Estudo do ponto de corte da Escala de Quedas de Morse (MFS)
Introdução
As escalas de avaliação do risco de queda são ferramentas que atribuem um valor
numérico a diversos fatores de risco. Estes são somados de forma a predizerem
se o doente tem ou não risco de queda.
A avaliação da validade preditiva das escalas (Morse, 2009) permite identificar
se as mesmas servem o seu propósito, isto é, se descriminam suficientemente bem
entre potenciais doentes com risco de queda e doentes sem risco, numa população
específica (Oliver, Healey, & Haines, 2010). A Morse Fall Scale (MFS) é uma
das escalas mais utilizada, tendo em consideração o seu extenso desenvolvimento
e estudos comparativos em populações de doentes internados em diferentes
hospitais (Schwendimann, De Geest, & Milisen, 2006).
Uma escala de avaliação do risco de queda, aliás como qualquer outro
instrumento de avaliação necessita de ser submetido a um processo de adaptação
cultural e linguística e validado para a língua portuguesa, se o desejamos
utilizar nos nossos contextos (Almeida, Abreu, & Mendes, 2010). Idealmente
as escalas devem ser calibradas para cada unidade, para que as estratégias de
prevenção sejam dirigidas aos doentes que estão mais em risco, ou seja, os
pontos de corte ou os valores que fazem a separação entre um doente sem e com
risco de queda, podem ser diferentes dependendo se está a ser utilizada a
escala num hospital de doentes agudos ou num hospital de doentes crónicos.
Mesmo dentro da mesma organização a escala pode ter pontos de corte diferentes
(Morse, 2009). O risco de queda varia em função do tipo de doente, assim como
em diferentes momentos do dia e nas diferentes situações do doente (Morse,
2009). Os pontos de corte definidos pela autora da escala situam-se no
intervalo entre 25 e 55 pontos, sugerindo que o ponto de corte para alto risco
de queda num hospital de doentes agudos, ou numa unidade de doentes cirúrgicos
onde poucos doentes terão um risco de queda alto, seja colocado no score 25.
Pelo contrário nos hospitais ou nas unidades destinadas a doentes crónicos ou
unidade de doentes com patologia cerebrovascular, a autora sugere que o score
de alto risco seja aferido para o score 45. Morse (2009) alerta também que o
ponto de corte da escala não deve situar-se acima dos 55 pontos. Este valor foi
identificado por Schwendimann et al. (2006) num estudo de coorte prospetivo
efetuado num hospital de doentes agudos em dois internamentos de medicina, como
o ponto de corte mais ajustado aos doentes internados nos serviços referidos.
O melhor método para definir o ponto de corte de acordo com Morse (2009) é
avaliar o risco a todos os doentes internados num determinado serviço e
analisar a distribuição do risco, obtendo os valores da sensibilidade
(verdadeiros positivos, ou a proporção de participantes com queda corretamente
classificados com alto risco) e especificidade (verdadeiros negativos, ou a
proporção de participantes sem quedas corretamente classificados sem risco ou
com baixo risco) da escala, assim como os valores preditivos positivos
(probabilidade de uma pessoa com avaliação de risco cair) e negativos
(probabilidade de uma pessoa com avaliação sem risco não cair).
O objetivo deste estudo foi analisar, para os serviços de internamento de
adultos de um hospital da zona da grande Lisboa de doentes agudos, o ponto de
corte da MFS, mais ajustado à sua população.
