Perfil de saúde dos adolescentes de uma cidade no Algarve
Introdução
Apesar dos adolescentes serem considerados um grupo saudável, estes estão
sujeitos a riscos, como acidentes, doenças crónicas, violência, doença mental,
suicídio, consumo excessivo de álcool ou gravidez não planeada. Para além
destes riscos a curto prazo, muitas doenças da idade adulta têm o seu início
durante a adolescência, pela adoção de estilos de vida nocivos relacionados com
o uso de substâncias aditivas, maus hábitos alimentares, sedentarismo ou
comportamentos sexuais de risco (Organização Mundial de Saúde, 2011).
A adolescência é assim uma fase de buscas e descobertas, caracterizada pelo
conflito entre o ser-se dependente ao mesmo tempo que se procura essa mesma
independência, pelo que se considera um período de grande importância na
construção da identidade do indivíduo. Embora sejam mudanças físicas da
puberdade, aquelas marcam o início da adolescência, as mudanças psicológicas,
intelectuais e sociais, tornam difícil de definir o término desta fase.
O presente estudo assume como questão de investigação conhecer Como está a
saúde e os estilos de vida dos adolescentes do concelho de Olhão?, tendo como
objetivo realizar um diagnóstico de saúde da população adolescente do concelho
de Olhão, a uma amostra de jovens com idades compreendidas entre os 14 e os 18
anos de idade, identificando consequentemente necessidades de saúde.
Quadro teórico
Adolescência
A adolescência constitui uma passagem obrigatória entre a infância e a idade
adulta afirmando-se como um fenómeno sócio cultural no século XX. É considerado
um período de transição, em que já não se é criança, mas também ainda não se é
adulto, rico em ideias, sonhos e projetos, caracterizado por transformações
profundas no corpo e nas relações sociais, existindo assim conflitos associados
a este tipo de mudanças (Maia, 2008).
A Organização Mundial de Saúde define adolescência como a fase compreendida
entre os 10 e os 19 anos, sendo um período de transição entre a infância e a
idade adulta, caracterizado pelo desenvolvimento físico, mental e emocional,
onde são feitos esforços no sentido de serem alcançadas diferentes metas, de
acordo com a cultura de cada um (Organização Mundial de Saúde, 2011). Maia
(2008) também refere que esta definição é a que melhor se enquadra, alertando
que mesmo assim devem ser considerados dois períodos distintos, o primeiro dos
10 aos 14 anos e o segundo dos 14 aos 19, justificando esta diferença pelas
características de cada um destes grupos etários. Rodrigues (2009) reforça que
entre os 14 e os 18 anos ocorrem as primeiras experiências e é onde muitos
comportamentos relevantes para a saúde são efetivamente iniciados.
Determinantes de saúde
Uma boa saúde é um dos principais recursos para o desenvolvimento pessoal,
económico e social, bem como uma dimensão importante da qualidade de vida,
resumindo a passagem de um conceito de saúde que se baseava na dicotomia saúde/
doença para outro mais lato, mas perfeitamente reconhecido, saúde positiva, que
se define como um processo no sentido do bem-estar físico, mental e social e
não só na ausência de doença sendo que, quando os indivíduos dispõem dos
recursos mentais, físicos, sociais e materiais adequados tendem a estar mais
predispostos para permanecer saudáveis (Loureiro e Miranda, 2010).
Identificar as necessidades de saúde de uma comunidade que requerem intervenção
é o que se pretende com um diagnóstico de saúde, constituindo, de acordo com
Loureiro e Miranda (2010), o primeiro passo da melhoria do estado de saúde de
uma população. Têm sido realizados com alguma frequência diagnósticos de saúde,
tanto em Portugal como em muitos outros países, onde a saúde dos adolescentes é
analisada à luz de múltiplos determinantes de saúde, ou seja, ( )fatores com
influência na saúde individual e coletiva( ), definidos como importantes para
a saúde dos jovens (Loureiro e Miranda, 2010, p.57). Constituindo os estilos de
vida das pessoas comportamentos definidos pela escolha e passíveis de mudança,
consideram-se assim importantes focos de atenção num diagnóstico de saúde, com
um horizonte de intervir para promover comportamentos saudáveis.
Matos et al. (2010) têm, nos últimos anos, avaliado o estado de saúde dos
adolescentes no âmbito do programa internacional da Organização Mundial de
Saúde HBSC (Health Behaviour in school-aged Children), tendo ao longo dos anos
otimizado os determinantes de saúde a avaliar.
