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Representação em texto

EuPTCVHe0874-02832014000100018

variedadeEu
ano2014
fonteScielo

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Documento ad usum et beneficium: Revista O Enfermeiro Português - 1929-1930

Introdução Ad usum et beneficium tem como finalidade identificar e divulgar documentos que, pelo seu valor e significado numa época específica, representam um contributo para a história da profissão. Por esta via é possível recuperar obras, completar séries, descobrir edições diferentes, em posse de particulares e que ganham outro valor quando se completa a coleção.

Neste caso, apresentamos uma série de cinco documentos (nºs 1, 2, 3, 4, 5) da Revista O Enfermeiro Português editada pelos Profissionaes de Enfermagem e propaganda do Gremio dos Enfermeiros de Terra e Mar do Norte de Portugal - Associação de classe, biénio de 1929-1930, (Figura_1).

As edições periódicas, pela sua possibilidade de síntese, apresentam-se sempre como meios eficazes de comunicação com as comunidades científicas, os profissionais e os cidadãos. São dos mais diversos tipos em função do papel a que se destinam, e o perfil leitor que desejam atrair.

Um tipo importante de divulgação são as revistas científicas. Atualmente, a sua sobrevivência discute-se no contexto dos processos de avaliação bibliométrica, classificações de impacto e rankings. Neste campo competitivo também se debatem algumas revistas científicas de enfermagem, no sentido de demonstrar a especificidade do seu objeto de estudo, seu valor social e dimensão internacional.

Quando olhamos 80 anos para trás, certamente que a denominada Revista O Enfermeiro Português se propunha, em 1929, um objetivo bem mais modesto e de interesse específico no desenvolvimento da profissão e da dignidade do trabalho dos enfermeiros. Representava, à época, a iniciativa valorosa de uma associação de classe, o Grémio dos Enfermeiros de Terra e Mar do Norte de Portugal. O seu Diretor, Mário Afonso, também Presidente da Associação para o biénio 1929-1930, anuncia a urgência de gerar um amplo debate nacional, sobre o valor social da profissão, a regulação da formação teórica e prática e, sobretudo, a clarificação de papel na ação interprofissional, apelando ao justo merecimento por parte da classe médica e à determinação legal que permita distinguir a ação de curandeiros de profissionais formados em escolas oficialmente reconhecidas.

De uma forma muito abreviada, sem pretensão de recensão profunda, apresentam-se as cinco revistas O Enfermeiro Português publicadas de outubro de 1929 a setembro de 1930. Os quatro primeiros números mantiveram a periodicidade, bem como a responsabilidade de Administração e Direção. A obra à época representava um grande desafio, aparentemente difícil de sustentar, não pelas polémicas de divisão da classe mas também, pelas querelas interprofissionais e sobretudo porque todas as grandes obras nem sempre são fáceis de sustentar, a não ser à custa de muito empenho e generosidade de poucos.

A corajosa direção deste periódico propunha-se tratar de forma contínua e persistente as grandes questões que desviavam a classe do seu verdadeiro desígnio e missão, e gerar um movimento transformador capaz de congregar as boas vontades de todas as Associações de classe e todos os enfermeiros a nível nacional.

Fica-nos a curiosidade inquietante do porquê deste grito de revolta dos enfermeiros contra tantas assimetrias na formação e no desempenho profissional, nesta data, sobretudo porque, anos antes, em 1920, as Escolas de Enfermagem, como é o caso da Escola dos Hospitais da Universidade de Coimbra, tinham um regulamento aprovado e cursos gerais de enfermagem criados, de dois anos, e um curso complementar de mais um ano.

Não sabemos por quanto tempo sobreviveu esta Revista tão desejada e que nasceu num momento de grande angústia profissional, cheia de fulgor e esperança para gerar um debate de defesa da profissão. Verificámos que o 5 teve um intervalo de edição maior, reaparecendo apenas oito meses depois, devido a problemas administrativos (não sabemos de que natureza). Passa a apresentar nova Administração, Direção, Sede de redação e Local de impressão. A Direção, na primeira página do número 5, pede a benevolência dos seus assinantes e anunciantes porque, para manter a tiragem permanente sem receio de nova suspensão, precisou de reduzir o número de páginas.

Estes documentos preciosos foram oferecidos pela Professora Doutora Alda Mourão filha do Ilustre Enfermeiro Alberto da Silva Mourão, figura destacada da enfermagem portuguesa, que exerceu nos HUC as funções de Supervisor e Diretor de Enfermagem.

