Perceção da qualidade de vida de um grupo de idosos
Introdução
O envelhecimento da população em Portugal é hoje uma realidade, tal como em
outras sociedades, o que vai refletir-se sobre múltiplos domínios da sociedade,
sobretudo a longo prazo, nas gerações ativas futuras e na dinâmica do mercado
de trabalho. Assim, um dos grandes desafios do século XXI consiste na reflexão
sobre questões como a idade da reforma, os meios de subsistência, a qualidade
de vida, o seu próprio estatuto na sociedade e, em termos da cidadania, a
solidariedade intergeracional, bem como a sustentabilidade do sistema de
segurança social, da saúde e do modelo social vigente (Nunes, 2005).
Os idosos formam um núcleo da população relevante, tornando-se uma exigência da
vida atual o seu estudo, e mais concretamente, o estudo da sua qualidade de
vida.
A qualidade de vida foi definida em 1994, pelo grupo da Qualidade de Vida da
World Health Organization, como uma perceção individual da posição na vida, no
contexto do sistema cultural e de valores em que as pessoas vivem, estando esta
relacionada com os seus objetivos, expectativas, normas e preocupações (World
Health Organization, 2001).
O conceito de qualidade de vida pode ser interpretado de diferentes formas,
contudo pode afirmar-se que há consenso relativamente ao seu caráter histórico
e dinâmico, à sua multidimensionalidade e à sua natureza subjetiva.
O estudo da qualidade de vida no grupo etário dos idosos é recente, no entanto,
face ao acentuado envelhecimento populacional, a manutenção da qualidade de
vida do idoso adquiriu um significado especial.
Neste sentido, e tendo em conta o acentuado envelhecimento da Região Centro, o
presente trabalho teve como objetivo conhecer a perceção que o idoso tem da sua
qualidade de vida.
Fundamentação Teórica
Atualmente existem cerca de 600 milhões de pessoas idosas no mundo, prevendo-se
que em 25 anos o número de idosos duplique, cifrando-se, no ano de 2025, em 1
bilião e 200 milhões e no ano de 2050 em cerca de 2 biliões (Fernández-
Ballesteros, 2009).
À semelhança do que está a acontecer a nível mundial e europeu, Portugal
apresenta o mesmo cenário, denotando um continuado envelhecimento demográfico.
Os resultados dos Censos 2011 apontam para uma proporção de cerca de 19% da
população com 65 ou mais anos de idade. A região Centro, logo a seguir à região
do Alentejo, é das mais envelhecidas de Portugal, representando os indivíduos,
de 65 ou mais anos, 22,5 % da população (Instituto Nacional de Estatística,
2012).
O conceito de qualidade de vida está a ser utilizado a nível mundial como: uma
noção sensibilizadora que nos oferece referência e guia desde a perspetiva
individual, centrada nas dimensões nucleares de uma vida de qualidade; um
conceito social que proporciona um modelo para avaliar as dimensões principais
da qualidade de vida; um tema unificador que proporciona uma estrutura
sistemática para aplicar políticas e práticas orientadas para a qualidade de
vida (Schalock & Verdugo, 2003).
O conceito de qualidade de vida apresentado pela World Health Organization
(2001) remete-nos para o estudo da qualidade de vida segundo diferentes
aspetos. É um conceito amplo e subjetivo que inclui de forma complexa a saúde
física da pessoa, o seu estado psicológico, o nível de independência, as
relações sociais, as crenças e convicções pessoais e a sua relação com os
aspetos importantes do meio ambiente.
A qualidade de vida é um conceito que reflete as condições de vida desejadas
por uma pessoa, relativamente à sua vida em casa, na comunidade e no trabalho
(ou na escola, no caso das crianças), e as condições de saúde e bem-estar.
Assim, verifica-se que a qualidade de vida é um fenómeno subjetivo baseado na
perceção que uma pessoa tem de vários aspetos das experiências da sua vida.
Inicialmente a qualidade de vida era avaliada por um observador, habitualmente
um profissional de saúde. Com o decorrer do tempo, verificou-se que só pode ser
avaliada pela própria pessoa, o que levou ao desenvolvimento de métodos e
instrumentos de avaliação que tenham em conta a perspetiva individual, e não a
visão de cientistas e de profissionais de saúde (Leplège & Rude, Slevin et
al., citados por Seidl & Zannon, 2004). Os mesmos autores apontam ainda
outro aspeto relevante no conceito de qualidade de vida, além da subjetividade,
a multidimensionalidade. Este refere-se ao reconhecimento de que o conceito é
composto por diferentes dimensões, cuja identificação tem sido objeto de
pesquisa científica em estudos empíricos, utilizando metodologias qualitativas
e quantitativas.
