Principais causas de insuficiência renal aguda em unidades de terapia
intensiva: intervenção de enfermagem
Introducao
Ao estudar a sociedade e a ciencia da saude e possivel notar significativas
transformacoes no perfil epidemiologico da populacao. Essas mudancas foram
impulsionadas por medidas que reduziram a mortalidade por doencas infecciosas e
parasitarias. Dentre elas, podem ser citadas: medidas de controle e erradicacao
de epidemias; saneamento basico; descoberta de antibioticos; e o processo de
urbanizacao/industrializacao.
Nas ultimas decadas, medidas sanitarias especificas como o controle e
erradicacao de grandes epidemias, saneamento basico, avancos da antibioterapia
e da quimioterapia, entre outras, resultaram em acentuada reducao da
mortalidade por causas infecciosas e parasitarias, contribuindo para o aumento
da esperanca de vida e envelhecimento da populacao (Oliveira e Alves, 2009, p.
477).
As adocoes das medidas de reducao de mortalidade resultaram num aumento da
expectativa de vida da populacao, o que, por outro lado, acometeu em aumento
das patologias cronico-degenerativas. Quando uma pessoa e acometida por uma
doenca de caracteristicas cronicas, enfrenta diversas alteracoes no estilo de
vida provocadas por inumeras restricoes decorrentes da sua presenca, das
necessidades terapeuticas e do controle clinico, alem da possibilidade de
submeter-se a internamentos recorrentes (Oliveira e Alves, 2009, p. 478).
Em consequencia desses tratamentos e, muitas vezes, da hospitalizacao por
longos periodos, ocorre um aumento no numero de patologias, como a
Insuficiencia Renal Aguda (IRA), que se desenvolvem como complicacoes de outras
doencas.
A IRA e uma das complicacoes mais comuns no ambiente hospitalar e sua
incidencia varia de acordo com a gravidade do paciente. E uma patologia
reversivel, caracterizada pela rapida queda da capacidade dos rins em retirar
as escorias do organismo, o que causa disturbios hidricos, eletrolitos e acido-
basicos.
De acordo com a pesquisa de Santos et al. (2009), a incidencia de IRA em
unidade de internamento e de cerca de 1,9%, mas em Centro ou Unidade de Terapia
Intensiva (UTI) foi identificada uma incidencia de 40%, com mortalidade dos
pacientes em torno dos 70%. Santos e Matos (2008) identificaram uma incidencia
de 40,3% nos pacientes internados em UTI. Ja Souza et al. (2010) identificaram
na sua pesquisa uma incidencia de IRA de 29% nos pacientes internados em UTI e
Bernadina (2008) 9,2%. Os estudos de Holcombe e Feeley (2007) apresentaram uma
incidencia de 20% em pacientes tratados em UTI com uma mortalidade que varia de
70 a 80%. Assim, e evidente que a variacao da incidencia apresentada nas
pesquisas e na literatura e pequena, o que confirma uma alta incidencia dessa
patologia, com excecao dos estudos de Bernadina (2008) que apresentaram valores
menos relevantes.
A UTI tem como funcao atender pacientes que necessitam de cuidados complexos e
especializados. Para tanto, ela possui recursos materiais e humanos capazes de
atender as necessidades desses pacientes. Assim, as Unidades de Terapia
Intensiva (UTIs) sao unidades hospitalares destinadas ao atendimento de
pacientes graves ou de risco, que dispoem de assistencia e de enfermagem
ininterruptamente, com equipamentos especificos proprios, recursos humanos
especializados, e que tem acesso a outras tecnologias destinadas ao diagnostico
e terapeutica (Uenishi, 2005, p. 15).
Contudo, mesmo possuindo tais recursos, as UTI's possuem altas incidencias de
pacientes que desenvolvem IRA e com elevadas taxas de mortalidade. Sendo a IRA
uma disfuncao reversivel e prevenivel, surge a problematica: quais as
principais causas do internamento em UTI de pacientes que evoluem com IRA?
