Equipe de saúde e familiares cuidadores: atenção ao doente terminal no
domicílio
Introdução
O processo de morrer e morte tem se tornado cada vez mais institucionalizado,
solitário e mecânico, visto que o medo de morrer ou de perder alguém querido
nos leva a procurar os mais variados artifícios a fim de prolongar a vida.
Esses artifícios, muitas vezes, se configuram em procedimentos desumanos,
descaracterizando totalmente a humanização dessa etapa da vida, a qual deveria
acontecer, sempre que possível, na presença das pessoas amadas, envolta de
carinho e atenção, em um lugar aconchegante: o ambiente familiar.
Quadro teórico
A morte no domicílio é o desejo real de muitos doentes em fase terminal. Estes
doentes são caracterizados como aqueles fora de possibilidades terapêuticas de
cura, gravemente doentes, numa condição irreversível, os quais contam com alta
probabilidade de morrer num período relativamente curto de tempo (Kipper,
2009). São doentes para os quais não há mais tratamento voltado para a
eliminação da doença que deteriora o corpo físico, todavia, são pessoas que
necessitam de outras demandas de cuidados vinculados às esferas física,
psíquica, social e espiritual, com vista a não somente controlar os sintomas da
patologia, mas também promover qualidade de vida no fim da vida (Kübler-Ross,
2008).
Nessa perspetiva, existem os serviços de internação domiciliar, onde uma equipe
multiprofissional presta cuidados no domicílio do paciente de forma integral e
contínua, supervisionando e orientando sobre várias ações, podendo ou não
utilizar equipamentos e materiais (Lacerda et al., 2010). O referido serviço
acolhe e assiste, dentre outros pacientes, os doentes terminais, no intuito de
lhes propiciar medidas de conforto por meio da atuação conjunta com o familiar
cuidador no domicílio, fato que reduz o tempo ou a necessidade de internamento
hospitalar contínuo.
A equipe de saúde é responsável pela assistência prestada à família com o
objetivo de ajudá-la, da melhor forma possível, no desempenho da sua tarefa de
cuidar. Sua atividade principal é assistir ao paciente e seus familiares, para
que estes possam alcançar independência e administrar os cuidados necessários
de acordo com cada situação (Lacerda et al., 2010).
Porém, muitos familiares cuidadores não estão preparados para vivenciar o
processo de morrer e morte do seu ente querido, sobretudo dentro das suas
casas, uma vez que muitos deles não possuem essa experiência. Temem a morte por
medo do sofrimento do familiar e que o ambiente fique impregnado de más
lembranças, além de temer possíveis demoras com a remoção do corpo de seu
domicílio (Ferreira, Souza e Stuchi, 2008).
Portanto, pode ser difícil assistir à morte de um ser humano, tanto para
profissionais de saúde com experiência no cuidado como para os familiares
cuidadores, pois envolve sentimentos intensos como tristeza, sofrimento, dor e
até mesmo fracasso, quando se trata de um cuidado centrado na conceção
curativista. São nessas situações que a própria finitude é percebida, pois a
morte é presenciada através da morte do outro, e de modo não raro, projeta-se a
mesma para a própria vida (Sapeta e Lopes, 2007).
Tais considerações justificam a importância de se estudar a temática em questão
nos mais variados contextos, dentre os quais se destaca, neste momento, o
ambiente domiciliar. Portanto, emerge como problema norteador deste estudo:
qual a perceção da equipe de saúde e familiares cuidadores de doentes terminais
em domicílio em relação ao cuidado dispensado a estes durante o processo de
morrer e morte?
Assim, objetivou-se com este estudo identificar as perceções que a equipe de
saúde e familiares cuidadores de doentes terminais em domicílio possuem em
relação ao cuidado dispensado a estes durante o processo de morrer e morte.
Acredita-se que este artigo poderá auxiliar na reflexão acerca da importância
de desinstitucionalizar o morrer e a morte de pacientes, considerando a
possibilidade de haver maior aproximação de seu meio social, o domicílio, no
último momento de vida, bem como contribuir para uma melhor compreensão do
processo de morrer e morte, tanto para o familiar cuidador quanto para a equipe
de saúde.
Metodologia
Tratou-se de um estudo descritivo-exploratório, com abordagem qualitativa. Os
cenários do estudo foram o Serviço de Internação Domiciliar (SID), de um
Hospital Universitário localizado numa cidade do interior do Rio Grande do Sul,
e a residência de familiares cuidadores de doentes terminais vinculados a este
serviço.