Fundamentação Teórica
O acidente queda do doente é definido por Lamb, Jorstad-Stein, Hauer, e Becker,
(2005) como um incidente em que a pessoa súbita e involuntariamente desce até
ao nível do chão ou a um nível mais baixo. As quedas estão na base do maior
número de danos não fatais nos hospitais de doentes agudos (Perell, Nelson,
Goldman, Prieto-Lewis, & Rubenstein, 2001), afetando maioritariamente os
idosos (Oliver, 2007), sendo um evento adverso que é prevenível. Escalas
simples de avaliação de risco podem predizer até 70% das quedas (Oliver, Daly,
Martin, & McMurdo, 2004). A primeira etapa de qualquer programa de
intervenção de quedas é a avaliação do risco, o enfermeiro deve utilizar
instrumentos de avaliação adequados para identificar riscos reais e potenciais
dos clientes que cuida, competência definida a nível da gestão de cuidados no
domínio do ambiente seguro, pela Ordem dos Enfermeiros (2004). A Escala de
Quedas de Morse (MFS) é uma das escalas mais divulgada e utilizada a nível
nacional (Soares & Almeida, 2008), tendo sido demonstrada a sua validade
preditiva, bem como a sua fiabilidade entre avaliadores (Morse, 2006; Morse,
2009).
A MFS é descrita pela sua autora como sendo um método simples e rápido de
avaliar a probabilidade de um doente cair, tendo duas décadas de investigação.
A escala foi desenvolvida em 1985 no Canadá, na Universidade de Alberta, por
Janice Morse, para identificar os indivíduos com risco de quedas (Morse, Morse,
& Tylko, 1989).
A escala foi desenvolvida com base num estudo de 100 doentes que caíram e de
100 doentes que não caíram, selecionados de forma randomizada.
A escala integra seis itens de avaliação e que são: (1) história anterior de
queda; (2) existência de um diagnóstico secundário; (3) apoio para caminhar;
(4) terapia intravenosa; (5) postura no andar e na transferência; (6) estado
mental.
Os itens 1, 2, 4 e 6 são medidos numa escala dicotómica Não/Sim em que Não
toma sempre o valor zero e Sim o valor 15 (nos itens 2 e 6), 20 (no item 4)
ou 25 (no item 1). O item 3 tem como respostas possíveis Nenhuma/ajuda de
enfermeiro/acamado/cadeiras de rodas (0), Muletas/canadianas/bengala/
andarilho (15) ou Apoia-se no mobiliário para andar (30). Por fim, o item 5
tem como respostas possíveis Normal/acamado/imóvel (0), Debilitado (10) e
Dependente de ajuda (20).
A pontuação total da escala varia entre 0 e 125 e os indivíduos são
descriminados em função do risco apresentado como: sem risco (0-24), baixo
risco (25-50) e alto risco (≥51).
No estudo original a sensibilidade da escala foi de 78%, o valor preditivo
positivo foi de 10,3% e o valor preditivo negativo de 99,2% (Morse et al.,
1989).
A escala foi testada dois anos após a sua construção, numa amostra de doentes
idosos, em contexto hospitalar, tendo demonstrado especificidade de 51%,
sensibilidade de 72%, valor preditivo positivo de 38%, valor preditivo negativo
de 81%, e precisão de 57% (Eagle, Salama, Whitman, & Evans, 1999).
Em 2006 o ponto de corte da MFS foi estudado por Schwendimann et al., para uma
população de 368 doentes, dos quais 60% eram do sexo feminino, com uma média de
etária de 70 anos (DP±18,5), com internamentos superiores a 48 horas e com
diferentes motivos médicos de internamento. Dos participantes deste estudo (47)
tiveram 69 quedas. Os participantes com risco de queda variaram entre 89,4%
para um ponto de corte 20, até 20,7% para um ponto de corte de 70 pontos. De
acordo com os diferentes pontos de corte deste estudo a sensibilidade da MFS
variou entre 91,5% e 38,3%. A especificidade variou entre 81,7% e 10,9 %. O
valor preditivo positivo entre 12,5% a 22,5% e o valor preditivo negativo entre
90,2% a 95,7%. Os falsos positivos ou os participantes com risco mas que não
caíram variaram entre 87,5% para o ponto de corte 20 e 75,9% para o ponto de
corte de 60.
