seguir o mesmo ritmo do ponteiro do relógio, isto é, a
marcação do tempo recebeu outro tratamento nas organizações estando agora
associado às entradas e saídas de informações em tempo real. Isso parece fazer
do gestor um importante catalisador de informações, pois é múltipla a
informação interna e externa a que tem acesso, sendo necessário filtrar,
processar e dar sequência de forma a assegurar a produção, a monitorização das
estratégias organizacionais e a manutenção parcimoniosa das relações externas à
organização. Ao mesmo tempo, a globalização extinguiu distâncias, estreitou
mercados, redireccionou as grandes empresas e o seu funcionamento. Com tudo
isto, as organizações necessitam de pessoas ágeis, adaptáveis e perspicazes em
todos os níveis hierárquicos, mas especialmente ao nível da gestão (Silvius,
2009). Em síntese, o contexto organizacional é bastante diferente de há 15 anos
atrás: a era da tecnologia da informação onde o processo de trabalho é
globalizado, acontece em tempo real e é determinado pela alta competitividade
que isso ocasiona. Mais ainda, a evolução no mundo de trabalho segue em
percurso ininterrupto e requer elevada capacidade de gestão.
Depreende-se a relevância do tratamento de informação por parte do gestor
(Mintzberg, 1994) e o seu status decorre de uma actividade permanente a
processar, filtrar e difundir informações para que a organização evolua. Em
estudos recentes que procuraram replicar a investigação de Mintzberg, como por
exemplo o de Tengblad (2006), concluiu-se também pela relevância da componente
de gestão da informação na função do gestor, mesmo quando importantes mudanças
ocorreram nomeadamente ao nível da concepção actual de liderança, e pela menor
importância da vertente administrativa da função de gestão. Realça-se pois, a
ênfase e a importância inegável do papel informacional da função de gestor.
Face ao fluxo actual de informações a que tem que dar atenção, concordamos com
Mintzberg (Mintzberg, 1994, 2006; Mintzberg & Gosling, 2003) quando refere
que o desempenho dos papéis de gestão é determinado por disposições mentais, ou
seja, um conjunto de capacidades e de conhecimentos que forjam a interpretação
do mundo ao seu redor, a partir de um modo de processamento ou de um estilo
cognitivo associado à sua personalidade e motivações pessoais. Outros autores,
como por exemplo Muller e Turner (2009) incluíram este aspecto da função de
gestão, ainda que com outra designação (Intellectual competence: Critical
analysis and judgment), enfatizando a importância do processamento de
informação por gestores de sucesso (p. 11). A identificação do perfil de
gestores bem sucedidos com o objectivo de reconhecer as dimensões psicológicas
que contribuem para o seu sucesso, resulta da constatação de que se estes
tiverem as características adequadas às exigências da sua função, o seu sucesso
será garantido e a sua permanência em lugares de topo, longa. Conclui-se que,
se a função de gestão inclui o processamento de informações, então o desempenho
está dependente do estilo pessoal do gestor no manuseamento das informações.
A partir desta proposição, associada ao cenário empresarial mundial
contemporâneo, pretende-se neste artigo avaliar e compreender as condições do
processamento das informações em gestores de elevado desempenho que trabalham
em grandes empresas brasileiras (da cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul).
Mais concretamente procura-se observar o que revelam esses gestores quando
confrontados com situações-problema inusitados que devem ser resolvidos de
forma veloz e eficiente para garantir o bem da própria empresa. Para responder
ao objectivo deste estudo recorre-se a um método projectivo de avaliação da
personalidade. Este método possibilita a investigação do processamento da
informação por meio das respostas a um grupo de manchas de tinta fortuitas (de
Hermann Rorschach) que passam a ser, da forma como são apresentadas, um
problema a ser resolvido e desencadeiam no indivíduo uma série de processos
cognitivos, até que tome a decisão a respeito do que vê e emita uma resposta
(cf. Exner, 1989).
Na interpretação dos dados empíricos obtidos com o Método de Rorschach
pretende-se aproveitar as contribuições de outras duas abordagens teóricas: a
Teoria dos Papéis de Gestão, especificamente o papel informacional do gestor
como comunicador interno e externo à organização e por isso centralizador da
solução de problemas (Minzberg, 1975, 1994) e a Teoria do Processamento da
Informação e a sua forma de entender a sequência dos processos cognitivos
envolvidos na resolução de problemas (Hunt, 1980; Simon, 1981; Sternberg,
2000). O conhecimento gerado a partir do entrelaçamento destas teorias almeja
contribuir para a preparação, a formação e o desenvolvimento de indivíduos cada
vez mais capacitados e talentosos para fazer frente às exigências empresariais
actuais.
