Conceito de delirium versus confusão aguda
Introdução
A condição clínica conhecida por delirium (American Psychiatric Association,
2002; Organização Mundial de Saúde, 2003), mas também por confusão aguda
(Conselho Internacional de Enfermeiros, 2011), é uma síndrome grave, que
apresenta altas taxas de prevalência e incidência nos serviços de saúde. Está
associada a maiores taxas de morbidade, mortalidade, readmissões hospitalares,
institucionalização (Sendelbach e Guthrie, 2009) e à idade avançada. Apesar da
sua importância na qualidade de vida das pessoas e dos elevados custos diretos
e indiretos com que se relaciona, continua a não ser identificada entre 50 a
75% dos casos (Meagher, 2009) e, em consequência, a não ser convenientemente
tratada.
Apesar de se ter produzido investigação nas últimas décadas, os resultados não
têm contribuído para avanços significativos na prática dos cuidados (Nicholson
e Henderson, 2009) que continua a estar centrada em critérios de natureza
individual (Britton e Russel, 2006). Este facto alerta para a procura das
causas que estão na sua origem. A utilização de diferentes nomenclaturas, como
sinónimos ou significando coisas distintas, não parece ser benéfica para esse
objetivo (Sendelbach e Guthrie, 2009). Os autores divergem, considerando
delirium ou confusão aguda (Sendelbach e Guthrie, 2009; Wang e Mentes, 2009;
Neves, Silva e Marques, 2011), delirium ou estado confusional agudo ou,
simplesmente, delirium (Holroyd-Leduc, Khandwala e Sink, 2010) para descreverem
uma alteração cognitiva aguda associada a uma doença severa (Sendelbach e
Guthrie, 2009). Eventualmente, o diagnóstico de confusão aguda realizado pelos
enfermeiros aplicar-se-á antes de estarem reunidos os critérios de delirium,
sendo assim, neste sentido, um estado prévio, anterior e menos grave
(Sendelbach e Guthrie, 2009). A questão parece ser pertinente e embora o termo
confusão seja imperfeito, é conveniente.
Os autores assinalam a utilização preferencial de confusão aguda pelos
enfermeiros, enquanto o termo delirium recolhe a preferência, embora não
consensual, nos médicos (Sendelbach e Guthrie, 2009), já que o termo tem uma
associação evidente aos estados de hiperatividade, um dos seus sub-tipos,
nomeadamente ao delirium tremens, criando divergências entre neurologistas e
psiquiatras. O delirium é uma entidade nosológica definida na Classificação
Internacional das Doenças (CID) e das doenças mentais (DSM) da Associação
Americana de Psiquiatria (APA) (Nicholson e Henderson, 2009), sendo esta a
classificação habitualmente utilizada. Caracteriza-se por um distúrbio da
consciência, alteração da cognição (memória, desorientação, distúrbio da
linguagem) ou pelo desenvolvimento de uma alteração da perceção, que se
desenvolve num curto período de tempo e tende a flutuar ao longo do dia (DSM-
IV-TR).
Na versão 2.0 da Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem
(CIPE), taxonomia com crescente utilização pelos enfermeiros, a confusão é
definida como um processo de pensamento distorcido, englobando um compromisso
da memória, com desorientação em relação ao tempo, local ou pessoa (Conselho
Internacional de Enfermeiros, 2011), deixando cair a agitação que fazia parte
do conceito nas versões anteriores, o que pode ter importantes consequências na
investigação e na realidade da assistência de enfermagem. Em Portugal, a
linguagem da CIPE está inserida no aplicativo SAPE (Sistema de Apoio à Prática
de Enfermagem), em uso na maioria das instituições de saúde. O delirium é
tipicamente um diagnóstico médico e tem um uso relativamente standard na
prática médica e na investigação interdisciplinar (Sendelbach e Guthrie, 2009).
Esta controvérsia justifica o interesse em desenvolver uma revisão integrativa
acerca dos elementos constitutivos daqueles rótulos, na literatura
internacional, para a interpretação das suas implicações no desenvolvimento de
conhecimento com aplicabilidade na clínica de enfermagem, bem como com o
propósito de propor caminhos para o desenvolvimento de futuras investigações.
Nessa medida, estipulou-se como questão deste estudo: a utilização
indiferenciada dos conceitos de delirium e confusão aguda contribui para o
desenvolvimento do conhecimento em enfermagem? Assim, este estudo tem como
objetivo geral:
determinar a coerência na utilização dos conceitos de delirium e confusão aguda
pelos enfermeiros.
