Focos de Enfermagem em pessoas mais velhas com problemas de saúde mental
Introdução
A tendência de envelhecimento da população tem vindo a acentuar-se em Portugal,
à semelhança da maioria dos países europeus, aumentando significativamente o
número de pessoas mais velhas na população portuguesa. Esta tendência reforça a
problemática relacionada com o envelhecimento e coloca maiores preocupações em
relação às condições de vida e de saúde/doença das pessoas mais velhas.
Associada a estas evidências, a prevalência de doenças crónicas, com a
coexistência de comorbilidade física e mental, nesta população, constitui um
fator que contribui para a agudização dos seus problemas. No que diz respeito à
doença mental, os dados disponíveis apontam para um incremento das perturbações
depressivas e dos quadros demenciais, traduzidos por manifestações
psicopatológicas, muitas vezes apresentadas sob a forma de síndromes clínicos,
que dificultam o processo de avaliação (Canabrava et al., 2012). Estes dados
suscitam uma análise aprofundada, de modo a conhecer a sua verdadeira natureza
e a traduzi-los em constructos sensíveis à terminologia de Enfermagem. Muitas
destas condições constituem domínios ou focos relevantes para a prática clínica
(Passos, Sequeira, & Fernandes, 2010, 2012; Sequeira, 2010), devendo ser
reconhecidos pelos enfermeiros, tendo por base uma linguagem comum, que permita
sustentar a padronização da documentação e a consequente valorização da
prática, através da identificação de diagnósticos, intervenções e resultados
sensíveis aos cuidados de Enfermagem (Conselho Internacional de Enfermeiros,
2011). No sentido de responder a algumas destas preocupações, foi delineado o
presente estudo, que teve como principal objetivo identificar focos de atenção
de Enfermagem, relacionados com a saúde mental, mais comuns nas pessoas mais
velhas com doença mental. Pretendia-se também analisar a relação entre estes
focos e os fatores sociodemográficos, clínicos e de funcionalidade. Procurou-se
ainda dar um contributo para a elaboração de um Catálogo CIPE (Classificação
Internacional para a Prática de Enfermagem) em saúde mental, dirigido às
necessidades do idoso, e para o desenvolvimento de um questionário de avaliação
clínica de Enfermagem de saúde mental e psiquiatria. Para o enquadramento deste
trabalho utilizou-se a CIPE, uma vez que é a classificação proposta pelo
Conselho Internacional de Enfermeiros (CIE) e pela Ordem dos Enfermeiros
Portugueses e faz parte das classificações internacionais reconhecidas pela
Organização Mundial de Saúde (OMS), sendo largamente utilizada nos sistemas de
informação de apoio à prática clínica, em Portugal e a nível internacional
(Conselho Internacional de Enfermeiros, 2011).
Enquadramento
De acordo com Benedetti, Borges, Petroski, e Gonçalves (2008), as perturbações
mentais comprometem 20% da população mais velha, entre as quais se destacam a
demência e a depressão com maior prevalência. O envelhecimento populacional tem
levado a um aumento na prevalência de doenças degenerativas crónicas,
especialmente da demência, assumindo a manutenção da saúde cognitiva uma
importância relevante para a prevenção da dependência e da incapacidade
funcional (Apóstolo, Cardoso, Marta, & Amaral, 2011), originando também um
incremento da doença física e dos problemas sociais. Do mesmo modo, a depressão
é descrita como uma doença incapacitante, com consequências a nível do
funcionamento global e da satisfação das necessidades da pessoa mais velha
(Benedetti et al., 2008). Associadas a estas condições psicopatológicas, ocorre
um conjunto de perdas cognitivas, sobretudo nas pessoas de idade mais avançada,
bem como outros sintomas psicológicos e comportamentais que determinam
problemas e necessidades específicas.
