Investigação em história de enfermagem: um contributo do passado para o futuro
Introdução
A História sempre exerceu um fascínio sobre os homens que resulta do pensar que
se pode encontrar no passado algumas respostas sobre si próprio (Mattoso,
1997). O mesmo acontece com a Enfermagem. Considerando a investigação um
processo sistemático e racional de construção do conhecimento, podemos afirmar
que a Investigação Histórica em Enfermagem constitui a pesquisa de alicerces
que ajudam a suportar a história atual da profissão, construindo bases sólidas
para o futuro.
A consolidação e o amadurecimento da pesquisa histórica na enfermagem exige dos
investigadores, cada vez mais, o domínio de conceitos teóricos e da capacidade
de produzir conhecimento histórico nesta área (Junior, 2011).
Para Polit e Hungler (1978), os passos envolvidos na execução de uma pesquisa
histórica são semelhantes a outros tipos de metodologia de pesquisa científica,
a diferença reside em que, na pesquisa histórica, os dados são eventos, factos,
situações ou declarações do passado. Para entendermos tudo aquilo que a
profissão de enfermagem representa no século XXI, é necessário voltar um pouco
atrás para reconhecer, no percurso trilhado, o modo de entender o lugar a que
se chegou (Nunes, 2003).
Desenvolver a investigação histórica para construir a memória da profissão é um
desafio a ser enfrentado de forma crescente, pois sem um passado não há
significado para o presente, nem podemos desenvolver um sentido de nós
próprios, quer como indivíduos quer como grupo profissional (Vieira e Ferreira,
2008). Tal como refere Soares (1997, p. 13), o estudo do passado da enfermagem
pode contribuir, de forma relevante, para a história dos sistemas e serviços de
saúde e dos próprios cuidados de saúde .
O conhecimento da História da Enfermagem possibilita um olhar crítico sobre os
avanços e percalços da profissão, trazendo questionamentos e respostas acerca
do quotidiano. O ensino e a pesquisa da História exigem, também, a
consciencialização dos profissionais quanto à importância da preservação da
memória da profissão (Luchesi, Amorin e Porto, 2009).
Assim, a história serve para elucidar o contexto vivido e fornecer os seus
significados, contribuindo para a cultura da profissão. Também testemunha e
serve de prova. Surge-nos como a ciência do homem e da mudança das sociedades.
Deste modo, é uma visão de constante reajustamento em direção à homeostasia
perante novas condições políticas, religiosas, materiais, morais, intelectuais
e sociais (Nunes, 2003).
Este artigo tem como objetivo apresentar a pesquisa histórica como método
científico, de forma a sensibilizar os enfermeiros para a sua construção em
todas as suas etapas constituintes. Sendo verdade que entre os enfermeiros
portugueses é grande o desconhecimento da história da enfermagem em Portugal,
também é certo que se torna crescente o interesse nesta área, não só dentro da
própria profissão, como entre historiadores e especialistas em outras áreas.
Exemplo disto são algumas Teses de Doutoramento em História, que enfocam a
evolução da profissão, como a de Silva (2010).
Revisão da literatura
O método de pesquisa histórica caracteriza-se como uma abordagem sistemática
por meio de recolha, organização e avaliação crítica de dados que tem relação
com ocorrências do passado (Padilha e Borenstein, 2005). Esta abordagem não é
apenas o organizar, de forma útil, o conteúdo dos documentos, pois estes só têm
sentido quando inseridos numa totalidade, que é a existência do homem e o seu
tempo (Mattoso, 1997).
São etapas essenciais na produção de trabalho histórico: a seleção do tema, a
escolha do enfoque e a formulação das hipóteses; o levantamento da documentação
e a recolha de dados; a análise, crítica e interpretação dos mesmos; e a
redação de um texto científico onde se expõem os resultados e conclusões.
Para Padilha e Borenstein (2005), um trabalho de investigação histórica, de
forma geral, caracteriza-se por a escolha ser decorrente de algum tipo de
informação, uma dose de motivação e de paciência por parte do historiador.
Quando o investigador tem ao seu alcance um conjunto abundante de documentos,
tem a possibilidade de fazer escolhas, colocando em evidência o que considera
mais relevante para o seu estudo/trabalho e não registando o que lhe parecer
ter pouca expressão. O investigador tem o dom de recriar os materiais da sua
pesquisa. Ele não volta ao passado como um mero viajante em busca de relíquias,
mas sim com uma intenção precisa e objetiva sobre um problema a resolver e uma
hipótese de trabalho para pesquisar. Escrever história é, portanto, tomar
decisões (Storey, 2009). Observar o passado não se destina a desenterrar
mortos. O que interessam são as coisas vivas que nos interpelam e nos ajudam a
interpretar o presente. Sendo assim, não basta interpretar os papéis amarelados
e que rondam o imaginário dos que se iniciam na pesquisa histórica (Mattoso,
1997).