O Enfermeiro Português Revista dos Profissionaes de Enfermagem e propaganda do Gremio dos Enfermeiros de Terra e Mar do Norte de Portugal - Associação de classe (biénio de 1929- 1930) NÚMEROS publicados entre 31 de outubro de 1929 e 15 de setembro de 1930 Ano I ' 1 (Figura_2), Porto, 31 de Outubro de 1929, preço ' 1$00 (1 escudo) Revista quinzenal dos Profissionaes de Enfermagem e propaganda do Gremio dos Enfermeiros de Terra e Mar do Norte de Portugal - Associação de classe (biénio de 1929-1930) Administrador: Gaspar Gradim Secretariado de redacção: Custódio Tavares Director: Mario Afonso Redactor: Oscar Sant'Ana Comp. e imp. Na Tipografia Gonçalves; Porto Redacção e administração: R. dos Caldeireiros, 144-2º - Porto Estrutura: 16 páginas (24x33), maquetizadas a 3 colunas.

Ano I ' 2 (Figura_3), Porto, 15 de Novembro de 1929, preço ' 1$00 (1 escudo) Revista bi-mensal dos Profissionaes de Enfermagem e propaganda do Gremio dos Enfermeiros de Terra e Mar do Norte de Portugal - Associação de classe (biénio de 1929-1930) Administrador: Gaspar Gradim Secretario de redação: Custodio Tavares Director: Mario Afonso Redactor: Oscar Sant'Ana Comp. e imp. Na Tipografia Gonçalves, Porto Redacção e administração: R. dos Caldeireiros, 144-2º - Porto (PORTUGAL) Estrutura: 16 páginas (24x33), maquetizadas a 3 colunas.

Ano I ' 3 (Figura_4), Porto, 30 de Novembro de 1929, preço ' 1$00 (1 escudo) Revista bi-mensal dos Profissionaes de Enfermagem e propaganda do Gremio dos Enfermeiros de Terra e Mar do Norte de Portugal - Associação de classe (biénio de 1929-1930) Administrador: Gaspar Gradim Secretario de redacção: Custodio Tavares Director: Mario Afonso Redactor: Oscar Sant'Ana Comp. e imp. Na Tipografia Gonçalves, Porto Redacção e administração: R. dos Caldeireiros, 144-2º - Porto (PORTUGAL) Estrutura: 16 páginas (24x33), maquetizadas a 3 colunas.

Ano I ' 4 (Figura_5), Porto, 31 de Dezembro de 1929, preço ' 1$00 (1 escudo) Revista bi-mensal dos Profissionaes de Enfermagem e propaganda do Gremio dos Enfermeiros de Terra e Mar do Norte de Portugal - Associação de classe (biénio de 1929-1930) Administrador: Gaspar Gradim Secretario de redacção: Custodio Tavares Director: Mario Afonso Redactor: Oscar Sant'Ana Comp. e imp. Na Tipografia Gonçalves, Porto Redacção e administração: R. dos Caldeireiros, 144-2º - Porto (PORTUGAL) Estrutura: 14 páginas (24x33), maquetizadas a 3 colunas.

Ano II ' 5 (Figura_6), Porto, 15 de Setembro de 1930, preço ' 1$00 (1 escudo) Revista bi-mensal de Defesa dos Profissionaes de Enfermagem Administrador: Tomaz Batalha Directores: Custodio Tavares e Mário Afonso (Editor) Comp. e imp. Na Tip. de Julio Batalha Redação e administração: Rua das Flores, 291-2º - Porto Estrutura: 8 páginas (24x33), maquetizadas a 3 colunas.

Categorias de assuntos PROBLEMÁTICA CENTRAL: quase sempre as questões de classe e a dignidade profissional. Uma secção de higiene e profilaxia pela Liga Portuguesa de Profilaxia Social, denominada CATECISMO DE PUERICULTURA, que deixou de ser publicado no número 5, visado pela censura.

TEXTOS DE OPINIÃO DIVERSOS: relativos à situação motivacional dos enfermeiros, às injustiças relativas ao reconhecimento do valor do exercício; à falta de rigor e de harmonização dos programas de formação; à crise moral e de valores; aos curandeiros e outros disfarçados de enfermeiros que em nada ajudam a dignificar a classe; os apelos à organização de um congresso de enfermagem; respostas a comentadores de outras revistas, etc ANÚNCIOS: cerca de 50 recortes de publicidade distribuídos ao longo de toda a Revista. Os diferentes anúncios pretendem servir os utilizadores em diversas necessidades desde entero-lubrificadores para prisão de ventre; fosfiodoglicina como alternativa ao óleo de fígado de bacalhau para facilitar o crescimento; Ambrinol para cura da coqueluche; Licor de energeina poderoso tónico reconstituinte; antiasmático pinheiro; Alcalinase para o estômago; Depuratol, depurativo para cura da sífilis, cujos sintomas se manifestam com o cair da folha ; Thalassan para enjoo marítimo; Peitoral de agrião para tosse bronquites e infeções respiratórias, raquitismo e escrofulose e muitos outros Síntese de algumas questões centrais que são recorrentes ao longo das principais páginas dos cinco números editados O Enfermeiro Português propunha-se a uma árdua tarefa: manter uma edição regular e, de forma aberta, acolher as participações dos enfermeiros portugueses para um debate sobre as questões que ameaçavam à época a credibilidade da profissão e exigiam uma organização de classe urgente.