Neste sentido, os enfermeiros, devem estudar e analisar esta problemática numa
perspetiva holística e multidimensional, de modo a identificar os focos mais
relevantes para a Enfermagem e a criar evidência científica que permita
melhorar a resposta ao nível da prevenção, tratamento e reabilitação das
pessoas mais velhas com problemas de saúde mental. Neste domínio, o CIE sugere
o envolvimento dos enfermeiros na investigação e realça a necessidade da
existência de dados, baseados na evidência, que permitam criar padrões para a
representação da prática em Enfermagem nos sistemas de informação em saúde
baseada no conhecimento e no contexto dos cuidados de saúde globais (Conselho
Internacional de Enfermeiros, 2011). Em consequência, incentiva os enfermeiros,
nos diferentes contextos da sua intervenção, a identificarem focos relevantes
para a prática de Enfermagem, relacionados com prioridades de saúde ou grupos e
populações específicas, de modo a contribuírem para a criação de catálogos CIPE
e para a melhoria desta classificação (Conselho Internacional de Enfermeiros,
2011). Os focos constituem áreas de atenção relevantes para a Enfermagem (por
exemplo, ansiedade, confusão, tristeza, solidão, autoestima, etc.) e são
fundamentais para que o enfermeiro estabeleça o diagnóstico de Enfermagem, que
constitui a base para o planeamento da assistência (Conselho Internacional de
Enfermeiros, 2011). A identificação correta de um foco de Enfermagem é um passo
essencial para o reconhecimento de um problema ou de uma necessidade específica
e para a elaboração de um diagnóstico, que permita planear uma resposta
adequada.
Questões de Investigação
Quais os focos de Enfermagem relacionados com a saúde mental mais comuns nas
pessoas mais velhas com doença mental?
Qual a relação entre estes focos e os fatores sociodemográficos, clínicos e de
funcionalidade?
Metodologia
Tendo em conta o propósito da investigação e os objetivos enunciados, foi
realizado um estudo descritivo e uma análise exploratória, utilizando uma
abordagem quantitativa e correlacional.
Participantes
Foi recrutada uma amostra de 75 participantes, com idade igual ou superior a 65
anos, de ambos os sexos, com doença mental diagnosticada segundo a
Classificação Internacional de Doenças, 9ª Revisão (CID-9) (World Health
Organization, 1978) no contexto do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental
(DPSM), internamento e consulta externa, da Unidade Local de Saúde do Alto
Minho, EPE (ULSAM, EPE).
Foram excluídos os utentes que apresentavam défice visual ou auditivo, bem como
grave compromisso na comunicação, que impedissem a aplicação do protocolo de
avaliação.
Instrumentos
De modo a adequar o protocolo de avaliação ao contexto e ao propósito da
investigação, foram selecionados instrumentos ajustados ao objetivo do estudo e
às caraterísticas da população e utilizadas versões validadas ou adaptadas para
a população portuguesa. Foram usados os seguintes instrumentos: 1) Mini-Exame
do Estado Mental (Mini-Mental State Examination - MMSE), considerando os novos
pontos de corte adaptados para a população portuguesa (Morgado, Rocha, Maruta,
Guerreiro, & Martins, 2009), sendo que a Defeito cognitivo correspondem os
scores de: 0 - 2 anos de escolaridade = 22; 3 - 6 anos de escolaridade = 24; 7
ou mais anos de escolaridade = 27; 2) Teste do Relógio (O Clock Draw Test '
CDT), tendo como pontos de corte de 0 ' 10: > 6 - normal e = 6 - anormal
(Cacho, García-García, Arcaya, Vicente, & Lantada,1999); 3) Escala de
Depressão Geriátrica (Geriatric Depression Scale - GDS - 15 itens), com scores
de sem depressão = 5 e com depressão > 5 (Barreto, Leuschner, Santos, &
Sobral, 2008); 4) Escala de Ansiedade de Zung (Zung Anxiety Scale ' ZAS),
seguindo o ponto de corte de sem ansiedade < 40 e com ansiedade = 40 (Serra,
Ponciano, & Relvas, 1982); 5) Índice de Barthel (Barthel Index ' BI), cujos
pontos de corte correspondem a: Independência total com 20; Dependência
moderada de 13 - 19; Dependência grave de 9 - 12; e Total dependência de 0 - 8
(Araújo, Ribeiro, Oliveira, & Pinto, 2007); 6) Índice de Lawton e Brody
(Lawton & Brody Index ' LI), com os valores de Independência total ' 23 e
Algum nível de dependência < 23 (Araújo, Ribeiro, Oliveira, Pinto, &
Martins, 2008); e 7) Classificação Social de Graffar (Graffar's Social
Classification ' GSC), considerando a seguinte divisão: 0 - 2 classe I; 3 - 4
classe II; 5 - 6 classe III; 7 - 8 classe IV; e 9 - 10 classe V (Fernandes,
2004).