De acordo com a literatura estudada, pode-se apontar como hipoteses a
hipoperfusao, causada principalmente por sepsis ou hipovolemia, e tambem o uso
prolongado de nefrotoxicos. Esses eventos provocam lesoes nos nefronios que
causam a diminuicao rapida da funcao dos mesmos, o qual chamamos de IRA e que,
caso nao seja revertido rapidamente, pode tornar-se irreversivel ou levar o
paciente ao obito.
O presente estudo e motivado pela alta incidencia de IRA em pacientes
hospitalizados, principalmente em UTI, como ja citado anteriormente, sendo
evidente a necessidade de verificar as principais causas dessa complicacao tao
comum nesse ambiente para melhor prevenir ou realizar o diagnostico precoce. A
motivacao surgiu devido ao acompanhamento de pacientes internados em UTI, que
na sua grande maioria evoluem para disfuncao renal e, muitas vezes, o desfecho
e o obito.
Diante do exposto faz-se necessario identificar as principais causas de
internamento em UTI que evoluem para IRA. Servindo assim como subsidio para
aprofundamento dos fatores relacionados a prevencao e minimizacao de
complicacoes em pacientes criticamente enfermos, de forma organizada e
sistematica.
Assim, tem-se como objetivos: Identificar as principais causas de IRA em
pacientes internados em UTI e descrever as intervencoes de enfermagem para as
causas de IRA em UTI.
Revisao da literatura
Os rins sao orgaos pares responsaveis por inumeras funcoes que preservam a
homeostasia do organismo. Dessa forma, ao ser acometido por uma patologia, o
sistema renal pode comprometer o equilibrio de todo o organismo e surgir como
causa ou complicacoes de um internamento. Segundo Santos e Matos (2008, p. 8),
a IRA e uma condicao comum em pacientes admitidos em Unidade de Terapia
Intensiva. O conceito da IRA e consenso entre os autores pesquisados, sendo
definida como uma patologia caracterizada pela queda rapida da capacidade dos
rins em retirar as escorias do organismo atraves da filtragem do sangue, dessa
forma, a mesma acumula-se e causa disturbios hidricos, eletroliticos e acido-
basicos.
Esta e uma patologia complexa e possui multiplas etiologias. Ela pode ter causa
pre-renal, quando as suas causas tem origem antes dos rins (hemorragias,
infarto do miocardio, insuficiencia cardiaca, sepsis, entre outras); intra-
renal, quando resulta de lesao no parenquima renal ou glomerulos (agentes
nefrotoxicos, isquemia prolongada, processos infeciosos, entre outros); e pos
renal, quando a causa e apos os rins (obstrucao do trato urinario). Por haver
multiplas etiologias, o diagnostico precoce e a detecao de fatores de risco
para o desenvolvimento da IRA torna-se dificil.
Santos et al. (2009), em seu estudo, apresentam como fatores de risco para a
IRA a idade avancada; niveis previos de creatinina; presenca de diabetes
mellitus, de hipertensao arterial e insuficiencia cardiaca congestiva; e o uso
cronico de anti-inflamatorios nao hormonais. Ja Bernadina (2008) em seu estudo
apresenta como fatores de risco eventos isquemicos, nefrotoxicos, infecciosos e
obstrutivos; hipertensao arterial; choque; insuficiencias cardiovasculares,
hepatica e respiratoria; neoplasias; e tempo medio de internamento superior a 7
dias. Como foi relatado, existem multiplos fatores, o que dificulta a detecao e
a prevencao da IRA, principalmente na UTI, onde, de forma geral, os pacientes
apresentam mais de um fator de risco.
Existem tambem outros fatores que contribuem para a dificuldade em estabelecer
um diagnostico precoce, como a inexistencia de um consenso quanto a definicao
da patologia e por nao serem encontrados marcadores precisos e capazes de
realizar a detecao precoce. Segundo Cleto (2011, p. 489) os criterios de
definicao da IRA adotado e recomendado pela Acute Kidney Injury Network (AKIN)
classificam a sua presenca em tres estagios. A AKIN utiliza para diagnostico
da IRA as alteracoes agudas nos niveis sericos de creatinina e debito urinario.