A perceção do estado de saúde está muito ligada à qualidade de vida dos
indivíduos, já que avalia a forma como ele se sente em relação à sua saúde.
Araújo (2008) afirma assim que a perceção do estado de saúde é um bom preditor
de morbilidade e mortalidade, pelo que o conhecimento dos estilos de vida de
uma população contribui para um melhor planeamento em saúde. A perceção de
saúde inclui também a imagem corporal e a autoestima, fundamentais para que os
indivíduos desenvolvam competências para a procura do seu bem-estar e dos
outros, competências que de acordo com a autora estão relacionadas com o
empoderamento. Refere ainda que a autoestima tem sido aceite na literatura como
um indicador de bem-estar mental, e que o crescimento desta nos jovens
desenvolve autoconfiança e autoeficácia, o que permite uma maior resistência às
pressões do grupo para comportamentos de risco em saúde. A autoestima afirma
está ainda positivamente relacionada com a imagem corporal, e que esta assume
na adolescência uma grande importância.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (1986), os estilos de vida estão ligados
aos valores, às motivações, às oportunidades e a questões específicas ligadas a
aspetos culturais, sociais e económicos. Não há por isso um, mas vários estilos
de vida, sendo que a sua compreensão assenta em fatores individuais (atitudes,
interesses, informação, educação) e em fatores ambientais (grupo familiar,
grupo social, ambiente de trabalho ou escola, comunidade onde se vive) e ainda
entre outros fatores mais sistémicos do envolvimento (sistema social,
instituições, cultura, regime político, características do nicho ecológico e
geográfico). Estes componentes estão em permanente interação e moldam os
comportamentos dos indivíduos ligados à saúde e ao risco. No que respeita à
operacionalização dos estilos de vida mais cruciais para a saúde dos
indivíduos, salientamos os hábitos alimentares, a atividade física, os consumos
de substâncias aditivas e os comportamentos relacionados com a sexualidade.
As questões ligadas à obesidade e aos seus determinantes têm constituído alvo
de atenção mundial (Brites et al., 2007). As práticas alimentares são um dos
fatores que podem comprometer ou beneficiar a saúde dos jovens, repercutindo-se
no estado de saúde dos mesmos a curto e a longo prazo (Matos et al., 2006).
A prática de atividade física é um comportamento que influencia diretamente a
qualidade de vida e saúde dos indivíduos relacionando-se com o bem-estar, com o
desenvolvimento pessoal e social, satisfação pessoal, diversão, melhoria da
autoimagem, segurança e estabelecimento de relações interpessoais (Devis,
2000).
Seibel e Toscano (2001) referem que é considerada droga qualquer substância que
altere o funcionamento do organismo ou do espírito, modificando o pensamento,
as sensações e os comportamentos de quem a consome, podendo levar a situações
de dependência, atuando nos mecanismos de gratificação do cérebro, dando origem
a efeitos estimulantes, euforizantes e/ou tranquilizantes.
O tabaco é considerado a primeira droga consumida pelos adolescentes, estando o
início do consumo relacionado com a integração social, para parecerem mais
adultos e se sentirem integrados no seu grupo de colegas, reforçando assim a
sua autoestima e autoimagem, afirmando-se socialmente (Marques, 2007). Currie
et al. (2008) referem a maior expressão do consumo de tabaco entre os 13 e os
15 anos.
O álcool é um problema social grave que afeta os adolescentes, podendo ser a
habituação originada pela impulsividade e pela imaturidade, características
destes jovens. Este consumo tem aumentado entre os adolescentes, acontecendo
cada vez mais em idades inferiores, ocorrendo na sua maioria de forma ocasional
e dentro do grupo (Gonçalves, 2004).
No que respeita a drogas ilícitas, o seu consumo a longo prazo origina
desmotivação generalizada, com o consequente desinteresse pela escola, pelo
desporto, pelos amigos e pelos projetos de vida, levando assim a uma diminuição
do rendimento escolar e provocando o isolamento social (Magalhães, 2010).
