Cuidar de Imigrantes: das interações em contexto à construção de competências
culturais nos enfermeiros
Introdução
Os contextos de cuidados de saúde são hoje caracterizados por diversidades
étnicas e culturais sendo que os sujeitos de cuidados em Enfermagem são
frequentemente imigrantes de diferentes origens, vivenciando as inerentes fases
de transição (Meleis, 2010). As interações estabelecidas nos contextos de
cuidados entre os enfermeiros e os imigrantes e as competências culturais
desenvolvidas a partir delas, constituem-se como os pólos organizadores deste
estudo. Segundo o Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo do Serviço de
Estrangeiros e Fronteiras (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Departamento
de Planeamento e Formação. Núcleo de Planeamento, 2012), o fluxo migratório
para Portugal em 2011 registou um decréscimo de 10,6 % face ao ano de 2010.
Continua a evidenciar-se, contudo, a relevância destes cidadãos enquanto
consumidores de cuidados de saúde, e especificamente de Enfermagem, com as suas
particularidades culturais em contexto de cuidados. Para este estudo adotámos o
conceito de imigrantes que os define como todos aqueles que sendo estrangeiros
são detentores de título de residência e os estrangeiros a quem foi prorrogada
a permanência de longa duração (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.
Departamento de Planeamento e Formação. Núcleo de Planeamento, 2012, p.15).
Concordando com a perspetiva apontada pelo Alto Comissariado para a Saúde em
Portugal, enfatizamos a importância atribuída à saúde e aos cuidados aos
imigrantes, colocando-se neste campo duas questões essenciais: a importância de
se assegurarem os desafios que a saúde dos imigrantes coloca dentro das
fronteiras do território nacional e a definição de estratégias que assegurem a
saúde das pessoas na sua diversidade cultural, como apontam Machado, Pereira, e
Machaqueiro (2010), sendo que estas dimensões vêm também suportar o interesse
do nosso estudo.
Para a Ordem dos Enfermeiros, no que se refere ao exercício profissional e às
suas competências em cuidados gerais, podemos perceber a imprescindibilidade
apontada de que os enfermeiros tenham sensibilidade para lidar com as
diferenças culturais na interação com as pessoas na sua prática clínica (Ordem
dos Enfermeiros. Conselho de Enfermagem, 2003).
Tal como no estudo de Serrano, Costa, e Costa (2011), valorizamos a importância
dos processos de interação dos enfermeiros com os sujeitos de cuidados, a par
de uma aprendizagem experiencial desenvolvida e da construção de competências
produzidas, sendo que a nossa investigação se focou no desenvolvimento das
competências culturais.
Vários autores vêm enfatizando a importância da dimensão cultural nos processos
de interação e cuidados a imigrantes, como no caso de estudos nacionais
desenvolvidos por Anes (2006) e Pereira (2008) com objetos de estudo e
perspetivas de análise transversais aos cuidados desenvolvidos pelas equipas de
saúde; e outros internacionais, como o estudo de Skott e Lundgren (2009), que
especifica as interações em contextos multiculturais de cuidados desenvolvidos
por enfermeiros.
Propusemo-nos a estudar o processo da construção das competências culturais nos
enfermeiros, partindo da identificação de significados atribuídos nas díades em
contexto de cuidados, especificamente em Unidades de Saúde Familiar e nos
domicílios dos imigrantes. Nesta base reflexiva, questionámos: como se
desenvolve o processo de construção das competências culturais nos enfermeiros
para cuidar imigrantes? Visando a clarificação do problema colocado, procedemos
à triangulação metodológica, de atores e de contextos em sustentação das
elaborações interpretativas que pretendíamos e em consonância com a orientação
etnográfica do estudo.
Enquadramento
Um referencial na prática clínica com imigrantes
Entendemos a perspetiva teórica que elaborámos como versões ou perspetivas,
através das quais se vê a realidade (Flick, 2005, p.44), portanto concordantes
com o processo de descoberta da investigação qualitativa que desenvolvemos.