O estudo da qualidade de vida do idoso é recente, no entanto, face ao acentuado
envelhecimento populacional, a manutenção da qualidade de vida neste grupo
etário adquiriu um significado especial.
Schalock e Verdugo (2003) são da opinião que a qualidade de vida depende de
diversos fatores ambientais e pessoais que influenciam o comportamento dos
indivíduos. Relativamente aos idosos, esta é analisada utilizando alguns
indicadores, incluindo a saúde, capacidades funcionais (capacidade para se auto
cuidar), situação financeira (ter uma pensão ou rendimentos), relações sociais
(família e amigos), atividade física, serviços de saúde e sociais, comodidades
na própria casa (e na envolvente próxima), satisfação com a vida e
oportunidades de aprendizagem e culturais.
As experiências de ócio ou lazer têm-se revelado também como um importante
fator de qualidade de vida e um recurso de primeira magnitude para estimular o
desenvolvimento ao longo da vida, assumindo uma função terapêutica em
determinadas situações. O ócio traz inúmeros benefícios ao melhorar
determinadas situações e ao proporcionar ganhos a nível pessoal, do grupo ou da
sociedade, assumindo especial relevância nos idosos, já que os mesmos têm muito
mais tempo livre (Driver, Brown, & Peterson, Veja & Bueno citados por
Martínez Rodríguez & Gómez Marroquín, 2005).
Por outro lado, o abuso e os maus tratos influenciam, de forma negativa, a
qualidade de vida do idoso. Não são um problema exclusivo da sociedade atual,
pois os mesmos remontam à antiguidade. O que acontecia é que eram considerados
uma questão privada e oculta ao público, o que, de certo modo, se tem vindo a
alterar ao longo dos tempos (Touza Garma, 2009). No entanto, apesar dessa
alteração, continua a ser muito difícil quantificar a verdadeira magnitude do
problema, uma vez que, em muitos casos, os maus tratos apenas se tornam
públicos em situações extremas (Casas Aznar & Aymerich Andreu, 2005).
Em Portugal, registaram-se, no ano de 2011, 749 casos de pessoas idosas vítimas
de crime e de violência, verificando-se um aumento de 23% comparativamente ao
ano anterior (Associação Portuguesa de Apoio à Vitima, 2011).
Nas sociedades ocidentais, os maus tratos assumem-se, nos dias de hoje, como
problemas relevantes, não só no aspeto do bem-estar social, mas também a nível
da saúde pública e da legalidade, o que tem produzido mudanças na forma como os
mesmos são tratados pelos diferentes governos e pelas autoridades responsáveis
(Touza Garma, 2009).
Os maus tratos a idosos podem consistir tanto em ações, como omissão de ações,
o que é evidenciado nos conceitos de diversos autores, salientando-se aqui o
conceito da Organização Mundial de Saúde (citada por Touza Garma, 2009, p. 22):
ação única ou repetida, ou a falta de resposta apropriada, que ocorre dentro
de qualquer relação onde exista uma expetativa de confiança e a qual produza
dano ou angústia a uma pessoa idosa. Pode ser de vários tipos: físico,
psicológico/emocional, sexual, financeiro ou simplesmente refletir um ato de
negligência intencional ou por omissão.
A abordagem da qualidade de vida do idoso, à semelhança do conceito de
qualidade de vida no geral, não reúne consenso. Contudo, e na opinião de
diversos autores, pode dizer-se que as diferentes conceções de qualidade de
vida no idoso se caracterizam por um aspeto relevante, a sua
multidimensionalidade. Esta tem em conta, não apenas o funcionamento físico,
energia e vitalidade pessoal, mas também o bem-estar psicológico e emocional, a
ausência de problemas de comportamento, o funcionamento social e o sexual, os
apoios recebidos e percebidos, a par da satisfação com a vida e a perceção do
estado de saúde (Schalock & Verdugo, 2003). Do mesmo modo, os fatores que
influenciam a qualidade de vida do idoso são estudados, quer
internacionalmente, quer a nível nacional, visando identificar o significado de
uma boa qualidade de vida nesta fase do ciclo vital.
