TEITOK@C-I   |   Corpora@C-I   |   CELGA-ILTEC   |   Contacto

EN | PT

Representação em texto

EuPTCVHe0874-02832014000300017

variedadeEu
ano2014
fonteScielo

O script do Java parece estar desligado, ou então houve um erro de comunicação. Ligue o script do Java para mais opções de representação.

Intervenções de Enfermagem para reduzir a ansiedade pré-operatória em crianças em idade escolar: uma revisão integrativa

Introdução A doença e a hospitalização/cirurgia constituem-se como fatores de enorme stresse, ansiedade e sofrimento para a criança, pois estão implícitas a separação das rotinas diárias e das pessoas de referência, a perda de controlo, a lesão corporal e a dor (Marçal, 2006), o que pode influenciar negativamente o seu crescimento e o desenvolvimento harmonioso.

O cuidar da criança hospitalizada foi-se modificando ao longo dos tempos. Hoje em dia ao falar-se de Enfermagem Pediátrica está inerente a parceria de cuidados. Isto é, a criança sendo um ser vulnerável necessita de um acompanhamento constante e sendo a família uma referência para a criança, pertence-lhe a responsabilidade primeira de promover todo o seu desenvolvimento. No entanto, para que cada família possa ficar dotada de competências para interagir com a criança e desenvolver todo o seu potencial, é da responsabilidade do Enfermeiro Especialista em Saúde Infantil e Pediátrica, a promoção, a avaliação e o rastreio de possíveis alterações no desenvolvimento da criança, com intervenções direcionadas para a família (Bellman, Lingam, & Aukett, 2003).

Quando ocorre a hospitalização, o acompanhamento constante por parte dos pais/ família, permite diminuir os traumas psicológicos e emocionais inerentes ao internamento que podem influenciar negativamente o desenvolvimento da criança (Portela & Graveto, 2011).

Dependendo da fase de desenvolvimento em que a criança se encontra, difere o modo como esta se adapta ao meio que a rodeia (Rodrigues & Rodrigues, 2009). As crianças em idade escolar caracterizam-se por um crescente sentimento de independência, por estarem habituadas a seguir regras e indicações e por terem a capacidade de absorver toda a informação que lhes é transmitida (Opperman, 2001). Logo tendo em conta estas características e sendo o Enfermeiro Especialista o profissional que está munido de um corpo de conhecimentos científicos e de um conjunto de competências que lhe permitem estar desperto para as alterações negativas que podem ocorrer no desenvolvimento da criança, consegue encontrar estratégias adequadas à criança para a assistir e cuidar quando ameaçada na sua integridade. Assim, os cuidados de enfermagem especializados devem ultrapassar a prestação de cuidados físicos e o conhecimento de doenças e intervenções cirúrgicas, considerando também as necessidades emocionais e sociais da criança, utilizando técnicas adequadas de comunicação e relacionamento (Schmitz, Piccolo, & Viera, 2003).

Concluindo, torna-se de extrema importância refletir sobre esta problemática e encontrar estratégias, baseadas em evidência científica, com o objetivo de melhorar a qualidade dos cuidados prestados à criança que necessita de hospitalização/cirurgia e possibilitar o desenvolvimento da prática clínica.

Defini como questão de investigação: Que intervenções se podem adotar para diminuir a ansiedade pré- -operatória nas crianças em idade escolar? E como objetivo: Descrever as intervenções de Enfermagem que reduzem a ansiedade pré-operatória em crianças em idade escolar.

Procedimentos metodológicos de revisão integrativa Para a realização da pesquisa foram delineados os critérios de inclusão e exclusão. Foram definidos como critérios de inclusão estudos com evidência científica de natureza qualitativa ou quantitativa; estudos primários que incidiram sobre as intervenções adotadas para reduzir a ansiedade pré- operatória; estudos em que os participantes sejam crianças em idade escolar; estudos publicados nos últimos cinco anos (janeiro 2008 a fevereiro 2013) e possibilidade de acesso a artigos com texto completo. Como critérios de exclusão foram delineados: ser uma dissertação ou tese, publicações de artigos em outros idiomas que não o português, inglês, francês ou espanhol e todos os artigos que não tenham os pressupostos definidos nos critérios de inclusão.

Com o objetivo de selecionar estudos pertinentes que respondessem à pergunta de investigação, foi realizada uma pesquisa entre o dia 25 e 27 de março de 2013, utilizando como descritores Child; Pediatrics; Preoperative Care; Surgery; Nurse's role; Nurse, que foram confirmados em MeSH/DeCS, nas plataformas de pesquisa B-ON e EBSCO envolvendo a CINAHL Plus, Cochrane Collection (Cochrane Database of Systematic Reviews, Database of Abstracts of Reviews of Effects) e MEDLINE. Para complementar a pesquisa foram consultadas ainda as bases de dados do centro de documentação da Universidade Católica Portuguesa e o motor de busca Google. Foram utilizados os operadores boleanos and e or.