De acordo com Vilar e Ferreira (2009), no que respeita aos indicadores de
comportamentos relacionadas com a sexualidade, nos últimos anos, o início da
vida sexual tem ocorrido em idades cada vez mais precoces. É relevante também
que a grande maioria dos jovens dos 15 aos 18 anos que iniciaram a vida sexual
não o fez sob pressão. Estes autores acrescentam que a sexualidade deverá ser
vivida de uma forma saudável e positiva, contudo acarreta riscos relacionados
essencialmente com a gravidez não desejada e com a transmissão de infeções por
via sexual, aos quais os jovens podem estar expostos por falta de mecanismos de
prevenção. As fontes de educação sexual são consideradas de grande importância
na adolescência, assim como o grupo de pares e o suporte familiar.
Quando se fala em comportamentos de violência, pode-se afirmar que existem
diversas formas de violência: a violência física, caracterizada pelo uso da
força, a violência psicológica que consiste num comportamento desumano como
rejeição, indiferença, desrespeito ou discriminação, a violência verbal que
muitas vezes acompanha a violência física, a violência política ou a violência
sexual (Barros, Carvalho e Pereira 2009). Os comportamentos violentos podem
ocorrer dentro ou fora da escola, entre os grupos de pares ou mesmo no namoro.
Foram, desta forma, abordados alguns dos principais determinantes de saúde dos
jovens adolescentes, que uma vez avaliados num contexto comunitário e adaptado
à realidade social e geográfica conseguem traçar um perfil de saúde dos
adolescentes, identificando as necessidades e prioridades de intervenção em
saúde.
Metodologia
População e amostra
A população sobre a qual incide este estudo é constituída pelos adolescentes
com idades compreendidas entre os 14 e os 18 anos, correspondendo a um universo
de 2329 adolescentes, inscritos no ACES (Agrupamento de Centros de Saúde)
Central - Centro de Saúde de Olhão na data de 30 de junho de 2011. Face ao
objetivo proposto para este estudo, desenvolveu-se um estudo com métodos
mistos, através de técnica quantitativa, descritiva e transversal e abordagem
qualitativa na análise de entrevistas. A utilização dos dois métodos de
investigação considerou-se importante para compreender o fenómeno pela
necessidade de compreender várias visões da saúde dos adolescentes, tanto por
parte das atitudes dos mesmos e do manifesto das suas opiniões, como por parte
de algumas pessoas-chave da comunidade com informações relevantes da sua
experiência profissional.
Embora a Organização Mundial de Saúde considere a adolescência como um período
entre os 10 e os 19 anos de idade, optou-se por estudar os adolescentes com
idades entre os 14 e 18 anos, atendendo a que é nesta fase que ocorrem as
primeiras experiências e onde muitos comportamentos relevantes para a saúde são
iniciados.
A elaboração do estudo em tempo de férias letivas, fora do perímetro escolar e
o elevado número e dispersão dos participantes justificou a utilização de uma
amostra para representar a população. Desta forma, a amostra dos jovens
inquiridos para a elaboração do diagnóstico de saúde foi constituída por 308
adolescentes, ou seja, cerca de 13,2% da população adolescente entre os 14 e os
18 anos. A técnica de amostragem utilizada foi por conveniência, selecionando
todos os adolescentes encontrados e disponíveis para participar em espaço
público. Apesar da limitação do método não probabilístico, este foi o que nos
permitiu recolher em menos tempo um número maior de participantes, não sendo
usado qualquer outro critério de proximidade com os mesmos. Os locais de
recolha de dados foram em múltiplos contextos e espaços físicos, garantindo uma
maior representatividade da amostra.
Procedimento
Os métodos utilizados para a realização do diagnóstico de saúde foram a
realização de entrevistas a informantes-chave da comunidade e a aplicação de
questionários a uma amostra de adolescentes.
Com o intuito de identificar as principais necessidades e problemas dos jovens,
recorreu-se também à realização de entrevistas a informantes-chave, que pela
sua experiência e competência profissional assumem um papel de destaque na
comunidade, com uma perceção mais próxima da realidade e das necessidades da
população em estudo. Estas entrevistas foram conduzidas por duas perguntas
abertas, sendo posteriormente resumido o conteúdo das mesmas.
Para diagnosticar os comportamentos e opiniões dos adolescentes, foi elaborado
um questionário para recolha de dados. A aplicação deste instrumento ocorreu,
uma vez que os adolescentes se encontravam em férias letivas, durante o dia,
nas praias (Farol, Armona e Fuseta), nas imediações da Escola Secundária, na
Biblioteca Municipal de Olhão, na Casa da Juventude de Olhão e em clubes
desportivos e recreativos, e durante o período noturno no Jardim Municipal e
bares do concelho.