O passado também deve ser procurado em cartas, fotografias, juras ou em
receitas culinárias transmitidas oralmente em família. Investigar em história é
manter vivo um duelo constante entre os objetos da investigação e o
investigador, em que é necessário saber lidar com os obstáculos e os
condicionalismos inerentes ao rigor da pesquisa de outras épocas. Refletir
sobre que se passou em tempos passados, ajuda-nos a compreender e a construir o
futuro. Desta forma, não podemos escolher da história apenas o que nos agrada,
mas também o que nos incomoda e talvez até o que põe em causa as nossas ideias,
nas sucessivas interpretações que vamos dando á realidade, nas diferentes fazes
da vida. O gosto pelo passado, sem vínculo ao presente, apenas serve para
aumentar a nostalgia sobre o que já passou. Importante é conseguir encontrar
ligações entre os tempos passado presente e futuro, questionando o passado com
os olhos do presente e com projetos para o futuro (Mattoso, 1997).
Etapas da pesquisa histórica
Definição, justificação e escolha do tema
Este é um elemento particular de um domínio de conhecimentos que interessa ao
investigador e o motiva a fazer pesquisa na área, aumentando assim os seus
conhecimentos. O seu interesse em estudar determinado tema vem, muitas vezes,
no seguimento de trabalhos anteriores, que este quer explorar de forma
sistematizada, podendo ainda advir de áreas relacionadas com a sua profissão,
leituras efetuadas, etc. É uma etapa nobre, pois influencia o desenrolar de
todas as etapas que se seguem.
O título do trabalho deve informar o leitor sobre o conteúdo, permitindo
vislumbrar o tema e o período em estudo. O tema escolhido deve ter relevância
social e científica e viabilidade, quer a nível dos recursos humanos, materiais
e tempo necessário para a realização de toda a investigação. A originalidade do
tema deve ser um cuidado a ter pelo investigador, pois assim estará a
contribuir para a criação e desenvolvimento de um novo corpo de conhecimentos.
Deste modo, a investigação pode recair sobre temas que ainda não foram
estudados, o que permite colmatar lacunas do conhecimento ou voltar a pesquisar
temas já estudados, porém com uma documentação radicalmente renovada, partindo
de bases teóricas ou metodológicas diferentes, ou rebatendo teses anteriormente
aceites (Padilha e Borenstein, 2005).
Objetivos da pesquisa
A definição do objetivo deve dar a indicação, clara e precisa, sobre o que o
investigador pretende fazer e como o pretende fazer, explicando o quê, onde,
quem e quando.
Na investigação, o enunciado do objetivo é colocado na continuação da
formulação do problema, podendo, em alguns casos, o título da investigação dar
uma indicação sobre o mesmo. Por vezes, os objetivos definem a natureza do
estudo, o problema a resolver e a metodologia a adotar, podendo ser de natureza
quantitativa ou qualitativa, mas, normalmente, será mais utilizada esta última.
Na pesquisa histórica a delimitação do espaço temporal a que se refere o estudo
deve ser explicitada e justificada de modo a esclarecer o leitor dos motivos da
escolha do investigador (Padilha e Borenstein, 2005).
O enunciado das hipóteses
O trabalho de pesquisa assenta numa base teórica logo, as hipóteses devem ser
claramente expressas, verificáveis e apoiadas numa preposição teórica, na
medida em que têm por objetivo explicar um fenómeno.
As hipóteses a serem formuladas devem ser precisas e concisas (evitando as
hipóteses negativas), pois consistem na resposta lógica que o investigador
coloca à pergunta de partida. Na definição das hipóteses, o investigador deve
ter presente que a construção do texto deve ser lógica, refletindo as mudanças
que ocorreram ou ocorrem na sociedade, apresentando assim hipóteses elaboradas
com base na realidade social. Estas tornam-se o instrumento mais importante
para o pesquisador, na medida em que, através delas, decide que tipo de fontes
deve procurar. A hipótese formulada aponta prováveis soluções, que estão
fundamentadas no conhecimento prévio que o investigador tem sobre o tema
(Padilha e Borenstein, 2005).
O marco teórico e a revisão de literatura
Existe uma necessidade intrínseca de ordenar o campo teórico para não se cair
na tentação de caminhar desordenadamente pela história. A história da
enfermagem deve ser interpretada segundo visões justificadas a partir de
abordagens teóricas, onde se torna explícito quem são os atores, o palco e o
cenário. O investigador deve ser imparcial e isento de juízos de valor, de
forma a tentar compreender e não julgar o que se passou, sob o risco das suas
convicções, por vezes apaixonadas e que a experiência histórica formou, lhe
dificultarem essa compreensão.