Resultados e interpretação Como resultado das interações dos descritores, obteve-se 843 artigos, sendo 795 artigos da plataforma de pesquisa B-ON e 48 artigos da plataforma de pesquisa EBSCO. Após a leitura do título excluíram-se 650 e depois de ler o resumo foram eliminados 153. Não foram incluídos 20 devido à inacessibilidade dos mesmos, ou seja, estavam escritos noutros idiomas para além do português, inglês, francês e espanhol e estava presente somente o resumo do artigo, não existindo o texto integral. Dos estudos selecionados oito estavam repetidos. Foram colocados 12 artigos em apreciação, que após a leitura integral, obteve-se um total de quatro artigos que se enquadram nos critérios de inclusão e exclusão e consideraram-se relevantes para responder à questão formulada (Figura_1).

Os dados foram sintetizados nas tabelas seguintes de acordo com a tipologia de estudo: título, autor/ano/país, participantes, intervenções e resultados.

Tabela_1 Tabela_2 Todos os estudos encontrados foram realizados com crianças que abrangiam a fase escolar e onde foi adotada como estratégia de intervenção criar um programa pré-operatório com o objetivo de reduzir a ansiedade na criança e consequentemente nos seus pais. Nos dois estudos qualitativos foram implementadas intervenções a um grupo de crianças. Ou seja, no estudo realizado por Wennstrom, Hallerg, e Bergh (2008), foi criado um grupo único de vinte crianças que foi submetido a um conjunto de intervenções, direcionadas para o diálogo pré-operatório. Concluíram então que o uso deste diálogo na prática clínica tem o poder de minimizar a angústia e preparar a criança para o eventual stresse que os cuidados hospitalares podem oferecer, como é o caso da cirurgia.

Este diálogo pré-operatório é focado por todos os autores, mas é utilizado através de intervenções diversificadas.

Também no estudo de Teixeira e Figueiredo (2009), existia uma amostra de trinta crianças repartidas em dois grupos de quinze crianças. Todas as crianças seguiram o procedimento pré-operatório vigente na instituição, que tem lugar na consulta externa destinada à Anestesiologia. No entanto, para além deste acompanhamento um grupo de quinze crianças foi submetido a um programa pré- operatório, igualmente implementado na consulta, que incidia no acolhimento da criança, entrega de uma brochura e explicação da mesma, apresentação dos profissionais de saúde com roupa do bloco, visualização de imagens correspondentes ao bloco operatório, manipulação do material e a explicação dos procedimentos utilizando como modelo um boneco. No final destas intervenções foi realizada uma entrevista semiestruturada, onde estava incluído perguntar à criança se anteriormente tinha passado por uma experiência cirúrgica e se tinha dúvidas. Concluiu-se então que as crianças entendiam melhor a informação transmitida e a necessidade dos procedimentos e aceitavam mais facilmente as restrições relacionadas com a cirurgia. Deste modo, a ansiedade, o medo e o sofrimento tinham uma evidência menor e a relação de ajuda estava mais desenvolvida, mostrando-se a criança mais tranquila quando entrava no bloco operatório.

Fincher, Shaw, e Ramelet (2012) realizaram um programa pré-operatório, semelhante ao anteriormente descrito embora com pequenas variações. Este consistia em submeter as crianças do grupo experimental a uma visita ao hospital, num intervalo de tempo de um a dez dias antes da intervenção cirúrgica, onde recebiam a informação pré-operatória através de fotografias do serviço e da equipa multidisciplinar, da demonstração do equipamento/material hospitalar, da visita ao serviço de cirurgia, da explicação da sequência de procedimentos a que iam ser submetidas na admissão e da transmissão de outras informações pertinentes.

Apesar de todas estas intervenções reduzirem a ansiedade das crianças, através do jogo terapêutico, se obteve uma preparação psicológica e autocontrolo mais favorável para a cirurgia, sendo os níveis de ansiedade significativamente mais baixos. O jogo terapêutico consistia num simulador para as crianças manipularem, tendo contato com a rotina operatória (colocação da pulseira de identificação, avaliação dos sinais vitais, colheita de sangue, entre outros) (Vaezzade, Douki, & Hadipour, 2011).