A autorização para a utilização do instrumento de colheita de dados e garantia
dos procedimentos éticos da investigação foi autorizada e constantemente
monitorizada pela Unidade de Saúde Pública do ACES Central (ARS Algarve) e pelo
Instituto Politécnico de Beja. A recolha de dados e aplicação do instrumento
incluiu o consentimento informado dos adolescentes e a garantia de anonimato e
confidencialidade dos mesmos.
O tratamento estatístico de dados foi realizado recorrendo ao programa
informático de tratamento estatístico Statistical Package for the Social
Science.
Instrumento de recolha de dados
O questionário utilizado como instrumento de recolha de dados no nosso estudo
foi adaptado do questionário utilizado no estudo HBSC 2010, um estudo realizado
com adolescentes, para diagnosticar a saúde e bem-estar, os comportamentos, os
estilos de vida e os contextos em que vivem (Matos et al., 2010). Este estudo
de Matos et al. (2010) focou de uma forma detalhada as seguintes áreas: hábitos
alimentares, higiene e sono; imagem do corpo; prática de atividade física;
tempos livres e novas tecnologias; uso de substâncias; violência; família e
ambiente familiar; relações de amizade e grupos de pares; escola e ambiente
familiar; saúde e bem-estar; comportamentos sexuais; educação sexual;
conhecimentos crenças e atitudes face ao vírus da imunodeficiência humana; e
estratégias pessoais e interpessoais.
No sentido de tornar o presente estudo mais genérico e de mais simples
aplicação, foram definidos alguns determinantes de saúde que avaliassem de uma
forma global os vários aspetos da saúde dos adolescentes.
O instrumento de recolha de dados aplicado aos adolescentes para o presente
estudo foi constituído por onze partes com um total de oitenta e cinco
perguntas. Estas procuraram realizar a caracterização sociodemográfica da
amostra, avaliar a utilização dos serviços de saúde por parte dos adolescentes,
a perceção de saúde e bem-estar físico, psicológico e imagem corporal, os
hábitos alimentares, a atividade física e lazer, o consumo de álcool, tabaco e
drogas ilícitas, os comportamentos relacionados com a sexualidade e com a
violência. Apresentava ainda uma pergunta aberta acerca de quais eram as suas
necessidades de saúde.
O questionário foi submetido à análise qualitativa por 5 adolescentes no
sentido de verificar se as questões eram compreendidas.
As entrevistas aos informantes-chave foram conduzidas por duas perguntas
abertas onde se questionava qual era a sua perceção do estado de saúde dos
adolescentes e quais eram as maiores necessidades percecionadas.
Resultados
Os resultados deste estudo são apresentados de forma descritiva, na forma de
percentagem, sendo realizados testes estatísticos correlacionais em algumas
variáveis utilizando o teste de Qui-quadrado ou o coeficiente de correlação de
Spearman. A questão aberta do questionário aos adolescentes e a análise das
entrevistas aos informantes-chave foram realizadas utilizando análise de
conteúdo.
Dos 308 adolescentes que constituem a amostra 60,7% são raparigas e 39,3% são
rapazes, apresentando uma média de idades de 16,42 anos, com um desvio padrão
de 1,34 anos.
Dos adolescentes inquiridos 86,4% utilizam os centros de saúde, dos quais 73,4
afirmam que a acessibilidade ao mesmo é boa. Verifica-se ainda uma relação
estatística positiva entre a idade e a acessibilidade (ρ=-0,249; p <0,000).
A maioria dos adolescentes (83,5%) considera a sua saúde física boa ou muito
boa, contudo são 2,2% os que se referem sentir mal ou muito mal.
Psicologicamente, 14,3% dos adolescentes manifestam tristeza ou depressão,
valor equiparado à dificuldade em adormecer.
Relativamente ao peso corporal, verificou-se que o valor médio de IMC (índice
de massa corporal = peso/altura2) dos jovens da amostra é de 21,54, com um
desvio padrão de 2,95. Dos participantes 13% apresentava excesso de peso
(IMC≥25) e 1,3% baixo peso (IMC<17) e embora este valor fosse resultante de
autoresposta, dá uma visão global da necessidade de saúde subjacente.