Pensarmos na multiculturalidade em Enfermagem é também pensarmos no lugar, na
visibilidade e no reconhecimento que as competências culturais têm tido no
desenvolvimento da prática clínica, e também, inversamente, na forma como esta
tem contribuído para as competências culturais dos enfermeiros na atualidade,
como referenciam diferentes autores (Campinha-Bacote, 2011; Purnell, 2011).
Estudando o processo de construção das competências culturais nos enfermeiros,
colocámo-nos numa perspetiva bidimensional de problematização por via dos
diferentes atores envolvidos: uns ' os enfermeiros, porque são responsáveis
pelo planeamento, desenvolvimento e avaliação dos cuidados, e os outros ' os
imigrantes, porque são o foco da atenção profissional dos primeiros; desta
forma esperámos que estes sujeitos de cuidados espelhassem a face visível
dessas competências dos enfermeiros quando acompanhados nas suas vivências de
saúde e de doença.
Selecionámos para a conceptualização do estudo a teoria da diversidade e
universalidade do cuidado cultural de Leininger (1994), uma vez que esta propõe
a descoberta das diversidades (diferenças) e universalidades (semelhanças)
culturais no cuidado humano, tais como as que encontrámos nas díades
enfermeiros/imigrantes para a produção de novo conhecimento orientador da
prática de Enfermagem. A adoção da perspetiva desta autora permitiu-nos, tal
como refere Purnell (2011), obter a compreensão de especificidades culturais
nos cuidados ligadas a crenças e condutas associadas aos contextos e
definidoras das interações entre quem cuida e quem é cuidado. Valorizámos, de
acordo com a teoria de Leininger, a visão holística, distinta da forma
fragmentada de olhar para as pessoas e compreensiva em contextos multiculturais
de cuidados, em torno do conceito de cultura, referenciado na mesma fonte como
específico padrão de comportamento que distingue qualquer sociedade de outras
e dá sentido às expressões humanas do cuidar (Culture Care Theory: A major
contribution to advance transcultural nursing knowledge and practices, 2002,
citado em Purnell, 2011, p. 532). Procurámos a mobilização desta perspetiva
como suporte ontológico de explicações e interpretações do fenómeno em estudo '
construção das competências culturais nos enfermeiros; ainda de acordo com a
perspetiva teórica de Leininger, distinguimos cuidados de cuidar: o primeiro
conceito implica a provisão dos necessários e personalizados serviços que
ajudam o homem a manter o seu estado de saúde ou a recuperar da doença, e o
segundo usado como verbo implica um sentimento de compaixão, interesse e
preocupação pelas pessoas (1994, p.30).
Recorremos também ao suporte da teoria das transições de Meleis (2010),
relativamente à análise das relações humanas e das mudanças ' transições, que
de acordo com esta autora ocorrem no percurso de vida das pessoas ao longo do
tempo em situações e contextos particulares; esta perspetiva teórica sustentou-
nos a análise dos processos de saúde e doença dos imigrantes, a quem Meleis se
referiu em particular, bem como às suas interações com os enfermeiros em
contextos de cuidados. O conceito de transição foi assumido neste estudo de
acordo com a perspetiva de Meleis (2010), que considera ser central à prática
clínica de Enfermagem e à génese das modificações de vida, saúde, relações e
ambiente das pessoas, nas quais os enfermeiros têm assumido um papel relevante
no acompanhamento na entrada, na passagem e na saída destas fases.
Especificamente em relação ao conceito de transição em imigrantes, considerámos
neste estudo, tal como Meleis (2010), que estas experiências nas suas vidas vão
muito para além das fronteiras geopolíticas, atravessando fases e condições de
vida, sendo contributivas para a sua própria auto-definição como pessoas.
Pensámos no que os enfermeiros necessitariam para suplementar estas situações,
tal como apontou Meleis (2010) e a que Purnell (2011) se referiu como a
necessidade de que os enfermeiros se percebam como culturalmente competentes
(p. 529).Tal necessidade surgiu também enfatizada no estudo de Vega (2010) que
apontou, tal como Leininger o fez no passado (1994), os subsídios da
antropologia como suscetíveis de contribuírem para desenvolver nos enfermeiros
uma maior capacidade reflexiva sobre si mesmos e a sua prática clínica,
particularmente nos cuidados a imigrantes.