E como objetivos específicos: identificar a relevância atribuída pelos autores/
profissionais ao conceito utilizado; identificar os elementos constitutivos do
conceito de delirium e de confusão aguda; identificar diferenças nos conceitos
utilizados na pesquisa e na clínica; identificar os autores, os tipos de
pesquisa e a coerência teórico-metodológica; e analisar descritivamente os
conceitos usados na investigação realizada para a adoção de um conceito
favorável à construção de conhecimento útil sobre o assunto.
Revisão da Literatura
Para se alcançarem os objetivos propostos optou-se pelo método de revisão
integrativa, o que permite reunir e sintetizar os resultados produzidos pela
investigação para a definição, por exemplo, de conceitos, de maneira
sistemática, ordenada e rigorosa, e obter ilações sobre um tema de interesse
para a prática clínica.
O método empregue para o desenvolvimento das revisões integrativas não é
rígido, ainda que por norma obedeça a um conjunto de regras para a sua
operacionalização. No caso em concreto deste estudo, estabelecemos as seguintes
fases: identificação do tema e seleção da questão de pesquisa; estabelecimento
de critérios para selecionar a amostra; definição das informações a serem
extraídas dos estudos selecionados; avaliação dos estudos; interpretação dos
resultados; e síntese do conhecimento.
Conduziu-se uma revisão da literatura pesquisada na internet de todos os
artigos de investigação originais que relatam fontes de dados, através da
EBSCO, usando as bases de dados eletrónicas CINAHL, MedLINE, MedicLatina e
Psychology and Behavioral Sciences Collection. Para a identificação dos artigos
foram usadas as palavras-chave delirium, acute confusion e nurse. Realizou-se o
agrupamento das palavras-chave da seguinte forma: delirium or acute confusion
(no título) and nurse. A limitação das principais palavras-chave, que poderia
ter um impacte negativo nos artigos encontrados, foi suficiente para se
alcançarem os objetivos propostos, pelo que não foi necessário proceder a
alterações.
Os critérios empregues para a seleção da amostra foram: artigos publicados
entre os anos de 2000 e 2010; escritos em língua inglesa; sobre o tema
delirium/ confusão aguda; que reportassem dados primários; publicados em
revistas científicas de enfermagem; e com full text disponível gratuitamente,
independentemente do método de pesquisa utilizado. Entendeu-se que interessava
a produção científica mais recente e que uma década seria, previsivelmente, um
tempo suficientemente amplo para se obterem os dados desejados.
Foram identificados 62 artigos, tendo sido excluídos 42 após uma revisão da
disponibilidade do texto, da revista de origem, dos conceitos em estudo e
considerando as revisões e duplicações. Dos restantes 20, foram excluídos 13 (2
por não dizerem respeito ao problema; 1 por se tratar de um questionário de
avaliação do conhecimento sobre o problema; 1 por se tratar de um módulo
educacional; 1 por dizer respeito à descrição das experiências vivenciadas
pelos doentes confusos; 1 por se referir às memórias dos doentes que estiveram
internados em Unidades de Cuidados Intensivos; e os restantes 7 por dizerem
respeito a artigos que não tiveram por base uma pesquisa, artigos de opinião e
de revisão). Desta forma, a amostra final foi composta por 7 artigos para a
última revisão.
Os artigos foram numerados do mais recente ao mais antigo, analisados e
classificados pelos três autores, através do uso de um formulário que
desenvolveram para a colheita de dados e que foi preenchido para cada artigo da
amostra determinada. Este instrumento permitiu obter informações sobre a
identificação do artigo e os seus autores, sobre os termos e conceitos
utilizados, sobre as características metodológicas e sobre os resultados. A
síntese dos dados irá ser apresentada de forma descritiva.
Constatou-se que a maior parte dos artigos refere-se ao ano de 2008 (5), sendo
o mais antigo de 2007. Na mesma revista, a Journal of Gerontological Nursing,
foram publicados 2 artigos. Com uma única exceção, todas as pesquisas
decorreram em unidades de cuidados hospitalares de doentes agudos. Em todos,
verifica-se concordância entre os objetivos e o método selecionado, o que não
acontece com o quadro teórico que os justifica, que é por vezes impreciso, a
justificar uma reflexão, e que se relaciona essencialmente com as discrepâncias
na utilização de delirium ou confusão aguda, não havendo coerência nos
conceitos.