Reconhecia-se que o congresso de enfermagem terá sido um momento importante e impunha-se a realização do congresso, onde com frontalidade se debatessem as condições difíceis de trabalho e os desânimos em que trabalhavam muitos enfermeiros, entregues a dirigentes incompetentes. São questões preocupantes, as inarmonias dos currículos de formação dos enfermeiros, a mistura de profissionais mal preparados, sem habilitações que estavam a dar uma imagem negativa da classe e permitiam que outros se aproveitassem para crítica acérrima e injusta para queles que fizeram os seus cursos.

A direção, ao lançar a edição periódica que denominaram por Revista de Defesa dos Profissionaes de Enfermagem, começou por saudar a prestimosa classe médica, as associações clínicas e de enfermagem e todos os enfermeiros de Portugal.

Enfatizou que a Revista é o produto de esforço e boa vontade de reduzidos elementos, sem qualquer tipo de auxílios, completamente despida de preconceitos e proselitismo. Apresenta-se a público como lema da defesa das prerrogativas da classe e pugnar pelos interesses coletivos que se apresentam no decorrer da sua carreira. Salientou que o enfermeiro português combateria acerrimamente os curandeiros, curiosos, charlatães e todos aqueles que de algum modo prejudicassem os interesses da enfermagem.

As questões de estatuto e papel A organização de classe como tema central da Revista e que se prolonga ao longo das cinco publicações interseta-se com frequência com as questões de estatuto e papel. No primeiro número da Revista, é citada a polémica relativa a um título denominado o exercício ilegal da medicina, publicado pela Revista "Medicina Contemporânea" nos seus números 19 de 9-5-1926 e 49 de 5- 12-1926 (dois artigos). Um ilustrado lente da Universidade de Coimbra apresenta, nestes dois artigos, as conclusões a que chegou na conferência realizada por ocasião dos "dias médicos" de Coimbra. As palavras do lente mereceram a crítica sensata, particularmente pelo desgosto que as suas afirmações vieram a causar na classe de enfermagem. As palavras do lente referiam: exercem ilegalmente a medicina aqueles que não possuam quaisquer exames de cursos que habilitem para o exercício legal da medicina ' farmacêuticos, droguistas, herbanários, enfermeiros, ortopedistas, eletricistas, ferradores, padres, religiosas, bruxas, feiticeiras, mulheres de virtude, meninos virtuosos, etc mas também parteiras fora das suas atribuições, dentistas não médicos, estudantes de medicina etc (A Liga Portuguesa de Profilaxia Social e a sua obra: Uma entrevista que não pareceu, mas foi, 1929, p. 6).

De acordo com o autor, era ofensivo: misturar numa mélange heterogénea, os enfermeiros, com curandeiros, bruxas, ferradores etc o enfermeiro português não é actualmente aquele indivíduo boçal, aparvalhado, laparoto, que dezenas de anos para traz descia da sua aldeia e vinha para a cidade servir nos hospitais como criado e fazer-se á sua custa sem cultura, sem instrução, sem conhecimentos. O enfº hoje é inteligente, instruído, cultivou-se despiu-se da ignorância e sabe até onde deve ir, não deixando que o espezinhem .o enfermeiro é o único diplomado que de um modo geral faz o estudo da anatomia e fisiologia humana e todos os ramos inerentes à saúde pública além dos Exmºs médicos, são os enfermeiros torna-se necessário dignificar a classe e que os médicos eles próprios a protejam e velem sua defesa reconhecendo no enfermeiro o homem que os substitui quasi sempre e aquele que é o seu principal colaborador apagado, nos seus triunfos profissionais (A Liga Portuguesa de Profilaxia Social e a sua obra: Uma entrevista que não pareceu, mas foi, 1929, p. 6).