Contudo, segundo Santos et al. (2009), a dosagem serica da creatinina nao e o
teste ideal para esse diagnostico, mas ainda nao foram incluidos outros testes
mais precisos na pratica clinica. Ja Holcombe e Fleeley (2007, p 712) afirmam
que a creatinina serica e o melhor marcador porque os aumentos da creatinina
serica nao sao relativamente afetados por mecanismos nao-renais.. Assim, e
possivel perceber a inexistencia de um consenso em relacao aos possiveis
marcadores da IRA, dificultando o diagnostico precoce.
O acumulo de escorias provoca inumeras alteracoes no organismo. Segundo Souza
et al. (2010, p. 457), quando os rins perdem a capacidade de exercer suas
funcoes regulatorias, excretorias e endocrinas, ocorre o comprometimento de
todos os orgaos do corpo humano, principalmente em decorrencia do acumulo no
organismo de toxinas provenientes do proprio metabolismo, gerando estado de
uremia e suas complicacoes.
Segundo Cotran e Robbins (2005), a IRA e caracterizada com o inicio recente de
azotemia. Azotemia e uma anormalidade bioquimica que se refere a uma elevacao
dos niveis de ureia plasmatica (BUN) e creatinina e se deve amplamente a uma
taxa de filtracao glomerular (TFG) diminuida. [...] Quando a azotemia vem
associada a uma constelacao de sinais e sintomas e anormalidades bioquimicas e
chamada uremia. A uremia e caracterizada nao apenas pela falencia da funcao
excretora renal, mas tambem por um conjunto de alteracoes metabolicas e
endocrinas resultantes da lesao renal. Ha, alem disso, envolvimento secundario
do sistema gastrointestinal (p. ex., gastroenterite uremica), nervos
perifericos (p. ex., neuropatia periferica) e coracao (p. ex., pericardite
fibrinosa uremica), que geralmente e necessario para o diagnostico da uremia
(Cotran e Robins, 2005, p. 1004).
Na UTI, tais manifestacoes podem contribuir para um pior prognostico dos
pacientes visto que os mesmos ja apresentam um quadro grave. Segundo Santos et
al. (2009), o perfil dos pacientes em UTI e mais grave, apresentando predominio
de insuficiencias de multiplos orgaos. Ja Uenishi (2005) afirma que para um
paciente ser admitido na UTI ele deve apresentar: insuficiencia de um ou mais
sistemas fundamentais, como o respiratorio e/ou cardiovascular, quando o
paciente e grave e possui chances de recuperacao; em pos-operatorio de grandes
cirurgias; ou quando a morte cerebral para possivel doador de orgaos.
A UTI e a area hospitalar que se destina ao atendimento de pacientes graves que
precisam de cuidados complexos e especializados. Essas unidades possuem
recursos tecnologicos apropriados para a observacao e monitorizacao continua
dos sinais vitais e, caso seja necessario, para a intervencao em situacoes de
instabilidade do paciente. Alem disso, segundo Marini e Wheeler (1999, p. 465),
como a funcao excretora pode ser substituida pela dialise e suas funcoes
metabolicas podem ser compensadas por um tratamento farmacologico ou pelas
acoes do figado ou dos pulmoes, os rins representam os unicos orgaos cuja
insuficiencia nao e necessariamente fatal.
Contudo, mesmo contando com avancados instrumentos e as principais funcoes
renais poderem ser substituidas por metodos compensatorios, a taxa de
mortalidade em pacientes que evolui para IRA na UTI permanece elevada. No
estudo de Santos et al. (2009), a taxa de mortalidade de pacientes com IRA na
UTI foi de 70% e no estudo de Bernadina (2008) foi de 35,7%. Esses dados sao
confirmados na literatura, pois segundo Cleto (2011, p. 481) a taxa de
mortalidade varia de 15 a 60%, e Brunner e Suddarth (2011) relatam uma taxa
de mortalidade entre 60 a 80%.
Diante da alta taxa de mortalidade e necessario a prevencao e o diagnostico
precoce de IRA em todos os ambientes hospitalares, especialmente na UTI.