Este serviço foi criado em 2005, no referido hospital, com objetivo de manter a
continuidade do tratamento dentro do ambiente familiar, reduzir o tempo e/ou a
necessidade deinternamento hospitalar de determinados casos, bem como diminuir
o risco de complicações como infeções hospitalares e o desgaste emocional da
familia e do paciente (Hospital Universitário de Santa Maria. Serviço de
Internação Domiciliar, 2012). A média de atendimento mensal é de 15 pacientes,
seja com doenças crónicas ou em tratamento paliativo, que se destina à melhoria
da qualidade de vida, diante de uma doença ameaçadora de morte, por meio da
prevenção e alívio do sofrimento, o tratamento da dor e demais sintomas
físicos, sociais, psicológicos e espirituais (World Health Organization, 2002).
Os sujeitos da pesquisa compreenderam a equipe multiprofissional do SID, no
período da coleta de dados, composta por: duas enfermeiras, uma auxiliar de
enfermagem, uma médica e uma nutricionista, bem como quatro familiares
cuidadoras de doentes terminais vinculados ao serviço, totalizando nove
sujeitos.
A escolha destes profissionais ocorreu devido à sua importância em relação ao
tema eleito para a pesquisa, consideradas, desta forma, portadoras de
representatividade social numa circunstância específica. Eles possuem um
contato mais direto com os pacientes terminais no domicílio, tanto em âmbito
hospitalar como domiciliar.
A seleção dos familiares cuidadores ocorreu conforme a demanda do serviço no
período em que foi realizado o estudo, utilizando-se os critérios de inclusão:
ter idade mínima de 18 anos; estar vinculado ao SID; estar a vivenciar o
processo de morte ao mesmo tempo em que presta cuidados domiciliares ao doente
terminal. O convite à participação dos sujeitos foi realizado por meio de
contacto pessoal com as profissionais e os familiares, momento no qual foram
apresentados os objetivos desta investigação e sanadas as dúvidas que,
porventura, existissem, a fim de obter a concordância para a participação na
pesquisa.
A coleta de dados ocorreu em 2009, após apreciação do projeto pelo Comité de
Ética em Pesquisa da universidade, sob o número nº 2308102066/2008-23. Como
instrumento de coleta de dados utilizou-se a entrevista semi-estruturada, com
as seguintes questões: "o que significa para você cuidar de um doente
terminal em seu próprio domicílio?" e "qual a sua percepção a
respeito do cuidado domiciliar para doentes terminais?". As entrevistas
foram realizadas individualmente, em data, local e horários previamente
definidos com os participantes.
Para garantir a fidedignidade das informações coletadas, as entrevistas foram
gravadas em gravador do tipo mp3 player e transcritas a posteriori. Em seguida,
procedeu-se à validação das mesmas, por meio da sua devolução para cada
entrevistada a fim de obter a sua ratificação e aprovação quanto ao conteúdo
abordado.
Os dados foram analisados e interpretados por meio da Análise de Conteúdo,
conforme Bardin. Nessa técnica, considera-se a presença ou a ausência de uma
dada característica de conteúdo ou um conjunto de características num
determinado fragmento da mensagem. Este tipo de análise é uma técnica que
permite, de forma prática e objetiva, produzir inferências do conteúdo da
comunicação de um texto, replicáveis ao seu contexto social (Bardin, 2009).
No primeiro momento da análise e interpretação dos dados realizou-se a
comparação entre o conteúdo das entrevistas, agrupando quando havia semelhança.
Na sequência, esse conteúdo foi articulado com referenciais da área estudada a
fim de embasar, comparar e discutir teoricamente os resultados da investigação.
Ainda, assegurou-se a preservação da dignidade, respeito à autonomia e defesa
da vulnerabilidade dos seres envolvidos na pesquisa, de acordo com a Resolução
196/96 do Conselho Nacional de Saúde (Brasil. Ministério da Saúde. Conselho
Nacional de Saúde, 1996). A fim de garantir o sigilo da identidade dos
sujeitos, foram adotados os códigos P (P01, P02...), relativo aos
profissionais que integram a equipe do Serviço de Internamento Domiciliar, e
F (F01, F02,...), referentes aos familiares cuidadores.