A Teoria dos Papéis Informacionais de Mintzberg
Quando Mintzberg (1975) sintetizou os resultados de suas pesquisas e publicou
The manager's job: folklore and fact explicitou, naquele momento, um enfoque
diferenciado acerca da função de gestão. O autor redefiniu paradigmas
clássicos, sugerindo que o trabalho do gestor pode ser descrito em termos de
vários papéis. Especificamente, menciona dez papéis divididos nas dimensões
interpessoal, informacional e decisional. Assim, decorrente da autoridade
formal de que são investidos os gestores, deriva uma posição organizacional que
o leva a várias relações interpessoais de acesso à informação, o que o capacita
a tomar decisões e a formular estratégias para o desempenho de sua função. Os
papéis interpessoais de que fala Mintzberg (1975) referem-se a: protocolo
(figurehead) que compreende todas as tarefas relativas às funções simbólicas e
cerimoniais que demarquem uma posição legal ou social; líderança (leader),
responsável pela motivação e direcção dos colaboradores; e ligação (liaison)
eficiente com o ambiente externo (fornecedores, parceiros, concorrentes e
pares) e ambiente interno (superiores e subordinados) à organização. Já os
papéis decisionais, segundo o autor, reflectem a responsabilidade que os
gestores têm para com a implementação das escolhas que fazem. São eles:
empreendedorismo/inovação (entrepreneur), promovendo as mudanças adaptativas ao
funcionamento relativo ao meio externo; resolução de problemas (disturbance
handler), no sentido de implementar acções correctivas e preventivas de
conflitos; afectação de recursos (resource allocator), definindo o que e quando
fazer, tanto com os recursos materiais quanto com humanos; e, negociação
(negotiator) em todos os níveis da empresa.
Alterando a ordem dos papéis proposta por Mintzberg (1975), e de acordo com os
objectivos deste estudo, descrevem-se, por último, os papéis informacionais que
são os de monitorização (monitor) da busca activa de informação junto a
subordinados e da rede de contactos para ampla recolha de informações; difusão
(disseminator) das informações, já elaboradas e filtradas, directamente aos
subordinados e pessoas do seu grupo de trabalho; e, porta-voz (spokesman),
transmissor das informações, elaboradas e filtradas, a pessoas externas ao seu
grupo mais próximo de trabalho. Em função do papel informacional, o gestor para
Mintzberg (1975) transforma-se numa espécie de centro nervoso' da organização,
e isso ocorre devido ao delicado equilíbrio que é imposto à função. O gestor
recebe uma grande quantidade de informações externas que podem influenciar as
suas decisões, assim como, também recebe informações internas de superiores,
pares e subordinados. Todas elas necessitam ser processadas, a partir do seu
background cognitivo, sem perder o foco na organização, nos interesses
colectivos, e na actualidade, e considerando um complexo espectro de
possibilidades, em alta velocidade, e acertadamente.
No desenvolvimento da sua teoria, Mintzberg (1994) refere que os papéis são
desempenhados a três níveis que compõem o Modelo Integral do Trabalho de
Gestão. Em outras palavras, esclarece o autor, o gestor está no centro e é
solicitado a desempenhar os papéis que são executados sucessivamente desde a
gestão pelas informações, passando pela gestão através das pessoas e
finalizando com a gestão através de acções.
Na gestão pelas informações, Mintzberg (1994) reforça a supremacia da
capacidade de gestão da comunicação e controlo. A comunicação implica
basicamente a recolha e disseminação das informações. A recolha é feita em
todos os contactos que são estabelecidos, dedicando os gestores grande esforço
e atenção às informações de duplo-sentido ou ambíguas, que advém da
informalidade. A resolução de problemas advindos de informações formais
(relatórios, boletins, planos, etc.) torna-se por contraposição mais simples.
Ao concluir o processamento das informações, o gestor dissemina-as dentro e
para fora da organização, assumindo, nesta circunstância, o papel de porta-voz,
sem perder o foco nos objectivos estratégicos da empresa. Quando fez esta
proposta, Mintzberg (1975, 1994) enfatizou o carácter do papel informacional no
trabalho de gestão, afirmando que esse papel é dependente das preferências e do
modelo mental' do gestor. Contudo, não esclareceu como, na sua teoria, ocorre
o processo de tratamento das informações, propriamente dito.
A Teoria de Processamento da Informação
Em meados do século passado, em reacção à abordagem comportamentalista vigente,
nasceu uma nova abordagem da Psicologia, o cognitivismo. Os fenómenos mentais e
os processos neles envolvidos ganharam relevância e valor. As investigações
passaram a focar a identificação dos processos cognitivos, ou seja, como as
pessoas apreendem a informação e como agem sobre a informação, centrando-se
especificamente nos processos de atenção, percepção e memória (Almeida, 1994;
Huitt, 2003; Resnick, 1976; Sternberg, 1981). Assim, segundo Almeida (1994),
mais que avaliar traços (aptidão mental, quociente de inteligência), os estudos
voltaram-se para os processos de atenção e codificação da informação, o seu
tratamento e a resposta ou resolução.