Segundo Brunner e Suddarth (2011), as formas de prevencao sao: fornecer a
hidratacao adequada; evitar e tratar de imediato o choque; monitorizar as
pressoes, arterial e venosa central; tratar de imediato a hipotensao; avaliar
continuamente a funcao renal; tomar as devidas precaucoes em caso de
transfusao; evitar e tratar de imediato as infecoes; dar atencao especial a
feridas, queimaduras e outras situacoes que possam levar a sepsis; realizar
cuidado meticuloso com sonda de demora e retira-la assim que possivel; e evitar
os efeitos medicamentosos toxicos. Para Marini e Wheeler (1999), a prevencao
baseia-se em evitar crises circulatorias; reconhecer a obstrucao urinaria;
utilizar drogas nefrotoxicas de forma cuidadosa e em doses adequadas; e
realizar a expansao do volume em caso de IRA provocada por uso de contraste,
rabdomiolise, cisplatina, metotrexate ou ciclofosfamida.
Quando diagnosticado a IRA, deve ser estabelecida a terapeutica conservadora ou
dialitica para restaurar o bem-estar do paciente. Caso o tratamento nao seja
instituido em tempo habil, essa patologia pode evoluir, causando complicacoes
que podem levar a morte. Segundo Brunner e Suddarth (2011, p. 1288), os
objetivos do tratamento da IRA consistem em restaurar o equilibrio quimico
normal e evitar as complicacoes ate que a reparacao do tecido renal e a
restauracao da funcao renal possam acontecer. O tratamento inclui manter o
equilibrio hidrico, evitar os excessos de liquidos ou, possivelmente, realizar
a dialise. A causa subjacente e identificada, tratada e eliminada quando
possivel.
Desta forma, o tratamento medico varia de acordo com o tipo e a causa da IRA.
Contudo, Riella (2003) ressalta que nao existem beneficios na utilizacao de
diureticos; deve-se utilizar precocemente e com frequencia a dialise para
manter o nivel da ureia abaixo de 180 mg/dl e o da creatinina inferior a 8 mg/
dl; pacientes com significativa destruicao tecidual tem elevada producao de
ureia e necessitam de hemodialise quando apresentam IRA; e os procedimentos de
hemofiltracao e hemodiafiltracao sao utilizados frequentemente para a reposicao
da funcao renal e realce de substancias toxicas em pacientes criticamente
enfermos.
Contudo, a utilizacao da dialise como forma de tratamento para a IRA deve ser
avaliada criteriosamente. Segundo Bernadina (2008, p. 177), varios autores tem
discutido sobre qual a melhor modalidade dialitica em pacientes com IRA na UTI.
Entretanto, ainda nao ha um consenso a respeito da terapia de substituicao
renal que teria o melhor resultado no tratamento da IRA, isto e, reducao nas
taxas de mortalidade, eficiencia, frequencia das sessoes e a eficacia clinica
da modalidade de tratamento. As alteracoes das terapias de substituicao renal
ocorreram conforme a instabilidade ou estabilidade hemodinamica dos pacientes e
avaliacao do medico nefrologista. Ainda neste estudo, Bernadina (2008)
verificou uma maior taxa de mortalidade no grupo de pacientes que utilizou
dialise como tratamento em relacao ao grupo que nao utilizou. Assim percebemos
que a atuacao interdisciplinar e fundamental para reverter o quadro. Contudo,
a multi-profissionalidade na complexidade de respostas a problemas de saude e
a imprescindibilidade dos cuidados de enfermagem exigem a resposta de um
profissional competente. Sabemos que a interdisciplinaridade numa equipa de
saude nao exclui nem a independencia, e a autonomia de cada profissional, nem
um referencial proprio que precise a contribuicao especifica no vasto dominio
da saude (Serrano, Costa e Costa, 2011, p. 16).
Dessa forma, a assistencia de enfermagem, segundo Brunner e Suddarth (2011),
deve basear-se na monitorizacao das complicacoes, participar no tratamento das
emergencias hidroeletroliticas, avaliar a evolucao do paciente ao tratamento e
fornecer o apoio fisico e emocional.