Resultados
Os participantes do estudo são todos do sexo feminino. Assim, tomando por base
as falas das profissionais do SID e das familiares cuidadoras dos doentes
terminais em domicílio, emergiram três categorias: o domicílio (espaço
destinado ao cuidado focado nas singularidades do doente terminal); A educação
e preparação para o cuidado ao doente terminal e as possibilidades do cuidado
humanizado.
O domicílio: espaço destinado ao cuidado focado nas singularidades do doente
terminal
A perceção das entrevistadas acerca do local ideal para a realização do cuidado
aos doentes terminais apresenta divergências entre o ambiente domiciliar e o
ambiente hospitalar. Algumas preferem cuidar no domicílio por haver maior
familiaridade do local entre pacientes e familiares, como descrito nas falas
abaixo:
O cuidado de um paciente terminal no domicílio é uma evolução na medicina e
cuidados paliativos em geral, porque o paciente tem o conforto do lar, próximo
à família e consegue se manter mais aconchegante, mais tranquilo do que se
estivesse num hospital, cuidado por pessoas estranhas (...). Isso melhora o
tratamento (...) no fim da vida (P01).
Acredito que quando cuidamos de uma pessoa na própria casa dela, ela estando
no ambiente onde está acostumada, ela tem mais privacidade (...), escolhe o
jeito que pretende morrer porque pode se cercar de toda a família, se quiser,
ou pode escolher só um familiar para ficar junto com ela (P02).
Os profissionais asseguram que a escolha pelo cuidado no domicílio justifica-se
porque ele propicia maior convívio entre o enfermo e a sua família, pela
possibilidade de desfrutar do conforto do lar, mas também permite aos
familiares cuidadores o retorno das atividades rotineiras. Além disso, o ato de
cuidar no ambiente domiciliar possibilita uma maior perceção das legítimas
necessidades do paciente, de acordo com a realidade das pessoas que vivem e
convivem nesse ambiente, possibilitando uma assistência mais humanizada, focada
no indivíduo, de acordo com o relato a seguir:
Na casa, a gente está perto de tudo aquilo que constitui a vida que está
terminando, das coisas dele [paciente] (...), relações pessoais, pequenas
perceções, animais de estimação. Eu acho que o fato de estar ali possibilita
que a gente possa ter um olhar diferenciado e mais voltado para o que ele
realmente precisa, o que ele realmente espera de nós. (...) Ali [domicílio]
você está diante de toda uma situação de vida que no hospital você não consegue
dimensionar porque não conhece a realidade da vida das pessoas (P03).
Por outro lado, este depoimento evidencia que a preferência pelo cuidado no
ambiente hospitalar se dá pela presença dos profissionais da saúde, uma vez que
a residência do doente não apresenta todo o suporte hospitalar, no tocante a
tecnologia, profissionais tecnicamente especializados e assistência
ininterrupta diária. Estes fatores geram um sentimento de segurança para os
familiares, somados ao fato de que no domicílio eles são os responsáveis pelo
cuidado, ainda que não se sintam preparados para tal. Tal questão é apontada
nas falas a seguir:
[A paciente] prefere até, às vezes, estar no hospital, porque ela se sente
mais segura. É porque tem as enfermeiras ali (...). Mas os medicamentos os
mesmos que ela recebe em casa, recebe no hospital (F01).
Estando num hospital (...), a visão é que tu ainda está fazendo alguma coisa.
(...) Ainda existe possibilidade. (...) Claro que reanimar uma pessoa quando
está no estágio terminal não teria possibilidade, não seria ético (...) tu
estás indo pro hospital é porque ainda há alternativas (F04).
Como apontam esses familiares, a assistência domiciliar para pacientes em fase
final de vida enfoca basicamente as medidas de conforto, como, por exemplo, o
alívio da dor e do sofrimento. Mesmo sendo de grande importância, este serviço
ainda não apresenta muita visibilidade, pois os seus resultados consistem em
pequenas manifestações que interferem na qualidade de vida e morte do doente,
mas que não alteram seu prognóstico. Entretanto, a despeito disso, a internação
hospitalar é percebida como uma nova hipótese, uma nova possibilidade de
tratamento, independentemente do estado do doente.