Refletimos, na linha de diversos autores, sobre os sujeitos de cuidados serem
pessoas com diferentes referências culturais daquelas que são dominantes nos
contextos de cuidados do país de acolhimento (Fonseca, Silva, Esteves, &
McGarrigle, 2009; Meleis, 2010). Relevámos a importância da autorreflexão dos
próprios valores culturais dos enfermeiros para a construção das suas
competências culturais (Campinha-Bacote, 2011; Purnell, 2011); valorizámos
também a reflexão das culturas e subculturas do contexto organizacional de
saúde para os enfermeiros, em concordância com os estudos de Vega (2010) e de
Serrano et al. (2011). Esta valorização decorreu da constatação de que o mais
importante para o comportamento e desenvolvimento humanos está muitas vezes
ligado à forma como o ambiente é percebido e não conforme ele poderia existir
na realidade "objetiva", como refere Bronfenbrenner (2002, p.6) no
modelo ecológico do desenvolvimento humano. Progressivamente foi-se traduzindo
para nós e para este estudo, com foco na dimensão da cultura dos atores
(enfermeiros e imigrantes) e dos contextos de cuidados, uma necessidade de
valorização dinâmica de aquisição de experiências e competências ao longo do
percurso profissional em contexto da prática clínica dos enfermeiros, como
surge enfatizado no estudo de Serrano et al. (2011). A construção das
competências culturais pelos enfermeiros também nos surgiu associada à
perspetiva de Campinha-Bacote (2011), que defende que o desenvolvimento dos
profissionais implica a construção ativa de semelhanças entre si mesmos e os
imigrantes, no contexto dos cuidados, para além da sua necessária
identificação, já anteriormente referida por Leininger (1994).
Tal como Campinha-Bacote (2011), mobilizámos como referência para este estudo
as competências culturais nos enfermeiros construídas com base na existência
de: sensibilidade cultural; auto-consciência, conhecimento; humildade e
habilidades culturais; e planeamento das interações com os imigrantes nos
designados encontros culturais, partindo da necessária motivação inicial dos
enfermeiros.
Nesta linha de pensamento definimos como questões de investigação: Como se
caraterizam as interações estabelecidas nos contextos de cuidados entre
enfermeiros e imigrantes? Que dificuldades e mais-valias são identificadas em
contextos multiculturais?
De acordo com a nossa perspetiva considerámos a influência das interações dos
enfermeiros com os imigrantes como promotora de adaptações nas díades de
cuidados e como produtora do desenvolvimento de atitudes, motivações e
comportamentos para a construção de competências culturais nos enfermeiros.
Metodologia
De acordo com a perspetiva teórica descrita e em resposta às questões
colocadas, considerámos uma lógica indutiva e interpretativa de estudo,
valorizando os significados atribuídos pelos atores nos contextos de interação.
Colocado este estudo num paradigma qualitativo e etnográfico de investigação,
reconstituímos os significados do processo de construção de competências
culturais nos enfermeiros, com um total de 52 participantes voluntários, após
solicitação prévia: 23 enfermeiros, uma mediadora cultural e um médico '
profissionais das unidades de saúde onde decorreu o estudo; e 27 imigrantes '
utentes das mesmas unidades. Os participantes abriram caminho ao investigador
através da bola de neve de uns para os outros, à medida que permanecíamos no
terreno e que íamos experienciando progressivamente os diferentes papéis de
estranho a membro, como apontou Flick (2005). A mobilização da mediadora
cultural e do médico, ambos das unidades de saúde, para a recolha de informação
proporcionou-nos a garantia da validade interna do estudo pelo domínio
conceptual que estes têm sobre o fenómeno, de acordo com o que sugerem Durand e
Blais (2003).
Procedimentos de recolha de dados
Ao definirmos no desenho do estudo os métodos de investigação, visámos a
construção de uma corrente lógica de evidência, numa perspetiva recursiva de
recolha e análise de dados, tal como apontaram Streubert e Carpenter (2013),
que nos permitisse a elaboração de uma heurística compatível com a
caraterização cultural das competências dos enfermeiros quando cuidam
imigrantes.