Foi a partir de então, levando em conta o método envolvido na recolha de
informação, a forma de elaboração mental e as respostas advindas do processo,
que surgiu a teoria do processamento da informação concomitante ao advento dos
computadores e ao final da Segunda Guerra Mundial. Nesta nova abordagem
considerou-se, segundo Simon (1981), que os processos mentais eram comparáveis
aos softwares executados nos computadores. Foi deste modo, explica Simon
(1981), que surgiram abordagens preocupadas com os níveis mais elementares do
processamento da informação (envolvendo acesso à memória, classificação das
listas comparativas na memória, comparação simbólica simples ' ver Chase &
Simon, 1973; Reitman, 1976; Simon & Gilmartin, 1973) e, outras, com os
processos mentais superiores que envolvem a resolução de problemas e tomada de
decisão (Newell, Shaw, & Simon, 1958; Simon & Newell, 1972).
Para se entender o processo de resolução de problemas, ênfase deste estudo, é
preciso retomar o modelo de tratamento da informação. Propõe-se que alguns
processos cognitivos podem ser assumidos como gerais a todas as tarefas,
inclusive as de resolução de problemas (Almeida, 1994; Hunt, 1980). Entre eles,
estão os processos de atenção e percepção, com os quais o indivíduo capta,
apreende e codifica (input), dando significado e organização às informações
(externas ou internas) que lhe chegam ao executivo central' (também chamado de
campo de consciência, de atenção ou memória de trabalho); em seguida, intervêm
os processos de categorização e relacionamento, integrando a informação
disponível na memória de longo-prazo possibilitando lidar com a complexidade do
problema (treatment). Por fim, ocorrem os processos de avaliação e justificação
associados à produção ou à escolha de uma determinada resposta para o problema
em processo de solução (output).
Ao longo das fases da resolução do problema, a capacidade resolutiva do sujeito
- avaliada em termos de qualidade, exactidão e velocidade - irá depender, em
termos cognitivos, do grau de destreza nas operações mentais envolvidas; e
também do grau de conhecimento da informação em que o problema se expressa ou
nas noções requeridas para a sua resolução. Sobre as operações necessárias para
a resolução do problema, Sternberg (2003) inclui as meta-componentes associadas
ao planeamento da execução, ao mapeamento de estratégias, à monitorização da
realização ou à avaliação da qualidade das respostas. Da mesma forma, sobre o
conhecimento necessário para a resolução do problema, os autores diferenciam a
maior facilidade de realização quando o sujeito domina os conteúdos ou quando
já os possui automatizados. Por outro lado, a dificuldade é aumentada quando a
informação é pautada pela novidade. Aliás, comparando-se sujeitos especialistas
(experts) e inexperientes (novices), os autores destacam o nível e a qualidade
do conhecimento (informação) possuído para diferenciar o desempenho comparado
destes dois grupos de indivíduos. O especialista (expert) não só possui mais
informação na memória de longo prazo, como a tem melhor organizada e
hierarquizada, permitindo-lhe acesso mais fácil. Uma vez que as unidades de
processamento da informação disponíveis na memória de trabalho são limitadas,
segundo Miller (1956), quanto mais organizada e combinada estiver a informação,
melhor, pois deixa mais unidades disponíveis para o trabalho de relacionamento
da informação.
Após vários anos de debates e evolução da teoria do processamento da
informação, um modelo de ciclo de solução do problema foi proposto por
Sternberg (2003); um dos exemplos ilustrativos utilizado pelo autor foi
justamente o tratamento da informação a ser efectuado por um indivíduo em
função de gestão. Propõe Sternberg (2003), que o gestor deve seguir
criteriosamente cada etapa do ciclo para que consiga lidar com o problema e
encontrar a melhor solução. Segundo o autor, o termo ciclo é utilizado porque,
usualmente, a solução de um problema acaba por ser a base para um próximo
problema e é composto por sete etapas: a) reconhecimento da existência do
problema; b) definição da natureza do problema; c) alocação de recursos para
solucionar o problema, d) representação mental do problema; e) formulação de
estratégias para solucionar o problema; f) acompanhamento do problema enquanto
a solução está em curso e g) avaliação da solução do problema após a sua
implementação. Cada etapa do processamento da informação que se encadeia no
ciclo de solução do problema é importante, porém, são especialmente
significativas as etapas de reconhecimento e definição do problema, a ponto de,
se o problema não for adequadamente percebido, não ser encontrada uma solução.