Alguns estudos qualitativos sobre o conceito de qualidade de vida (Fleck et
al., Bowling et al., Isang et al. citados por Vecchia, Ruiz, Bocchi, &
Corrente, 2005) revelaram que os idosos valorizam: o bom relacionamento com a
família, com os amigos e a participação em organizações sociais; a saúde; os
hábitos saudáveis; o bem-estar, alegria e amor; uma situação financeira
estável; o trabalho; a espiritualidade; o voluntariado e o aprender mais. O
estudo qualitativo de Vecchia et al. (2005) revelou que um grupo de idosos dá
prioridade à questão afetiva e à família; outro grupo dá maior importância ao
prazer e ao conforto e um terceiro grupo em que o idoso identifica a qualidade
de vida com o conseguir pôr em prática o seu ideal de vida.
Tendo em conta a subjetividade do conceito, acredita-se que, conhecendo o
significado que o mesmo tem para o idoso, pode desenvolver-se uma ação mais
eficaz, através da aplicação de medidas concretas e exequíveis que visem
melhorar essa qualidade vida.
Neste sentido, pensa-se ser muito importante abordar esta temática, surgindo
como ponto de partida para esta investigação, a seguinte questão: Qual a
perceção que os idosos têm da sua qualidade de vida?
Metodologia
O estudo é exploratório-descritivo, transversal e de natureza qualitativa. Para
a recolha de dados recorreu-se à entrevista semiestruturada, tendo-se utilizado
como critério de exclusão: idosos com defeito cognitivo, avaliado através do
Mini Exame do Estado Mental. Decorreu nos meses de maio, junho e julho de 2010
num Centro de Saúde da Região Centro. A amostra, constituída por 48 idosos (dos
quais 24 homens e 24 mulheres), foi obtida mediante o processo de saturação de
informação dos discursos, ou seja, quando os dados obtidos dos informantes
começam a ser similares, sem trazer informação nova. A média de idade cifrou-se
nos 74,79 anos e o desvio padrão nos 6,98 anos, variando a idade entre os 65 e
os 91 anos. Trinta idosos eram casados, 14 eram viúvos, 3 eram solteiros e 1
era divorciado.
De forma a realizar este trabalho, foram efetuadas diligências junto do
Presidente do Conselho de Administração, do Diretor e do Enfermeiro Chefe do
Centro de Saúde para, em primeiro lugar, obter os dados acerca dos idosos
inscritos e, posteriormente, para obter autorização para a realização das
entrevistas. Estas foram realizadas no Centro de Saúde e, em alguns casos, no
domicílio do idoso. Antes de iniciar cada entrevista era dada uma explicação
acerca dos objetivos do estudo, garantindo a cada idoso o anonimato das mesmas
e a não utilização das informações obtidas para qualquer outro fim ou por
outras pessoas. Para a análise dos dados optou-se pelo método de análise de
conteúdo e, para isso, foi utilizado o programa de análise de dados
qualitativos Non-Numerical Data Indexing Searching and Theorizing (NUDIST 6),
no qual se incluiu o sistema de categorias elaborado para o efeito. As
categorias foram construídas à posteriori, não deixando, contudo, de ter em
conta a bibliografia consultada. Após a leitura do corpus e tendo em conta a
multidimensionalidade do conceito de Qualidade de vida e os indicadores de
qualidade de vida da Organização Mundial de Saúde e de alguns estudiosos desta
matéria (Fernández-Ballesteros, 2009; Schalock & Verdugo, 2003) ressaltaram
seis categorias, nomeadamente: bem-estar pessoal, condições económicas,
ocupação, relações interpessoais, independência/autonomia e apoio formal.
A análise de conteúdo realizou-se com base em 48 narrativas, utilizando como
unidade de análise a linha textual, ou seja, analisaram-se um total de 376
linhas distribuídas nessas narrativas. Assim, na interpretação dos dados, as
percentagens calcularam-se tendo em conta as unidades de linha.
Resultados e discussão
Ao serem analisadas as respostas dos 48 idosos entrevistados, verificou-se que
ocuparam maior espaço textual na categoria bem-estar pessoal (52%), seguida
da ocupação com 40%, das relações interpessoais com 33% e das condições
económicas com 24%. As outras categorias ocuparam 12,1%.
Bem-estar pessoal
O bem-estar é uma das dimensões da qualidade de vida largamente referenciada na
literatura ao longo dos tempos (Flanigan, Felce e Shalock citados por Schalock
& Verdugo, 2003).