Em 2011 foi criada a Versão Portuguesa da MFS e validada para a realidade
Portuguesa numa amostra de 200 doentes, aguardando-se a sua publicação. Como
resultado desta validação foi criada uma versão semântica e culturalmente
equivalente à original, com uma boa fiabilidade e validade (relações
significativas com a Escala de Coma de Glasgow e com o Índice de Barthel). A
fiabilidade foi testada através do grau de concordância das pontuações
fornecidas por três enfermeiros, independentemente. Este grau de concordância
variou de 0,62 a 0,96 e o correspondente coeficiente de correlação interclasse
foi de 0,84, associado a um intervalo de confiança de [0,80; 0,88], pelo que
existiu uma elevada concordância entre os avaliadores na utilização da escala.
Oliver (2007) refere que a avaliação da validade preditiva de uma escala tem
como componentes a sensibilidade, a especificidade, o valor preditivo positivo
e negativo e a precisão.
Metodologia
Através de um estudo do tipo caso-controlo, foram incluídos 100 registos de
incidente de queda dos 134 notificados durante o período de 1 de janeiro a 31
de dezembro do ano de 2012, por cinco serviços de internamento de doentes
adultos na área médico-cirúrgica e de cuidados continuados e paliativos,
identificados como A, B, C, D e E. No ano em estudo registou-se uma incidência
de 2,4 quedas por 1000 camas/dia. Os casos correspondem a registos de pessoas
que sofreram o incidente queda no período de internamento. Por cada caso foram
selecionados, de forma aleatória, dois controlos emparelhados por idade e sexo
entre os registos de indivíduos adultos internados no mesmo período e sem
registo de quedas no internamento.
Os dados foram introduzidos em base de dados elaborada através do programa
estatístico SPSS® 'Statistical Package for the Social Sciences versão 18.0 para
o Windows®. Efetuou-se uma análise univariada dos dados com recurso a medidas
de tendência central e de dispersão, bem como análise bivariada com recurso a
medidas de risco, nomeadamente o odds ratio (OR), com um intervalo de confiança
de 95%.
As propriedades métricas da escala foram avaliadas através da sensibilidade e
da especificidade da escala para vários pontos de corte possíveis, através de
pares de sensibilidade e especificidade para cada ponto de corte. Para definir
o melhor ponto de corte foi utilizada a receiver operator curve (ROC), avaliada
a eficácia da MFS através da área abaixo da curva (AUC) ROC, da precisão (ACC)
e ainda através do Índice de Youden com intervalo de confiança de 95%. A AUC
tem um intervalo entre 0,5 a 1,0, com os valores mais elevados a indicar maior
ajuste. O índice de Youden (J) é igual à sensibilidade mais a especificidade
menos um. O J tem uma variação entre 0 e 1, com os valores próximos de 1 a
indicar a precisão perfeita e o valor 0 a precisão obtida por mero acaso
(Schisterman, Perkins, Liu, & Bondell, 2005).
Foram observados todos os requisitos éticos de um trabalho desta natureza,
tendo o estudo sido autorizado pela Comissão de Ética para a Saúde do hospital
onde se realizou o estudo.
Resultados
Os meses de maio (11) e janeiro (11) foram os meses com ocorrência de mais
quedas. Contrariamente dezembro (4), fevereiro (6), abril (6) e agosto (6)
mostraram ser os meses com menor número de eventos de queda. A média de quedas
por mês foi de 8 (DP±2,64), a moda foi de 6 e a mediana 9, com um valor mínimo
mensal de ocorrência de quedas de 4 e máximo de 13.
Registou-se um maior número de quedas em participantes do sexo masculino (56%)
que nos participantes do sexo feminino.
Através do Tabela_1 pode ser feita a leitura das características dos
participantes. A média da idade dos participantes foi de 76 anos (DP±11,13), a
moda 75 anos, a mediana 77 anos e a idade mínima de 26 anos e a máxima de 94
anos. Dos participantes 34% (103) têm uma idade compreendida entre 70 aos 79
anos. Nos casos a idade média foi de 76 anos (DP±11,1), a moda é 79 anos e a
mediana 77 anos, a idade mínima de 28 anos e máxima de 92 anos. A maior parte
das ocorrências de quedas foram no serviço B com 42% (42) dos casos,
correspondendo a um serviço de internamento de doentes com necessidade de
convalescença e reabilitação, ou com doença crónica incurável, progressiva e
avançada.