O Modelo de Processo de Resposta de Exner
Em 1974, John E. Exner publicou nos Estados Unidos, The Rorschach: A
compreensive system, integrando cinco sistemas de codificação e interpretação
existentes à época, naquele país. Uma das propostas do autor do novo sistema de
tratamento dos dados do Rorschach foi a de questionar, em 1989, onde está a
projecção no Rorschach? parecendo remeter para a formulação inicial do próprio
Hermann Rorschach, no seu livro Psicodiagnóstico: métodos e resultados de uma
experiência diagnóstica de percepção (Interpretação de formas fortuitas), em
1921. Naquele momento, o autor do método das manchas de tinta, enfatizava os
elementos perceptivos que as manchas evocavam, para somente mais adiante falar
em projecção. Depreende-se que Rorschach (1921/1974) colocou a percepção na
base do método, como meio de acesso a alguns aspectos da personalidade.
Seguindo o pensamento de Exner (1989), é possível entender o modelo cognitivo
de processo de resposta, criado a partir das manchas do Rorschach.
Exner (1989) afirma que somente um pequeno número de respostas num protocolo do
Rorschach pode envolver alguma projecção e, ainda assim, de difícil
identificação. Alguns tipos de respostas podem ser mais indicativas de
projecção, porém, mesmo estas devem ser consideradas com cautela, explica o
autor. Entre as respostas que Exner (1989) descreve como sugestivas de
projecção, estão as que envolvem movimentos passivos, agressivos, conteúdos
mórbidos e de movimentos humanos ou animais em atitude de interacção
cooperativa, por exemplo. Neste caso, a projecção é entendida como a atribuição
de qualidades e necessidades próprias do indivíduo aos estímulos contidos nas
manchas do Rorschach, sem que ele tome consciência e se aperceba disso (Werlang
& Cunha, 1993).
Sabe-se, porém, que nenhuma resposta ao Rorschach é acidental ou ao acaso. Cada
uma é produto de um complexo processo de operações psicológicas que culminam na
emissão de uma resposta (Acklin & Wu-Holt, 1996; Exner, 1989; Gold, 1987).
Partindo desta premissa, Exner (1974, 1978, 1989) descreve a resposta como um
processo de elaboração, o que não deixa de ser semelhante, em alguns aspectos,
aos modelos teóricos anteriores. Contudo, distancia-se no que se refere aos
enfoques mais associativos e projectivos destacados por alguns (Rapaport, 1946;
Schafer, 1954). No processo de resposta proposto por Exner (1989), parte-se do
princípio que a mancha de tinta funciona como um estímulo visual, bastante
ambíguo, que produz uma complexa operação cognitiva mediada pela forma
particular de o indivíduo examinar a mancha, pela característica específica de
cada mancha (por exemplo, a mancha do cartão I é mais compacta, enquanto a do
cartão III é mais difusa), pela influência exercida pelo ambiente de exame
(factor de grande relevância para o resultado; é necessário um ambiente
facilitador e cooperativo) e, também, pela própria personalidade e estilo
cognitivo da pessoa em avaliação.
A partir do momento em que um indivíduo recebe um cartão do Rorschach e ouve a
questão O que isto poderia ser? várias fases do processo de resposta são
desencadeadas, segundo Exner (1989), sendo a primeira composta pela codificação
e classificação da mancha. Nesta fase, segundo o autor, o indivíduo perscruta a
mancha muito rapidamente e codifica o que percebe; uma vez iniciada a
codificação, informações de longo prazo armazenadas são imediatamente acedidas
e o indivíduo começa a realizar comparações com a imagem que está sendo
codificada. Essas comparações conduzem a classificações da mancha ou de partes
dela, desencadeando o delineamento de possíveis respostas à indagação feita. É
um processo muito rápido, que gera uma espécie de lista de respostas em
potencial.
A segunda fase é a mais complexa e a que consome mais tempo de processamento,
como explica Exner (1989), é o momento de ordenar um ranking de respostas em
potencial e descartar aquelas que não são adequadas perante o julgamento
efectuado. Significa dizer que o indivíduo, após a classificação das possíveis
respostas, irá revê-las estabelecendo uma ordem ou ranking para, em seguida,
rejeitar aquelas respostas em potencial que não cumprem os requisitos do
processo de julgamento de mérito, utilizado na avaliação de cada resposta
ordenada. A rejeição é baseada em parâmetros comparativos sendo que muitas
respostas são rejeitadas, enfatiza o autor, em função da censura relacionada ao
seu conteúdo (como por exemplo: respostas envolvendo alguma violência,
sexualidade ou outros elementos que interfiram naquilo que seria socialmente
aceite' para aquela situação de avaliação).
Na última fase do processo de resposta ocorre a selecção final e a articulação
da resposta seleccionada. Para Exner (1989), esta fase é uma extensão da
anterior, mais simples e de menor envolvimento cognitivo. O processo de censura
das respostas é concluído, o indivíduo elege a resposta que será articulada e a
emite. Entenda-se que este processo será repetido para cada resposta
verbalizada, em cada cartão do Rorschach. A figura 1 apresenta esquematicamente
as três fases do processo de resposta de Exner.