Neste estudo, incluiu-se na categoria bem-estar pessoal: As alusões a
generalidades sobre a saúde, sem especificar nem considerar fatores concretos,
físicos e psíquicos. Recolhem-se também nesta categoria referências mais
concretas a estados de mal-estar como doenças, mazelas, sentimentos negativos e
as referências a situações e sentimentos de bem-estar.
Os idosos, ao serem questionados acerca do conceito de qualidade de vida,
enfatizam a saúde, referindo expressões como: Ter saúde, acima de tudo, é o
principal para ter qualidade de vida, o resto vem por acréscimo (homem, 65
anos, casado); Ter saúde é o principal de tudo, uma boa saúde, não fumar nem
beber (homem, 66 anos, divorciado); Primeiro, é ter saúde (mulher, 91
anos, casada); Ter boas condições físicas e psicológicas Ter saúde (homem,
65 anos, casado).
Schalock e Verdugo (2003) são de opinião que a qualidade de vida depende de
diversos fatores ambientais e pessoais que influenciam o comportamento dos
indivíduos. Relativamente aos idosos, a literatura aponta vários indicadores
para avaliar a qualidade de vida, onde se incluiu a saúde, o que vem de
encontro às respostas obtidas neste estudo.
É habitual as pessoas idosas apresentarem uma saúde mais frágil, com doenças e
perdas de diversos tipos, associadas ao envelhecimento. O estado de saúde é um
elemento importante já que influencia outros componentes da qualidade de vida
dos idosos. Quando se verifica uma deterioração da saúde, a perceção da
qualidade de vida da pessoa idosa é negativa. Também Lebrão (citado por Pereira
et al., 2006) considera que a avaliação do estado de saúde está diretamente
relacionada com a qualidade de vida. Os resultados do estudo de Castellón e
Romero (2004) sobre auto perceção da qualidade de vida reforçam esta ideia ao
revelar que a saúde é a principal preocupação dos idosos, o que também ocorre
nos estudos de Rubio, Alexandre e Cabezas (como citados por Casas Aznar &
Aymerich Andreu, 2005).
A saúde é assim um dos aspetos largamente enfatizados quando se aborda a
qualidade de vida, particularmente para os idosos.
Por outro lado, ao falar de bem-estar pessoal, os idosos fazem também
referência às doenças, como algo que prejudica a sua qualidade de vida, como
pode ler-se: As doenças acabam por prejudicar a qualidade de vida (homem,
65 anos, casado; . O estado de saúde por vezes interfere de forma negativa na
qualidade de vida (mulher, 71 anos, casada).
Nesta categoria estão, também, presentes sentimentos negativos que podem
prejudicar a qualidade de vida, como pode ler-se nas seguintes expressões: Sei
lá nem quero falar nada interfere de forma positiva na minha qualidade de
vida solidão, tristeza é o que tem prejudicado mais a minha qualidade de
vida. (homem, 79 anos, casado); Nunca soube o que era qualidade de vida, toda
a vida fui amargurada com sofrimento nunca fui criada com amor, trabalhei
desde nova, era mal tratada. Não tenho nada que beneficie a minha qualidade de
vida (mulher, 65 anos, viúva).
Os idosos estão sujeitos a uma situação de perdas contínuas, o que os poderá
levar, tal como evidenciam nas suas respostas, a sentimentos de solidão e
tristeza que podem ser considerados fatores predisponentes à depressão, sendo
esta considerada como um dos problemas psicológicos mais comuns no idoso.
Salienta-se ainda o facto de alguns idosos fazerem referência aos maus tratos
como algo que prejudica a sua qualidade de vida. Touza Garma (2009) são de
opinião que, independentemente do tipo de abuso, este conduz sempre a um
sofrimento desnecessário, à violação dos direitos humanos e a uma redução da
qualidade de vida dos idosos, o que é claramente assumido em algumas das
respostas obtidas neste estudo os maus tratos da minha filha prejudicam
muito a minha qualidade de vida (mulher, 65 anos, viúva). Os maus tratos podem
ocorrer na comunidade, nas instituições ou dentro da própria família, como
evidencia a resposta anterior. Esta problemática tem despertado interesse a
diversos níveis, continuando ainda muitos casos de maus tratos por
diagnosticar, o que requer que todos estejam sensibilizados, quer para a
prevenção, quer para a denúncia/resolução dos casos identificados.