Na análise do título de cada um dos 7 artigos, verifica-se que apenas 2
utilizam confusão, ainda que 1 deles se refira a um instrumento de medida do
delirium. Essa aparente utilização como sinónimos não pode deixar de ser
entendida como problemática, na medida em que a Confusion Assessement Method
(CAM) é considerada a escala gold standard para a avaliação do delirium (Dahlke
e Phinney, 2008) e teve por base o conceito da APA apresentado na DSM-IV-TR
(2002), o que sugere uma incongruência. Outros autores, ainda que adotando
delirium, afirmam que a CAM se destina a avaliar estados confusionais agudos
(Dahlke e Phinney, 2008), expressão vaga e aparentemente mais abrangente,
porque remete para diferentes condições clínicas. Estes achados parecem sugerir
uma utilização pouco precisa dos conceitos.
Nenhum dos artigos adota uma definição de confusão aguda isolada, mas o mais
recente (Wang e Mentes, 2009) assume que ambos os termos se referem a um mesmo
problema, utilizado alternadamente pelos profissionais de saúde, seguindo um
conceito simples, em que a sua caracterização não vai além do aparecimento
súbito, curso flutuante e duração breve. Essa ideia é contrária à defendida por
outros autores, que assinalam o delirium como um estado terminal e mais grave
de confusão aguda (Sendelbach e Guthrie, 2009). Dos restantes 6 artigos, 5
aceitam a definição de delirium proposta pela APA, mas ao longo do texto vão
utilizando com maior ou menor frequência o rótulo de confusão, influenciados
pelos termos empregues na documentação ou pelos informantes, o que nos leva a
inferir que se trata de um termo de uso preferencial na clínica.
Quando se atenta nos elementos caracterizadores explicitamente utilizados pelos
autores para o delirium/confusão aguda, apesar de serem apenas 7 artigos, e
este é um dado importante, as discrepâncias são grandes, sendo que apenas o
curso flutuante é comum a todos; há, por isso, diferenças relativamente aos
elementos identificadores dos conceitos. As alterações no nível da
consciência não constam dos artigos 1 e 2 (Wang e Mentes, 2009; Waszynski e
Petrovic, 2008); perturbações da cognição estão ausentes nos artigos 1 e 7
(Wang e Mentes, 2009; Speed et al., 2007); diminuição da atenção não consta
nos artigos 1 e 4 (Wang e Mentes, 2009; Law, 2008); pensamento perturbado' só
é partilhado nos artigos 5, 7, 3 e 6 (Dahlke e Phinney, 2008; Speed et al.,
2007; Voyer et al., 2008a; Voyer et al., 2008b); alteração da perceção é
referida nos artigos 2, 3 e 6 (Waszynski e Petrovic, 2008; Voyer et al., 2008a;
Voyer et al., 2008b); aparecimento súbito não surge no artigo 5 (Dahlke e
Phinney, 2008); e perturbação do comportamento é sugerida unicamente pelos
artigos 3 e 6 (Voyer et al., 2008a; Voyer et al., 2008b). E é nestes dois
artigos que se verifica uma coerência total dos seus elementos, o que estará
relacionado com o facto de o primeiro autor, em ambos, ser o mesmo.
Os conceitos não são estáticos, são evolutivos, o que é patente nas diferentes
versões da Classificação das Doenças Mentais da APA, que deixa de considerar a
atividade motora como relevante para o diagnóstico (Wacker, Nunes e Forlenza,
2005), ao contrário dos dois estudos de 2008 que incorporam o comportamento
como uma das variáveis importantes para a classificação do delirium. Assinale-
se, a este propósito, que os enfermeiros consideram o comportamento dos doentes
como uma das vertentes essenciais para a identificação de uma alteração do
status mental, à semelhança do que é tido em atenção nos critérios da
classificação das doenças (Wacker, Nunes e Forlenza, 2005), sobretudo nas
vertentes de exacerbação motora (Meagher, 2009), e nalgumas versões da CIPE
(até à versão 1.0), pelos riscos que lhe estão associados, mormente o risco de
queda (Sendelbach e Guthrie, 2009).