A revisão da literatura é um inventário do conjunto das publicações
relacionadas com o tema em estudo (Fortin, 2009). Só lendo o que já se escreveu
se pode verificar o estado do conhecimento sobre a temática, identificando o
que se sabe, o que é contestado e o que permanece desconhecido sobre o nosso
tema (Vieira e Ferreira, 2008). Assim, os objetivos da revisão da literatura
consistem em determinar o que já foi escrito sobre um determinado tema e
clarificar a forma como foi estudado (Fortin, 2009). Quando se inicia a revisão
da literatura, o objetivo principal é recolher informação sobre um determinado
tema, para o qual se consultam vários documentos de referência. A diferença
entre a revisão inicial e a revisão sistemática da literatura é que, enquanto a
primeira permite ao pesquisador familiarizar-se com a pesquisa de documentos, a
segunda permite-lhe ir mais longe na análise e na redação da informação.
A fase da revisão da literatura percorre toda a investigação, na procura de
fontes que tenham relação com o tema da investigação e permitam responder às
questões colocadas.
A recolha da informação documental
A fase da recolha da informação documental pode ser a mais longa no processo de
investigação, representando os maiores perigos na forma de possíveis atrasos e
esforços inúteis (Padilha e Borenstein, 2005).
A solução mais eficaz para lidar com este tipo de problemas é localizar os
documentos que se pretende estudar, evitar a dispersão de tempo e manter um
controlo apertado sobre os materiais que se vão acumulando, mediante a
organização e elaboração de fichas de recolha de informação.
As fontes históricas são todo o tipo de informação acerca do que aconteceu num
determinado período de tempo e da forma como essa informação foi preservada e
transmitida. As fontes documentais fazem parte da memória coletiva e da
história, pois são heranças do passado e cabe ao investigador selecioná-las.
Podemos integrá-las na tipologia de fontes primárias ou secundárias, sendo as
primeiras fontes de época e as segundas fontes interpretativas baseadas nas
primeiras.
Na investigação histórica as principais fontes são as primárias, por vezes
também chamadas de "primeira mão". Consistem em documentos
elaborados com o propósito de transmitir informação que possa ser usada no
futuro, sendo constituídas por documentos originais (atas, legislação, diários,
notícias, fotografias) que não foram tratados, analisados cientificamente ou
resumidos por outros investigadores. Outro tipo de fontes primárias são os
testemunhos de pessoas que participaram ou observaram diretamente os factos e
podem ser obtidos através de entrevistas. Estas são as chamadas fontes orais,
usadas quando o objeto de pesquisa se situa num período temporal recente. Um
terceiro grupo de fontes primárias são as fontes não escritas. Consistem em
testemunhos históricos cuja existência não teve como objetivo deliberado e
consciente o de transmitir informação para ser utilizada no futuro. Como
exemplo destas fontes temos os fósseis, moedas, objetos de arte, vestuário,
ferramentas, habitações, entre outros, que podem revelar muito sobre o contexto
socioeconómico e cultural da época.
As fontes secundárias compreendem os trabalhos baseados nas fontes primárias
caracterizando-se por serem relatos de "segunda" ou "terceira
mão" dos acontecimentos históricos. No geral, estas têm um valor limitado
pelas distorções que a informação sofre ao passar por vários autores e
apresentam-se em relatos dos acontecimentos por meio de livros, revistas
periódicas, crónicas, coletâneas, revisões de literatura, e outras obras de
consulta, contendo já a interpretação de quem as escreveu. As fontes
secundárias podem ser consideradas explicações de acontecimentos escritos por
outras pessoas que analisaram, interpretaram ou resumiram as fontes primárias
(Padilha e Borenstein, 2005).
Assim, o investigador que só utiliza fontes secundárias corre o risco de obter
documentos que não são fidedignos e de valor limitado, surgindo por isso a
necessidade de, sempre que possível, recolher dados a partir de fontes
primárias.
O tratamento adequado das fontes históricas pode exigir a utilização de
recursos técnicos, por vezes designados por ciências auxiliares da história,
sendo estas todas as disciplinas científicas aplicadas para extrair de uma
fonte histórica informações sobre um facto. Pode dizer-se que, em boa verdade,
todas as disciplinas científicas podem desempenhar este papel em circunstâncias
adequadas (Valério, 2005).
A crítica e a validação dos dados
Uma vez recolhidos os dados, torna-se necessário organizá-los para assim se
proceder à sua análise, determinando a qualidade e a relevância da informação.
Nesta fase, os dados devem sofrer uma análise cuidadosa com a finalidade de
distinguir o "falso" do "verdadeiro".