Figura 1. Ilustração do Modelo de Processo de Resposta proposto por J. Exner
(1989)
As três fases não são distintas, elas se sobrepõem e ocorrem num processo
contínuo, sendo que algumas operações são retomadas de modo mais refinado a
cada fase e outras podem se repetir em momentos diferentes (Acklin & Wu-
Holt, 1996; Exner, 1989). Uma das operações cognitivas que está presente nas
três fases é a tomada de decisão. Na primeira fase, o indivíduo elege se irá
utilizar o todo da mancha ou apenas partes dela para codificar. De seguida,
inicia a escolha das informações armazenadas de longo prazo que irá utilizar na
classificação. A partir de então, escolhe a ordem do ranking para decidir quais
das respostas em potencial irá descartar e quais irá enviar para a fase de
selecção (que já é uma escolha), após ter passado pela avaliação e decidir,
finalmente, respondendo à pergunta sobre o que pode ser aquela mancha que lhe
foi apresentada.
Como se nota, a emissão de uma resposta no Rorschach é um trabalho complexo
relacionado com a resolução de um problema proposto (Yazigi & Gazire,
2002); envolve a activação de vários processos cognitivos que abarcam a atenção
visual e a percepção, o reconhecimento do objecto, a memória associativa, a
produção de linguagem e as funções executivas num esquema de funcionamento que
requer refinada organização (Acklin & Wu-Holt, 1996; Gold, 1987; Smith,
Bistis, Zahka, & Blais, 2007). Assim, parece possível tecer a intersecção
das três abordagens, já que Exner (1989), partindo de um entendimento
cognitivista do Rorschach, valoriza o processamento da informação nas
respostas. As etapas em que se fundamentam as abordagens, sobrepõem-se e
ajustam-se desde o momento de exposição ao estímulo até a finalização do
processo com a emissão da resposta e a resolução do problema. Da mesma forma,
ainda que numa perspectiva da gestão, Mintzberg (1994) ao afirmar que processar
informações é uma tarefa central da função do gestor, ou seja, as informações
(em forma de problemas, dados e situações) chegam, são tratadas e distribuídas
pelo gestor em fluxo constante, precisam ser filtradas e adequadas ao objectivo
a que se destinam, exigindo do indivíduo, nesta posição, elevada capacidade de
processamento das informações.
O Rorschach na avaliação do Processamento da Informação
Algumas variáveis avaliadas no Rorschach permitem revelar o processamento da
informação de um indivíduo. Conforme Sendín (1999, p.71), essas variáveis
permitem observar [...] como o indivíduo incorpora as informações procedentes
do exterior, como as identifica e traduz para outros códigos e como elabora
conceitos a partir dela. Este tipo de operação psicológica, esclarece a
autora, ocorre de modo muito complexo e tem um papel muito importante no
comportamento que o indivíduo inicia deliberadamente. Além disso, a qualidade
dos processos envolvidos nestas elaborações, representadas nas percepções em
forma de respostas ao Rorschach, diz o quanto o indivíduo será mais ou menos
capaz de se ajustar às exigências da sua realidade quotidiana. Em outros
termos, observam-se na apreensão das condições de processamento da informação
no Rorschach as seguintes variáveis, segundo Exner (1999) e Sendín (1999):
a) Lambda: afere a proporção de respostas de forma pura, expressa o quanto o
indivíduo simplifica suas percepções ou o quanto as elabora e sofistica. As
respostas de forma pura (F) são consideradas as mais simples e de menor
dispêndio de energia que pode aparecer num protocolo do Rorschach. Estas
respostas simples quando em número elevado podem representar o quanto o
indivíduo recorre ao controle intelectual, evitando processar as emoções, mesmo
que com isto perca a captação de elementos chaves da informação externa
traduzindo um estilo super simplificador. Por outro lado, indivíduos com número
muito baixo de respostas mais simples podem deixar-se invadir facilmente pela
estimulação emocional, ou seja, o processamento da informação sofre
interferência de elementos emocionais carregados de informações acessórias, o
que se traduz na vida real por uma diminuição de sua eficiência na solução de
problemas. Espera-se, segundo dados normativos para a população brasileira
(Nascimento, 2007), que Lambda esteja em torno de .98 (DP = 1.11).