Os casos foram internados em 37% (42) das situações por motivos médicos e em
26% (26) por necessidade de cuidados paliativos. Nos controlos o motivo de
internamento foi em 34,5% (69) por motivos cirúrgicos e em 33,5% (67) por
motivos médicos.
A doença oncológica é diagnóstico principal em 27% (27) dos casos e em 13% (39)
dos controlos.
Através da Tabela_2 verificou-se que até ao 6º dia de internamento houve um
registo de ocorrência de queda de 57% e até ao 15º dia de internamento, 72% das
pessoas. Mais de metade dos participantes têm o evento de queda até aos 4,5
dias após o internamento, sendo que o maior registo absoluto deste incidente
(moda) acontece nas primeiras 24 horas. Ainda de realçar que 11,0% (11) caíram
ao 27º dia ou após esta data.
A avaliação do risco de queda efetuada através da MFS pode ser lida na Tabela_3
e informa a nível da sua primeira questão sobre história anterior de queda, que
31% (31) dos casos tinham história anterior de queda nos últimos 3 meses que
antecederam o internamento, ou a queda foi o motivo de admissão de urgência
hospitalar, assim como em 17% (34) dos controlos. Existe associação
estatisticamente significativa entre ter quedas anteriores e o risco de queda
(X2=74,456;gl=2;p=0,000), sendo que 94% (61) das pessoas com quedas anteriores
tinham alto risco de queda. Do total dos casos 92% (92) têm um diagnóstico
secundário, assim como 80,5% (161) dos controlos.
No que se refere à questão sobre necessidade de ajuda para caminhar, verificou-
se que 42% (42) dos casos podiam andar sem qualquer ajuda, ou são apenas
assistidos por um enfermeiro, andavam de cadeira de rodas, ou permaneciam
deitados e nunca saíam da cama, sendo esta avaliação também igual para 66,5%
(133) dos controlos. Ainda nesta questão em 37% (37) dos casos e em 18,5% (37)
dos controlos, as pessoas deslocavam-se apoiando-se numa peça de mobiliário.
Por fim em 21% (21) dos casos e em 15% (30) dos controlos, os participantes
usavam, canadianas de antebraço, bengala ou outro dispositivo de apoio à
marcha.
Quanto à questão da existência de terapia intravenosa, constatou-se que 58%
(58) dos casos tinham acessos com perfusões em curso de forma permanente ou
transitória, assim como 63% (126) dos controlos.
Na questão postura do andar e na transferência, 38% (38) dos casos tinham um
andar debilitado, em que as pessoas andavam curvadas, mas eram capazes de
levantar a cabeça enquanto andam, sem perder o equilíbrio. Os passos eram
curtos e podiam arrastar os pés. Esta avaliação é também aplicada a 24,5% (49)
dos controlos. Andar dependente de ajuda (com dificuldade em se levantar da
cadeira, tenta pôr-se de pé, apoiar-se nos braços da cadeira ou balancear-se),
colocar a cabeça para baixo e olhar para o chão, ou andar, agarrado ao
mobiliário, a uma pessoa, ou a ajudas técnicas, ou mesmo não conseguir andar
sem ajuda, foram identificados 34% (34) dos casos e 22,5% dos controlos.
Verificou-se ainda que 28% (28) dos casos têm um andar normal, que se
caracterizava por a pessoa andar com a cabeça levantada, baloiçar os braços
livremente dos lados do corpo e dar passos largos sem hesitação. Esta avaliação
foi também comum a 53% (106) dos controlos.