Relativamente à perceção que os adolescentes têm do seu corpo, verifica-se que
72,7% referem sentir-se bem e muito bem, continuando a ser os rapazes quem
refere gostar mais da sua imagem corporal, verificando-se uma relação
estatisticamente significativa entre o bem-estar físico e a forma como o
adolescente se sente em relação ao seu corpo (ρ= - 562; p <0,000).
No que respeita ao desejo dos adolescentes em mudar o seu corpo, a maioria
(67,2%) afirma que não mudaria nada, por se sentir bem com ele. Dos que afirmam
querer mudar alguma parte do corpo, a maioria refere que alterava o peso e
abdómen.
Relacionando as variáveis, verifica-se que quando o jovem se sente fisicamente
pior, maior é o seu desejo em alterar alguma coisa no seu corpo (ρ= -272; p
<0,000). São também as raparigas quem mais gostariam de mudar alguma coisa no
seu corpo (ρ= -236; p <0,000).
Observando os hábitos alimentares verifica-se que 56,5% dos jovens manifestam
preocupar-se com a sua alimentação, sendo as raparigas quem mais se preocupa.
No que respeita aos tipos de alimentos consumidos diariamente, em primeiro
surge a fruta (64%), seguindo-se os refrigerantes (51,9%), os vegetais (43,8%),
doces (26%), a sopa (24%) e, por último alimentos, fast food (7,1%).
Atendendo à prática de atividade física fora do contexto letivo, a maioria dos
adolescentes pratica desporto menos de três vezes por semana (37,7%),
salientando-se que 27,6% nunca o faz.
Verificou-se que a prática de atividade física mais regular se relaciona com
uma melhor perceção de bem-estar físico (ρ= -0,244; p <0,000) e psicológico (ρ=
-267; p <0,000).
Relativamente ao consumo de tabaco, embora mais de metade dos adolescentes
(53,2%) já tenha experimentado tabaco, atualmente, são 21% dos adolescentes que
referem ser fumadores. No que respeita ao início da experiência de fumar, 38,3%
experimentaram antes dos 14 anos e os restantes 61,7% entre os 14 e os 18 anos.
A percentagem de adolescentes que consome álcool mensalmente é 22,7%,
semanalmente 20,5% e diariamente 4,5%. A grande maioria dos adolescentes refere
nunca ter estado embriagado, sendo que 14,3% o faz mensalmente, 6,8%
semanalmente e 1% diariamente. O consumo de álcool é mais marcado no sexo
masculino.
Quando relacionado o consumo de álcool e a embriaguez com outras variáveis,
este está associado ao consumo regular de tabaco, ao consumo de drogas e às
experiências de se ser agressor física e psicologicamente (vide tabela_1).
Tabela_1
No que respeita à experimentação de drogas ilícitas, verifica-se que a maioria
dos adolescentes nunca experimentou (77,9%) e, daqueles que já experimentaram,
76,4% fizeram-no entre os 14 e 18 anos de idade. Os tipos de drogas mais
experimentadas pelos adolescentes são as pertencentes ao grupo dos
canabinóides. Verifica-se que 8,1 % dos adolescentes são consumidores regulares
de drogas ilícitas.
No presente estudo, a maioria dos adolescentes (84,9%) refere ter utilizado
preservativo na primeira experiência sexual. Quando questionados, os jovens que
já iniciaram a vida sexual, cerca de 72,1% nunca usaram contraceção de
emergência, 20,9% fizeram-no uma vez e 7% mais de uma vez.
Na Escola, a maioria dos adolescentes refere que não foi vítima de qualquer
tipo de violência. Observa-se contudo que cerca de 31,8% já foram vítimas de
violência psicológica, 13,3% já foram vítimas de agressão física, 34,4% já
foram agressores físicos e 34,4% já foram agressores psicológicos.
No fim do questionário, foi realizada uma questão aberta com o objetivo de
proporcionar aos adolescentes um momento onde pudessem expressar as suas
necessidades. A maioria das respostas (n=96), dizem respeito ao âmbito da saúde
e traduziram-se nas seguintes opiniões: a criação de um gabinete ou associação
de apoio e informação aos jovens (n=56); promoção da saúde na forma de
festivais (n=17); prevenção e apoio aos jovens vítimas de bullying (n=10);
educação sexual, contraceção oral mais barata, maior distribuição de métodos
contracetivos gratuitos e a necessidade de uma linha telefónica sigilosa
(n=11). A segunda dimensão destacada pelos jovens foi o entretenimento (n=20),
mais eventos, espaços culturais e lúdicos, workshops e campos de férias onde
pudessem realizar atividades para ocupar os tempos livres. As respostas que se
enquadram na dimensão do desporto (n=7) sugerem mais espaços desportivos e
maior acessibilidade do ponto de vista económico. A última dimensão relatada
pelos participantes diz respeito à existência de espaços para receber
orientação escolar (n=4). Surgiram ainda aspetos de outra natureza (n=16) como
uma maior compreensão por parte dos pais, os professores terem mais calma com
os alunos e a legalização de drogas leves.