b) OBS e HVI: referem-se ao estilo obsessivo (OBS), com uma marcada
tendência ao perfeccionismo, e ao hipervigilante (HVI) com acentuado estado de
alerta. Nos indivíduos com OBS positivo, a recolha da informação ocorre de modo
minucioso, detido em meticulosidades. Resulta num comportamento preocupado em
não falhar, não errar e por isso, estes indivíduos esforçam-se para serem mais
convencionais, diminuindo a sua capacidade de inovar criativamente, em função
do que é correcto ou previamente acordado, ao transformar a informação
processada em acção. Já os HVI positivos denotam um processamento muito
cuidadoso e pertinente na recolha da maior quantidade possível de dados a
respeito do problema em análise, com impacto significativo no ajustamento da
sua produção ao meio.
c) Actividade organizativa (Zf); proporção das localizações (W : D : Dd);
proporção global/movimento humano (W : M): de maneira geral, a interacção
destes aspectos diz o quanto o indivíduo se esforça na actividade do
processamento da informação (índice de economia ' W : D : Dd), como ocorre o
processo de recolha e elaboração da informação e com que motivação é capaz de
organizar um problema (índice de aspiração ' W : M). Cada vez que um indivíduo
emite uma resposta, para o que necessita organizar e atribuir um sentido,
criando uma relação significativa entre elementos fortuitos, põe em jogo
elementos cognitivos, afectivos e emocionais, assinalando um esforço que pode,
ou não, ser criativo. Todas as relações que estabelece para criar uma resposta,
gastam alguma energia. Porém, haverá aquelas mais complexas, de maior grau de
dificuldade na sua estruturação e que precisam ser valorizadas por isso. Sempre
que o indivíduo organiza o campo de estímulos, dá à tarefa um nível de esforço
maior do que ao dar uma resposta simples e pouco elaborada (uma D, por
exemplo). Espera-se que Zf, se situe em torno de 40% das respostas (R), W
próximo de 40% do protocolo, assim como D em 60% e Dd em torno de 5% de R. Já a
proporção de W:M deve situar-se em torno de 2 : 1.
d) Análise da qualidade evolutiva (DQ): a avaliação da DQ, associada às
outras variáveis já apresentadas, representa a forma pela qual o indivíduo
trabalha cognitivamente a área de localização que escolheu. Relaciona-se
directamente com o nível de desenvolvimento intelectual e a capacidade de
realizar operações de análise e síntese e actuar proactivamente na resolução de
problemas. Observam-se as modalidades de elaboração se: sintetizada (+),
ordinária (o), vaga (v) ou sintetizada (v/+); assinala-se que a maior
sofisticação no processamento da informação para análise e síntese ocorre nas
respostas (+).
e) Análise da eficiência do processamento (Zd): investiga sobre a recolha e
codificação da informação, nomeadamente a precisão e o registo daquilo que é
central no problema apresentado. É possível uma oscilação entre −3 e +3 pontos
para Zd, sendo que o intervalo entre os extremos é comum em pessoas com
adequação na recolha e codificação das informações. Já os indivíduos com
valores abaixo do índice inferior são descritos por um estilo sub-incorporador
na maneira de examinar um problema, sendo pouco cuidadosos, o que pode ser
manifesto em precipitações na tomada de decisão. Aqueles que se situam acima da
margem superior, são referidos por um estilo hiper-incorporador que se reflecte
em excesso de meticulosidade na análise da informação, o que apesar de diminuir
o risco de erro, dificulta a discriminação daquilo que é essencial para a
solução de um problema.
Sendín (1999) sugere também que se analisem as perseverações (PSV) e a
sequência em que ocorrem as localizações. Em função dos objectivos que se
pretendem alcançar neste estudo, serão utilizadas as variáveis destacadas nos
itens de a) a e).
MÉTODO
Amostra
Os participantes deste estudo são gestores de nível estratégico, provenientes
de sete empresas de grande dimensão (das áreas do comércio, comunicação,
educação superior, financeira, indústria e saúde) de Porto Alegre, Rio Grande
do Sul - Brasil, privadas e de capital nacional. A amostra, por conveniência, é
composta por 43 gestores brasileiros, 25 do sexo masculino e 18 do sexo
feminino. A idade do grupo situa-se entre 27 e 64 anos, sendo 31 casados, oito
solteiros e quatro divorciados e têm em média 8.7 anos de tempo de experiência
como gestor. Todos eles foram avaliados por suas empresas como de elevado
desempenho nas suas actividades.
Para classificar com segurança a dimensão da empresa foram consultadas as
seguintes instituições: Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES);
Federação e Centro das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS);
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ' Cidades Brasileiras
(IBGE.Cidades@); Fundação de Economia e Estatística do Estado (FEE); Sindicato
dos Estabelecimentos do Ensino Privado no Estado do Rio Grande do Sul (SINEPE/
RS); Federação dos Hospitais do Rio Grande do Sul (FEHOSUL); Sindicato dos
Hospitais e Clínicas de Porto Alegre (SINDIHOSPA); Federação das Associações
Comerciais e de Serviços do Rio Grande do Sul (FEDERASUL) e Federação do
Comércio de Bens e de Serviços do Estado do RS (FECOMÉRCIO).