Para a recolha dos dados utilizámos os seguintes métodos de investigação
etnográfica: análise de narrativas escritas focalizadas na interação e nos
cuidados, que solicitámos aos enfermeiros e imigrantes das referidas unidades;
observação participante com registo descritivo e posterior-mente focalizado
(Spradley, 1980) dos cuidados de Enfermagem a imigrantes; e entrevistas
etnobio-gráficas a enfermeiros, a imigrantes e também a informantes
privilegiados ' (mediadora cultural e médico). O guião das entrevistas foi
estruturado a partir da recolha e análise dos dados das narrativas solicitadas
e da fase inicial de observação participante, com uma orientação semi-diretiva
no seu desenvolvimento (Flick, 2005). Em concordância com Streubert e Carpenter
(2013), considerámos que o uso de múltiplos métodos de colheita de dados é
importante pois aumenta a credibilidade dos resultados (p. 206).
O trabalho de campo ocorreu por períodos intermitentes entre setembro de 2011 e
outubro de 2012. Optámos pelo desenvolvimento do estudo em cuidados de saúde
primários na Região de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, em contextos de cuidados
de Enfermagem à população imigrante ' Unidades de Saúde Familiar e unidades de
cuidados na comunidade em situações de cuidados domiciliários a imigrantes.
Esta opção prendeu-se com as possibilidades constatadas de melhor acesso e
desenvolvimento da investigação. Considerando o relatório Mighealthnet sobre o
estado da arte em Portugal (Fonseca et al., 2009) e a perspetiva de Machado et
al. (2010), identificámos que os cuidados de saúde primários são frequentemente
a porta de entrada para os imigrantes no Serviço Nacional de Saúde numa
primeira fase no país de acolhimento, nomeadamente por via da promoção da saúde
e prevenção da doença na área da saúde infantil (dos filhos). Assumimos esta
constatação como compatível com a continuidade da adesão aos cuidados destes
sujeitos ao longo do estudo e, portanto, tornando possível a acessibilidade e a
continuidade da nossa investigação.
Relativamente às preocupações éticas como investigadores, estas prenderam-se
especificamente com a proteção dos participantes, sendo que sentimos
necessidade de conciliação entre a clareza nos objetivos do estudo e a
utilização dos diferentes métodos para a recolha de dados que nos propusemos
utilizar, sem que se registassem constrangimentos nos sujeitos estudados nem a
perda da espontaneidade desejada na obtenção dos dados. Cientes da delicadeza
das situações de observação participante no processo de cuidados em casa dos
imigrantes ou nas unidades de saúde e ainda nas situações dos grupos de
discussão, comprometemo-nos a respeitar plenamente o sigilo e a privacidade na
recolha de dados em todos os métodos utilizados, bem como o anonimato dos
diferentes intervenientes no processo de cuidados. Fizemo-lo recorrendo à
clarificação e ao preenchimento do consentimento informado com cada um dos
participantes, como propuseram Streubert e Carpenter (2013). Fomos
progressivamente acedendo ao conhecimento cultural dos enfermeiros e dos
imigrantes, desenvolvendo as necessárias inferências culturais (Streubert e
Carpenter, 2013) face à forma como se percecionavam em relação às suas
competências culturais (os enfermeiros) e se sentiam mais ou menos
culturalmente ajudados e compreendidos nas suas transições de saúde - doença
(os imigrantes). Tratou-se de um processo de focalização progressiva à medida
que fomos desenvolvendo a análise das narrativas, do corpus das entrevistas
etnobiográficas, com centralização no momento-charneira ' interações e cuidados
entre enfermeiros e imigrantes, e dos dados da observação participante.