Alguns historiadores denominam este processo de crítica externa, ou avaliação
da autenticidade, e crítica interna, ou avaliação da fidedignidade. Este
processo deverá ser devidamente documentado já que é mediante ele que se
determina quais as evidências históricas que suportam as hipóteses da
investigação.
A crítica externa pretende apurar a genuinidade dos documentos, procurando a
autenticidade dos dados históricos (radiografias, análises físicas e químicas à
tinta, pintura, madeira, pedra, etc.). Trata-se de saber se a fonte é aquilo
que aparenta ser no que respeita, por exemplo, à data, local e autor. Quando se
trata de história oral é importante determinar se o sujeito entrevistado
esteve, de facto, no momento e local em estudo. O recurso a estas fontes deve
ser feito através do cruzamento com outras, de preferência escritas, pois o
caráter subjetivo das fontes de informação pode colocar em causa o rigor da
investigação. Quanto maior o desfasamento temporal entre o acontecimento e a
recolha do relato, maior será o risco de erro, fazendo-se jus ao ditado
"quem conta um conto, acrescenta um ponto".
No que concerne as transcrições de material histórico, sempre que existam
dúvidas da sua veracidade, será prudente excluí-las.
A crítica interna trata de saber se as informações transmitidas pela fonte são
exatas. É a preocupação com o peso e o valor das provas, sendo realizada após o
investigador determinar a veracidade das fontes. Esta crítica, ao contrário da
externa, não se prende com os aspetos físicos dos materiais recolhidos, mas sim
com o seu conteúdo, avaliando-se a precisão ou o valor dos dados, pretendendo
sujeitar o documento a uma análise rigorosa, baseada em questões sobre a
história do conteúdo e forma do documento (Bell, 1997).
Análise e interpretação dos dados
A interpretação da informação constitui, frequentemente, uma das etapas mais
difíceis de todo o processo de investigação, pois é nesta fase que se tem uma
visão total do trabalho, sendo necessário contextualizar todos os dados
considerados significativos para o tema em estudo, fazendo as ligações entre as
variáveis. Isto leva a uma reflexão intensa e um exame profundo de todo o
processo de investigação. Os resultados da investigação vão constituir novas
abordagens e conhecimentos sobre os assuntos estudados sendo, por vezes,
necessário situá-los em relação a outros trabalhos publicados em revistas
científicas. Assim, como ciência, a história jamais está completa ou é
definitiva. Os seus resultados estão sempre à espera de outras interpretações e
críticas que lhe atribuam sentido (Junior, 2011).
O investigador deve procurar ser muito sensível ao material utilizado e mostrar
um equilíbrio entre as forças do seu interesse, o interesse social e o
interesse histórico (Padilha e Borenstein, 2005). Deve ainda planear a história
partindo dos dados obtidos, usando o tempo e o espaço para fazer um balanço, e
construir a história criticando os dados em simultâneo, pois nunca será
totalmente imparcial na sua interpretação, no entanto deve ser totalmente
honesto (Vieira e Ferreira, 2008).
Escrever a narrativa
A narrativa histórica é o final do processo da investigação histórica, em que o
investigador, partindo da interpretação dos dados, explica o que aconteceu,
como e por que motivos.
( ) a narrativa coloca-se como a possibilidade de uma simbolização, através da
escrita, do que não foi simbolizado na história, porque ausente, embora esta
ausência pudesse ter se constituído, ou se constituir ainda ( ), em cenas
organizadoras da história (Cardoso, 2000, p. 3-13).
O trabalho final do investigador deve aparecer também como um momento de
reflexão e não como um produto acabado, tentando captar a atenção do público-
alvo, pois os seus resultados estão sempre à espera de novas interpretações e
críticas que lhe atribuam sentido (Junior, 2011). Uma pesquisa termina quando
os seus resultados são dados a conhecer ao público que pode, então, apropriar-
se do produto e avaliá-lo, decidindo pela sua incorporação, ou não, na sua
prática, seja ela ativa ou reflexiva (Sanna, 2011).
Conclusão
Atendendo ao progresso da ciência e da tecnologia, os desafios para este século
estão apenas no início, tendo a investigação em enfermagem um papel primordial
na promoção de uma melhor resposta às necessidades da população em matéria de
saúde.
Esta tarefa pode ser facilitada pelo conhecimento da história da profissão,
pelos avanços e recuos e pelas conquistas nas diferentes áreas do saber.
A investigação histórica obedece a uma série de etapas, fundamentais para a
produção de um trabalho onde é possível agregar um amplo campo de
conhecimentos, tendo como produto final uma história mais ampla, teoricamente
consistente, com diferentes significados e perceções, obtendo um conhecimento
aprofundado da história da profissão e identidade dos seus profissionais.