Relativamente à forma, um deles utiliza uma abordaram metodológica qualitativa,
mas não específica mais (Dahlke e Phinney, 2008). Os restantes seguem desenhos
quantitativos sem discriminarem um método em concreto e desses, apenas 3
referem tratarem-se de estudos do tipo descritivo (Wang e Mentes, 2009;
Waszynski e Petrovic, 2008; Voyer et al., 2008a) e prospetivo (Waszynski e
Petrovic, 2008; Voyer et al., 2008a).
Relativamente aos objetivos, não há conformidade entre eles, nem isso era um
objetivo a priori. O artigo 1 (Wang e Mentes, 2009) centra-se numa pesquisa
realizada em Taiwan, onde foram usadas vinhetas com situações clínicas para
determinar os fatores que afetam a habilidade dos enfermeiros para detetarem o
delirium/ confusão aguda; concluiu-se que a sua identificação nos doentes com
alterações das funções biológicas, para os enfermeiros, não é fácil. Por outro
lado, quando a sua presença junto dos doentes se intensifica, como por exemplo
por necessidade de avaliação frequente da temperatura, as suas perceções acerca
do problema aumentam. Paralelamente, os estados de hiperatividade estão
associados a um melhor reconhecimento, assim como os anos de educação do
enfermeiro e o exercício profissional em ambiente hospitalar. Sobrevaloriza-se
a componente comportamental.
Aqueles dados revelam que um maior contato, quer com um doente individualmente,
quer com doentes nestas circunstâncias, ou a exposição a situações da natureza
do delírium/ confusão aguda, tornam o enfermeiro menos propenso ao erro
diagnóstico, o que não se estranha tendo em conta que a experiência contribui
para uma maior proficiência. Mas por outro lado, os autores valorizam o achado
que se relaciona com as crenças e valores, professadas pelos participantes,
nomeadamente pela consideração da apresentação mais quieta como fazendo parte
do processo normal nos idosos. Ainda que inicial e incompleto parece inferir-se
a construção de um puzzle em que sobressai a insuficiência do conhecimento e
a valorização do comportamento, cuja modificação contribui para a promoção da
segurança (Aguirre, 2010).
O estudo 2 (Waszynski e Petrovic, 2008) pretendia conhecer a utilidade dos 4
itens da escala CAM para a identificação do delirium, na perspetiva dos
enfermeiros, bem como a vontade em modificarem as suas avaliações, ainda muito
baseadas na orientação, aspeto que se terá revelado positivo. Após um período
de formação sobre o delirium e a utilização daquele instrumento, foi possível
aumentar a habilidade na identificação do problema pelos enfermeiros. A questão
da não deteção emerge como o fator chave dos esforços clínicos e da
investigação nesta área, afetando principalmente os doentes hipo-ativos, o que
apela à utilização sistemática de instrumentos de medida fiáveis (Meagher,
2009), mas que deve ter como pressuposto a coerência de conceitos.
Por outro lado, o uso da escala permitiu a deteção do problema em doentes nos
quais não era expectável que o tivessem, com base nas práticas de avaliação em
uso, o que poderá ter a ver com: a) um desconhecimento das características
definidoras; e b) dificuldades de julgamento clínico alicerçadas exclusivamente
na observação e na experiência do enfermeiro. Percebe-se que até aí, a
avaliação do delirium estava muito centrada na desorientação, o que remete
mais uma vez para a delimitação do(s) conceito(s). Relativamente ao
reconhecimento, a literatura atribui inequívoca importância à educação e à
utilização de instrumentos formais de medida (Waszynski e Petrovic, 2008;
Pretto et al., 2009).
O artigo 3 (Voyer et al., 2008a) apresenta como objetivos a determinação: a) da
percentagem de deteção do delirium pelos enfermeiros em contexto de unidades de
longo termo; b) dos sintomas que se constituem como os maiores desafios à sua
identificação pelos enfermeiros; e c) dos fatores associados ao problema que
não são detetados pelos enfermeiros, nesta população específica. Procedeu-se a
uma comparação entre as monitorizações efetuadas por assistentes da
investigação treinados e as respostas dos enfermeiros (com base na sua
observação e julgamento clínico) acerca da existência do delirium e dos seus
sintomas, em dois momentos, com um intervalo de 7 dias.
Os dados resultantes desse estudo são inequívocos. O subdiagnóstico é elevado,
sendo o delirium identificado apenas numa minoria dos casos (13%; 18,7%).