Por ser o profissional que esta diretamente em contato com o paciente, o
enfermeiro e fundamental para a detecao precoce da IRA. Ele deve realizar a
monitorizacao dos pacientes que fazem uso de medicamentos nefrotoxicos e de
medicamentos que reduzem a perfusao renal, que fazem uso de contrastes e que
possuem patologias que predispoem a IRA, alem de estar atento a sinais e
sintomas da IRA. Essa monitorizacao deve ser feita atraves da detecao precoce
de sinais de hipoperfusao, como hipotensao, alem do acompanhamento das dosagens
sericas de ureia e creatinina e da realizacao do balanco hidrico. Na UTI o
enfermeiro dos cuidados intensivos deve manter a vigilancia constante, pois os
pacientes atendidos nessa unidade sao pacientes criticos e o desenvolvimento da
IRA pode piorar o prognostico.
Metodologia
O tipo de pesquisa utilizada para o desenvolvimento do presente estudo foi
revisao nao sistematica da literatura sobre insuficiencia renal aguda em
unidades de terapia intensiva, onde foram analisados artigos cientificos
publicados em portugues e livros, tratados de enfermagem medico-cirurgica e
guidelines internacionais. A pesquisa bibliografica, segundo Marconi e Lakatos
(2001, p. 43-44), trata-se do levantamento de toda a bibliografia ja publicada
em forma de livros, revistas, publicacoes avulsas em imprensa escrita
[documentos eletronicos]. Sua finalidade e colocar o pesquisador em contato
direto com tudo aquilo que foi escrito sobre determinado assunto, com o
objetivo de permitir ao cientista o reforco paralelo na analise de suas
pesquisas ou manipulacao de suas informacoes.
Contudo, o presente estudo utilizou como fonte de dados para identificar as
principais causas de IRA em pacientes internados em unidade de terapia
intensiva os artigos disponiveis nos websites da Biblioteca Virtual de Saude
(BVS), Jornal Brasileiro de Nefrologia e Revista Brasileira de Enfermagem e de
Terapia Intensiva, tendo sido utilizados para a pesquisa os artigos publicados
a partir de 2008. Os descritores utilizados na pesquisa foram: Insuficiencia
Renal; Unidade de Terapia Intensiva (UTI); atuacao; e enfermeiro. Utilizaram-se
tambem livros que abordavam a tematica.
Como criterios de exclusao foram definidos: artigos publicados em lingua
estrangeira; artigos que abordem UTI especializadas, como UTI neonatal, UTI
cardiologica, entre outras; e artigos publicados anteriormente ao ano de 2008.
Contudo, tais estudos se detinham apenas com a identificacao das causas de IRA,
nao abordando a descricao dos cuidados de enfermagem para as causas de IRA numa
UTI. Dessa forma, utilizou-se o tratado de enfermagem medico-cirurgica e a
classificacao do ICN.
Resultados
O trabalho de Santos e Matos (2008), que teve como objetivo descrever as
caracteristicas clinicas e demograficas dos pacientes internados na UTI do
Hospital Universitario da Universidade Federal de Santa Catarina (HU-UFSC) com
e sem IRA e compara-las entre esses dois grupos, tratou-se de um estudo
observacional e transversal realizado no periodo de setembro de 2007 a marco de
2008, contando com a participacao de 129 pacientes. Nesses estudos, os autores
apontam como principais causas de IRA na UTI a presenca de sepsis e de choque
septico.
O estudo de Santos et al. (2009) teve como objetivo analisar comparativamente
as 294 caracteristicas clinicas e a evolucao de pacientes com e sem IRA
adquirida em UTI geral de um hospital universitario terciario, tendo como
metodo um estudo prospetivo observacional com 263 pacientes. Neste estudo, a
principal etiologia da admissao na UTI foi sepsis.
Bernardina (2008) em seu trabalho, cujo objetivo foi avaliar a evolucao clinica
de pacientes com insuficiencia renal aguda submetidos a tratamento dialitico e
nao dialitico na UTI, fez um estudo prospetivo que contou com 70 pacientes. As
maiores causas de internamento foram casos clinicos de doencas pulmonares e
cardiovasculares, alem disso, a maior parte dos pacientes estudados
apresentavam comorbidades como problemas cardiovasculares.