A educação e preparação para o cuidado ao doente terminal
O papel desenvolvido pela equipe multiprofissional do SID é percebido, em
síntese, pela preparação e orientação da família para receber e assistir o
doente no domicílio, o que objetiva proporcionar, além de outros fatores,
segurança e tranquilidade para os cuidadores, além de ser interpretado como uma
continuação do tratamento dadono ambiente hospitalar. Percebe-se isso na fala
abaixo:
Os profissionais de saúde têm que trabalhar e ajudar eles (os familiares) a se
organizarem, dar o melhor atendimento, segurança e tranquilidade pra que eles
tenham aquele atendimento, mas sempre respeitar o desejo, a vontade do doente,
enquanto ele puder verbalizar. Mas a gente consegue trabalhar desde que as
pessoas estejam abertas e dispostas a (...) lidar com aquilo (P05).
Preparar os cuidadores é preparar uma pessoa para o resto da vida e ela vai
reproduzir isso (...) na relação familiar que ela tem, na sociedade, na
vizinhança. Enfim, tu estás construindo, de uma forma até não intencional, a
educação em saúde (P03).
Tais depoimentos indicam que a equipe de saúde necessita conhecer a real
situação desse doente no intuito de aproximar os seus familiares, proporcionar
conforto e tranquilidade a todos os envolvidos e esclarecer todas as possíveis
dúvidas que vierem a existir. Visto que a atuação dos familiares no contexto da
finitude humana está associada, principalmente, ao subjetivo e à doação de
sentimentos, além da reprodução consciente das informações técnicas ensinadas
pela equipe do SID. Isso é abordado na fala do cuidador a seguir:
Desejamos proporcionar ao doenteo conforto, o amor, o carinho (...), o
conforto da alma. (...) O tratamento vem da parte do hospital e a gente tenta,
da melhor forma, seguir o que eles pedem. Claro que a gente precisa deles
(equipe) para continuar esse tratamento. A gente sozinha não faz, não está
acostumado, tenta fazer o melhor possível. E quando a gente precisa de ajuda,
eles prontamente ajudam (F04).
Em outros trechos, alguns cuidadores e profissionais asseguram que a atenção no
domicílio, muitas vezes, não ocorre por falta de prepararação do familiar, ou
pouca compreensão e incapacidade para identificar as necessidades do paciente.
Isso é dito a seguir:
É triste de ver. (...) A mãe faz seis meses que está na cama, não fala nada. É
bravo pra mim. Não saber o que a pessoa quer (...). A gente que não compreende
essas coisas (F03).
A grande maioria deixa de cuidar porque não quer, (...) então rejeitam, (...)
não sabem o que fazer com aquele doente que está terminal em casa (P03).
Tem alguns que a gente percebe que querem realizar aquela atividade porque
estão dispostos a cuidar daquele doente. Tem outros que (...) nitidamente não
gostariam e estão fazendo aquilo porque não têm outra pessoa que faça. E, às
vezes, a gente percebe que fica só uma pessoa. (...) É difícil mesmo pensar que
a qualquer momento aquela pessoa vai morrer e tu vais estar sozinha (P05).
Essas falas apontam que, além do fato de saber ou não saber como cuidar e da
vontade de querer ou não quere ser cuidador, o familiar que assiste ao paciente
terminal, com frequência, é visto como um obstáculo na realização do cuidado,
muitas vezes agravado pela falta de apoio da própria família, a qual,
comumente, sobrecarrega um dos seus membros.
No tocante ao preparo dos profissionais da saúde para trabalhar com essa
clientela em processo de morrer e morte, alguns deles relataram que não tiveram
preparação adequada, durante o período de formação académica, para lidar em seu
quotidiano de serviço com os doentes terminais, como salienta a seguinte
entrevistada:
Na minha formação, eu nunca tive nenhuma aula que trabalhasse essa temática. A
gente trabalhou um pouco sobre conceitos de morte, essas coisas. E fora isso
ficou bem no raso. (...) Eu, quando me vi diante da primeira situação de morte,
não sabia o que fazer, como 100% das pessoas (P03).
Portanto, esta profissional assegura que a falta de prepararação para o cuidado
do doente terminal não é exclusividade dos profissionais da área da saúde, mas,
de certa forma, é um problema que rodeia o ser humano de forma geral, o qual
evita qualquer lembrança que remeta à sua própria finitude.
Possibilidades do cuidado humanizado
Mesmo estando fora de possibilidades de cura, ainda existe muito a ser feito
pelo doente terminal. Aliada a parte clínica e técnica, tem-se a parte
relacional do cuidado, que é de extrema importância nesta etapa, como tratado
nessas falas:
Acho que é uma grande oportunidade da gente exercitar a chamada humanização, o
respeito ao outro, enfim, valores que parecem tão básicos e tão simples, ainda
mais em um ambiente externo e até hostil como é o hospital. (...) Não se
consegue ter um cuidado com esses valores, com essas singularidades do
indivíduo. Então, pra mim, o cuidado domiciliar ao paciente terminal significa
basicamente isso: respeito à individualidade das pessoas, o exercício maior de
compaixão humana. (...) É a possibilidade de ser mais humano e menos
intervencionista (P03).