Em contrapartida, os idosos fazem alusões a sentimentos de bem-estar (paz,
harmonia, felicidade, satisfação) que também aparecem na literatura como
sinónimos/favorecedores da qualidade de vida: ter paz, viver satisfeito e em
harmonia com a vida (homem, 65 anos, casado); É a gente sentir-se bem, sem
problemas. Espero ter qualidade de vida até morrer. A gente sentir-se bem
connosco próprios e pouco mais (homem, 72 anos, casado); É estar
satisfeito com a vida, viver em harmonia o crer, o acreditar, o fazer bem,
gosto muito de ajudar, sinto-me feliz a fazê-lo (homem, 84 anos, casado);
Ter amor, paz (mulher, 76 anos, viúva); é ser feliz (mulher, 85 anos,
solteira).
Ocupação
O ócio, o trabalho e o voluntariado são indicadores de qualidade de vida
apontados na literatura por autores como Schalock e Verdugo (2003) e que se
evidenciaram neste estudo. Neste sentido, os mesmos foram incluídos na
categoria ocupação, a qual foi definida como o conjunto de atividades de
ocupação do tempo que realizam ou que gostariam de realizar os entrevistados
(as), tendo em conta que a não realização dessas atividades desejadas se
repercute negativamente na sua qualidade de vida. Também se incluem aqui as
alusões ao trabalho e as alusões ao desejo de não estar ocupado em nada.
Esta categoria reflete a forma como os idosos ocupam o seu tempo, como pode
ler-se na seguinte expressão: Faço tudo o que quero: visito a família, trato
da horta, passeio... (mulher, 81 anos, viúva).
As experiências de ócio têm-se revelado um importante fator de qualidade de
vida e um recurso de primeira magnitude para estimular o desenvolvimento ao
longo da vida (Martínez Rodríguez & Gómez Marroquín, 2005). Os idosos em
estudo manifestam, nesta categoria, quais os seus interesses e o que ainda
gostariam de fazer, como mostram as seguintes afirmações: Gostaria de Jogar
ténis de mesa, correr, . (homem, 69 anos, casado); Gostava de passear,
fazer viagens, ir passar fins de semana aos hotéis. (mulher, 83 anos, casada);
fazer excursões, passear, fazer ginástica, tratar das plantas. Era o que
fazia Gostaria muito de viajar (mulher, 74 anos, viúva); Gostaria de
dançar (homem, 70 anos, casado).
Tendo os idosos mais tempo livre, o ócio assume particular importância neste
grupo etário (Veja & Bueno citados por Martínez Rodríguez & Gómez
Marroquín, 2005), como mostraram as afirmações anteriores. Ao afirmarem que
gostariam de estar ocupados em atividades de ócio, conclui-se que os idosos em
estudo consideram esta variável preponderante para uma melhor qualidade de
vida, pois o ócio traz inúmeros benefícios ao melhorar determinadas situações e
ao proporcionar ganhos a nível pessoal, do grupo ou da sociedade (Driver,
Brown, & Peterson citados por Martínez Rodríguez & Gómez Marroquín,
2005). Trata-se de um recurso que traz muitos benefícios ao idoso, como por
exemplo: maior capacidade de alerta a nível intelectual; aumento do bem-estar
psicológico e menores índices de depressão; função protetora face à demência;
gera uma reserva cognitiva, entre outros.
Neste sentido, é conveniente reforçar qualquer atividade, livremente escolhida
pelo idoso, como atividade de ócio (Martínez Rodríguez & Gómez Marroquín,
2005).
Não obstante, além do ócio, verifica-se também que o trabalho é algo que tem
muito valor para os idosos e que é sinónimo, para alguns, de qualidade de vida.
Diversos idosos manifestam o desejo de continuar e/ou voltar a trabalhar, como
pode ler-se nas seguintes expressões: Qualidade de vida é poder trabalhar
(mulher, 78 anos, viúva); Gostava de trabalhar na minha atividade
profissional. (homem, 84 anos, casado); Gostava de ensinar novamente sobre
mecânica (homem, 65 anos, casado); É andar a trabalhar na horta...Trabalhar
na agricultura. (mulher, 81 anos, casada).