No estudo de Souza et al. (2010), que possui como objetivo quantificar a
incidencia de emergencias nefrologicas que necessitam de acompanhamento em UTI
e as principais doencas de base que podem evoluir para os estagios de
insuficiencia renal em um hospital privado da regiao sul de Sao Paulo, um
estudo prospetivo de natureza quantitativa, contou com a participacao de 42
pacientes no periodo de 1 a 10 de fevereiro de 2010. Os autores fizeram a
analise geral entre todos os pacientes, os que apresentam Insuficiencia Renal
Cronica (IRC) e IRA, o estado geral do paciente, sem enfatizar as patologias de
base. Os principais motivos de internamento foram insuficiencia respiratoria e
acidente vascular encefalico. Este estudo ainda apresentou outros dados
relevantes, como: 34% dos pacientes apresentaram IRA fazem uso de
antibioticoterapia e analgesia; e possuia comorbidades associadas, como
diabetes (57% dos pacientes) e hipertensao arterial sistemica (48%).
Discussao
As principais causas de internamento em UTI de pacientes que evoluiram com IRA
foram sepsis; choque septico e doencas respiratorias e cardiovasculares. Para
que o enfermeiro possa atuar na detecao precoce e prevencao desta complicacao,
tao comum neste ambiente, e necessario compreender como tais fatores de risco
podem levar ao desenvolvimento da IRA. Deve ser enfatizado que a presenca do
enfermeiro e fundamental para a realizacao da detecao e prevencao desta
patologia, visto que e o profissional que esta proximo do paciente em tempo
integral.
Dentro das causas de internamento de pacientes em UTI que evoluiram com IRA, a
mais citada foi a sepsis, que e entendida como uma complexa interacao entre o
microorganismo infetante e a resposta imune, pro-inflamatoria e pro-coagulante
do hospedeiro(Henkin et al. 2009, p. 133). Nessa complexa interacao ocorre a
resposta inflamatoria sistemica, o que provoca uma diminuicao da resistencia
vascular, enquanto ocorre a ativacao da cascata de coagulacao e inibicao dos
fatores anticoagulantes.
Na fisiopatologia da sepsis inicialmente ocorre uma resposta hiperdinamica,
que se caracteriza por um debito cardiaco alto com vasodilatacao sistemica.
(Henkin, 2009, p. 140). Nesta fase a pressao arterial (PA) pode continuar
normal ou ocorrer hipotensao responsiva a volume, hipertermia e febre, aumento
da frequencia respiratoria, estado gastrointestinal pode estar comprometido e o
debito urinario pode permanecer normal ou diminuir.
Nesse momento o organismo tenta compensar e manter a homeostasia, mas com a
progressao da sepsis os tecidos tornam-se hipoperfundidos e acidoticos, a
compensacao comeca a falhar e o paciente torna-se mais hipodinamico (Henkin,
2009, p. 141). Estes mesmos autores afirmam que o sistema cardiovascular comeca
a falhar, a PA nao responde a drogas vasoativas, e comeca a haver sinais de
lesao terminal de orgaos. Progredindo para o choque setico, a PA cai, a pele
torna-se fria e palida, temperatura fica normal ou pode apresentar hipotermia,
a frequencia cardiaca e respiratoria permanece elevada e a urina deixa de ser
produzida.
Nesse processo ha um comprometimento de varios sistemas organicos, assim como
os rins, que sao orgaos sensiveis as citocinas (mediadores inflamatorios) e
tambem a ativacao da cascata de coagulacao que promove uma deposicao de fibrina
na circulacao renal, pelo que se nao for revertido rapidamente pode ocorrer a
IRA. Inicialmente, os rins irao tentar compensar a ma perfusao ativando a
cascata renina-angiotensina-aldosterona, que tem por finalidade provocar uma
vasoconstricao sistemica profunda, retencao de sodio e agua, e manter a taxa de
filtracao glomerular (TFG).
Segundo Holcombe e Feeley (2007) a angiotensina II ajuda a manter a TFG, pois
aumenta a reisitencia arteriolar e estimula a vasodilatacao intrarrenal; as
prostaglandinas aumentam a pessao hidrostatica, atraves da dilatacao arteriolar
aferenta. Atraves desse mecanismos os rins mantem a TFG pela manutencao de uma
faixa de pessao arterial media. Entretanto, se nao revertido o quadro, os rins
tornam-se icapaz de continuar a compensacao a deficiencia e a TFG cai.