Procedimento
Os participantes foram identificados através da listagem de consultas
programadas. As entrevistas de avaliação foram realizadas pelo investigador, no
serviço de internamento ou nas unidades de consulta externa, no período de
abril a setembro de 2011. O investigador forneceu informação acerca do estudo,
convidando os utentes à participação com consentimento informado. Foram
avaliados 21 utentes internados, 46 na consulta externa, 6 em lares e 2 no
domicílio. Alguns utentes foram avaliados em lares ou no seu domicílio devido a
problemas físicos ou de saúde que impediam a sua deslocação aos serviços. Foram
ainda entrevistados 52 cuidadores e colhida informação dos técnicos de saúde de
71 doentes (psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros).
Para a caraterização sociodemográfica e clínica recorreu-se aos registos da
informação em formulário próprio, que fez parte do protocolo de investigação.
Para completar esta caraterização, além das entrevistas de avaliação
realizadas, foi também efetuada uma consulta ao Sistema de Apoio à Prática de
Enfermagem (SAPE) e ao Sistema de Apoio ao Médico (SAM), bem como ao processo
individual de cada utente.
Relativamente à informação clínica, foram ainda realizadas entrevistas
informais aos psiquiatras, no sentido de atualizar a informação acerca do
diagnóstico médico, e aos enfermeiros, para analisar a informação relativa aos
focos de Enfermagem relacionados com a saúde mental e aos critérios de seleção
e de parametrização utilizados.
No que diz respeito à informação clínica de Enfermagem, foram considerados
apenas os focos de atenção relacionados com a saúde mental, tendo estes sido
classificados de acordo com a CIPE, versão 2 (Conselho Internacional de
Enfermeiros, 2011).
Tendo por base a informação obtida a partir da aplicação do protocolo de
avaliação, bem como dos outros procedimentos descritos anteriormente, procurou-
se identificar os focos de atenção relevantes para a prática de Enfermagem
relacionados com a saúde mental mais comuns na população em estudo. Neste
sentido, foram consideradas as pontuações globais e parciais dos instrumentos
utilizados, bem como a informação obtida a partir da análise de itens, ou
grupos de itens, e de diferentes domínios dos instrumentos que, de forma direta
ou conjugada, permitissem identificar áreas ou focos clínicos relacionados com
a saúde mental e com interesse para a prática de Enfermagem. Utilizando a CIPE
(versão 2), procurou-se valorizar a informação obtida, tendo em conta a
descrição do conceito de cada foco de Enfermagem relacionado com a saúde mental
para, desse modo, selecionar os que apresentavam alterações ou algum nível de
compromisso.
Foi obtida autorização da Comissão de Ética e da Direção da Instituição onde
decorreu o estudo, bem como o consentimento informado dos utentes e cuidadores
informais e acauteladas as medidas necessárias para salvaguarda da
confidencialidade.
Análise estatística
Os dados foram organizados e classificados, procedendo-se ao seu tratamento
estatístico utilizando o software Statistical Package for the Social Sciences
(SPSS), versão 19,0. Para analisar a relação entre as principais variáveis
foram utilizados testes de Qui-quadrado (X2) e o Coeficiente de Correlação
Ponto Bisserial (rpb). Foi ainda utilizado o Coeficiente de Correlação Parcial
para analisar algumas correlações, controlando-as relativamente a outros
fatores. Foi considerado um nível de significância de 0,05.
Resultados
Os dados foram obtidos a partir de uma amostra de 75 utentes, com idades entre
65 e 93 anos (M = 73,3 anos; DP = 6,6) e escolaridade entre 0 e 9 anos (M =
2,76 anos; DP = 1,96). Na amostra, 73,3% eram do género feminino, casadas
(49,3%), viviam com o companheiro (50,7%), em áreas rurais (74,7%) e pertenciam
a classe social muito baixa (94,7%). Foram avaliadas no contexto da consulta
externa (73,3%), tinham como diagnóstico principal perturbação depressiva
(36,0%) e demência (29,3%), e apresentavam comorbilidade somática em 98,7% dos
casos. Grande parte dos participantes (69,3%) tinha cuidador informal e vivia
com o cuidador (56,0%).