Foram ainda realizadas entrevistas aos informantes-chave da comunidade,
nomeadamente ao Vereador da Cultura, ao Chefe da Polícia de Segurança Pública,
ao Presidente do Conselho Executivo da Escola Secundária, ao Grupo de Trabalho
da Violência ao Longo da Vida da Administração Regional de Saúde do Algarve, à
Equipa da Consulta do Adolescente do Centro de Saúde, à Equipa de Saúde Escolar
do Centro de Saúde e ao Coordenador da Casa da Juventude de Olhão. A análise
das entrevistas permitiu reconhecer as situações mais relevantes para esta
população no concelho de Olhão. Da análise das entrevistas salienta-se a
dificuldade em manter o interesse dos jovens em atividades construtivas; a
existência de muitos casos de violência em locais de consumo de álcool
essencialmente gerada por motivos passionais; a perceção de poucos casos de
violência na escola; o facto da violência no namoro ser considerado muito
tolerada entre os pares; a necessidade de maior divulgação dos serviços de
saúde; a falta de atividades desportivas e recreativas gratuitas para os
jovens; e a importância de manter os jovens ocupados.
Discussão
Após apresentação e análise dos resultados obtidos no diagnóstico de saúde da
população adolescente dos 14 aos 18 anos do concelho de Olhão, foram
encontrados resultados pertinentes no que respeita ao estado de saúde da
população juvenil.
Uma das características que se evidenciou nos adolescentes foi o baixo nível de
escolaridade atendendo às suas idades, o que pode sugerir insucesso ou abandono
escolar e o baixo nível de literacia, o qual poderá ter repercussões ao nível
da sua saúde.
A divulgação acerca da acessibilidade às consultas, informação e contraceção
foi referido por alguns dos informantes-chave como uma das necessidades dos
adolescentes do concelho, constituindo os adolescentes mais novos aqueles que
sentem maior dificuldade na acessibilidade aos serviços de saúde.
Quanto à perceção de saúde, os adolescentes do concelho de Olhão têm uma
perceção de saúde física má ou muito má (2.2%), pior que os 0,6% apontados por
Matos et al. (2010). No que respeita ao bem-estar psicológico, a tristeza
(14,3%) e a dificuldade em dormir (14,3) são os sintomas mais relevantes nos
adolescentes olhanenses, valores muito superiores aos 5% e 8,5% respetivamente
verificados no estudo de Matos et al. (2010).
Tal como no anterior estudo, são as raparigas quem tem uma pior perceção do seu
estado de saúde física e psicológica relativamente aos rapazes. Também a imagem
corporal é percecionada de forma mais negativa pelas raparigas do que pelos
rapazes, nomeadamente no peso, dados que também corroboram o estudo de Matos et
al. (2010).
Cerca de metade dos jovens inquiridos não se preocupa com a sua alimentação,
sendo mais evidente nos rapazes, existindo um padrão quase diário de ingestão
de doces e refrigerantes.
Matos et al. (2010) apresentam, contudo, valores semelhantes no que respeita a
refrigerantes (52,8%) e muito superiores no que respeita a doces (66,6%). A
ingestão diária de fruta é muito superior nos adolescentes olhanenses (64%)
quando comparado com os 50,7% do estudo nacional de Matos et al. (2010) e
inferior no que respeita ao consumo de outros vegetais.
Na atividade física, é notório que cerca de um quarto dos adolescentes não a
pratique fora do contexto letivo, valor inferior aos 17,6% referidos por Matos
et al. (2010); e que apenas um terço participa em atividades associativistas.
Apesar de existirem múltiplas associações e clubes no concelho dirigidos aos
jovens, estes não são na sua maioria gratuitos, como referiu um dos
informantes-chave, o que poderá constituir um obstáculo à sua participação.
Verificou-se que a atividade física se relaciona positivamente com a perceção
de bem-estar, corroborando a afirmação de Devis (2000).