Na fase final do trabalho de campo, devolvemos os dados analisados aos dois
tipos de sujeitos, procurando simultaneamente a validação das interpretações
feitas e a saturação dos dados, concretizada com as informações redundantes
obtidas. Fizemo-lo recorrendo a dois distintos grupos de discussão (um de
imigrantes e um de enfermeiros), estimulando respostas a questões gerais,
primeiro, e depois, progressivamente, a questões mais focalizadas na
problemática em estudo. A estruturação deste planeamento ocorreu após a análise
taxonómica e componencial dos dados da observação participante descritiva e
focalizada (Spradley, 1980). Os grupos de discussão foram, portanto, orientados
com base em guiões que permitiram o registo da produção discursiva dos
participantes na sua especificidade, de acordo com a proposta de Geoffrion
(2003). Na linha do mesmo autor, foi-nos possível nestes momentos perceber se
havia uma significação comum ou diferente das questões colocadas a um e outro
grupos, valorizando as possibilidades de, por um lado, obter resultados
rapidamente e, por outro, de utilizar a flexibilidade de uma técnica que
permite a inversão e/ou reformulação das questões colocadas. Baseámo-nos na
orientação conceptual do modelo de competências culturais de Campinha-Bacote
(2011) para o desenvolvimento do guião do grupo dos enfermeiros, considerando
os constructos: consciência cultural; conhecimento cultural; habilidade
cultural; encontro cultural; e desejo cultural. Para o grupo dos imigrantes
baseámo-nos nas dimensões consciência, padrões de resposta e perceção, do
conceito de transição saúde-doença, apontadas por Meleis (2010). Refletindo
sobre o nosso papel na utilização deste tipo de técnica de pesquisa e sabendo
que poderíamos facilmente influenciar a produção dos dados no terreno, optámos
por calendarizar em primeiro lugar o grupo de discussão dos enfermeiros.
Considerámos que neste a nossa presença seria rapidamente conotada com a
cultura indígena, favorecendo-nos a apropriação da realidade social destes
participantes e a possibilidade de ser posteriormente rentabilizada na condução
do grupo com imigrantes, tal como aponta Flick (2005). Sabendo da necessidade
de que cada sujeito se percebesse na sua cultura em concordância com Purnell
(2011), individualmente e em contexto coletivo, e considerando que nos
interessava conhecer as especificidades dos diferentes tipos de sujeitos
apontados, definimos na perspetiva do mesmo autor e de acordo com a
problemática do estudo uma questão base para cada um dos grupos:
- Grupo dos enfermeiros: Até que ponto se reco-nhecem como construtores
das vossas competências culturais quando cuidam de pessoas imigrantes?
- Grupo dos imigrantes: Até que ponto os enfermeiros vos ajudam nos processos
de transição saúde ' doença?.
Resultados e Discussão
Foi-nos previamente facilitado o acesso ao campo (Flick, 2005), tal como havia
acontecido anteriormente com as respetivas enfermeiras de família dos
imigrantes, com uma captação eficaz destes sujeitos para o momento da discussão
em grupo que visou a validação e saturação dos dados obtidos a partir das
técnicas anteriores.
Baseando-nos nos constructos e dimensões referidas, respetivamente para
enfermeiros e para imigrantes, passámos à discussão dos resultados obtidos com
os dois grupos de participantes, que apresentámos de acordo com as questões de
investigação anteriormente colocadas.
Face à questão como se caracterizam as interações estabelecidas nos contextos
de cuidados entre enfermeiros e imigrantes?, obtivemos:
Nos imigrantes
Os padrões de resposta identificados nos encontros com enfermeiros
Na caracterização destes padrões pelos imigrantes surgiu a comparação face aos
enfermeiros do país de origem, valorizando-se a relação de proximidade com
estes profissionais em Portugal; pela nossa interpretação, esta proximidade é
conotada com a individualização sentida na preparação e decurso dos encontros,
uma vez que os imigrantes reconheceram no papel dos enfermeiros a contribuição
para o seu reequilíbrio e segurança nos processos de transição de saúde-doença.
Surgiu ainda a referência ao tratamento privilegiado de que se sentem alvo nos
encontros culturais com os enfermeiros, exatamente por estarem na condição de
minoria como imigrantes, ao contrário do sentimento de marginalização mais
frequentemente apontado por este tipo de atores, como sugerem outros estudos
(Skott & Lundgren, 2009; Vega, 2010).