Simultaneamente, na maioria dos casos, em que os enfermeiros o diagnosticam,
estão certos. Os enfermeiros demonstram maior dificuldade em detetar o delirium
do que os seus sintomas isoladamente, o que se situa entre os 34,9% (letargia)
e os 58,1% (discurso desorganizado).
Os autores do artigo sugerem que esta diferença pode entroncar num défice de
conhecimento dos critérios diagnósticos, mas para além disso, na relação
entre os sintomas e o fenómeno, o que é absolutamente determinante para o
presente estudo, justificando-se saber até que ponto as dificuldades na
caracterização correta do problema não terão contribuído para as incongruências
detetadas. Por último, a idade surgiu como um fator associado à não deteção do
delirium, remetendo para a existência de pré-conceitos, o que era também
notório no estudo realizado noutra realidade bem diversa (Wang e Mentes, 2009).
Ressalta a questão dos conhecimentos, o que poderá estar relacionado com a
subjetividade inerente a alguns dos aspetos do problema, mas também a pré-
conceitos enraizados.
O estudo que originou o artigo 4 (Law, 2008) teve como propósito a avaliação do
impacte da introdução de um enfermeiro especialista em psiquiatria para
auxiliar os enfermeiros na assistência aos doentes com delirium e demência, que
foi considerada benéfica. Os autores recorreram, entre outras coisas, à
identificação do nível de conhecimento dos enfermeiros a respeito do delirium e
da demência, através da aplicação de um questionário adaptado, que incluía uma
coluna alternativa para a confusão. A resposta era considerada correta apenas
no caso de o respondente marcar uma definição para cada patologia (não
resultando claro se teria de ser a verdadeira), e incorreta se duas ou três
definições de patologias eram assumidas em cada área de definição. A definição
7, desenvolvimento dos sintomas num curto período de tempo (horas ou dias) com
flutuação no decurso do dia, é transversal às características consensuais de
delirium e de confusão aguda. Há, contudo, uma regra de mútua exclusividade. A
presença de uma alternativa para a confusão não é explicada, sendo lícita a
suposição de que, para os autores, se trata de uma entidade diferenciada.
Constatam-se de novo inconsistências nos conceitos e suas características, bem
como na consideração da sua relevância.
A percentagem de respostas corretas em cada uma das oito definições não vai
além dos 39% (melhor resultado), sendo que das cinco que estão abaixo dos 10%,
duas obtêm 0%. Estes dados, apesar de tudo, mostram um reduzido nível de
conhecimento dos enfermeiros acerca das características do delirium. Contudo,
seria interessante saber qual o valor de respostas corretas relativas à
confusão, mas esse dado é omisso. A dúvida não só é pertinente pela discussão
que tem vindo a ser encetada, como também relativamente a essa pesquisa em
particular, pois não utiliza o termo confusão. As dúvidas, dificuldades e
incongruências parecem ser transversais à clínica e à investigação.
O estudo 5 (Dahlke e Phinney, 2008) pretendia saber através das palavras dos
enfermeiros como é que eles preveniam, tratavam e acediam ao delirium nos
idosos; e quais eram as barreiras e os desafios colocados por essa população
específica. Com o recurso a uma análise de conteúdo temática, os autores
perceberam que os enfermeiros, apesar de terem disponível, no seu sistema de
documentação, um instrumento para a monitorização do problema, utilizavam, por
um lado, questões subtis e pistas a partir da observação do comportamento, como
tirar a roupa, ou as linhas endovenosas para diagnosticarem o problema; e por
outro, tentavam controlar ao máximo a situação, evitando os riscos e
assegurando aos doentes os cuidados de que necessitavam. Verifica-se, de novo,
que a atenção está centrada em comportamentos disruptivos, de exagero, e mais
nas características que num conceito amplo que funciona como um guarda-chuva.
Por outro lado, parece que o know how dos enfermeiros, sobre os idosos e o
delirium, tem por base as suas experiências pessoais e as crenças, que
contribuem pouco para uma conceção profissional, infantilizando o diálogo, o
que está de acordo com os achados de outros estudos (Wang e Mentes, 2009; Voyer
et al., 2008a), facto que poderá influenciar os próprios autores. Para esses
enfermeiros, o delirium refere-se mais à personalidade das pessoas, que a uma
entidade clínica determinada, utilizando inúmeras vezes o termo confusão, o
que leva para a necessidade de introduzir e melhorar a formação sobre o
assunto.