Resultados sobre a condição cognitiva, psicológica e de funcionalidade
A pontuação global dos instrumentos utilizados revelou que 52,0% dos
participantes apresentavam défice cognitivo na avaliação com o MMSE (M = 22,28;
DP = 6,45) e 66,7% tinham um resultado anormal no CDT (M = 4,65; DP = 3,40).
Apresentavam também depressão (GDS ' 61,3%), pontuação média de 8,14 (DP =
4,32), e 81,3% apresentavam ansiedade na ZAS (M = 48,49; DP = 8,41). No que diz
respeito à funcionalidade, 49,3% apresentavam dependência moderada nas
Atividades Básicas de Vida Diária (ABVD) avaliadas pelo BI, 42,7% independência
total e 4,0% apresentava dependência grave ou total dependência (M = 17,52; DP
= 3,68). Relativamente às Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVD)
avaliadas pelo LI, 77,3% apresentavam algum nível de dependência (M = 13,41; DP
= 8,05).
Focos de Enfermagem relacionados com a área de saúde mental
Os resultados permitiram identificar 42 focos de atenção em Enfermagem
relacionados com a saúde mental, ao nível dos quais se encontraram alterações e
que apresentavam maior probabilidade de se constituírem como problema de saúde
nas pessoas mais velhas com doença mental. Através da análise efetuada foi
possível reconhecer diferentes condições clínicas ao nível dos focos
identificados (atual, anormal, comprometido, deteriorado, diminuído, elevado,
etc.), o que permitiu considerá-los como áreas de atenção relevantes nesta
população. A Tabela_1 apresenta a frequência dos focos mais comuns, em relação
à amostra total e aos grupos de ambulatório e internamento. Foram identificados
como presentes os focos de Enfermagem ao nível dos quais a pessoa apresentava
alguma alteração, sendo nos restantes casos considerados como ausentes. No que
diz respeito à amostra total, os focos mais frequentes foram memória (90,7%),
cansaço (86,7%), ansiedade (84,0%), nervosismo (78,7%) e insónia (77,3%). Os
doentes avaliados em ambulatório apresentavam como focos mais comuns memória
(92,7%), cansaço (87,3%), ansiedade (83,6%), insónia e nervosismo (78,2% cada),
atenção (67,3%) e solidão (63,6%). Nos utentes avaliados no internamento, os
focos mais frequentes foram atenção (95,0%), pensamento (90,0%), ansiedade,
memória, concentração, cansaço e cognição (85,0% cada).
Distribuição dos focos de Enfermagem pelos diagnósticos psiquiátricos
No sentido de conhecer a distribuição dos focos de Enfermagem em relação aos
diagnósticos médicos, procedeu-se a uma análise de distribuição de frequências
(Tabela_2). Os resultados permitiram verificar que a grande parte dos focos de
Enfermagem apareciam com maior frequência nos diagnósticos de depressão e
demência, que foram os mais prevalentes. A análise permitiu também apurar que
os focos relacionados com alterações do humor (tristeza, vontade de viver,
autoestima, desolação, depressão, euforia, ideação suicida e tentativa de
suicídio) e com perturbações ansiosas (ansiedade, stress, medo, nervosismo,
cansaço, pesadelo, angústia, coping e desespero) apareciam com maior frequência
nas pessoas com diagnóstico médico de depressão, ao passo que os focos
relacionados com alterações do comportamento (agitação, comportamento
agressivo, comportamento desorganizado e insónia) e da cognição (pensamento,
delírio, crença errónea, alucinação, orientação, atenção, concentração,
cognição, aprendizagem, comunicação e confusão) surgiam mais nas pessoas com
diagnóstico de demência.
Análise da relação entre os focos de Enfer-magem e as variáveis
sociodemográficas, clínicas e de funcionalidade
Relativamente à associação entre os focos de Enfermagem e os diagnósticos
psiquiátricos, tendo em conta que os diagnósticos de depressão e demência eram
os mais comuns, representando em conjunto 65,3% da amostra, procurou-se
analisar a existência de eventuais associações entre estes. Procedeu-se ainda a
uma análise de associações e de correlações entre os focos de Enfermagem e
alguns fatores sociodemográficos (idade e género), clínicos e de
funcionalidade.