A experiência do consumo de tabaco nestes adolescentes acontece por volta dos
14 anos, tanto em rapazes como raparigas e apesar da experiência de fumar ser
comum a muitos adolescentes, a maior parte não se torna fumador, verificando-se
semelhanças com outros estudos (Currie et al., 2008; Matos et al., 2010).
Foram cerca de 47% os jovens que referiram consumir pelo menos mensalmente
bebidas alcoólicas, valor muito superior ao encontrado por Matos et al. (2010)
com valores na ordem dos 10%. No que respeita aos casos de embriaguez, 22,1%
dos adolescentes ter ficado embriagado pelo menos numa vez no mês, muito
superior aos 8,9% apresentados por Matos et al. (2010).
Associado ao consumo de álcool, encontra-se o consumo regular de tabaco e
drogas por estes adolescentes e a propensão para comportamentos de violência,
estando estes agravados quando associados a estados de embriaguez. Também Palha
(2007) refere que este consumo predispõe comportamentos delinquentes e
criminosos.
Os rapazes são os que mais experimentam e consomem drogas ilícitas,
nomeadamente os derivados de cannabis, sendo que os adolescentes olhanenses
apresentaram valores de consumo regular destas drogas (8,1%) superiores aos
7,3% (só em estudantes do 10º ano) apresentados por Matos et al. (2010).
Dos adolescentes que iniciaram a sua vida sexual, 15,1% não utilizaram
preservativo na sua primeira relação sexual. A utilização do preservativo na
primeira relação sexual foi de 93,8% no estudo de Matos et al. (2010) e 95% no
estudo de Vilar e Ferreira (2009).
No que respeita à utilização de contraceção de emergência, a maioria das
raparigas nunca a utilizou e quem a utilizou, na sua maioria, apenas o fez uma
vez. De acordo com Portugal. Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde
Direção-Geral da Saúde (2008), a contraceção de emergência é um recurso
importante perante um acidente contracetivo.
Os comportamentos de violência ocorrem maioritariamente na escola, com maior
incidência para os de cariz psicológico, sendo que, tal como foi referido por
Matos et al. (2010), a maioria dos adolescentes não participa em situações de
violência. Matos et al. (2010) referem ainda que 36,7% dos adolescentes já
foram provocados nos últimos meses e 31,8% agiram como provocadores, dados
estes com alguma semelhança aos apresentados.
No que respeita às necessidades manifestadas pelos jovens, em questão aberta,
salientou-se a necessidade de espaços de atendimento e informação acessíveis a
jovens. Foi referido, contudo, pelos informantes-chave que esses espaços e
recursos já existem, considerando-se que poderá existir uma insuficiente
divulgação dos mesmos.
Como limitações do estudo podemos refletir acerca da amostragem por
conveniência que limitam a generalização dos dados, embora a dispersão dos
participantes justificassem este método. Pode-se ainda apontar como limitação
utilização de um questionário simples e com múltiplos assuntos, pode ter
deixado muitos problemas subjacentes por estudar, contudo, o objetivo da
realização do diagnóstico de saúde pretendeu uma avaliação vasta no sentido de
direcionar necessidades para posterior intervenção ou investigação.
Este estudo trouxe assim de novo uma visão atualizada sobre o estado de saúde
da população adolescente do concelho de Olhão, no sentido de ser alvo de
intervenção em saúde comunitária, e reforçar as evidências de que o álcool é um
problema social grave na adolescência (Palha, 2007) que apesar de ilegal,
continua a ser um problema de saúde pública (Organização Mundial de Saúde,
2006).
Conclusão
Deste diagnóstico verifica-se que a área de intervenção emergente é a de
consumo excessivo de álcool por parte dos adolescentes em idades precoces, e a
necessidade de melhorar a divulgação dos serviços para jovens.
Sendo o consumo excessivo de álcool uma das principais causas de muitos
problemas existentes na sociedade, desde os acidentes de trabalho, acidentes de
viação, violência e inúmeras doenças crónicas, intervir nesta área é essencial
para a obtenção de ganhos significativos em saúde, quer individual, quer
coletiva.
Não obstante a prevenção primária que deve ser desenvolvida nesta problemática,
no futuro seria importante a realização de estudos que permitam perceber e
compreender que fenómenos contribuem para o início precoce de consumo de
bebidas alcoólicas na população adolescente, no sentido de desenvolver
estratégias para inverter esta tendência.