No artigo 6 (Voyer et al., 2008b), avaliava-se a sensibilidade e especificidade
dos sintomas de delirium na documentação elencada pelos enfermeiros, comparando
as notas de enfermagem com uma avaliação do problema e do status de saúde, no
momento da admissão, realizado através da utilização de vários instrumentos '
por exemplo: CAM, Índice de Barthel ', efetuado por assistentes da
investigação, em cada semana até à alta do doente ou num máximo de oito semanas
de internamento. Tratou-se da validação prospetiva de um estudo clínico
randomizado, que identificou os casos prevalentes de delirium, identificados
pela CAM. Emerge desde logo a assunção da confusão como um de seis sintomas
de delirium ' para além do nível de consciência, distúrbios da perceção,
atividade psicomotora, desorientação e perturbação da memória ' documentados no
processo de enfermagem pelos enfermeiros. Os dados vieram demonstrar uma
reduzida qualidade da documentação de enfermagem relativamente aos sintomas do
delirium, inferindo-se a consideração de diferenças entre os conceitos.
Surgiu pelo menos um sintoma em 64% dos registos, o que também pode estar
relacionado com outras condições clínicas, reconhecem os seus autores. Por
outro lado, o termo confusão emergiu com uma sensibilidade de apenas 23,9%,
significando que quando os doentes apresentavam nível alterado de
consciência, inatenção ou pensamento desorganizado, os enfermeiros
reportavam confusão nas suas notas. Paralelamente, os enfermeiros
documentaram alterações no nível da consciência em 18% de doentes sem essa
perturbação, o que poderá indicar a presença de uma outra alteração que os
enfermeiros não souberam diferenciar. Nesse estudo, o delirium hiperativo foi
melhor reportado que o hipo-ativo, 30,9% e 19%, respetivamente. Resultam de
novo as dificuldades, por um lado dos enfermeiros e, por outro, de quem
investiga, na clarificação dos conceitos.
O estudo que deu origem ao artigo 7 (Speed et al., 2007) teve como objetivo
estimar a prevalência de delirium em quinze unidades de cuidados, médicas e
cirúrgicas, recorrendo a um instrumento de recolha de dados elaborado para ser
utilizado em auditorias, num período de quatro semanas. A partir da
identificação, pelo enfermeiro responsável da unidade, dos doentes confusos ou
com delirium, foi realizado uma verificação aos registos, pelos investigadores,
para confirmação. Como primeiro apontamento, a utilização do termo confuso
decorreu da verificação pelos autores, no decurso da colheita de dados piloto
para testar o instrumento, que os enfermeiros usavam esse rótulo para
descreverem as pessoas que aparentavam sintomas de delirium, o que reforça o
argumento de que é esse o conceito preferido por esses profissionais.
Os dados demonstraram que nem todos os doentes classificados como tendo
comportamentos associados a delirium ou confusão pelos enfermeiros ' 183
(15%) em 1209 - têm o respetivo registo, o que para os seus autores se
relaciona com comportamentos que não interferem nos cuidados, levando à ideia
de uma certa inutilidade do fenómeno. Mais concretamente, apenas 36% têm a
confirmação escrita do diagnóstico. É claro ainda, que alguns desses doentes
são rotulados como tendo demência, sem que isso resulte de uma avaliação
formal que confirme o diagnóstico. Paralelamente, o descritor mais comum nas
notas de enfermagem é o termo confusão', pelo que os autores não têm dúvida de
que para os enfermeiros é essa a formulação diagnóstica (Speed et al., 2007).
Mais uma vez parece haver uma décalage entre a investigação e a clínica, entre
o que é procurado e o que se encontra, entre a teoria e a prática. Do que não
há dúvida, é que os enfermeiros desempenham um papel pivô em todo este processo
de cuidados (Pretto et al., 2009) pelo frequente contacto com os doentes,
sendo, por isso, fundamental a estabilização e disseminação do conhecimento, o
que não parece estar a acontecer.
Os artigos revistos desmentem a afirmação de que a integração de todos os
distúrbios agudos e subagudos da cognição, como a confusão aguda, debaixo de um
guarda-chuva chamado delirium, trouxe maior coesão ao que era referido por mais
de 30 sinónimos (Meagher, 2009), pelo menos para os enfermeiros. Um outro
artigo, do mesmo ano, sugere que uma história de confusão, durante uma
anterior hospitalização, é um importante preditor do desenvolvimento de
delirium num internamento posterior (Benedict et al., 2009). Como resultado
dessa divergência, há um fio condutor em todos os estudos analisados, que advém
dos resultados a que vão invariavelmente chegando, refletindo-se nas
recomendações propostas.