Os resultados revelaram existir uma associação positiva significativa entre o
diagnóstico de demência e a idade (rpb = ,35; p = ,002), sugerindo que mais
idade estava associada ao diagnóstico de demência, não se verificando o mesmo
em relação à depressão.
No que diz respeito ao género, o teste de Qui-quadrado efetuado para o
diagnóstico de demência não permitiu concluir de forma significativa que
existisse diferença entre homens e mulheres (?2(1) = 3,23; p = ,072).
Relativamente ao diagnóstico de depressão, verificou-se uma diferença
significativa entre géneros (?2(1) = 5,22; p = ,022), concluindo-se que os
homens (15,0%) estão menos sujeitos a depressão do que as mulheres (43,6%).
No que diz respeito à relação dos focos de Enfermagem com as variáveis clínicas
e sociodemográficas (Tabela_3), foram encontradas correlações positivas entre a
idade e os focos aprendizagem, atenção, cognição, confusão, força de vontade,
orientação e pensamento. Por outro lado, foram encontradas correlações
negativas entre esta variável e os focos ansiedade, coping, desespero,
desolação, ideação suicida, stress, tristeza e vontade de viver. No que diz
respeito ao género, verificou-se apenas uma associação positiva entre o foco
stress e esta variável (?2(1) = 4,01; p = ,045), concluindo-se que as mulheres
(45,5%) apresentavam mais alterações neste foco do que os homens (20,0%).
Relativamente à relação dos focos de Enfermagem com os diagnósticos
psiquiátricos (depressão e demência), considerando as associações encontradas,
procurou-se verificar a importância das variáveis idade e género nesta relação,
isto é, pretendeu-se saber se a relação observada estava a ser influenciada por
estas variáveis sociodemográficas. Os dados obtidos, depois de controlados para
a idade e o género, permitiram verificar que apenas os focos alucinação (p =
,011), confusão (p < ,001), orientação (p < ,035), aprendizagem (p = ,001),
comportamento agressivo (p < ,001) e perceção (p = ,044) surgiam
correlacionados positivamente com a demência. Do mesmo modo, em relação à
depressão, apenas se verificaram correlações positivas com os focos tristeza (p
= ,003), depressão (p = ,016), desolação (p = ,002) e stress (p = ,005). Por
outro lado, os focos aprendizagem (p = ,046), comportamento agressivo (p =
,035), confusão (p = ,017) e perceção (p = ,004), apareciam correlacionados
negativamente com o diagnóstico médico de depressão. Relativamente aos
restantes focos de Enfermagem não se verificou a existência de correlação com
os diagnósticos médicos apresentados.
Relativamente à associação entre os focos de Enfermagem e alguns fatores
clínicos e de funcionalidade, efetuaram-se análises de correlação para os focos
mais comuns, tendo por base as pontuações globais obtidas nas escalas usadas no
protocolo de avaliação. Os resultados revelaram existir correlação (positiva e
negativa) entre vários focos de Enfermagem e os resultados de alguns destes
instrumentos (Tabela_4). Verificou-se que os focos do domínio cognitivo
apareciam associados a pontuações mais baixas nos testes cognitivos (MMSE/CDT)
e a menor funcionalidade (BI/LI) dos sujeitos. Estes dados sugeriam que as
pessoas com mais dificuldades cognitivas apresentariam maiores necessidades de
Enfermagem em alguns destes domínios, o que, por sua vez, também impõe
dificuldades na satisfação das suas necessidades básicas e sobretudo, das
instrumentais. Por outro lado, os focos relacionados com o humor e a ansiedade
apareciam associados a pontuações mais elevadas nas respetivas escalas (GDS/
ZAS), o que permitiu concluir que a presença de níveis elevados de ansiedade e
depressão, nos sujeitos, determinaria maiores necessidades de Enfermagem, em
diferentes focos destes domínios psicológicos. Por sua vez, os problemas ao
nível dos focos do domínio do humor e da ansiedade não comprometiam tanto a
funcionalidade e a realização das AVD.