De facto, o trabalho é algo de muito marcante para esta geração, uma vez que
grande parte destas pessoas dedicou toda a sua vida adulta a trabalhar, o que
lhes permitiu ter uma vida digna, quer a nível económico, quer no que diz
respeito à realização pessoal, autoconceito e autoestima. Assim, a promoção e a
capacidade de trabalho devem ser consideradas uma estratégia ativa para
enfrentar os desafios da alteração demográfica e do mercado de trabalho,
assumindo-se também como um instrumento de prevenção, quer da perda prematura
de capacidades funcionais, quer da incapacidade (Requejo Osório, 2007). Esta
ideia vai de encontro a um dos cinco eixos-chave preconizados pelo Governo de
Portugal no Programa de Ação, 2012 no âmbito do Ano Europeu do Envelhecimento
Ativo e da Solidariedade entre Gerações Emprego, trabalho e aprendizagem, ao
longo da vida (Governo de Portugal, 2012).
O voluntariado é também um dos indicadores da qualidade de vida e uma forma do
idoso ocupar o seu tempo. Assim, salienta-se, ainda nesta categoria, o facto de
alguns idosos manifestarem o desejo de querer ajudar, ser voluntários, como nos
mostram as expressões: ... Gostava de ser voluntário, por exemplo no hospital
ou numa casa da terceira idade, fazer parte de uma associação, fazer bem às
pessoas. (homem, 76 anos, casado); Gostava de ser voluntária no lar de
idosos. (mulher, 77 anos, casada).
À semelhança de outros países, também em Portugal o voluntariado efetuado por
idosos assume, cada vez mais, uma maior relevância, nomeadamente a nível de
instituições de saúde, de caridade e instituições de solidariedade social
(nestas últimas e de acordo com Entreajuda, 2011, a participação, como
voluntários, de pessoas com 65 e mais anos ocupa 21,6%). Esta forma de ocupar o
tempo deve ser encorajada, o que também vem ao encontro do preconizado pelo
Parlamento Europeu e Conselho da União Europeia (2011) para o Ano Europeu do
Envelhecimento Ativo e Solidariedade entre Gerações - 2012 Promover o
envelhecimento ativo significa ( ) encorajar o voluntariado ( ).
Muitos idosos manifestaram um conjunto de atividades de ocupação do tempo que
realizam ou gostariam de realizar, relacionadas com o ócio, com o trabalho e
ainda como voluntários, o que é corroborado pela teoria da atividade que
defende a hipótese um idoso deve manter-se ativo se quer obter mais satisfação
na vida e se quer manter a sua autoestima e conservar a saúde. Esta teoria vem
ao encontro de um dos primeiros objetivos estabelecidos na II Assembleia
Mundial de Madrid sobre o envelhecimento o envelhecimento tem que ser ativo,
o que deve estar na base das políticas de qualquer inovação Gerontológica e que
vimos reforçado nas iniciativas do Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e
Solidariedade entre Gerações ' 2012.
Não obstante, e contrariando as ideias apresentadas, verificava-se que, até há
bem pouco tempo, a passagem para a reforma era quase que exclusivamente
destinada ao repouso, relacionando-se assim com o exercício de um ócio passivo,
o que, de certa forma, poderá justificar as alusões ao desejo de não estar
ocupado em nada, como pode ler-se nas seguintes expressões: Com esta idade
já não gostaria de fazer mais nada. (homem, 66 anos, divorciado); Eu agora
já não tenho grandes interesses, é preciso trato e descanso. (homem, 68 anos,
viúvo); Não há nada que gostasse ainda de fazer. (mulher, 81 anos, viúva).
Por outro lado, há pessoas que vivem encurraladas num modelo deficitário de
velhice, o qual se baseia num modelo médico tradicional que, face às alterações
biológicas, concetualizou o envelhecimento em termos de défice, de involução, o
que se identifica com uma vida sedentária e de improdutividade (Limón
Mendizábal, 2008) e que encontraria uma visão positiva do envelhecimento.
Termina-se a análise desta categoria com a afirmação de um idoso, onde o facto
de estar ocupado, seja com o trabalho, seja com o ócio/lazer, assume grande
relevância na qualidade de vida: O trabalho, a realização pessoal, quando se
pensa que se deve realizar, A minha ocupação, o meu trabalho e o lazer, por
exemplo: ler, gosto muito; ver televisão, ouvir notícias. (homem, 76 anos,
casado).
Relações interpessoais
Consideraram-se, neste estudo, relações interpessoais as alusões às relações
com pessoas da família (cônjuge, filhos e filhas, outros familiares) incluindo
também aquelas alusões mais genéricas à própria família onde não se especifica
o membro familiar e aquelas em que se manifesta o seu apoio. Recolhem-se também
nesta categoria todas as referências às relações com amigos e vizinhos.