A última questão avalia o estado mental das pessoas, sendo que 50% (50) dos
casos estavam conscientes das suas capacidades, avaliação feita com base na
autoavaliação que a própria pessoa faz da sua capacidade e 50% (50) das pessoas
sobrevalorizavam as suas capacidades e esqueciam-se das suas limitações. Quanto
aos controlos 65% (130) enquadram-se na primeira avaliação referida.
Verificou-se que as pessoas com história anterior de quedas (OR=2,19; IC=1,25-
3,83), que utilizam apoios de marcha para caminharem (OR=2,22; IC=1,15-4,28) e
que se esquecem das suas limita-ções (OR=1,86; IC=1,14-3,03) apresentam uma
probabilidade 2 vezes superior de cair. As pessoas que têm um diagnóstico
secundário (OR=2,79; IC=1,25-6,22), que se apoiam no mobiliário para andarem
(OR=3,17; IC=1,79-5,63), que têm uma postura no andar e na transferência
debilitada (OR=2,94; IC=1,62-5,32), ou dependente de ajuda (OR=2,86; IC=1,56-
5,26), ou comprometida (OR=2,70; IC=1,73-4,86), têm uma probabilidade 3 vezes
superior de cair.
Da avaliação dos seis itens da MFS, resulta o nível de risco dos participantes,
em que 65% (65) dos casos mostraram ter alto risco e 41,5% (83) dos controlos
baixo risco de queda. O score da escala variou entre o mínimo 0 e o máximo de
125, com uma média de 54 (DP±29,04), indicativo de alto risco de queda. Metade
dos participantes apresentou um score de risco superior a 50.
Tendo por base de referência a classe sem risco de queda, identificou-se que os
participantes com baixo risco de queda apresentavam 3 vezes mais probabilidade
de cair. Todavia, os participantes identificados com alto risco de queda
mostraram ter 7 vezes mais probabilidade de sofrer um evento de queda durante o
período de internamento (Tabela_4).
Com base nestes indicadores a sensibilidade da escala é de 65%, ou seja permite
identificar 65% das pessoas em risco que caíram. A sua especificidade é de 63%
ao permitir identificar 63% das pessoas que não caíram e não tinham risco de
queda. Têm um valor preditivo positivo (VPP) de 46%, que permite identificar
que 46% das pessoas com avaliação de risco têm probabilidade de cair e tem um
valor preditivo negativo (VPN) de 78%, que permite identificar que 22% das
pessoas sem risco têm também probabilidade de cair.
Testou-se a MFS, através da sensibilidade e da especificidade da escala para
vários pontos de corte possíveis, através de pares de sensibilidade e
especificidade para cada ponto de corte. De acordo com os diversos pontos de
corte a sensibilidade variou entre 96% e 47%, a especificidade variou entre 75%
e 11%, o VPP entre 35% e 48% e o VPN entre 84% e 74%. As percentagens de falsos
positivos (participantes com risco e sem queda) variaram entre 89,5% (ponto de
corte: 20) e 25,5% (ponto de corte: 70). As percentagens de falsos negativos
(participantes sem risco e com queda) variaram entre 5% (ponto de corte: 20) e
53% (ponto de corte: 70). A ACC, ou a precisão da escala, variou entre 39% e
65%. A AUC ou a área abaixo da curva ROC variou entre 0,533 e 0,608 e o J entre
0,070 e 0,300 (Tabela_5).
O melhor ponto de corte que tem a sensibilidade mais elevada (78%) é o 42,5,
com um valor de especificidade de 49% e um valor abaixo da curva ROC de 0,670
(IC 95%=0,61-0,73). No entanto este ponto de corte, dados os valores
apresentados pela escala, não é um valor com utilidade prática, considerando-se
por este motivo o melhor ponto de corte o 45, por apresentar igual valor de
sensibilidade (78%) com um valor abaixo da curva ROC de 0,648 (IC 95%=0,58-
0,71) valor considerado razoável, um J=0,30 (IC 95%=0,11-0,48) e uma
especificidade aceitável de 52%, (superior à do ponto de corte: 42,5) com um
valor preditivo negativo de 82% e uma precisão igualmente aceitável de 60%
(Gráfico_1). Neste ponto de corte, 78% dos participantes são identificados como
verdadeiros positivos e 22% como falsos negativos e apresenta um OR de 3,8 (IC
95%=2,17-6,51).