Discussão
Os resultados apresentados colocam a depressão e a demência como os
diagnósticos médicos mais frequentes, o que está em conformidade com os dados
de outros autores (Apóstolo et al., 2011; Benedetti et al., 2008; Canabrava et
al., 2012; Passos et al., 2010, 2012). Estes dados estão também em linha com os
resultados dos instrumentos aplicados, uma vez que a maioria dos participantes
apresentava défice cognitivo no MMSE e no CDT e depressão na GDS.
Associado a estes diagnósticos médicos encontrou-se um vasto conjunto de
alterações psicológicas, cognitivas e comportamentais, que constituem focos de
atenção relevantes para a prática de Enfermagem. Grande parte destes focos de
Enfermagem relacionados com a saúde mental, na sua maioria do domínio cognitivo
e das emoções, parecem ser comuns nas pessoas mais velhas, tendo em conta os
resultados apresentados neste estudo e noutras pesquisas, já realizadas (Passos
et al., 2010, 2012), bem como nos dados de outros autores (Sequeira, 2010).
Por outro lado, verificou-se que os focos de Enfermagem do domínio cognitivo
apareciam correlacionados com maior idade das pessoas, contribuindo para a
existência de vários diagnósticos de Enfermagem como é o caso da atenção
diminuída, cognição comprometida, confusão atual, força de vontade diminuída,
orientação comprometida e pensamento anormal, o que também tem sido referido
por outros autores (Ferreira, Tavares, & Rodrigues, 2011; Santos, et al.,
2008; Teixeira & Fernandes, 2003). Verificou-se também que os sujeitos com
menos idade apresentavam mais alterações ao nível dos focos relacionados com o
domínio psicológico (ansiedade e humor), originando a presença de diagnósticos
como ansiedade atual, coping comprometido, desespero atual, desolação atual,
stress elevado, ideação suicida presente, tristeza presente e vontade de viver
diminuída. Outros autores têm também identificado a presença de alterações em
alguns destes domínios nas pessoas mais velhas, contudo não fazem distinção
relativamente à idade (Santos et al., 2008; Teixeira & Fernandes, 2003). A
presença de muitos destes focos, sobretudo os do domínio cognitivo, cria várias
dificuldades aos idosos e compromete a realização dos seus objetivos de vida.
Esta condição, apesar de exigir uma atenção particular, não tem tido a melhor
resposta no contexto dos cuidados de Enfermagem, verificando-se que as
prioridades têm sido mais orientadas no sentido da satisfação das necessidades
básicas em detrimento da estimulação cognitiva e da promoção da autonomia
destas pessoas. Do mesmo modo, em contextos de psiquiatria e saúde mental, o
sofrimento psicológico e outras alterações emocionais, não estão a obter a
melhor resposta da parte dos enfermeiros, dada a diminuição de recursos que se
tem verificado e a excessiva focalização nos aspetos anteriormente referidos.
Por outro lado, verificou-se que os focos do domínio cognitivo e
comportamental, aparecem mais associados ao diagnóstico de demência, enquanto
que os do domínio psicológico, relacionados com as emoções, aparecem mais
associados ao diagnóstico médico de depressão, dados que surgem em conformidade
com estudos anteriores (Passos et al., 2010, 2012). Outros autores têm também
referido o predomínio dos problemas cognitivos e comportamentais associados à
demência (Sequeira 2010), do mesmo modo que alguns estudos relacionam as
alterações ao nível das emoções com o diagnóstico de depressão (Unutzer, 2007).
Também se verificou que, depois de controlados os fatores sociodemográficos,
apenas se mantinha correlação positiva entre os focos alucinação, aprendizagem,
comportamento agressivo, confusão, orientação e perceção e o diagnóstico médico
de demência. Por outro lado, apareciam correlacionados positivamente com o
diagnóstico médico de depressão, apenas os focos depressão, desolação, stress e
tristeza. Tendo em conta estas correlações, os resultados permitem concluir que
estes focos podem ser determinantes importantes destes diagnósticos médicos.