São várias manifestações de júbilo pela saída do número da Revista, esperada como um farol e força de expressão para apelo à luta pela nobreza da profissão, combatendo acerrimamente curandeiros, curiosos, charlatães Os problemas inerentes à organização e identidade da classe Na página principal do número 2, refere-se que até finais de 1928 existia nos pais quatro agremiações de enfermeiros, comportando um determinado número de associados, representando esta ou aquela fação de classe. Na opinião do autor, o seu trabalho mais relevante foi a preparação do congresso de enfermagem realizado em Lisboa, organizado pelas associações do sul. No interesse da enfermagem nacional, interpretando o sentir de todos, apela-se à realização do congresso de enfermagem. A enfermagem é uma força respeitável, calcula-se em 4000 o número de enfermeiros, em Portugal, ilhas e colónias, englobando civis exercício e armada (A necessidade da organização profissional, 1929, p.

2). Na altura, eram associações de classe: A Associação de Classe dos Enfermeiros e Pessoal dos Hospitais Civis Portugueses; A Associação de Classe dos Enfermeiros e Enfermeiras da Zona Sul; A Associação de Classe dos Enfermeiros de Ambos os Sexos do Porto; A Associação Escolar dos Alunos da Escola Profissional de Enfermagem de lisboa e Grémio dos Enfermeiros da Terra e Mar do Norte de Portugal (A necessidade da organização profissional, 1929, p.

6).

A tónica numa moral social negativa que dificulta a união No último número, observa-se mais uma vez a tónica no esforço que é necessário para desfazer a impressão pessimista que alguns nutrem contra os enfermeiros.

Os diferentes autores referem-se sistematicamente ao descalabro moral em que a sociedade estava vivendo, de tal modo que o conceito de união ganha o sentido de utopia. É apresentado um cenário pessimista (mentes atrofiadas por crise moral e ânimos exaltados e confusos).

Como um grande cataclismo que assolou o mundo inteiro, dando guarida às mais desenfreadas calamidades em que a ganancia obliterou quase por completo o carácter de toda a gente e a tranquilidade desapareceu de todos os lares os enfermeiros sofrem particularmente quando a enfermagem fica entregue a pessoas incompetentes, analfabetas quase, ignorantes dos mais pequenos preceitos de terapêutica, profilaxia e até higiene, usurpando as funções próprias da classe. (Curandeiros?, 1930, p. 2).

Apela-se energeticamente ao combate da falta de organização profissional, tristeza e monotonia dos enfermeiros, retomando o legítimo direito de profissão relevante e digna.

Reconhecimento legal dos diplomas de enfermagem A questão do ensino profissional De acordo com Mário Afonso, existiam no país escolas de enfermeiros civis, militares, com programas complexos mas diferentes, nas quais o ensino técnico era difundido duma forma inarmónica, em que aprendem umas luzes enquanto outros aprofundam conhecimentos de anatomia e fisiologia. O autor propõe um programa em pormenor, para o curso de enfermagem, as Escolas bem regidas e entregues nas mãos de lentes conhecedores dos deveres do enfermeiro, facilitadoras do ensino prático, e rigorosos critérios de seleção dos candidatos à profissão.

Conclusão A revista O Enfermeiro Português nasce numa época de grande inquietação social e profissional, com a vontade de semear a esperança no corpo disperso e desanimado dos enfermeiros portugueses. Como um grito de apelo, soa alto, levanta a candeia que pode ajudar a iluminar o caminho e gera uma avenida de esperança. Mas naturalmente que nem todos ouvem os gritos de chamada nem enxergam o significado das obras criadas com esforço, pelo menos para as reconhecer e apoiar. Fica-nos a curiosidade de saber se essa nobre Revista teve continuadores, quantos números mais foram editados ou com que periodicidade. O tema da incerteza e desmotivação que percorria a sociedade e profissão na altura faz-nos refletir sobre a incerteza de hoje em pleno século XXI, mais de 80 anos depois. Também hoje, duvidamos da capacidade de união em torno de objetivos claros que nos projetem para o futuro viável e sem dispersão, tememos algum descrédito e desvalorização queimando etapas que considerávamos consolidadas. Vivemos também agora uma séria crise que não é apenas económica e somos confrontados com níveis de incerteza e imprevisibilidade que quase paralisam a iniciativa e a vontade de agir. A história é efetivamente uma ciência que poucos dão atenção aos seus sinais. O mais importante da aprendizagem dos Homens é que na vida nada está determinado, como cita António Correia de Oliveira, no título do 1 da Revista O Enfermeiro Português, Catecismo de Puericultura: De mau grão nunca bom pão Conforme: sempre maneira De apurar a farinha, Passando-a em boa peneira (Dizeres do Povo) Ficamos gratos a Alberto da Silva Mourão que guardou cuidadosamente estes exemplares que agora nos foram oferecidos pela sua filha Alda Mourão. Se alguém tem conhecimento ou tem em sua posse outros números desta Revista que eventualmente tenham sido publicados, por simpatia comuniquem connosco, porque estes sacrifícios de homens para criar ideais de esperança, continuam vivos na história das suas profissões.


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