Estes órgãos indicaram dois critérios para a classificação da dimensão da
empresa:
a) são empresas de grande dimensão pelo BNDES (2005) aquelas que tenham obtido
receita operacional bruta anual acima de R$ 60 milhões (sessenta milhões de
reais) e,
b) pela FIERGS (2006) as empresas que tenham mais de 500 funcionários.
Instrumentos
Foi utilizada uma ficha de dados sociodemográficos para o levantamento de dados
pessoais dos gestores, e para avaliar o processamento da informação foi
utilizado o Método de Rorschach. Na codificação e interpretação das respostas
ao Rorschach foi utilizado o Sistema Compreensivo (Exner, 1999; Exner &
Sendín, 1999; Nascimento, 2007; Weiner, 2000). Para obter dados sobre o objecto
de investigação foram avaliadas as seguintes variáveis do Rorschach: número de
respostas (R); proporção de respostas de forma simples (Lambda); índices, OBS e
HVI; frequência de nota Z (Zf) e a diferença para Zestimada (Zd); localizações
globais, detalhe comum e incomum (W, D e Dd); movimento humano (M); qualidade
evolutiva sintetizada (DQ+).
Procedimentos
Após a aprovação do projecto pelo Comité de Ética da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul os gestores indicados pelos departamentos de
Recursos Humanos das empresas, foram convidados a participar. Com a aceitação
do convite foram agendados os horários. Os instrumentos foram administrados de
forma individual pela primeira autora. Foi realizada a codificação dos doze
primeiros protocolos pela mesma investigadora e por um juiz experiente no
método, para cálculo do índice de concordância por meio do teste estatístico
Kappa (o valor obtido foi de .85 para os determinantes, .94 para os conteúdos e
.98 para as localizações). Conforme Exner e Sendín (1997), se a concordância
entre o psicólogo que aplica o Rorschach e o juiz for boa (neste caso a
concordância foi altamente satisfatória, já que zero representa uma
concordância menor, ou mesmo ausência, e um uma concordância perfeita,) em pelo
menos 20% dos casos da amostra, é possível que o investigador faça a
codificação dos demais casos sem a necessidade da avaliação de todos os casos
por juízes. Foi este o procedimento seguido neste estudo, sendo que para
dirimir as divergências que ocorreram nos doze casos, os juízes retomaram cada
uma das respostas com discordância e chegaram a uma codificação consensual,
adoptada para a interpretação assumida. Os dados do Rorschach (codificados em:
localizações, determinantes, conteúdos e códigos especiais) foram lançados no
software Rorschach Interpretation Assistance Program, v 5.0, para realização da
estatística descritiva.
RESULTADOS
O método de Rorschach possibilitou o levantamento dos aspectos relativos ao
processamento da informação. Foram levadas em conta as informações para
interpretação de Sendín (1999) e os dados normativos de Nascimento (2007). Os
resultados obtidos para o agrupamento dos 43 gestores (ver tabela 1) mostram
que esses gestores são capazes de simplificar suas percepções e transformá-las
em respostas objectivas, sem interferência emocional (Lambda = .92); e, ainda,
que enfrentam os problemas sem se perderem em meticulosidades que poderiam
ocasionar comportamentos mais perfeccionistas e com tendência ao detalhe
excessivo, levando à perda de tempo e prejuízos na definição do problema (OBS =
0). Significa dizer, a partir do entendimento da teoria do processamento da
informação (Hunt, 1980; Newell, Shaw, & Simon, 1958; Simon & Newell,
1972), que os processos cognitivos gerais a todas as tarefas cognitivas ou
seja, os processos de percepção e atenção, estão bastante adequados nesses
gestores. Estes processos de percepção e atenção, quando ajustados, permitem a
captação, apreensão e evocação da memória de maneira condizente e apropriada à
necessidade, garantindo, em boa parte, a eficiência da codificação que será
realizada.
Tabela 1
Resultados nas variáveis do Rorschach quanto ao processamento da informação
Ainda, na forma de apreensão da informação, apenas dois dos participantes
apresentaram HVI positivo no protocolo do Rorschach, o que não possibilita
fazer qualquer afirmação em termos grupais. É possível apenas dizer que estes
indivíduos podem utilizar uma forma de percepção dos estímulos e recolha das
informações mais cautelosa e selectiva, o que interferirá no estabelecimento de
relações com o meio externo e em todo o processamento cognitivo dos dados,
derivados desta percepção.