Discussão
A prevenção de quedas em pessoas adultas idosas é uma prioridade de saúde
reconhecida. Neste estudo efetuou-se uma análise retrospetiva da sensibilidade
e especificidade da MFS em doentes internados. A população alvo, para se
definir o melhor ponto de corte da MFS, tinha uma idade com maior frequência
absoluta e relativa de 75 anos, sendo o grupo etário entre os 70 e os 79 anos o
que teve maior número de participantes e o que no qual ocorreram 34% das
quedas, resultados corroborados também já por estudos nacionais (Pina et al.,
2010) e internacionais (Oliver et al., 2010). A média de idades dos
participantes (76 anos) é superior à do estudo de Schwendimann et al. (2006),
que foi de 70 anos.
O processo de envelhecimento, associado às alterações da capacidade física e
cognitiva assim como a co-morbilidade associada à doença crónica tem reflexos a
nível hospitalar e muitos dos doentes internados no hospital são idosos e com
vários problemas de saúde associados, tal como neste estudo em que 84% dos
participantes têm um diagnóstico secundário.
Portugal enquadra-se hoje na realidade de outros países como a do Reino Unido,
em que 60% das admissões hospitalares são de pessoas com 65 ou mais anos e 70%
das camas estão ocupadas com pessoas desta faixa etária (Oliver, 2008), muitos
destes doentes estão fragilizados pelo processo de doença e têm algum grau de
défice cognitivo, tornando-os mais expostos à ocorrência de quedas. Os
participantes deste estudo demonstram esse risco, dado que 40% destes, na
avaliação feita pela MFS, se esqueciam das suas limitações e tinham, por esse
motivo, 1,86 maior probabilidade de cair (OR=1,86; IC 95%=1,14-3.03).
Os homens caíram mais do que as mulheres, realidade já corroborada por outros
estudos (Oliver et al., 2010).
O maior número de quedas (42%) registou-se no internamento de doentes com
necessidade de convalescença e reabilitação, ou com doença crónica incurável,
progressiva e avançada, efetivamente esta é uma das áreas de internamento já
referida pelos autores como de maior risco (Morse, 2009; Oliver et al., 2010).
No nosso estudo 52% dos doentes internados neste serviço, apresentavam alto
risco de queda, associado a 90% um diagnóstico secundário, 51% esquecem-se das
suas limitações, 29% terem história anterior de quedas, 33% terem uma postura
no andar debilitada e 25% dependente de ajuda, 21% apoiam-se no mobiliário para
andarem e 17% utilizarem apoios de marcha.
O principal motivo de internamento de 36% dos participantes foi médico e quando
comparados com os doentes internados por motivos cirúrgicos, os seus scores de
risco são relativamente estáveis, melhorando ao longo do processo de
internamento, sempre que a sua situação de saúde melhora também (Morse, 2009).
A doença oncológica foi o diagnóstico mais prevalente em 22% dos participantes.
Os doentes com este diagnóstico caíram em média ao 10º dia de internamento, mas
a moda foi ao 2º dia e 48% tinha alto risco de queda resultados corroborados
por outros estudos (Stone, Lawlor, Savva, Bennett, & Kenney, 2012). As
quedas são mais comuns nos adultos com doença oncológica avançada,
particularmente nos doentes com metástases cerebrais ou tumores primários do
cérebro (Stone et al., 2012). Estudos retrospetivos em doentes internados com
cancro avançado identificaram através de análise multivariada que a história
anterior de quedas nos últimos 3 meses é um fator preditor de quedas neste tipo
de pessoas (Stone et al., 2012), efetivamente 26% das pessoas com doença
oncológica tiveram quedas durante o seu internamento e na totalidade dos
participantes estudados a história anterior de queda está associada a 2,19
maior probabilidade de cair (OR=2,19; IC 95%=1,25-3,83).