A importância que os idosos atribuem às relações está bem patente nesta
categoria, principalmente no que diz respeito às relações com a família e que
pode ler-se nas seguintes expressões: O amor da minha esposa e dos meus
filhos é muito importante (homem, 65 anos, casado); A minha esposa é o
melhor bem que tive e que tenho em toda a vida (homem, 71 anos, casado);
ter uma vida muito boa com o meu marido e ter uma boa relação com os meus
filhos ter o marido e os filhos, noras e netos que estão sempre a
telefonar... (mulher, 77 anos, casada); . os familiares são muito
importantes (homem, 70 anos, casado).
A família assume-se como a fonte de ajuda e apoio mais importante ao idoso e,
particularmente, ao idoso dependente e necessitado, proporcionando cuidados ao
longo de todo o ciclo vital, apoio económico, alento e apoio emocional,
contribuindo assim para que o idoso se mantenha na comunidade (Pinazo
Hernandis, 2005). Esta ideia está bem patente nas respostas dadas pelos idosos
em estudo: A família, o apoio que me dão. (homem, 68 anos, viúvo); A
família ajuda a resolver alguns problemas (homem, 69 anos, casado); O
apoio da família são muito importantes para a nossa qualidade de vida
(mulher, 72 anos, casada). Esta ideia é também corroborada pelos resultados
obtidos nos estudos de Imaginário (2008) e de Vecchia et al. (2005), entre
outros.
Além da família, os idosos valorizam também as relações com os amigos e
vizinhos. Tendo em conta a realidade estudada (idosos de um meio
predominantemente rural, em que os filhos/outros familiares trabalham fora),
cabe salientar o importante papel dos amigos/vizinhos que assumem muitas vezes
o apoio, quer instrumental, quer emocional, ao idoso. São os amigos e vizinhos
que, muitas vezes, fazem companhia ao idoso e são os seus confidentes, evitando
assim a solidão. Além deste apoio emocional é também evidente, nestas
comunidades, o apoio instrumental prestado aos idosos, o que, além da família,
se tem tornado um importante contributo para evitar/adiar a institucionalização
do idoso.
Nas frases seguintes podem ler-se algumas expressões que manifestam a
importância atribuída pelos idosos às relações com os amigos e com os vizinhos:
ter amigos, para mim têm muito valor os amigos (homem, 76 anos, casado);
ter uma boa relação com os vizinhos (mulher, 77 anos, casada); É viver
bem, em paz e harmonia com os amigos (homem, 82 anos, viúvo).
Pinazo Hernandis (2005) é de opinião que os amigos são uma importante fonte de
apoio para os idosos, já que estas relações entre pares se caracterizam pela
reciprocidade, homogeneidade e consenso. O apoio baseado nas relações é
opcional, não é obrigatório e baseia-se na reciprocidade e no afeto, o que
contrasta com os sentimentos de obrigação subjacentes nas relações familiares.
Neste sentido, partilha-se da opinião de Paskulin (2006) ao referir que, o
contacto com os amigos torna-se um sistema de apoio mútuo que pode ser bastante
benéfico para dar resposta às necessidades dos idosos, contribuindo assim para
a melhoria da sua qualidade de vida.
Por outro lado, a falta de relação e/ou de apoio da família/vizinhos é afirmada
por alguns idosos, o que certamente interfere de uma forma negativa na sua
qualidade de vida: falta de apoio dos filhos (homem, 79 anos, casado);
andar zangado com um familiar (homem, 65 anos, casado); O meu marido não me
reconhece o bem que eu lhe tenho feito. Eu gostava de estar num sítio que
tivesse uma vizinhança humana, que tivesse apoio se me acontecesse alguma
coisa, chamasse por essa pessoa e me valesse, pessoas que me compreendessem
(mulher, 91 anos, casada).
Conclui-se, assim, que as relações com a família, os amigos e os vizinhos são,
sem dúvida, um aspeto crucial para fomentar a qualidade de vida dos idosos,
corroborando a ideia de que este tipo de apoio (informal) é considerado o mais
extenso e o mais desejado pelo idoso (Pinazo Hernandis, 2005).
Condições económicas
Considerou-se nesta categoria as referências ao conforto do meio ambiente
físico, usufruto de bens materiais e dinheiro.