Ela (paciente) precisa de cuidados especiais e, não mais daqueles cuidados de
fazer o curativo, instrumental, de fazer uma técnica. Isso é necessário, mas
ela precisa de algo mais. Assim, dessa coisa da relação, de dar espaço para
ouvir ela. (...) Para conseguir conversar, demonstrar que a gente está ali.
(...) Acho que a gente tem que conseguir oferecer outras formas de cuidado como
(...) afeto, escuta, presença (P05).
Conforme exposto nas falas acima, percebe-se a necessidade de haver o resgate
do aspeto humano do cuidado profissional, que muitas vezes, é esquecido e, até
mesmo, banalizado, em detrimento de cuidados curativistas e tecnicistas. Desta
forma, torna-se importante que pacientes e profissionais estabeleçam uma
relação de respeito ao próximo, pautada no diálogo e na compreensão.
Discussão
No Brasil, os serviços de internamento domiciliar organizam-se desde 2002.
Entretanto, o processo de internamento domiciliar do doente terminal exige da
família que um dos seus membros assuma a responsabilidade pelos cuidados
(Oliveira et al., 2012).
A permanência no domicílio permite ao paciente terminal manter por mais tempo a
sua funcionalidade e o controle sobre si mesmo, bem como proporcionar a
continuidade das suas relações familiares e sociais (Inocenti, Rodrigues e
Miasso, 2009). Além disso, a Medicina Paliativa aponta como prioridade a
manutenção do paciente em sua casa, para que o mesmo desfrute de maior
qualidade de vida, carinho e atenção daqueles que o cercam, podendo ter
minimizado, o seu medo de morrer (Oliveira, Bretas e Yamaguti, 2007).
Assim, como lembra Figueiredo e Figueiredo (2007) o ambiente hospitalar não
seria o mais desejável quando se pensa na finalidade dos cuidados paliativos.
Pois, nesse espaço convive-se com ruídos excessivos, ausência demasiada de
privacidade e conforto, o emprego de inúmeras rotinas e procedimentos
desgastantes, a comida é padronizada e, comumente, pouco atraente ao paladar.
Entretanto, o internamento hospitalar do paciente terminal pode ser confundido
pelo familiar cuidador como possibilidade de cura, o que evidencia a
substituição da condição de morte pelo conceito de doença grave. Essa tentativa
de fazer mais alguma coisa pode ser remetida ao desejo de não ficar com culpa
por não ter tomado atitude diante da morte do paciente, e, simplesmente, deixá-
lo morrer. Outro ponto, nesta oscilação de consciência por parte do cuidador,
refere-se à constante busca de algo a mais para fazer, a fim de obter a cura do
paciente (Hoye e Severinsson, 2010).
Isso acontece porque as relações que as pessoas estabelecem, sobre a
terminalidade, são permeadas de diversas formas de enfrentamento, representando
alguns desafios para cuidador familiar e para o paciente terminal, pois implica
a observação e acompanhamento da finitude do ser humano (Oliveira et al.,
2012).
O cuidador, independentemente das possibilidades terapêuticas, altera a
dinâmica familiar, redimensiona a sua vida para conviver com a doença e as
implicações dela consequentes. Tal situação pode acarretar na sua sobrecarga,
já que, geralmente, assume sozinho a responsabilidade pelos cuidados, pois a
maior parte dos membros da família não participa dessa rotina ou, quando se faz
presente, é de forma esporádica e fragmentada. Neste contexto, pode haver perda
progressiva de energia, fadiga e esgotamento emocional do cuidador, bem como
comprometer a qualidade do cuidado prestado (Ribeiro, 2010).
Sob outro enfoque, a equipe do SID desempenha um atendimento interdisciplinar
fundamental para o estímulo e acompanhamento da família, durante o processo de
recuperação ou em tratamento paliativo, por meio de orientações na atividade de
cuidar no domicílio. Essas ações educativas permitem que o familiar seja
imbuído de autonomia, tanto para o cuidado do paciente quanto para os cuidados
consigo mesmo (Oliveita et al., 2012).