Nos enfermeiros
O planeamento e o decurso dos encontros culturais
A necessidade de mais tempo para desenvolver uma relação nas díades de cuidados
assumiu-se, quer em contexto de Unidades de Saúde Familiar, quer em visita
domiciliária aos imigrantes. Identificam a necessidade de serem mais cautelosos
na validação da mensagem transmitida e recebida, implicando mais tempo nas
interações. Surgiram ainda, enfatizadas pelos enfermeiros situações de
constrangimentos nos encontros quando os intérpretes presentes são familiares
dos imigrantes (por vezes os filhos), na linha apontada no estudo de Skott e
Lundgren (2009), identificámos aqui uma sensação de ambivalência dos
enfermeiros na presença de intérpretes (familiares ou não), face à necessidade
de, por um lado, poderem recorrer a alguém que faça a tradução mas, por outro,
a sua presença se poder tornar constrangedora para a pessoa cuidada.
A manifestação de desejo cultural
A identificação da motivação para cuidar de imigrantes para os enfermeiros
deste estudo surgiu associada à ideia de maior desenvolvimento profissional,
referindo que ao saberem cuidar adequadamente de imigrantes, sabem cuidar da
individualidade, em qualquer situação, qualquer pessoa; esta postura, na nossa
perspetiva, é sobreponível à linha de pensamento de Campinha-Bacote (2011)
relativamente às características de flexibilidade e humildade culturais, que a
autora salienta como fundamentais para o desenvolvimento de competências
culturais nos enfermeiros, aprendendo com os outros e olhando-os como
informantes culturais.
Em resposta à questão que dificuldades e mais-valias são identificadas em
contextos multiculturais?, obtivemos:
Nos imigrantes
A consciência face à influência dos enfer-meiros nos seus processos de
saúde-doença
Os imigrantes enfatizaram como mais-valia a ideia de que os enfermeiros nas
unidades de saúde familiar e quando os visitam em casa, lhes transmitem
conhecimentos importantes relativamente à vivência das situações de saúde e de
doença, numa lógica semelhante ao que consideram que ocorre com os cidadãos
portugueses. Evidencia-se uma necessidade de afirmação de pertença e de
simetria relacional que privilegie as universalidades ao invés das diversidades
nos encontros, em consonância com o estudo de Vega (2010). Consideraram existir
situações de persistência de dúvidas no processo de comunicação, nomeadamente
no contexto das consultas de Enfermagem, assumindo de forma pouco explícita o
registo pontual de um contributo insuficiente nas suas transições de saúde-
doença.Contudo, remeteram a análise desta constatação para a necessidade de se
apurarem responsabilidades, que consideraram que deviam ser repartidas por
ambos os atores nas díades de cuidados. Consideramos aqui, que a pouca abertura
dos imigrantes para assumir de forma explícita as suas dificuldades no processo
de comunicação e interação em cuidados se ligou à identificação da nossa
sobreposição de papéis, como investigadora e enfermeira, o que se constituiu
como uma limitação neste momento do estudo.
A perceção dos contributos dos enfermeiros para a sua estabilidade nas
transições vivenciadas
O nível de proximidade nas díades surgiu assumido como uma mais-valia na tomada
de decisão dos imigrantes nos processos de saúde-doença individuais e
familiares. Este aspeto parece evidenciar-se a par das diferenças que registam
e valorizam sobre as competências nos enfermeiros que deles cuidam nos
contextos, face às que recordam destes profissionais nos países de origem. O
uso do humor pelos enfermeiros foi claramente apontado pelos imigrantes como um
elemento facilitador e como sinónimo de segurança nos cuidados aos seus filhos,
contribuindo para a perda de medos dos adultos e das crianças.
Nos enfermeiros
O desenvolvimento da consciência cultural
Para os enfermeiros os encontros com os imigrantes estimulam o levantamento de
questões sobre a forma como olham para dentro de si mesmos, para melhor
compreenderem os outros nos seus projetos individuais de saúde e de vida.
Valorizam a possibilidade de desenvolvimento da capacidade de empatia nestes
encontros por tentarem frequentemente colocar-se no lugar do outro. Apontam
dificuldades na reflexão sobre a sua prática clínica e nos momentos planeados
de discussão em equipa de pares e multidisciplinar. Acreditamos que estas
dificuldades surgem relacionadas com o autoexame e a autoexploração propostos
por Campinha-Bacote (2011) em ordem ao desenvolvimento de competências
culturais nos enfermeiros.