Diante do exposto, o enfermeiro deve estabelecer um plano de cuidados no
intuito de prevenir a IRA nesses pacientes que ja se encontram em estado grave.
Assim, o tratamento de enfermagem deve basear-se em evitar a progressao da
sepsis, evitando assim as complicacoes nos diversos orgaos, incluindo o rim que
e tao vulneravel.
No tratamento de enfermagem para a sepsis e choque setico, todos os
procedimentos invasivos devem ser realizado seguindo tecnicas asseticas depois
de cuidadosa higiene das maos; monitorizar sinais de infecao em todos os
pacientes que estao com algum dispositivo invasivo ou lesao; identificar os
pacientes que estao em risco particular para a sepsis ou choque setico;
identificar o local de origem da infecao; colher material para cultura;
controlar temperatura; administrar os liquidos intravenosos (IV) e medicamentos
(antibioticos e medicamentos vasoativos); monitorizar possiveis alteracoes nos
niveis sanguineas do antibiotico, creatinina, ureia, leucocitos, hemoglobina,
niveis de plaqueta, exames coagulacao e hematocrito. Alem disso, o enfermeiro
deve monitorizar o estado hemodinamico (pressao arterial media ' PAM ', pressao
venosa central ' PVC), o balanco hidrico (monitorizar debito urinario a cada
hora), o estado nutricional, o peso diario e monitorizar rigorosamente os
niveis sericos da albumina.
Contudo, a atuacao de enfermagem na prevencao e diagnostico precoce da IRA em
UTI vai alem dos cuidados relacionados a sepsis e ao choque setico, uma vez que
tambem existem outras intervencoes alem das propostas por Brunner e Suddarth
(2011). Dessa forma, foram elaborados quadros (Quadro 1, 2 e 3) com as
principais intervencoes de enfermagem, de acordo com as causas de IRA em UTI
verificadas nessa pesquisa, proposta pela Classificacao das Intervencoes de
Enfermagem (NIC).
QUADRO_1
QUADRO_2
QUADRO_3
A Classificacao das Intervencoes de Enfermagem (NIC) e uma classificacao
abrangente e padronizada das intervencoes realizadas pelos enfermeiros. E util
para a documentacao clinica, para a comunicacao de cuidados entre unidades de
tratamento, para a integracao de dados em sistemas de informacao e unidades,
para a eficiencia das pesquisas, para a medida de produtividade, para a
avaliacao de competencias, para a facilitacao de reembolso e para o
planejamento curricular. A NIC inclui todas as intervencoes que os enfermeiros
realizam para os pacientes, sejam elas independentes ou colaborativas, de
cuidado direto ou indireto dos pacientes (Dochterman e Bulechek, 2008, p. 43).
Nestes quadros e possivel perceber que a atuacao do enfermeiro e ampla e
fundamental para a prevencao e diagnostico precoce da IRA em UTI.
Conclusao
O presente estudo pode comprovar que uma das principais causas de internamento
na UTI dos pacientes que evoluiram com IRA e a sepsis, confirmando uma das
hipoteses levantadas. Contudo, a hipotese de hipovolemia e o uso de drogas
nefrotoxicas nao foi evidenciado nos estudos utilizados na presente pesquisa.
Alem da sepsis, foram idencificados tambem o choque septico, as doencas
respiratorias e cardiovasculares como principais causas de internamento na UTI
dos pacientes que evoluiram com IRA. Diante das causas identificadas e evidente
o papel do enfermeiro na prevencao e identificacao precoce de IRA em pacientes
criticamente enfermos.
Desta forma, a identificacao das principais causas de internamento dos
pacientes que evoluiram com IRA fornece subsidios para que o enfermeiro, que e
o profissional que acompanha os pacientes em tempo integral, possa identificar
alteracoes de forma rapida, sinalizando a equipa multiprofissional e
implementando acoes de enfermagem a fim de evitar disfuncoes renais e/ou
minimizar suas complicacoes, utilizando a Classificacao das Intervencoes de
Enfermagem.