As condições económicas não são o aspeto que ocupa o maior espaço textual nas
narrativas dos idosos em estudo, não deixando, contudo, de ser referenciados
aspetos relativos à posse de bens essenciais, conforto do ambiente físico e
dinheiro, como pode ler-se nas seguintes expressões: ter uma casa
confortável, ter condições económicas ter meios económicos ajuda a ter melhor
qualidade de vida (homem, 65 anos, casado); Que não falte o dinheiro, ter
conforto, ter o que desejamos (homem, 68 anos, casado); dinheiro para
gastar quando é preciso (homem, 82 anos, viúvo); É viver confortavelmente
é ter todas as coisas essenciais para a vida, como alimentação, uma casa
digna . (mulher, 72 anos, casada); dinheiro é diferente à de antigamente,
temos mais coisas, tenho melhores condições (mulher, 80 anos, casada).
Por outro lado, são também feitas alusões à falta de condições económicas e que
podem ler-se nas expressões: falta de mais recursos económicos (homem, 70
anos, casado); por vezes a reforma não dá, temos que limitar. Ganhar mais um
dinheiro se tivesse dinheiro (homem, 65 anos, casado); Eu já nem sei,
queria uma reforma maior... (mulher, 80 anos, viúva).
As alusões feitas pelos idosos em estudo vão ao encontro da literatura,
afirmando a Rede Europeia Anti-Pobreza (2011) que, apesar do aumento das
reformas nos últimos anos, este é o grupo etário que mais fortemente continua a
ser atingido pela pobreza.
Da análise efetuada aos discursos dos idosos, podemos dizer que qualidade de
vida significa ter saúde, ter paz, harmonia, ser feliz, estar satisfeito com a
vida, manter-se ocupado, seja com atividades de ócio, de voluntariado ou com o
trabalho. Significa ainda manter relações interpessoais ou receber apoio da
família, dos amigos e dos vizinhos. A posse de bens essenciais, o conforto do
ambiente físico e o dinheiro assumem também significado, para alguns idosos, ao
definirem qualidade de vida.
Os resultados obtidos são corroborados por alguns estudos qualitativos acerca
do conceito de qualidade de vida, como o de Vecchia et al. (2005),
certificando-se também a multidimensionalidade do conceito de qualidade de
vida, referido na literatura.
Conclusão
A presente investigação tinha como objetivo conhecer a perceção que o idoso tem
da sua qualidade de vida. A multidimensionalidade do conceito de qualidade de
vida, mencionada na literatura, ficou bem patente nas respostas dadas pelos
idosos em estudo, verificando-se que a categoria que assumiu maior peso foi o
bem-estar pessoal, seguida da ocupação, das relações interpessoais e das
condições económicas.
Em conclusão, qualidade de vida para estes idosos significa ter saúde, ter
paz, harmonia, ser feliz, estar satisfeito com a vida, manter-se ocupado, seja
com atividades de ócio, de voluntariado ou com o trabalho, manter relações
interpessoais ou receber apoio da família, dos amigos e vizinhos.
Conhecer melhor a perceção que os idosos têm da qualidade de vida permite
programar ações preventivas, identificar necessidades e estabelecer prioridades
de atuação. Assim, de um melhor conhecimento desta realidade poderá resultar a
efetiva adequação dos cuidados a prestar aos idosos, bem como a consequente
melhoria da sua qualidade de vida, devendo as decisões ser tomadas em função
das necessidades identificadas.
Neste sentido e, face aos resultados desta investigação, apontam-se algumas
sugestões/implicações para a prática de cuidados, nomeadamente: coordenação
interdisciplinar; apoiar a família; fomentar o voluntariado; incrementar os
apoios económicos, programas educativos e relação intergeracional; fomentar o
associativismo; promover a formação específica na área do idoso; criar
oportunidades de trabalho específicas para o idoso.
O ponto de referência para esta investigação foi o Centro de Saúde, mostrando-
se assim como o local privilegiado para este tipo de estudos, não descorando,
contudo, a necessidade de articulação entre serviços de saúde, serviços
sociais, autarquias e educação. Só com um trabalho coordenado e com objetivos
comuns, se consegue uma adequada intervenção à pessoa idosa.
Pensa-se que este trabalho deu um importante contributo para o conhecimento da
perceção que os idosos têm da sua qualidade de vida. Deixamos, contudo, algumas
sugestões, nomeadamente: a realização de trabalhos com amostras maiores e mais
direcionados para áreas específicas, como por exemplo os maus tratos, o ócio/
lazer e ainda a realização de estudos longitudinais.