A identificação de áreas de conhecimento cultural
Para os enfermeiros participantes no estudo, cuidar imigrantes estimula a sua
pesquisa sobre o que está na base de comportamentos adotados por estas pessoas.
Enfatizam dificuldades em compreender como os imigrantes enquadram
culturalmente a saúde e a doença. Esta postura está na nossa perspetiva, de
acordo com um dos eixos identificados por Campinha-Bacote (2011), para a
focalização dos cuidados culturalmente competentes, baseados no conhecimento de
crenças de saúde e de valores dos imigrantes. Por outro lado, também surgiu
enfatizado pelos enfermeiros que um dos objetivos quando cuidam de imigrantes é
permitir-lhes o entendimento daquilo que lhes pode ser oferecido pelas
organizações prestadoras de cuidados de saúde. Esta preocupação vai ao encontro
do estudo de Serrano et al. (2011), que enfatiza a importância do
desenvolvimento da competência coletiva entre indivíduos, baseado num ambiente
de aprendizagem entre eles e a organização.
As habilidades culturais utilizadas em situações de interação
A caracterização destas habilidades surgiu associada à promoção da segurança e
à atenção específica. Esta assunção vai ao encontro da manifestação dos
imigrantes no seu grupo de discussão ao referirem que se sentem um foco de
especial atenção por serem imigrantes. Os enfermeiros identificam dificuldades
no planeamento de cuidados individualizados com estas pessoas, na comunicação,
ligadas à barreira da língua e ao enquadramento cultural da mensagem. A
presença de crianças (filhas dos imigrantes emergiu), todavia, como um elemento
facilitador no decurso dos encontros.
Conclusão
Os enfermeiros consciencializam progressivamente nas díades com imigrantes a
sua cultura pessoal, profissional e organizacional, como não sendo a única
matriz possível para uma leitura da realidade nas situações de transição de
saúde-doença destas pessoas. Esta consciencialização abre aos enfermeiros
outras possibilidades de desenvolvimento profissional, no sentido da evolução
de uma visão da realidade baseada no etnocentrismo para uma outra mais
relativa, em que a cultura própria dos profissionais se vai constituindo apenas
como organizadora, entre múltiplas outras possibilidades que vão conseguindo
identificar nas pessoas de quem cuidam. Este processo decorre à medida que as
suas competências culturais se vão construindo.
As interações entre enfermeiros e imigrantes no estudo identificam-se pelas
caraterísticas apresentadas, em resposta à primeira questão de investigação que
colocámos.
No que concerne a dificuldades e mais-valias nos contextos multiculturais
estudados, sobre as quais também nos questionámos, concluímos que a
identificação e pesquisa ativas pelos enfermeiros de áreas deficitárias nos
seus conhecimentos e habilidades para cuidar imigrantes são valorizadas pelos
profissionais para a construção das suas competências culturais. A presença de
crianças (filhas dos imigrantes) surge particularmente identificada como uma
mais-valia para os dois tipos de participantes, apresentando-se como um
elemento facilitador no decurso dos encontros, em ordem à coerência nos
cuidados. Os enfermeiros identificam nesta presença, uma probabilidade
aumentada de interagir mais rápido e mais facilmente com os respetivos pais na
sua prática clínica, emergindo aqui para nós uma importante linha de
investigação. A simetria relacional nas díades, a proximidade e a flexibilidade
nas interações estabelecidas, emergem também com um relevante significado
atribuído pelos atores neste estudo, por vezes associado a fonte de
dificuldades.
Registámos a importância dos dados apresentados na construção das competências
culturais nos enfermeiros bem como na produção da harmonia e de um mais rápido
equilíbrio nas transições de saúde-doença dos imigrantes.
Tendo em conta que a emergência do conhecimento científico confere prioridade à
qualidade na prática clínica multicultural, sugerimos que futuramente se
investigue a perceção dos diferentes profissionais de saúde perante a
necessidade de construir competências culturais para cuidar de imigrantes, numa
equipa multidisciplinar.