Todavia, para que isso ocorra é essencial que o cuidador realmente tenha
interesse e esteja disposto a desempenhar tal função. Assim, Gargiulo et al.
(2007) assegura a necessidade do estímulo para os diálogos, as reflexões e os
questionamentos, ao passo que as pessoas tem a opção de aceitar ou rejeitar,
adotar ou não novos conhecimentos.
Por consequência, a equipe de saúde do SID deve apresentar conhecimentos
científicos e competência técnica para fornecer orientações de cuidado, além de
habilidade nas relações interpessoais, para lidar com questões emocionais,
tanto do paciente que morre, quanto do cuidador que assiste o definhamento do
seu ente querido. Para Galvão e Pinochet (2009), a educação, nesse processo, é
de grande importância para que se alcancem os objetivos propostos,
possibilitando uma maior integração equipe-família-paciente.
Em virtude disso, os cursos de formação académica devem oferecer maior espaço
para trabalhar com a relação profissional - paciente e o contato com as emoções
e sentimentos, que as relações com os doentes e familiares provocam, e que
também fazem parte do seu quotidiano. Segundo Junqueira e Kóvacs (2008),
atualmente, as questões sobre a terminalidade humana e a morte propriamente
dita recebem, geralmente, um enfoque superficial e simplista (quando não
técnica) de ensino, com ênfase na preservação da vida e na busca da cura,
tornando banalizado um conteúdo complexo que desperta sentimentos e emoções
naqueles que vivenciam a sua ocorrência.
Contudo, a prestação do cuidado ao paciente terminal no domicílio, para ser
considerada de forma efetiva, requer do profissional da saúde não só o
conhecimento da patologia em si, mas a perceção para identificar as
necessidades não ditas, para compreender o que se oculta atrás das palavras,
para entender o processo de morrer e morte e auxiliar o paciente, cuidador e
demais familiares (Porto e Lustosa, 2010).
Há que se resgatar o humanismo perdido nas modernas ações da saúde, cheias de
tecnologia e de eficácia curativa, mas tristemente sem significado no que diz
respeito à empatia, ao amor, à afetividade, ao calor humano e, portanto,
incapazes de eficácia integral no consolo ao sofrimento do indivíduo (Porto,
Lustosa, 2010, p. 78).
Assim, o processo de humanização em saúde deve resgatar a singularidade e
integralidade no cuidado ao paciente em fase terminal, considerando que ele,
muitas vezes, apresenta-se frágil e com limitações de natureza psicossocial,
espiritual e física (Oliveira et al., 2011).
Em síntese, o cuidado ao doente terminal em domicílio possibilita um olhar
direto ao paciente, sujeito de uma vida e história e não como prisioneiro de
uma doença em fase final, talvez esse seja o componente mais importante das
práticas de saúde. Pois, mesmo que a presença da morte seja eminente, sempre
haverá possibilidade de resgate, adaptação e de manutenção da dignidade e
qualidade de vida.
Conclusão
A presente pesquisa estudou as vivências da equipe de saúde e familiares
cuidadores de doentes terminais no domicílio. Neste contexto, o domicílio é
relatado como local ideal para a realização do cuidado de doentes terminais,
pois este propicia conforto, privacidade, liberdade além da proximidade com a
família, o que vem ao encontro dos preceitos da paliação. O hospital, por sua
vez, oferece maior segurança uma vez que disponibiliza de todo um aparato
tecnológico e assistência diária de profissionais da saúde.
O trabalho da equipe do serviço de internação domiciliar consiste
principalmente na preparação e orientação da família para receber o paciente no
domicílio, além do suporte assistencial, sendo percebido também como a
continuidade do tratamento oferecido pelo hospital. Além disso, evidenciou-se a
importância de uma escuta e de um olhar diferenciado nesta etapa da vida,
somado à falta de preparação para lidar com a morte proveniente de uma educação
académica insipiente e do despreparo emocional-pessoal.
A partir do presente estudo, observa-se a necessidade de se trabalhar a questão
da morte nos mais variados contextos, não somente nos cursos de graduação, que
ajudaria num melhor preparo dos profissionais da saúde refletindo numa melhor
assistência aos pacientes em fase terminal e aos seus familiares, mas no
quotidiano, com o objetivo de atingir as pessoas em geral, para que tenham uma
melhor compreensão a respeito desta fase da vida que implicaria, de certa
forma, uma melhoria da qualidade de vida e morte da população.