Em primeiro lugar, o delirium/confusão aguda parecem ser conceitos encarados
com base no senso-comum, com apelo a ideias preconcebidas que denotam uma
insuficiência teórica grande, independentemente da cultura (Wang e Mentes,
2009; Dahlke e Phinney, 2008; Voyer et al., 2008a), apelando à necessidade de
uma progressiva proficiência. Em segundo lugar, apesar das estratégias
implementadas para a identificação do delirium ou confusão aguda englobarem,
habitualmente, um amplo espetro de descritores, o(s) problema(s) continua(m) a
ser(em) maioritariamente infra diagnosticado(s); o que se deve a: a) ao seu
subtipo hipo-ativo; b) à fraca utilização de instrumentos de monitorização; e
c) a um desconhecimento sobre a totalidade das dimensões que o(s) caracteriza
(m), o que tem consequências. Em terceiro lugar, os enfermeiros da clínica
parecem atender a sintomas específicos, como a desorientação e os
comportamentos exuberantes, recorrendo com frequência à expressão confusão. E
os artigos analisados pautam-se pela mesma medida.
Os autores convergem ao propor o desenvolvimento de programas de educação para
os enfermeiros (Wang e Mentes, 2009; Dahlke e Phinney, 2008; Waszynski e
Petrovic, 2008; Law, 2008; Voyer et al., 2008a; Voyer et al., 2008b), que se
poderão traduzir na introdução destes conteúdos na formação graduada, pós
graduada e contínua (Law, 2008). Em conjunto com a utilização de uma escala de
monitorização do(s) foco(s), potenciar-se-á uma maior habilidade na
identificação do delirium (Waszynski e Petrovic, 2008). Importa ainda
consciencializar os enfermeiros de que o delirium/confusão aguda não é uma
ocorrência normal da idade (Wang e Mentes, 2009; Dahlke e Phinney, 2008; Voyer
et al., 2008a), e para a importância da inter-relação entre os sintomas
isolados e o diagnóstico (Voyer et al., 2008a), esse sim, o aspeto de maior
importância.
Conclusão
Através da análise das publicações incluídas na amostra, considerou-se que os
artigos científicos na área do delirium/confusão aguda reportam uma fragilidade
relativamente ao conceito que melhor traduz o problema, o que advém de
dificuldades a nível dos conhecimentos acerca do diagnóstico, diagnóstico
diferencial e características definidoras, que se acentuam mais entre os
investigadores e os enfermeiros da clínica. E o que está em causa não é a
qualidade dos artigos analisados, mas as claras dificuldades na estabilização
de um conceito, que é complexo, e que diga, sem margem para dúvidas, o que se
quer.
Os resultados são a prova de que há indefinição grave dos conceitos, tornando-
se necessário evoluir na sua consolidação, quer na prática, quer na teoria. É
evidente que não há ainda uma consolidação, aceitação, utilização e divulgação
generalizada de uma formulação única e da sua substância, que permita avanços
na investigação e, consequentemente, na clínica. Em face dessa constatação,
sugere-se que: a) se progrida na definição do conceito que melhor traduza o
problema e na clarificação definitiva das suas diferenças; b) a investigação se
centre na utilidade clínica de delirium/confusão aguda para os enfermeiros; c)
sejam incorporados os conteúdos relativos ao delirium/confusão aguda na
formação dos enfermeiros; d) se proceda à inclusão na prática clínica de
instrumentos de medida fiáveis e validados, que auxiliem o enfermeiro na
decisão, contribuindo dessa forma para a diminuição dos casos que passam
despercebidos.
Por outro lado, a existência de uma Classificação Internacional para a Prática
de Enfermagem, englobando conceitos como a confusão', justifica que se reflita
sobre a sua progressiva integração no discurso e na prática dos enfermeiros. O
delirium/ confusão aguda é um problema de saúde grave, com um impacte
significativo nos doentes, nas suas famílias, nos profissionais e no sistema de
saúde, o que tende a acentuar-se com o envelhecimento progressivo da população.
Por via disso, importa muito evoluir-se neste domínio, de modo a que a
assistência prestada cumpra os desígnios da qualidade e da excelência.