Utilizando pares de valores de sensibilidade e de especificidade para diversos
pontos de corte optou-se pelo ponto de corte 45, embora utilizando os escores
obtidos na avaliação efetuada da MFS fosse identificado como melhor ponto de
corte o valor 42,5.
A razão desta opção tem a ver com o fato dos valores de pontuação da MFS serem
zero, cinco ou múltiplos de cinco, sendo assim o valor 45 mais ajustado, valor
igualmente sugerido pela autora (Morse, 2009) e por outros estudos (Chow et
al., 2007).
Para além do fator anterior, importa também esclarecer que estes dois pontos de
corte têm valores de sensibilidade iguais (78%) e valores de especificidade
idênticos (52% vs. 49%).
Em outros estudos efetuados em internamentos de Medicina foi identificado como
melhor ponto de corte o 55 com uma sensibilidade de 75% e especificidade de 66%
(Schwendimann et al., 2006). Este ponto de corte é referido pela autora da
escala como o valor máximo que o mesmo deve tomar (Morse, 2009).
No presente estudo o valor preditivo negativo foi de 82% e no de Schwendimann
et al. (2006) foi de 95%, sendo assim melhor que o do nosso estudo. Ainda no
estudo citado, a AUC foi de 0,701 e a ACC foi de 67% e no atual estudo foi de
0,648 e 60% respetivamente, de novo valores melhores que os por nós
identificados.
No que se refere ao valor do Índice de Youden identificado neste estudo para o
ponto de corte 45, de 0,3, foi o melhor encontrado em relação aos outros pontos
de corte razão que também pesou na decisão final. Outros estudos identificaram
valores mais baixos (Haines, Hill, Walshe, & Osborne, 2007), fazendo com
que a sua opinião sobre a utilização das escalas de avaliação do risco de queda
e em especial da MFS fosse crítica.
Podemos assim recomendar que a que MFS e o ponto e corte 45 sejam utilizados em
determinados contextos, idênticos aos do presente estudo, mas a utilização não
deve ser generalizada, pois pode não trazer benefícios significativos para além
de uma correta avaliação clínica do enfermeiro sobre o risco de queda do
doente.
O foco dos enfermeiros deve ser colocado mais na prescrição das intervenções
que visem determinar os meios apropriados para que o doente com risco beneficie
dos mesmos.
Como limitações do estudo consideramos que ter-se efetuado um estudo de caso
controlo com emparelhamento dos participantes por idade e sexo, pode ter
condicionado que fossem encontradas associações entre o risco de queda e a
idade ou com o sexo. O emparelhamento veio também dificultar encontrar para
todos os casos os respetivos controlos e por isso perdemos alguns
participantes, durante o ano em que decorreu o estudo. Mais difícil ainda, foi
encontrar controlos para os participantes que caíram mais de uma vez, pois não
foi possível selecionar controlos para estes participantes e o estudo não
integrou assim pessoas com mais de uma queda.
Conclusão
As escalas de avaliação do risco de queda não devem ser utilizadas de forma
acrítica e é necessário perceber as suas limitações e se descriminam
suficientemente entre as pessoas com e sem risco de queda numa população
específica. A sensibilidade, especificidade e os valores preditivos positivos e
negativos, não são meros detalhes teóricos, tendo implicações reais na prática
dos cuidados de enfermagem. Com os valores identificados neste estudo à
semelhança de outros estudos não nacionais, podemos dizer que a MFS tem uma
capacidade moderada de predizer o risco de queda, na tipologia dos
internamentos estudados. Para os internamentos de adultos da área médico-
cirúrgica e de cuidados continuados e paliativos recomenda-se a aplicação do
ponto de corte 45, valor igualmente sugerido pela autora da escala. Recomenda-
se que os pontos de corte da escala sejam estudados para cada realidade ou
contexto.