Para melhor avaliar a ansiedade e a dor dos pais e crianças, no estudo de Fincher et al., (2012) foram aplicadas escalas de avaliação da ansiedade: a State Trait Anxiety Inventory (para avaliar a ansiedade dos pais) e a Yale Preoperative Anxiety Scale (para avaliar a ansiedade das crianças), escalas de avaliação da dor: a FLACC ' Face, Legs, Activity, Cry, Consolability - (para crianças com idade inferior a cinco anos) e a Faces Pain Scale Revised (para crianças com idade superior a cinco anos) e a EASI Temperament Survey, que é uma escala de avaliação do temperamento da criança (emoções, atividade, socialização e impulsividade). Concluíram então, que ambos os grupos experienciam aumento da ansiedade à chegada à unidade de cuidados pós- anestésicos, seguida por uma diminuição dos níveis de ansiedade 24h após a cirurgia e após duas semanas em casa. No entanto, a ansiedade era menor nas crianças e pais que foram submetidos à visita pré-operatória e a dor no pós- operatório também diminui.

Para além do questionário de satisfação aplicado aos pais, foi também aplicado o Post Hospital Behaviour Questionnaire que pretendia aceder às respostas comportamentais e às regressões de desenvolvimento da criança depois da hospitalização, que possibilitou afirmar que na maioria as crianças experienciam algumas mudanças comportamentais negativas duas semanas após a cirurgia.

Por outro lado, no estudo realizado por Vaezzade, Douki, e Hadipour (2011), foi aplicado às mães um questionário sobre o contexto e a escala de Spielberger no dia da avaliação pré-operatória e no dia da cirurgia durante a admissão.

De acordo com os autores supracitados existem várias estratégias que podem ser adotadas para diminuir a ansiedade pré-operatória da criança, e consequentemente dos seus pais. A realização de um programa pré-operatório estruturado e adequado ao nível de desenvolvimento da criança permite diminuir a ansiedade e facilita a interação da criança com os profissionais de saúde.

Logo, a criança colabora nos cuidados e a sua recuperação pós-operatória torna- se mais rápida e eficaz.

O facto de se possibilitar o acompanhamento constante da criança por parte dos pais, bem como o conhecimento prévio da equipa multidisciplinar, do serviço de cirurgia pediátrica e dos materiais e equipamentos com os quais vai contatar, reduz significativamente o impacto negativo que os cuidados hospitalares podem oferecer.

Conclusão Cuidar em pediatria significa valorizar e reconhecer a família como parte integrante da equipa multidisciplinar. Cada experiência de hospitalização/ cirurgia da criança é uma vivência individual que vai perturbar a dinâmica familiar e de todos os seus membros. Deste modo, é da responsabilidade do Enfermeiro Especialista em Saúde Infantil e Pediátrica (EESIP) adquirir conhecimentos específicos sobre o desenvolvimento infantil para poder prestar cuidados holísticos e personalizados a cada criança, envolvendo a família em todo o processo de tratamento e cura.

Pode concluir-se através da análise dos estudos encontrados, que tanto a qualidade do programa pré-operatório como a preparação e o suporte para a hospitalização/cirurgia que os pais transmitem aos seus filhos, são essenciais para ajudar a criança e os pais a ultrapassar a ansiedade, o stresse e a angústia provocadas pela situação bem como para ajudá-los a encontrar estratégias para ultrapassá-la.

Apesar das estratégias utilizadas pelos autores trazerem benefícios para a criança sujeita a cirurgia programada, existem algumas limitações sobre as quais o EESIP necessita refletir, para que possa a baixo custo, encontrar diferentes formas de continuar a fornecer a informação, a educação e a preparação pré- -operatória. Foi referido que algumas famílias recusam uma viagem extra ao hospital para realizarem a preparação pré-operatória e muitas vezes não é possível realizar a preparação pré-operatória a todas as crianças no período de tempo considerado ideal para a sua idade. Nas crianças dos três aos cinco anos, a preparação pré-operatória deveria ser realizada um a dois dias antes da cirurgia e nas crianças com idade superior a seis anos deveria ser efetuada cinco a sete dias antes da cirurgia. Como estratégia para se superarem estas limitações seria importante refletir numa forma, acessível e pouco dispendiosa para as famílias, de fornecer a informação pré-operatória, como por exemplo, através da internet, no site da instituição ou através de uma chamada telefónica. Outro ponto a considerar seria marcar a consulta de anestesia e a consulta de Enfermagem no mesmo dia, de acordo com a faixa etária da criança. Ou seja, articular cuidados antecipatórios com cuidados oportunistas.

Sendo a criança o centro de atuação do enfermeiro em pediatria, deixo como sugestão o desenvolvimento de estudos futuros na área dos cuidados de qualidade prestados à criança de modo a garantir o seu bem-estar e a promover o seu pleno desenvolvimento.


transferir texto