Com o foco na organização da informação recebida, na perspectiva de Mintzberg
(1994), outro aspecto observado no Rorschach dos gestores foi a capacidade de
apreender os estímulos, utilizando um modo mais organizativo para processar a
informação advinda do exterior, aparentando um nível elevado de motivação e
iniciativa na resolução do problema (Zf = 50%). Associado a isto, a capacidade
resolutiva de um indivíduo em relação aos problemas que se lhe apresentam,
depende, em termos cognitivos, do grau de destreza nas operações mentais
envolvidas, o que se observou na nota Zd = .01 que explica uma recolha e
codificação da informação realizada com facilidade e precisão.
No entanto, constata-se por meio do Rorschach que há nesses gestores uma
tendência a observar os estímulos de maneira peculiar, detendo-se em elementos
que talvez passem como sem importância para as demais pessoas, parecendo haver
uma relação com a busca de exactidão (Dd = 18%), distanciando-se relativamente
dos dados óbvios e económicos (D = 45%), porém, sem perder a visão de conjunto
(W = 37%). Quando observados os dados normativos americanos (Sendín, 1999),
poderia se afirmar alguma perda ou distorção na apreensão dos dados. Contudo,
se são levados em conta os dados normativos de Nascimento (2007) para a
população brasileira de São Paulo, os scores apresentados pelos participantes
neste estudo parecem estar absolutamente de acordo com a amostra referida.
Estes dados permitem-nos afirmar que os sujeitos da amostra apreendem de forma
cuidadosa a informação. Do mesmo modo, observa-se uma capacidade de organização
e a busca por apreender o maior número de informações, sem deixar que nada
escape, como características comuns de pessoas com iniciativa e capacidade de
resolução face aos problemas do quotidiano (W = 8.53 e M = 2.56; tipo vivencial
extratensivo preponderante na amostra). Esta afirmação pode ser melhor
explicada, se for levado em consideração o tempo de experiência como gestor e
os conhecimentos que detém na área de actuação da empresa. Segundo Almeida
(1994), quando se compara especialistas (experts) e inexperientes (novices),
destaca-se que a qualidade dos conhecimentos possuídos, acerca do problema em
foco, diferencia o desempenho positivamente, já que o especialista (expert)
possui mais informação na memória de longo prazo e a tem melhor organizada e
hierarquizada, o que permite acesso mais fácil e rápido para a finalização da
resposta a ser emitida (output).
Também é possível dizer que esses gestores apresentam um funcionamento
convencional, no que se refere às operações de análise mais complexas de
codificação, ranking e evocação da memória de longo prazo para a escolha ou
rejeição da resposta (modelo de Exner, 1989; estrutura de processamento da
informação resumida em Simon, 1981). As suas respostas ao Rorschach, enquadram-
se nos scores da população em geral, sendo que elas expressam um aspecto
correcto, sem grande complexidade, mas que reflectem a compreensão do estímulo
e capacidade de resolução do problema (DQo = 68%). Por outro lado, foram
emitidas respostas de cunho mais sofisticado e que exigem maior investimento na
sua elaboração cognitiva (DQ+ = 27%), o que, todavia, não parece garantir
brilhantismo ou rendimento superior, como argumenta Silva (2002), mas que, como
se vê, retratam a alta produtividade e desempenho desses gestores, ratificando
o pensamento de Mintzberg (1994) de que a qualidade da execução do papel
informacional define a eficiência do trabalho de gestão.
CONCLUSÕES
Os resultados médios obtidos permitem afirmar que os gestores avaliados
apresentam, seguindo o Modelo de Processamento da Informação no Rorschach
(Exner, 1989), boas condições de recolher dados, de avaliá-los comparando-os às
informações armazenadas, estabelecendo rankings para posterior escolha da
melhor resposta a ser emitida. E também aparentam ajustada capacidade
organizativa, o que favorece o processamento das informações, e condições de
serem objectivos e precisos na avaliação dos problemas que se lhes apresentem.
Parece mesmo, como sugeriu Mintzberg (1994), que o gestor possui um conjunto de
capacidades e conhecimentos que forjam a interpretação do mundo ao seu redor, a
partir de um modo de processamento ou um estilo cognitivo próprio e peculiar. É
possível que o elevado desempenho esteja relacionado a este estilo pessoal de
manejar as informações.
Apesar da tendência à exactidão, não parece que os gestores da amostra se
percam em meticulosidades e talvez seja justamente esta a característica que os
diferencie e permita o sucesso na execução de suas tarefas, pois não perdem a
visão do todo ou a qualidade de suas respostas (output). Como a maioria dos
gestores é bastante experiente nas suas funções, parece que, segundo a teoria
de Henry Mintzberg, processar informações ininterruptamente e trabalhar na
resolução de problemas complexos é uma tarefa essencial do trabalho de gestão,
para além de habitual. Desta forma, assim que as manchas de tinta de Rorschach
foram apresentadas, os gestores passaram a trabalhar com algo conhecido (um
problema complexo a ser resolvido com eficácia) e a executar uma tarefa
frequente em seu quotidiano: processar informações e resolver problemas.