Os resultados apontaram também para a existência de correlação significativa
entre os focos de Enfermagem do domínio cognitivo e as pontuações obtidas nos
testes cognitivos, bem como em relação aos índices de funcionalidade,
verificando-se que estas alterações tinham um grande impacto nas AVD, o que
está em linha com a perspetiva de outros autores (Araújo et al., 2007, 2008;
Ferreira et al., 2011). No entanto, estas dificuldades predominavam ao nível
das atividades instrumentais, como tem sido também verificado noutros estudos
(Apóstolo et al., 2011; Sequeira, 2010).
Por outro lado, os focos do domínio psicológico (humor e ansiedade), que
apresentavam frequências mais elevadas, apareciam correlacionados com
pontuações mais altas nas escalas de depressão e ansiedade (GDS/ZAS), sugerindo
que as pessoas com níveis mais elevados de ansiedade e depressão apresentavam
mais problemas ao nível das emoções, o que está em linha com os dados da
literatura (Unutzer, 2007). No entanto, as alterações em alguns focos do
domínio cognitivo, como é o caso da cognição, concentração e pensamento,
apareciam também correlacionadas com níveis mais elevados de depressão, que é
corroborado por estudos prévios (Apóstolo et al., 2011; Gonçalves & Martín,
2007). Estes dados sugerem a existência de comorbilidades em termos de
sintomatologia cognitiva e emocional que provoca sofrimento e grande
disfuncionalidade nestas pessoas. Esta evidência realça a importância de uma
boa avaliação, de modo a identificar com rigor a natureza dos problemas, as
suas causas e as necessidades associadas.
Neste sentido, torna-se importante desenvolver estratégias e métodos de
avaliação eficazes, que permitam identificar com rigor os verdadeiros problemas
e necessidades das pessoas mais velhas e os seus determinantes. O estudo
pormenorizado destes eventos é fundamental para a valorização dos fatores
associados a estas necessidades e para o planeamento de uma resposta
assistencial em conformidade com a natureza clínica e social dos fenómenos que
caraterizam o envelhecimento e as problemáticas destes utentes.
Os dados obtidos parecem-nos sensíveis à natureza clínica dos diagnósticos
médicos mais comuns (depressão e demência). Apesar dos utentes estarem a
beneficiar de tratamento/intervenção, quer médico quer de Enfermagem,
verificou-se a presença de um vasto conjunto de sinais e sintomas,
identificados através dos instrumentos utilizados, que muitas vezes dominam o
quadro clínico, e cujo reconhecimento constitui um desafio e um alvo
prioritário de atenção da prática de Enfermagem.
Apesar do rigor utilizado na metodologia e na análise dos dados obtidos através
do presente estudo, persistem algumas limitações, uma vez que houve dificuldade
em identificar a presença ou ausência de alguns focos de Enfermagem, devido à
escassa informação na descrição do respetivo conceito, bem como a semelhança
entre o seu conteúdo. Isto deve-se ao facto de a CIPE, em alguns focos,
apresentar conceitos com caraterísticas sobreponíveis, o que dificulta a
valorização da informação colhida, concretamente, a identificação rigorosa do
foco em causa e das respetivas alterações.
Conclusão
O presente estudo permitiu identificar e hierarquizar a prevalência dos focos
de Enfermagem de saúde mental em pessoas mais velhas, bem como conhecer a sua
relação com algumas variáveis sociodemográficas, clínicas e de funcionalidade,
contribuiu para uma melhor perceção dos problemas que afetam esta população.
Deste modo, esta investigação possibilitou retirar implicações na realização
das atividades de vida diária, bem como no bem-estar físico e psicológico
destes idosos.
A demência e a depressão constituem determinantes importantes de focos e
diagnósticos de Enfermagem relacionados com a saúde mental das pessoas mais
velhas, evidenciando a importância de uma avaliação rigorosa das diferentes
dimensões e eventos que caracterizam o envelhecimento humano e o processo de
adaptação destas pessoas às alterações físicas e psicológicas e aos contextos
de vida.
Este trabalho permitiu assim, perspetivar os próximos passos, concretamente no
que diz respeito à elaboração de um Catálogo CIPE dirigido às necessidades do
idoso em saúde mental e psiquiatria e ao desenvolvimento de um questionário de
avaliação clínica de enfermagem, neste âmbito.